Deuses do êxtase

Deuses que nos levem a arrebatamento, arroubos e enlevos parecem ser fundamentais na experiência religiosa do ser humano. Para citar alguns, temos historicamente: Shiva no oriente e Dionísio/Baco no ocidente.

Nos últimos dois mil anos no mundo ocidental, os ritos cristãos com suas práticas de profunda devoção que se vê nos seminários, mosteiros, conventos, procissões e Círios de Nazaré vêm cumprindo esse papel. As freiras têm tamanha entrega de alma e corpo ao seu deus, que costumam se intitular “noivas de Cristo”.

Porém elas não são as primeiras mulheres seguidoras de um deus a se considerarem unidas a ele quando vivenciam um arrebatamento emocional e espiritual de comunhão divina. Essa é uma prática mais antiga do que se pensa, mas por ter sido considerada perigosa, pela classe política, e pecaminosa, pelo clero das novas religiões (monoteístas), acabou suprimida e banida da sociedade. Ainda bem que nesta era mais plural, podemos contar com as tradições neopagãs e as práticas de bruxaria antiga, que sobreviveram a todo tipo de perseguição e tortura, para resgatarem essa devoção a um Deus verdadeiramente do êxtase, do profano e da alegria.

 Dionísio

De acordo com o mito Grego, Dionísio nasceu da paixão de Zeus por uma mortal, Semele. Quando Semele estava grávida, recebeu a visita de Hera, esposa de Zeus, que, enciumada, convenceu a amante mortal a implorar que Zeus se revelasse para ela em sua verdadeira forma. Apaixonado, Zeus não conseguiu recusar e, assim, mostrou-se; porém o fogo radiante de sua forma raio era tão forte, que Semele foi imediatamente reduzida a cinzas. Mesmo assim, Zeus conseguiu salvar o bebê e o protegeu – costurando-o dentro de sua própria coxa.

Ao renascer, Zeus entregou o filho Dionísio aos cuidados das ninfas para que o criassem e protegessem da fúria ciumenta de Hera. As ninfas esconderam a criança em uma caverna distante e o alimentaram com leite e mel. Mas Hera enviou os Titãs, que então o destroçaram em sete partes que eles comeram, salvo pelo coração.

Dionísio renasceu de seu coração, sendo, assim, três vezes nascido, mas Hera enviou-lhe a doença da loucura e ele correu o mundo até ser curado por sua avó, Réia, que também o iniciou nos mistérios do feminino.

Em suas jornadas entre o oriente e o ocidente, o Deus presenteou a humanidade com o amor pela vida, o êxtase do espírito e o dom de fazer o vinho. Assim, seu número de seguidores ia crescendo, a maioria de mulheres que ficaram conhecidas como mênades ou bacantes. Elas dançavam livremente ao som da flauta e do tambor, inspiradas por seu Deus, e acreditava-se que tinham visões do futuro, o poder de encantar serpentes e uma força fora do comum.

Dionísio acompanhava as bacantes, trocando de forma, podia aparecer entre elas como um belíssimo jovem, um bode, pantera, leão, cervo, ou no disfarce mais famoso de todos: como um touro – sendo assim conhecido como Dionísio dos chifres de touro. Ele também era a própria encarnação da uva e da videira.

Paralelos entre Dionísio e Jesus de Nazaré

Na mitologia judaico-cristã, bem mais recente na história humana, a biografia do deus-filho parece compartilhar de uma curiosa série de paralelos fascinantes com o Deus supremo das mulheres da antiguidade:

  • Ambos foram chamados “Rei dos Reis”.
  • Ambos são deuses do amor e do êxtase, cuja devoção profunda vem acompanhada por visões.
  • Ambos afirmavam serem filhos de deus pai e foram desacreditados por isso.
  • Ambos desafiaram a religião dominante e foram perseguidos por autoridades políticas
  • Os dois serviram de bode expiatório
  • Ambos eram seguidos por um entourage de mulheres e figuras marginalizadas.
  • Ambos eram filhos de um pai divino e de uma mãe mortal e virgem.
  • Jesus ressuscitou dentre os mortos, Dionísio ressurgiu do mundo inferior.
  • Ambas as mães ascenderam: uma ao Olimpo, outra, ao Paraíso.
  • Os dois são deuses do vinho; Dionísio estava sempre produzindo e bebendo vinho, e um dos milagres mais famosos de Jesus foi transformar a água em vinho.
  • Os dois são cultuados numa comunhão da carne e do vinho; Jesus chegou a dizer “Eu sou a videira”.

Enfim, os dois renasceram, os dois ensinam que a vida não termina com a morte, um ascende ou Olimpo, outro, ao Céu, os dois sentam à direita de seu Deus-Pai e os dois são celebrados em cerimônias onde num determinado momento do culto há uma verdadeira comunhão com a divindade através do consumo da substância que o representa.

Não vou nem sequer entrar no mérito de que no cristianismo a comunhão resgata uma tradição de mistérios muito, muito antigos, onde consumir (comer) o deus em si era a forma ritual de assimilar o poder e a divindade. Garanto que pouquíssimos fiéis sequer percebem a essência canibal do rito de consumir-se  (simbolicamente ou não) a carne e o sangue do deus em questão para unir-se a ele. Cada um com seus dogmas e sua preferência de fé.

O prazer e a alegria como manifestações do espírito

Não sou psicóloga nem psiquiatra, apenas uma entusiasta dos estudos da mente e do comportamento humanos, mas me parece claro que a celebração do profano e do êxtase como caminho de expressão espiritual aparentemente é uma necessidade da nossa alma e da nossa psique. Quando reprimida é que criamos em nós essa sombra destrutiva, que pode se manifestar como toda sorte de sociopatias, perversões e violência sexual.

Portanto, sou fã de uma religiosidade que convide ao êxtase saudável, ao êxtase do espírito e da alegria, sem medo e culpa com os prazeres da vida que podem muito bem ser uma forma de culto e adoração de tudo que é divino. Por que não?

Evoé!

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A religião do coração

“Forced prayers are nae devotion.”

 ~Scots proverb

 

Muitas vezes a religião é uma devoção forçada. Nos dizem o que fazer, como fazer e quando fazer. Esse tipo de imposição na verdade aprisiona a alma. Não importa em que ponto esteja nossa espiritualidade, precisamos cultuar de acordo com nossas necessidades e nossa natureza. Nos negarmos isso é uma traição com nossa alma. No entanto, esse não é um caminho fácil e pode se tornar bastante confuso. Podemos encontrar muitas pistas nas nossas tradições religiosas, mas elas podem se revelar as exatas mesmas tradições que acabamos por achar desestimulantes e sem vida. Qual é então o caminho certo?

Alguns optam pela convicção: um caminho espiritual com dogmas claramente definidos e formatos fundamentalistas de culto, à exclusão de todos os outros caminhos possíveis, e insistindo que existe apenas “uma verdade”.

Você pode ter reparado que muitos dos fatores que constituem a nossa religião do coração aparecem nos mais variados grupos espirituais. As nossas pistas mais importantes e experiências espirituais mais potentes podem não estar nas escrituras, mas sim na própria natureza.

O fato de que não existe um caminho “correto” e que nossa busca espiritual pode não ter um ponto de chegada específico são coisas difíceis para muitas pessoas aceitarem. Porém, em última análise, podemos apenas seguir nossos corações, o que nos conduzirá ao lar da nossa alma.

 

Qual é a religião do seu coração?

De que fatores ela é constituída?

 

Extraído do livro “The Celtic SpiritDaily Meditations for the Turning Year”, de Caitlin Matthews.

Tradução de Petrucia Finkler.