Formação mágica

É com imensa alegria que anuncio esta nova turma de formação, já pelo sexto ano, com versão presencial em São Paulo e online. As inscrições estão abertas até 31 de janeiro e as aulas online já começam dia 6/2.

As vagas são super limitadas, apresse-se. 😉

Todas as informações, datas, currículo, valor, etc, estão neste formulário:

https://forms.gle/QKjfRCUtRdDELvMz8

Talismãs para contato com o povo encantado

Muita gente chama as fadas ou encantados de elementais. Prefiro não usar essa nomenclatura e usar o termo para me referir exclusivamente a ondinas, gnomos, sílfides e salamandras, que são os seres elementais por excelência, pois são compostos unicamente daquele elemento ao qual pertencem. Já os encantados, fadas ou feéricos, como costumamos chamar esses espíritos, são muito mais complexos na sua composição. Mesmo não tendo corpo físico, eles não se atém em essência a um único elemento, sendo formados por uma combinação. Entre esses seres podemos incluir curupira, saci, iara, elfos, anões, leprechauns, selkies, goblins, ekkekos, pixies, faunos, devas, entre tantos e tantos outros. Suas variações são inúmeras, de acordo com o local de onde se originam.

Esses espíritos não-humanos têm uma relação muito próxima com a bruxaria folclórica desde sempre. Enquanto a magia cerimonial se dedicava muito ao contato com anjos, deuses e demônios, a are bruxa e feiticeira sempre teve maior pendor pela comunhão com o povo feérico. É através dessa relação bem estreita e estabelecida que somos capazes de melhor compreender as flutuações energéticas do lugar que habitamos e também de angariar suas forças e alianças para nossa busca de sabedoria e outros auxílios. Essa relação era tão próxima que a bruxaria foi por muito tempo conhecida na Grã-Bretanha como Faery Faith, a fé das fadas.

A primeira condição para podermos nos reaproximar desse povo é sairmos do racional e irmos para os sentidos. É primordial que, para contatarmos os encantados, tenhamos em nós a capacidade de nos encantar.

Dito isso, algumas coisas ajudam na proximidade para quem busca trabalhar magicamente com esses espíritos e desenvolver uma amizade com eles.

Uma das magias mais fáceis de fazer são as bolsinhas ou mojo bags, e elas podem ter os mais variados fins. Em geral são usadas como talismãs, atraindo aquilo que desejamos, como saúde, amor, poderes psíquicos, proteção, coragem, sucesso, fertilidade, etc. Algumas podem ser sintonizadas na energia dos encantados, as fadas que habitam o mundo natural.

Para buscar essa ajuda, prepare sua bolsinha mágica preferencialmente em uma sexta-feira de lua crescente.

Segue uma lista de ingredientes e uma sugestão de ritual.

Ervas ligadas aos encantados, atraindo sua atenção e favores em termos de proteção e boa sorte:

Sementes de anis, dente-de-leão, lavanda, tília, calêndula, espinheiro, mental, alecrim, verbena, flores de sabugueiro, aspérula

Correspondência de cores (para o tecido):

Preto: proteção, contato espiritual

Azul: sonhos, meditação

Marrom: saúde animal, aterramento

Amarelo: criatividade, clarividência

Dourado: sucesso, força, energia

Cinza: comunicação com fadas e viagens pelos reinos encantados

Verde: magia feérica, fertilidade, prosperidade

Lilás: sensibilidade psíquica, uso divinatório, abertura de visão

Laranja: coragem, atraindo o que se deseja

Rosa: amor, companheirismo, amizade

Roxo: desenvolvimento espiritual, intuição

Vermelho: energia, força, coragem e paixão

Branco: meditação, purificação, magia de lua cheia

Correspondência de cristais com afinidades com o povo feérico

Turmalina negra – aterramento, proteção

Água-marinha – desenvolvimento espiritual, intuição

Esmeralda – visões

Fluorita – atrai encantados, jornadas em seus reinos

Granada – equilibra energias, amor, união

Pirita – sucesso, prosperidade

Quartzo fumê – conexões ancestrais e com fadas, atrai energias positivas e protege

Pedra da lua – poderes psíquicos, satisfação de desejos

Opala – viagem astral

Jade – boa sorte, amizade, harmonia

Quartzo branco – energiza o conjunto todo

Além desses cristais, todas as pedras que contenham um furo que ocorreu naturalmente têm afinidade com o povo encantado.

