Reflexões que vêm do budismo

“A única diferença entre nós e um buda é que os budas se importam com os outros e nós só nos importamos conosco.” Lama Tsering

Frequentei algumas vezes, há muitos anos, o templo Odsal Ling nos arredores de São Paulo para ouvir os ensinamentos da Lama Tsering. Pois fuçando em cadernetas antigas, encontrei anotações preciosas e partilho essas reflexões aqui.

Perceber-se como “eu” é um hábito que formamos, é instintivo e serve para autopreservação. Percebemos o mundo através do filtro das nossas mentes.

Chamamos isso de “natural”, mas isso não é natural. Natural é o ritmo da Terra, mas a verdadeira naturalidade essencial está além, além da terra, é o natural do absoluto. Nesse absoluto, entendemos que o todo é na verdade vacuidade, o vazio.

O vazio é o grande denominador de todas as coisas.  (E aqui lembro da física, que demonstra que o átomo é composto em sua maior parte por espaços vazios)

Para o budismo, a sabedoria é algo muito difícil de se alcançar porque vai contra o instinto. Leva a uma equanimidade, a um preenchimento e à iluminação. Pode parecer uma mesmice, onde não há grandes emoções, mas é a resposta.

Nos identificamos com nossos pensamentos, que rodam incessantemente e disparam diferente emoções e memórias em nós, mas não conhecemos a vastidão do oceano mental. Esse oceano é que se conecta com o todo, com o absoluto.

Esse é o estado que alcançamos durante a meditação – quando esvaziamos a mente (e por isso é tão fundamental essa prática na bruxaria, e na verdade para todo mundo).

Enquanto isso, “seres senscientes estão sendo arrebentados pelo tufão de suas mentes.”

Precisamos nos abrir para incluir todos os seres em nossos corações, não estamos acima dos outros seres vivos na grande teia. A grande prece budista é que todos os seres possam encontrar a completude e aliviar o sofrimento. Para isso meditamos e trabalhamos. Dessa compreensão maior, vem a compaixão e as boas ações.

Precisamos antes de tudo acalmar o mar da mente.

A importância da audácia

Viver uma nova fé exige de nós um passo fundamental, podemos entendê-lo como uma grande ousadia, uma coragem de nos jogar inteiramente em algo novo, sem garantias de que isso dará certo. Ousar é algo tão importante que é um dos pilares da magia.

Quando buscamos uma nova fé, decididos por nos afastar dos conceitos e dogmas monoteístas, precisamos entender que é necessário encontrar símbolos, práticas e uma cosmologia que possam entrar fundo na nossa psique para substituir a religião anterior. Isso também vale para os que já se diziam não praticantes, mas cresceram em famílias que frequentavam alguma igreja. Aliás, talvez isso valha para todos nós.

Nossa cultura está imersa na mitologia judaico-cristã, na ideia de um deus que é uma força paterna e masculina criadora e punitiva, e mesmo que a gente rejeite seus símbolos (a cruz, a bíblia, o diabo, a igreja, por exemplo), a estrutura foi absorvida de forma muito profunda, está arraigada. Podemos substituir a imagem de Deus, Jeová ou Alá por Buda, Marx, Freud, Jung, Einstein, Nietsche, ou qualquer outro profeta ou grande pensador (homem) que a gente endeuse, e a estrutura de entender a força e o logos masculino como mais divinos e superiores permanece intacta e alimentando o desequilíbrio que vivemos. Transformar isso em nós exige perseverança.

Essa busca exige pesquisa e estudo, mas se não houver uma troca verdadeira, um encontro da alma com novos símbolos que acordem algo profundo em nós, um novo entendimento e conexão com o que chamamos de Sagrado, no primeiro instante em que a coisa aperta, vamos nos refugiar exatamente no território conhecido previamente. É no encontro com nossa fragilidade, com nossa insegurança diante do destino e das circunstâncias, que pedimos socorro a forças numinosas que entendemos terem o poder de interferir de alguma forma a nosso favor. E esse grito de socorro vem de forma muito visceral, pois parte de um medo muito grande, e aprendemos quando pequenos que, quando temos um medo muito grande, a gente chama pela mãe ou pelo pai – nossos primeiros deuses talvez. Ou seja, os sistemas de símbolos precisam ser substituídos, não apenas rejeitados, do contrário “nos momentos de crise, confusão ou derrota, a mente regressará para estruturas conhecidas”, como diz Carol Christ em Womanspirit Rising, livro de 1979.