Para seu rito de encantamento:

Tenha um cristal, uma vela nas cores cinza ou lavanda, um incenso de aroma floral e água de riacho/cachoeira ou fonte em uma tigelinha ou cálice. Tenha à mão os ingredientes escolhidos e o tecido/bolsinha na cor apropriada ao seu intento, além de uma fita para amarrar.

Ponha os ingredientes de ervas, cristais e outros objetos escolhidos dentro de uma bolsinha costurada ou um pedaço de tecido redondo que será amarrado numa trouxinha.

Acenda sua vela. Passe a trouxinha mágica por cada um dos elementos. Fazendo uma prece:

“Chamo pelos poderes dos elementos e de seus elementais, imbuam este talismã mágico com seus poderes e energias atraindo os bons vizinhos desta terra para trabalharem comigo e fazerem parte da minha vida espiritual. Consagrando pelo Ar (passe pelo incenso), pelo Fogo (passe pela chama), pela Água (molhe com as pontas dos dedos) e pela Terra (toque a bolsinha no cristal), chamo pelo poder do povo da natureza, do povo encantado, nossos bons vizinhos, povos das fadas; que em amizade, afeto e parceria de crescimento mútuo sejam atraídos e bem vindos à minha vida. Que assim seja!”

Segure a bolsinha nas suas mãos e deseje fortemente, chamando em imaginação e força por esse contato com os habitantes desse reino.

Guarde em um local escuro até a lua cheia. Então exponha seu talismã à luz da lua e chame mais uma vez pelos reinos encantados, para que se façam presentes abençoando esse contato e auxiliando em seu desejo. Deixe o talismã tomar um banho de lua por algumas horas, então pode usar ou colocar no seu quarto, no seu altar, ou mesa de trabalho.

O preço da magia

Admirando feitiços no Museum of Witchcraft and Magic

No momento em que o buscador descobre o potencial mágico de um feitiço e recebe as instruções básicas de como fazer isso, seus olhos brilham com as infinitas possibilidades. Há uma empolgação que vem de se perceber capaz de influenciar o próprio destino, mas ao mesmo tempo uma inflação egoica que acha que agora tem poderes e vai usá-los o tempo todo e sem pensar duas vezes.

Bom, a primeira coisa que qualquer um que esteja neste caminho logo descobre é que nem sempre o feitiço dá o resultado esperado. E às vezes pode ser uma bênção o encantamento não funcionar.

O efeito de um trabalho mágico depende diretamente do talento (e alianças) de quem faz, da crença pessoal sobre o merecimento que temos daquilo que estamos pedindo, e também de um alinhamento de uma série de outros fatores sobre os quais não temos controle algum.

Além disso, existe um preceito bem conhecido: “Toda magia tem um preço”.

Quando dizemos isso não estamos nos referindo ao valor que você pagaria a uma mãe de santo ou um feiticeiro para realizar um trabalho, estamos falando do preço energético atrelado a alterarmos o curso da vida. O preço existe pelo desgaste e a dívida que podemos gerar ao mobilizarmos e direcionarmos energia de uma forma não natural.  

Toda vez que metemos o bedelho no curso natural das coisas, causamos algo. Pode ser que lá adiante, o resultado do que colocamos em movimento não seja inofensivo e talvez nem benéfico, inclusive para nós mesmos. É o famoso efeito borboleta. Tudo está interligado, e nosso ego não têm condições de ver o tamanho da teia do destino e todos os fatores envolvidos. Algo que teimamos em querer pode não ser para nós, pode não ser bom para nós.

Também, para que você receba, é possível que tenha de perder. Para algo vir, outra coisa pode ser tirada, e na maior parte das vezes, a gente não sabe onde a conta vai chegar. Considere que o próprio ato mágico queima energia nossa, gasta chi, qi, prana… Não admira que tantos bruxos tenham problemas de saúde, muitas vezes inexplicáveis, depois dos 35 anos. É preciso escolher bem, ter senso de responsabilidade para consigo e para com o todo.

E também não se faz magia para tudo. A magia entra para dar um empurrão extra em algo no qual estou empreendendo meus esforços, ou entra como último recurso, um ato de desespero em um momento de extrema necessidade quando todos os caminhos mundanos foram tentados e nada está dando certo.

Se faço feitiços todos os dias para todas as coisas, então deixa de ser especial, a energia é dispersa e pulverizada entre essas diversas atenções. Não há condições de concentração de forças, portanto fico desgastada e sem resultados.

Escolha bem. Não é à toa que bruxas eram conhecidas como sábias.

Tableau no Museum of Witchcraft and Magic. Boscastle, UK.

O cérebro trino e a astrologia

Em 1970, o neurocientista Paul MacLean desenvolveu uma teoria sobre a evolução cerebral que ele demorou vinte anos para publicar.

Segundo MacLean, os humanos têm o cérebro dividido em três unidades funcionais: cérebro reptiliano, cérebro dos mamíferos inferiores e cérebro racional. Cada unidade representa um estágio evolutivo do sistema nervoso dos vertebrados.

O cérebro humano e primata apresenta os três estágios funcionando dentro de nós e informando nossas ações, emoções e racionalidade. O equilíbrio entre os sistemas varia de pessoa para pessoa, mas pode existir uma forma de buscar compreender qual deles opera em nós com mais força. Os três estratos podem ter relação com signos astrológicos e seus princípios mais elementares, dependendo da forma que cada signo funciona em sua essência. Quem realmente propôs e estudou essa relação a fundo é o astrólogo Carlos Fini, mas segue aqui uma abordagem simplificada.

O Complexo-R ou cérebro reptiliano é basal e formado pela medula espinhal apenas e porções do prosencéfalo. Este primeiro nível é capaz apenas de promover reflexos simples e tem características de defesa da sobrevivência, sendo responsável pela autopreservação e agressão. É a parte em nós que mapeia o meio-ambiente, esquadrinhando tudo para detectar perigos. É responsável pelos movimentos, atividades automáticas e funções fisiológicas involuntárias como batimentos cardíacos e respiração, é o centro instintivo e motor.

Pessoas mais conectadas a essa atividade basal do cérebro tendem a enxergar a vida o tempo todo como uma situação de luta, de vida e morte; antecipam o pior e são bastante territoriais. Há uma dificuldade em respeitar o território alheio, sempre se partindo para a conquista, e uma defesa intensa do próprio território para evitar invasões. Se você é de Áries, Escorpião ou Capricórnio, observe o quanto essas funções instintivas imperam na sua vida. São signos que apreciam hierarquias e rituais pessoais repetitivos, que muitas vezes se cristalizam.

Outra possibilidade de ativar de forma definitiva essa sensação constante de que a vida é só sobrevivência é ter aspectos fortes no mapa astrológico relacionados a Saturno e Plutão, que reforçam a memória da dor e das vivências negativas, como forma de se proteger da vida.

Já o cérebro límbico, dos mamíferos inferiores, também conhecido como cérebro emocional segundo MacLean, é o segundo nível funcional do sistema nervoso. Além dos componentes do cérebro reptiliano, ele engloba o telencéfalo e diencéfalo, unindo ali tálamo, hipotálamo e epitálamo, e também o hipocampo e parahipocampo. Esse sistema é responsável pelo controle do comportamento emocional dos indivíduos. É nesta região do cérebro onde são processados os sentimento e emoções mais nobres, como amor, proteção, saudades e carinho. É uma fase secundária da nossa evolução, pois diz respeito a olhar o outro. Depois de sobrevivermos apenas, podemos relaxar mais, aprender a cuidar, acolher, salvar… é ali que entra algo de alteridade e também altruísmo. Esta parte cerebral também é responsável pela experiência das emoções que emergem como toque, os cheiros, o carinho… é o sistema límbico que nos deixa carinhosos. Aqui é possível exercitar uma relação entre esses princípios e os signos de Touro, Câncer, Libra e Peixes. Afinal, são esses signos que mais remetem à relação com o outro no sentido do afeto, da proteção, acolhimento, do uso de expressões faciais e do choro como forma de manipular ou chamar a atenção. São os signos com mais senso estético, muita sensibilidade, com o desejo da troca afetiva com o outro e portanto, o desejo de casar, ter filhos… Enfim, é por eles que passa o entendimento emocional do amor e do prazer, e isso inclui as pessoas que têm uma forte presença de Netuno também em suas configurações astrológicas, esse planeta traz para esse mix uma qualidade insuperável da capacidade de compaixão.