***

Eu fui criada agnóstica, mas sempre demonstrei interesse por espiritualidade, embora isso não fosse estimulado na minha família. Por vontade própria acabei indo para a igreja católica, afinal eu não conhecia muita coisa e aquela opção estava prontamente disponível para um contato com algo sagrado. Escolhi ser batizada, e isso ocorreu quando eu tinha 13 anos. Mas por ali mesmo eu já lia muita coisa esotérica, estava ligada no movimento New Age, e, em seguida comecei uma busca pelo ocultismo. Isso foi em 1987, 1988, junto da famosa convergência harmônica* que se manifestou nos céus.

Mesmo caminhando no ocultismo e aprendendo mais adiante sobre xamanismo sul-americano que tem Pachamama como Deusa, eu seguia não sabendo direito para quem rezar quando precisava de ajuda do plano espiritual. Quando me entendi pagã, passei a cultuar a Deusa, mas ainda assim usei por muito tempo a ideia de consciência cósmica, energias divinas, passei para a Grande Mãe, e por aí vai. Mas os novos conceitos e símbolos demoraram a encaixar de forma inabalável.

Foi só a partir de 2003 que encontrei um nome divino para me alinhar. Uma força numinosa que entendi ser uma mãe divina para mim, a quem me dediquei e a quem sabia que poderia recorrer. E, ainda assim, a primeira vez em que me senti verdadeiramente vulnerável e correndo um grande perigo e rezei fervorosamente para Sekhmet pedindo ajuda, me senti muito estranha – como se estivesse cometendo algum tipo de pecado, ou arriscando não receber ajuda nenhuma pois não estava pedindo ao meu antigo deus, meu conhecido para quem tantos Pai Nosso eu rezara por anos a fio. Foi um instante transformador, exigiu coragem, exigiu coragem diante de uma tremenda adversidade que eu estava atravessando, um instante em que precisei me sentir acompanhada por algo maior e pedi a uma divindade muito antiga, mas nada ortodoxa para os nossos tempos.

E a partir dali ficou fácil. A substituição foi realmente feita, e eu me soube politeísta no meu cerne, nas profundezas do meu ser.

Então saiba que esse processo pode levar muito tempo, e vai exigir muita audácia da sua parte. Não é fácil romper com algo que nos é ensinado por todos os lados desde a infância e toda uma cultura na qual estamos mergulhados, mas uma vez feito isso, nossa libertação tem um sabor maravilhoso e inigualável.

Nem todo mundo tem necessidade de trocar de fé, mas para aqueles que têm, alinhar sua religiosidade verdadeiramente com os desejos da alma é um sentimento de estar em casa, encontrar seu lugar.

*a convergência harmônica foi um alinhamento astrológico que ocorreu em agosto de 1987 que muitos entendem como um momento em que propiciou o despertar espiritual de um número muito grande de pessoas.

Signos na cúspide

Quem nasce na virada de um signo para outro pode agregar características dos dois.

Você conhece alguém que a vida inteira acreditou que era de um determinado signo, mas descobriu ser na verdade de outro? É um grande choque, e acontece muito mais vezes do que imaginamos. Isso ocorre quando a pessoa nasce nos dias em que a troca de signo ocorre, o que chamamos de “cúspide” em astrologuês. Fui chamada para ser fonte de uma matéria sobre esse tema e segue abaixo o resultado.

**conteúdo publicado originalmente no site Universa Uol em 02/03/2022

“Com raras exceções, praticamente todo mundo conhece o próprio signo solar, atrelado à data de nascimento. Entretanto, quem veio ao mundo perto ou na data convencionada como fim do período pode não se identificar 100% com as características propagadas para seu grupo zodiacal. Mais: é possível até se surpreender ao descobrir que seu signo é outro. Foi o que aconteceu há pouco tempo, por exemplo, com a apresentadora e influencer Thaynara OG. Convidada para participar do programa “Jornada Astral”, comandado por Angélica na HBO Max, ela teve seu mapa astral analisado por uma astróloga e se surpreendeu com a revelação.

Thaynara, que sempre comentava ser uma piscina incondicional, descobriu que seu real signo é Áries, mesmo tendo nascido em 20 de março, data estipulada como último dia de Peixes. Virada de signos Para entender o que acontece com a apresentadora e a dinâmica astrológica, é preciso incluir geometria na discussão: a mandala (ou roda) zodiacal tem 360 graus. Cada um dos doze signos ocupa 30 graus, que vão do 0 até o 29. Quando alguém nasce no último dia, significa que tem o Sol aos 29 graus daquele signo em questão.

Vale lembrar ainda que o Sol viaja ao longo do ano por essa divisão celeste, andando, em média, um grau por dia – ou seja, cerca de trinta dias para cada signo. Mas se a roda astrológica tem 360 graus e o ano, 365 dias, dizer que Sol anda um grau por dia no zodíaco é uma aproximação que foi adotada (quase) como regra. “Não existe data fixa da troca de signos, pois quem determina o signo é o Sol e o movimento do Sol é calculado pela astronomia. O Sol, em geral, entra antes ou depois da data que nós, humanos, marcamos genericamente, pois seu ritmo não é exato nas 24 horas”, frisa Petrucia Finkler, astróloga, taróloga e psicoterapeuta.

É por isso, inclusive, que existe o ano bissexto a cada quatro anos, com seus 366 dias, que visam aproximar o calendário ao movimento de translação da Terra – a volta do planeta em torno do Sol dura 365 dias e cerca de 6 horas. Datas aproximadas Petrucia salienta não ser possível confiar em datas fixas divulgadas como regras. “Todo mundo que nasceu perto de um dia 20 de qualquer mês precisa consultar um astrólogo, ou sites online que fazem gratuitamente o mapa astrológico ou tabelas chamadas de efemérides (também disponibilizadas online ou em aplicativos) para saber exatamente em que signo o Sol estava no dia e no horário em que nasceu, a partir de cálculos astronômicos”, ressalta.

Como exemplos, ela cita que, em 2022, o Sol entrou em Aquário às 23h39 do dia 19 de janeiro (a convenção aponta 20 de janeiro), vai entrar em Peixes às 13h43 de 18 de fevereiro (signo que tem início estipulado para dia 19 de fevereiro) e Áries no dia 20 de março, às 12h33 (o “padrão” é dia 21 de março). “Ou seja, não há como adivinhar; é preciso recorrer à informação precisa”, frisa Petrucia. Nascer na cúspide O termo pode soar estranho, mas é importante no dicionário astrológico. Cúspide é a definição da linha divisória entre os signos no céu e, também, entre as casas astrológicas em um mapa astral. É o que demarca o fim de um signo (ou casa) e o início de outro.

Assim, quem nasce nos três últimos dias de um signo, considera-se que tenha vindo ao mundo na “cúspide”, pois está na linha divisória, com energia prestes a mudar. E quando o nascimento ocorre na cúspide, é possível que a pessoa apresente características do próximo representante do zodíaco. “Imagine que a cúspide seja a porta que divide dois cômodos. Quem vem caminhando e avista a porta aberta, já vê um pouco da próxima sala e começa a sentir uma antecipação do que está por vir. A cada passo, fica mais próximo do ambiente seguinte. É mais ou menos assim”, ilustra Petrucia Finkler.

Considerando tal cenário, a especialista conta, a seguir, que tipo de características pode ser absorvidas do signo seguinte, quando alguém nasce na cúspide de um signo.

Cúspide de Áries-Touro: O nascido no final do signo de Áries ganha cores de Touro e, em vez da famosa inquietude ariana, pode acabar curtindo mais uma preguiça. Ainda mantém a tendência de abandonar o que começa por conta de puro tédio, mas pode conseguuir colocar nas suas tarefas perseverança e mais paciência para ir até o final.