O cérebro racional, conhecido como neocórtex, é composto pelo córtex telencefálico, que é dividido em frontal, parietal, temporal, occipital e insular. Cada uma dessas regiões tem diferentes responsabilidades, e elas incluem as funções executivas. Mas é o néocortex a parte que diferencia seres humanos dos demais animais, é por sua presença que somos capazes de desenvolver o pensamento abstrato e produzir invenções. É a parte mais externa e mais moderna da massa cinzenta, onde funcionam os mecanismos cognitivos, especulativos e racionais. E os signos que mais teriam afinidade natural com essas funções da razão são Gêmeos, Leão, Virgem, Sagitário e Aquário, pois têm como seu principal foco o desejo pelas mudanças, pelas novidades, a expressão da individualidade e o plano das ideias racionais. Outros indicativos astrológicos de termos essas funções bem diferenciadas seria um Mercúrio fortalecido e bons aspectos com Urano.

O funcionamento saudável dessas três partes é fundamental para uma vida plena, pois todos temos de sobreviver, lutar, nos mover, amar, cuidar, relaxar, refletir, compreender e criar. O ideal seria que as três partes tivessem um desenvolvimento harmônico em cada um de nós; a partir do entendimento e valorização dessas diferentes “mentes” que possuímos, podemos encontrar maior paz e harmonia interior.

A hospedaria

Li agora pela manhã, num post de facebook em inglês, um poema lindíssimo de Rumi.

A Casa de Hóspedes

O ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã uma nova chegada.

A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.

Receba e entretenha a todos
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te limpando
para um novo prazer.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
encontre-os à porta rindo.

Agradeça a quem vem,
porque cada um foi enviado
como um guardião do além.

— Rumi (Mestre sufi do séc. XII)

Esse poema me remete demais a tudo que venho transformando em mim e nos meus atendimentos desde que dei início à minha especialização em psicoterapia junguiana. Carl G. Jung era um grande defensor do politeísmo da consciência, desse entendimento lindo de que somos visitados por deuses, por mensageiros, que passam e despertam em nós reações e emoções. Sentimos desejo com uma visita de Afrodite, sentimos vontade de brigar com uma visita de Ares, nos entregamos à dança e à embriaguez com uma visita de Dionísio. Nos tempos gregos, nada do sentir nos pertencia, eram os deuses que nos inspiravam e moviam.

Hoje, infelizmente, para nosso detrimento, achamos que tudo pertence ao “eu”, temos um só deus habitando em nós, um deus que é dono de tudo… de toda tristeza, de toda angústia, de todas os grandes pensamentos, sacadas e façanhas. Mas essa inflação não nos ajuda, na verdade ela nos desespera.

Se tudo sou eu, o peso é muito, muito maior. É ótimo quando sou eu que sou incrível, mas como lidar com aquilo que toma conta de mim, aquele ou aquela que se apossa do meu corpo e faz coisas nas quais não me reconheço? Ou quando a tristeza é grande demais e não consigo me mexer? Ela é minha só? Ou é uma visita que veio se hospedar? E se o desânimo for um hóspede que traz uma mensagem, me conta uma história? Em vez de rechaçar ou eliminar, posso então escutar essas visitas, compreender a mensagem, a notícia que me trazem de coisas as quais preciso (ou precisamos – já que cada um de nós é múltiplo) rever.

Isso não quer dizer que o deus ou o visitante podem tomar conta de tudo na minha vida, ganhar tentáculos para permear cada cantinho, mas que cada um recebe sim seu altar, seu lugar de culto e de escuta.

Ao vermos essas chegadas como outras faces, outros em nós, criamos espaço para novas relações internas. Ao acolhermos e ouvirmos os guardiões do além, permitimos também que eles passem, que eles sigam seu rumo depois que a visita terminar.

René Arceo, “Dos Experiencias, Una Identidad.” National Museum of Mexican Art, 1852 

Witchcraft

De vez em quando me sinto profundamente comovida com algum texto. Várias vezes esse texto é de autoria do Gede Parma (Fio Aengus Santika). Não foi diferente esta semana, li a seguinte postagem que abriu meu peito e sussurrou com minha alma, então pedi a ele pela permissão de traduzir e postar em português. Segue aqui, com muita honra, o texto do Fio sobre a palavra “Witchcraft”. **

Witchcraft – Gede Parma (Fio Aengus Santika)

“Bruxaria é um termo escorregadio precisamente por conta de quem e a que o termo se refere, aponta, invoca.