Cúspide de Touro-Gêmeos: Quem nasce no finalzinho do sensual e físico Touro já avista as tendências do mental e curioso Gêmeos. Assim, pode se revelar um taurino com fome de conhecimento, que acumula livros e consegue mergulhar em mais de um título ao mesmo tempo. Essa combinação igualmente tende a dar um tom multitarefa a quem normalmente é mais focado a fazer uma coisa de cada vez.

Cúspide de Gêmeos-Câncer: Gêmeos é conhecido por não parar quieto, mas se o nativo veio ao mundo bem no finzinho do signo, pode gostar de programas mais caseiros e ser um pouco mais reservado na sua expressão verbal – características de Câncer, o signo seguinte.

Cúspide de Câncer-Leão: O canceriano, de modo geral, se sente desconfortável com os holofotes, muito pela insegurança em chamar a atenção. Porém, se a pessoa nasce nos últimos dias de Câncer, pode ter influências de Leão e apresentar maior facilidade para ocupar espaços de foco público e ser até mais ousada na forma de se vestir ou se expressar.

Cúspide de Leão-Virgem: Este leonino, por estar tão próximo do signo ligado ao método e à organização, acaba sendo agraciado com um perfil planejador. Ele não dá ponto sem nó: tem o cuidado de fazer tudo passo a passo, com atenção a detalhes, sem o tanto da pressa típica do signo original, que é ligado ao elemento Fogo.

Cúspide de Virgem-Libra: O nativo de Virgem sente necessidade de fazer sempre o seu melhor e acaba cobrando dos outros a mesma excelência. Quando nasce tão perto de Libra, incorpora ao seu comportamento um maior tato e diplomacia no relacionamento com os outros. Desta forma, passa a mensagem de forma mais delicada e amigável.

Cúspide de Libra-Escorpião: Libra é um signo do elemento Ar, que valoriza muito a parceria e a amizade e tende a botar panos quentes em situações potencialmente desagradáveis, tentando evitar conflitos. Porém, quem nasce nos três últimos dias do signo costuma ter mais disposição para o enfrentamento e a batalha, além de mais dificuldade em passar por cima de algo que tenha lhe prejudicado, por conta da proximidade com o Escorpião.

Cúspide de Escorpião-Sagitário: O escorpiano não é famoso pelo bom humor – com ele, tudo é meio sério ou ácido. Mas a proximidade de Sagitário pode deixá-lo mais divertido, leve e piadista. Outro ponto positivo que se observa é o otimismo, característico do Sagitário. A desconfiança exagerada carregada por Escorpião também é minimizada.

Cúspide de Sagitário-Capricórnio: O sagitariano sonha grande, da mesma forma que seu sucessor. Capricórnio, entretanto, idealiza com os pés no chão, criando um plano prático de chegar ao seu objetivo. Nascer nos últimos dias de Sagitário confere ainda mais capacidade de realização ao signo que tem confiança na vida e ares de bonachão. Mas também empresta um tom de seriedade e credibilidade do signo seguinte, aliado à vontade de arregaçar as mangas e trabalhar.

Cúspide de Capricórnio-Aquário: Quem nasceu nos três últimos dias do Capricórnio tem como característica ser menos turrão ao manter o tradicionalismo do signo. Aquário, logo ali na curva, acena com desejo de experimentar mais novidades ligadas ao futuro, assim como tem maior abertura para novas tecnologias e modos criativos de fazer as coisas. Só uma característica não muda em ambos os signos: a teimosia.

Cúspide de Aquário-Peixes: Quem nasce na rabeira de Aquário ganha em socialização também pelo signo vizinho. É aquele amigo de todo mundo, que conhece gente na fila do caixa, no balcão do café ou no grupo do bairro no Facebook. É um aquariano ainda mais absorto e despreocupado, que só precisa dar atenção na confiança exagerada na bondade alheia, algo que o Peixes faz sem pensar.