Se tentarmos estabelecer uma definição precisa de bruxaria, não faria sentido fazer isso sem olharmos para as pessoas chamadas de bruxas e que podem, em sociedades tão variadas quanto México, Nigéria, Irlanda, Islândia e Grécia, ser identificadas como tal por lenda, folclore e linguistas.

Uma bruxa é uma mulher que conjura, fascina, lê sinais do Destino nas estrelas e nos sonhos, é amiga das coisas selvagens e conhece os lugares ocultos.

Uma bruxa é um homem que canta as runas, chama os espíritos do mundo inferior, estuda a medicina e o veneno das plantas, ingere o povo cogumelo, voa no vento…

Um bruxo é uma criatura sabática e extática, levada pela natureza e comunhão iniciatória a um congresso erótico com os Mistérios.

E uma bruxa encontrou-se com o Diabo na encruzilhada.

E uma bruxa foi enforcada por maldições de justiça injustamente… e queimada na Escócia por desejar o mal e estragar as colheitas, e por curar os doentes e ensinar às jovens moças sobre o poder.

E um bruxo curou os doentes e abençoou o camponês.

E uma bruxa clamou nas ruas por uma revolução.

E bruxas foram caçadas.

E bruxos foram celebrados.

E bruxos foram ridicularizados.

E bruxas foram respeitadas.

Um bruxo está comprometido apenas com sua natureza e destino, responde apenas à sua estrela e ao conselho dos seus, é responsável por todas suas ações, e sabe, e comanda todos seus sentidos e, ao mesmo tempo, não controla nada…

Pode rasgar a garganta das cobras ou enviar os rios de volta a suas fontes. Podem consolar o ancião que morre e abençoar o recém-nascido, bem como pode ajudar o bebê a morrer no ventre e libertar a mãe de um destino pior.

O bruxo não se humilha. Às vezes vamos aos Deuses e dizemos – vão se foder – de todas as formas em que isso pode ser dito. A bruxa chama, e Eles vêm.

E se nada disso faz sentido, é porque nosso jeito de ser não é feito para um mundo de estupro e redução, ou para sociedades de intolerância e vergonha. A bruxa é Lilith nos desertos, é Prometeu roubando o fogo dos deuses, é Aradia liderando o pedido de liberdade, é Isobel Gowdie que saiu noite afora em forma de lebre e deixou uma vassoura ao lado do marido adormecido, é Alice Kyteler conversando com Robin Artisson na escuridão da encruzilhada, é Bessie Dunlop com seu familiar Thomas Reid, é Tituba, raptada de suas terras e tentando se proteger, é Doreen Valiente cuja poesia rompe os corações, é Rosaleen Norton com seu pincel e sua faca, é Victor Anderson, cujo tambor abre os céus…

A bruxa anda pela floresta, pelo campo fértil, pela urze queimada, por vias urbanas, e pelos limites do vilarejo… e não podem nos matar. Não, temos nossos truques… em cada árvores, cada lago, em cada pira e nó corredio, em todo lado onde humanos rastejam e subjugam… temos nossos truques.

E a Bruxa segue adiante. E assim, se você deseja definir a bruxaria, primeiro reflita e sinta essas criaturas a que chamamos de bruxas. Não nem toda magia é dela, mas uma bruxa pode empregar aquilo que quiser, como bruxa. E é aí que mora o segredo.”

**Fio é um bruxo e autor australiano que esteve no Brasil ensinando alguns workshops em Rio e São Paulo no ano de 2017. Para saber mais sobre seu trabalho, por favor visite http://www.gedeparma.com/

O rito da defumação

Queimar uma planta para, com sua fumaça, abençoar ou purificar alguém ou algo é um hábito religioso muito antigo da humanidade. É justamente nas tradições dos povos nativos das Américas onde vamos buscar a inspiração e conhecimento para retomarmos essas cerimônias que aparecem tão presentes na bruxaria, no paganismo, xamanismo e também no movimento new age.