Cúspide de Peixes-Áries: A pessoa que nasce nos últimos dias de Peixes recebe respingos arianos e acaba manifestando menos a passividade habitual de um pisciano do meio do mês. Consegue conduzir mais frentes, botar a cara a tapa e tomar iniciativas diferentes. Sem contar que adquire um ar mais irritadinho, fica menos de boa, como se espera de Peixes.”

Fogos Sagrados de Hekate

Na noite de 26 de maio deste ano, vou conduzir mais uma vez um rito público para celebrar os Fogos Sagrados de Hekate (Hekate Her Sacred Fires). Esse é um movimento mundial que nasceu em 2010, sob inspiração e chamado da própria Deusa, a que a autora Sorita D’Este prontamente teve de atender.

Desde 2016 ofereço o rito com a participação do meu clã, o Conclave da Rosa e do Espinho. Desde 2020, o evento vem sendo feito de maneira virtual, através do Zoom.

Caso vc deseje participar, entre no link do formulário, onde vai encontrar mais informações.

Seja bem vindo e bem vinda!!

Hecate, Senhora dos Caminhos

Ó Hecate, senhora dos caminhos

Vinde a nosso reino

E permitais que toquemos o vosso

Ó Hecate, senhora dos caminhos

Escuta as preces e honrarias

De teus filhos e teus amigos

Ó Hecate, senhora dos caminhos

Abre as portas do conhecimento

De nós mesmos e de nossa luz interna

Ó Hecate, senhora dos caminhos

Com tuas tochas, orienta e ilumina os passos trôpegos

De nossas vestes e nossas mentes mortais

Ó Hecate, senhora dos caminhos

Acordai em nós a fagulha divina

Para que despertemos ao nosso propósito sagrado

Ó Hecate, senhora dos caminhos

Desvelai nossas sombras aos nossos olhos

Para que possamos trazê-las à luz.

Ó Hecate, senhora dos caminhos

Vós que sois senhora dos três mundos

Ensinai-nos a transitar por onde nosso eu estelar nos guia

Ó Hecate, senhora dos caminhos

Dai nos tuas trevas e

Dai nos tua luz

(Chamado poético escrito de forma inspirada para o ritual dos Fogos Sagrados de Hekate em 2017. )

Mensagem de Sekhmet

Escreve agora o que te digo eu, neste local aguardo a nós e vós.

Museo do Vaticano – Roma. Fev 2020

Meu corpo de pedra basáltica nada mais é do que uma representação da minha força visceral que se apresenta neste contexto onde renasço a cada dia no coração de mais e mais pessoas.

Sekhem + met é meu nome. Um deles.

Sou tua

Sou nossa.

Presença e fogo

e me aprazo de ti

de tua vinda

a me louvar.

Teu louvor me acorda e alimenta.

Think not twice of coming here again

to praise me.

In my honor good

deeds are done and inspired.

Love is much

love is all that matters

towards us and others.

Sa – set – hep netem.

(mensagem canalizada entre 2014 e 2015)

Evocação e invocação

Evocar e invocar são ações diferentes, mas seus sentidos e usos divergem entre os grupos de praticantes de magia.

De maneira geral entende-se da seguinte forma:

Evocar: chamar à nossa presença um ser, usando de uma espécie de ordem imperativa. O fato de que tal ser nos obedece indica que ele seria inferior ou a nós subordinado.

Invocar: chamar em forma de pedido ou súplica pela presença ou auxílio de um ser de alto escalão na hierarquia evolutiva ou a quem somos subordinados.

Portanto se compreende que, na primeira definição, nossa postura é de comando, na segunda, de subjugação.

Vale lembrar que mandar não é algo fácil. É preciso aprender a bem mandar e bem obedecer. Para dar uma ordem há que se ter postura adequada e firme, além de clareza e precisão. É fundamental também que quem manda se sinta íntegro nesta função, confiante e confortável, pois qualquer insegurança na voz ou na postura será percebida pela outra parte e considerada uma fraqueza ou uma abertura para o comando não ser executado adequadamente.

Museum of Witchcraft – Boscastle, Inglaterra, 2015

Por esse motivo, na magia cerimonial há tanta pompa e rigor em termos de dizeres, gestos, símbolos, objetos e vestuário, para emprestar a devida altivez em todos os âmbitos ao mago que deseja que os elementais lhe obedeçam com disciplina. Reinos não humanos tendem a compreender muito melhor a força emocional e as vibrações mentais que emanamos do que de fato nossas palavras.

Ao invocar uma divindade, por exemplo, o oposto é necessário. Nossa postura é de súplica, seja de joelhos, seja de pé com gestos solenes e respeitosos. Também aqui pode haver muita pompa, mas no lugar do comando, encontramos devoção, pois chamamos pela atenção e presença de seres superiores a nós. Essa é a forma de se clamar por ajuda, proteção, orientação.

O entendimento da forma correta de nos portarmos com as diferentes esferas é uma das marcas da verdadeira magia.

Porém, há outras maneiras de compreendermos esses termos. Há quem use o termo evocar para indicar um chamado à presença no círculo mágico, para que uma entidade ou guardião se apresente. Sendo assim, o próprio chamado aos quadrantes e aos guardiões dos portais dos quatro elementos ou os vigilantes das quatro torres seria uma evocação, como também as liturgias de adoração dos deuses seriam uma evocação de suas magníficas presenças.

E para quem segue essa linha, o termo invocar pode significar chamar para “dentro de si”, puxar uma divindade em um ato de aspectamento, incorporação ou oráculo, técnicas usadas desde os primórdios e muito presentes na Bruxaria Tradicional e até na moderna, como por exemplo, no famoso Drawing down the Moon (puxar a lua para baixo) usado na Wicca tradicional.

E você, como usa ou entende essa terminologia?

Eu e as companheiras bruxas e atrizes da companhia Terra Mysterium de teatro pagão – Chicago, Illinois, 2009.

Convite para um círculo de Lua Roxa

Como viver o sagrado feminino depois de uma histerectomia?

Quando entramos em contato com a energia do sagrado feminino, fazendo o resgate da sacralidade de nossos corpos e de nossa energia autêntica como mulheres, aprendemos a celebrar nossos ciclos mensais e nosso útero. O útero é o grande centro energético feminino, o lugar onde podemos criar e gestar não apenas crianças humanas, mas todos os nossos projetos, nossos relacionamentos, nossos rumos, nossas crias mentais.

No entanto, mesmo vibrando e trabalhando com nossos ciclos aprendendo a amar e respeitar nossos corpos de fêmea, não estamos blindadas contra problemas hormonais, cistos, miomas e até câncer. A ferida feminina é muito antiga e muito profunda, e tantas vezes vivemos essa ferida fisicamente em nossos corpos.

Mesmo quem não descobriu ainda esse caminho da sua sacralidade, pode ficar atônita e perdida ao receber a notícia de que precisará passar por uma histerectomia. São muitas as emoções e os estigmas que acompanham a ideia de uma mulher que perdeu seu útero: há uma sensação de mutilação, de vazio, de uma perda tremenda e irreparável, há o alívio de não ter mais os sintomas graves a cada sangramento, há o alívio de não ter mais o sangue todos os meses – e pode haver também o luto da perda desse ciclo, desse tempo mensal que nos regra e organiza, limpa e purifica.

Na ordem natural das coisas, temos nossa menarca, depois ao longo da vida fértil podemos ou não gestar e parir, e nos parece garantido que teremos anos e anos de menstruação em menstruação até que um dia esse sangue se despeça de nós no processo da menopausa. E como fica para nós que temos um corte súbito desse processo? Cujo sangue é forçosamente parado com a retirada do útero? Como vivemos esta passagem, este limbo, muitas vezes ainda bem jovens?

Sketch de Circe – de John Williams Waterhouse

Na espiritualidade feminina, aprendemos que há três faces da Deusa: Donzela, Mãe e Anciã. E onde nos enquadramos nós que ainda não somos as Velhas Sábias pós-menopausa, mas também não temos mais a experiência cíclica do arquétipo da Mãe? Que tipo de Mulheres Sábias poderemos ser?