Porém, devido ao abuso e excesso na utilização de certas plantas, está ocorrendo uma depredação sem sentido e colocando algumas espécies em risco, além de aumentar consideravelmente o valor da erva por conta da dificuldade em encontrá-la. Isso está acontecendo principalmente com a sálvia branca, que é nativa dos Estados Unidos, e com o Palo Santo, nativo do Peru. Por isso, precisamos ficar atentos e fazermos um bom uso dessas plantas sagradas e sabermos variar nossa utilização, recorrendo a plantas nativas do nosso território, em busca de opções para trabalhar essa bênção e limpeza através da fumaça.

Para uma defumação eficaz e respeitosa, que nos conecte ao sagrado, podemos seguir alguns passos:

Tome a planta nas mãos e se conecte com o espírito dela. Por espírito, me refiro não só ao que anima e energiza aquela porção que você tem em mãos, mas ao grande espírito da espécie da erva que você quer utilizar. Converse com esse espírito e peça para que desperte e atue com todo seu potencial de cura, purificação e limpeza.

Então ofereça algo de sua energia para o espírito da planta, em geral isso pode ser feito com um sopro seu sobre o punhado que tem em mãos.

Ponha sua mão que segura a erva, resina ou madeira sobre o peito, sobre o centro cardíaco, e faça uma prece pedindo aquilo que deseja obter com a defumação. Faça isso com reverência verdadeira.

Desmanche a tocha de sálvia ou deposite a erva sobre uma concha de abalone, recipiente cerâmico ou defumador que vai utilizar e acenda, de preferência com o uso de fósforos. Se for utilizar uma resina, ponha um disco de carvão já aceso e na base do turíbulo ou defumador para  depositar a resina sobre a brasa.

Utilize suas mãos,  uma pena de ave ou abanilho para abanar a fumaça na direção desejada.

Defume a si mesmo primeiro. Como o médico que faz toda sua sanitização antes de tocar no paciente, assim o xamã ou sacerdote deve primeiro limpar e purificar a si antes de partir para trabalhar as outras pessoas do grupo ou o espaço que será limpo.

É costume abanar a fumaça sobre os olhos, ouvidos, boca, mãos, coração e corpo. Algumas pessoas escolhem soprar sobre as costas, para aliviar o peso que carregamos, outros não veem isso como uma necessidade. Há quem deseje defumar também a sola dos pés, mas a ordem básica pode se resumir a: cabeça, coração, plexo (abdome), pés.

Na cabeça, devemos entender que ocorra uma purificação de nossos pensamentos, que nossos olhos se abram para a verdade, nossos ouvidos possam escutar o que precisamos e nossa boca possa falar palavras amorosas e verdadeiras. No coração, limpamos nossas emoções, para que despertemos à harmonia e equilíbrio. Os pés são abençoados para que trilhem o caminho da nossa verdade nos levando para perto dos deuses e nos afastando de nossos inimigos.

Os antigos nos ensinam que todas as cerimônias e rituais devem começar com boas intenções e um preparo adequado. Essa limpeza com a fumaça prepara nossa mente, nossas emoções e nosso espírito para entrar em um estado mental em que os processos de cura são favorecidos.  A fumaça que sobe leva consigo nossas preces.

Algumas ervas e resinas e seus usos:

Sálvia branca: era uma medicina feminina dos nativos americanos, seus presentes são a força, clareza de propósito e sabedoria. Eleva a energia do ambiente e, assim, expulsa dali tudo que seja dissonante e negativo.

Tabaco: o tabaco é usado como oferenda e agradecimento. Sua fumaça abre os portais entre os mundos.

Palo Santo: aprofunda os estados meditativos, limpa energias estagnadas, e elimina conflitos.

Breuzinho: essa resina sagrada para os povos amazônicos abre as vias aéreas respiratórias, promove estados meditativos e é purificador poderoso de ambientes pois afasta os maus espíritos.

Alecrim: cura e purificação

Alfazema: promove paz, sono e curas

Artemísia: para estimular os sentidos sutis, sonhos e profecias.

Orégano:  harmonia, tranquilidade e abertura de visão

Abacateiro: embora suas folhas não tenham um aroma especial, a queima delas energiza ambientes  e também auxilia no preparo do ambiente para a prática de necromancia ao criar uma barreira contra espíritos zombeteiros.