Somos talvez invisíveis socialmente na nossa dor e na nossa vivência, mas somos muitas e temos nossas particularidades. No meu caminho de vivência da sacralidade feminina iniciado há duas décadas, ainda estou tentando me encontrar e me entender energeticamente como um ser cíclico tendo perdido meus ciclos visíveis há quatro anos.

Fiz a formação de Lua Roxa com a autora DeAnna L’am em novembro de 2019, e uma das propostas que ela faz é a criação de um círculo de Lua Roxa, para mulheres na perimenopausa e menopausa, para um espaço espiritual de partilha de nossas experiências e aprendizados. O Círculo de Irmandade que eu estou começando é focado em mulheres que pararam de sangrar por terem passado por histerectomia (ou que vão passar por isso em breve), pois essa é a minha experiência, a minha vivência, e é isso que posso partilhar e trocar. 

Todas as mulheres pertencem às Tendas Vermelhas, lugares onde as mais velhas podem oferecer seus dons e sabedoria às irmãs de todas as idades. Mulheres na menopausa ou que não sangram mais pertencem aos Círculos de Lua Roxa, onde como iguais, trocamos experiências ainda não vividas por aquelas que seguem menstruando.

Não precisamos viver nossas histórias de forma isolada, este círculo é um convite para um espaço de apoio, de nutrir e cultivar um coletivo de mulheres que partilham as mesmas cicatrizes.

A proposta é para um círculo mensal ou bimestral, onde nos encontramos para atividades e trocas. Como uma Ativadora Lua Roxa de Nível 1, sou apta a facilitar esta roda, mas também participarei dela, recebendo as mesmas bênçãos e curas neste espaço sagrado. Portanto, como estarei ali como igual, este círculo não tem um valor de troca. Ele é gratuito, mas vai pedir da sua energia, da sua abertura, vai exigir seu comprometimento.

Este é um chamado para você tirar um tempo para si, para se entender com suas energias e sua sacralidade dentro de um espaço espiritual de apoio entre iguais.

“Os CÍRCULOS DA LUA ROXA geralmente ocorrem em espaços compartilhados, mantidos por grupos de mulheres dedicadas, abertos a todas as mulheres de um bairro/vila/comunidade, que estão na jornada da pré-menopausa, menopausa ou pós-menopausa. São espaços onde as mulheres se reúnem apenas para ESTAR.”

Este é um convite para você co-criar este espaço comigo e com a Danielle Sales que será minha parceira na organização de nossos encontros.

DATA: 28 DE MARÇO DE 2020

Das 14h30 às 17h

Local: próximo à estação Borba Gato da linha lilás em São Paulo.

Por favor preencha a ficha de inscrição, nos contando um pouco de você. As vagas são super limitadas e você receberá o endereço do encontro ao ter sua inscrição confirmada.

A importância e a coragem de se fazer a pergunta certa

A bruxaria pode ser muito terapêutica, pois nos faz repensar e trabalhar internamente as modéstias, pudores e questões de autoestima que nos são inculcados pela sociedade na qual crescemos, sentimentos que muitas vezes levamos e preservamos vida afora sem qualquer motivo válido.

Por exemplo, somos ensinados que é feio pedir presente, não se deve dizer o que se quer, não devemos demonstrar nossa vontade porque não é educado. Isso é ainda mais enfatizado se você nascer menina. Eu aprendi isso aos 7 anos quando respondi, toda faceira, à minha tia avó Maria Dulce que eu queria uma boneca Susi de patins. Minha mãe só faltou se esconder de vergonha e depois me ensinou que isso não se faz que, quando alguém nos pergunta o que a gente quer ganhar, o certo e bonito é dizer: “–Qualquer coisa”. Isso é reforçado inúmeras vezes ao longo da vida, culminando no desespero de responder à temida pergunta de qual o salário pretendido para um cargo que estamos tentando, ou na hora de colocar preço nos nossos serviços.

Claro que isso não é exclusivo das mulheres, mas é epidêmico entre nós sem dúvida. Imbui a crença de que não merecemos lá grande coisa e qualquer migalha que o universo mandar tá bom, porque é a parte que nos cabe deste latifúndio, já que somos ensinadas que é o outro quem decide nosso valor. A humildade e culpa católicas também contribuem para isso, lógico.

E isso precisa ser curado, e a bruxaria é maravilhosa porque ela nos faz bancar nossos quereres, nos faz bancar nossas vontades e ousar pedir até mais. E a forma, as palavras exatas que usamos para pedir são fundamentais, pois as palavras usadas na pergunta ao oráculo ou a frase usada para o encantamento vão determinar o que teremos como resposta.

O exemplo histórico mais famoso é o de Creso, último rei da Lídia que, antes de enfrentar as forças persas do rei Ciro o Grande, mandou consultar o oráculo de Delphos para saber o resultado da batalha. O oráculo respondeu que se Creso cruzasse o rio Hális, destruiria um grande império. Ele se alegrou muito com essas palavras e instigou a guerra que, ironicamente, destruiu o império dele próprio.

Uma resposta também pode facilmente ser mal interpretada, mas o problema maior já começa quando não temos certeza ou coragem para formular a pergunta ou formulamos mal. Isso vale para consultas oraculares e vale para jornadas ou contatos espirituais de toda sorte, pois o plano espiritual vai responder à pergunta tal qual foi enunciada.

Por exemplo, se estou usando o baralho Lenormand, e alguém quer saber o que vai acontecer com o câncer de seu pai, e a resposta que sai é a árvore – um símbolo de viço e saúde – a tendência é interpretar como o pai se recuperando plenamente e restabelecendo sua força. Mas a pergunta não foi sobre como ficaria o paciente, a pergunta foi sobre o que ocorreria com o câncer. Então, se eu preciso me basear na pergunta, a resposta desoladora aqui é que o câncer vai muito bem obrigado, seguirá firme e forte. Para saber do futuro da doença em si, o desejável são cartas que indiquem a aniquilação e enfraquecimento dessa doença. Se pergunto sobre o paciente, aí sim, quero ver as cartas de vitalidade e vigor, embora claro, essas respostas muitas vezes não sejam as que recebemos.

Outro exemplo: digamos que deseje aumentar o número de clientes para meus atendimentos com tarô porém, por algum receio ou pudor, tenho bloqueio em formular exatamente essa pergunta para uma jornada ao plano astral. Se algo no meu inconsciente se sente desconfortável em ligar a ideia do dinheiro com meu trabalho ou não se sente merecedor de verdadeira prosperidade, enfim, acredita que é “feio pedir o que quero ganhar”, posso fazer rodeios e acabar perguntando sobre modos de trabalhar melhor como taróloga. E os espíritos vão me responder, e vão me responder lindamente dando dicas e ensinamentos de como atuar melhor prestando esse serviço, me conectando com os símbolos, indicando estudos que tenho a fazer, preparos necessários, etc… Mas não vão me responder como atrair mais clientes, pois não foi o que perguntei. E eu não tenho direito de me queixar, pois quem fez a pergunta enviesada fui eu.

Ou seja, formular uma pergunta que revela nosso real desejo exige um nível de autoconhecimento, assertividade, segurança e cara de pau.

O mesmo é exigido para eu formular o intento de um feitiço. Se formular algo meia-boca, titubeando, patinando em volta do tema real em vez de ser direta para atrair ou repelir o que realmente desejo, vai dar meleca.

Portanto, segue a minha dica, se você sofre com insegurança, pergunte sobre isso, peça auxílio do plano astral e dos oráculos para te mostrar como superar, como ser uma pessoa mais segura, com maior autoestima e assertividade. Trabalhe magicamente para se sentir merecedor e merecedora de coisas boas.  Faça isso primeiro. E, só mais adiante, já com segurança e com a cara trabalhada no óleo de peroba, faça, com gosto, as perguntas que precisam ser feitas.

p.s. Minha tia Dulce era uma pessoa muito maravilhosa, e eu ganhei a Suzy de patins. 🙂