Espelho, espelho meu

O uso do espelho negro

Comprei meu espelho mágico anos atrás numa lojinha metafísica no interior de Illinois. Confesso que comprei mais por achar que era uma ferramenta misteriosa e chique de constar no arsenal de uma boa bruxa do que por estar decidida a penetrar nos mistérios da vidência.

O uso de superfícies reflexivas em busca de visões é uma prática muito antiga de clarividência. A mais conhecida delas é a bola de cristal, que em geral é retratada como sendo de cristal transparente, quando na verdade uma pedra escura seria muito mais indutora e convidativa para quem está começando.

Na literatura – lembro muito de Brumas de Avalon – é comum a imagem de mulheres que têm visões na água, quando estão na beira de um poço, de um lago ou olham para dentro de uma tina.

O transe que induz visões é muito fácil de acontecer quando se está no processo de uma tarefa meticulosa e repetitiva: costurar, desenhar, arear panelas, esfregar roupas e bater manteiga são alguns exemplos. Damos abertura a outro sentir quando temos a mente focada em algo muito específico. Não estou falando de devaneios, estou me referindo mesmo a uma espécie de transe que acontece, e as pessoas muitas vezes nem percebem. Várias vezes aconteceu de eu estar lavando louça e, do nada, me vir a lembrança de alguém. Se o telefone não tocasse em seguida e fosse a própria criatura, bastava eu mesma discar o número e, batata, ela ficava assombrada porque estava justamente querendo falar comigo ou precisava de uma ajuda, e eu ligara na hora certa.

Eu *tentando* aprender a fiar com a fabulosa Rowan.

Assim também lembro de Morgana Le Fay, nas Brumas, enxergando o futuro quando se punha a fiar. O ato de fiar com rocas é muito usado em contos de fada e, além de remeter às fiandeiras do destino, as três Norns, é mais uma atividade doméstica que induz facilmente ao transe e à clarividência.

Voltando ao espelho, faz uns quatro meses que decidi finalmente encará-lo e fazer algumas experiências. As recomendações são sempre simples: coloque o espelho em um ângulo onde não enxergue seu próprio reflexo, de preferência escureça a sala e deixe apenas uma vela acesa um pouco distante, relaxe o olhar como se mergulhasse numa tigela de água e espere as imagens começarem a se formar. Nada fácil. Arrumar o cenário é tranquilo, agora, começar a entender e enxergar as tais imagens exige uma preparação e uma abertura.

Tem gente (ainda mais no Brasil, onde a mediunidade é overrated) que vive naturalmente no sexto chakra e não tem a menor dificuldade em enxergar qualquer coisa. Porém, para quem tem mais talento com outras sensibilidades, descobri que quanto mais experiência você tiver com exercícios óticos preparatórios e lançar mão do uso de tattwas para abrir a visão, melhor.

Franz Bardon, em seu popular – e ótimo – Magia Prática, o caminho do adepto dá algumas sugestões de uso do espelho. Quem usa com propriedade os instrumentos de cada elemento vai perceber que várias finalidades são compartilhadas com o pentáculo, já que esses dois são bastante similares e, por vezes, intercambiáveis.

Algumas das possibilidades de emprego do espelho negro:

1. Em todos os trabalhos de imaginação que exigem exercícios óticos.

2. Em todos os carregamentos de energias, de fluidos, etc.

3. Como portal de passagem a todos os planos.

4. Como meio de ligação com pessoas vivas ou falecidas.

5. Como meio auxiliar de contato com energias, entidades, etc.

6. Como irradiador em impregnações de ambientes, tratamento de doentes, etc.

7. Como meio de influência em si mesmo ou em outras pessoas.

8. Como emissor e receptor mágico.

9. Como instrumento de proteção contra influências prejudiciais e indesejadas.

10. Como instrumento de projeção de todas as energias a imagens desejadas.

11. Como instrumento de visão à distância.

12. Como meio auxiliar de pesquisa do presente, do passado a do futuro.

Numa das primeiras vezes, arrisquei substituir o espelho por uma panela de barro cheia d’água. Foi ótimo. Pois a panela é escura, a água colabora com suas propriedades e posso contar com a minha intimidade com as panelas, por ser uma bruxa de cozinha.

As imagens podem aparecer soltas na superfície mesmo ou, por vezes, reparei que  acabam se formando em frente aos seus olhos em algum lugar intermediário entre a mente e a superfície reluzente. Podem ocorrer também na forma de alucinações completas, como uma jornada onde o vidente é levado para outro reino onde encontra seres e também suas respostas. O espelho também é muito usado para invocar entidades (de arcanjos a demônios, passando pelos chamados Espíritos Olímpicos) e às vezes, mesmo sem invocação nenhuma, podemos dar de cara com uma entidade olhando diretamente para nós através deste portal.

Você pode consagrar seu espelho, pode aumentar o poder dele através de feitiços ou da adição de um condensador fluídico. Para ajudar na abertura da visão vale usar incensos, óleos, chás e condensadores específicos também. Descobri que o próprio colírio de Euphrasia Officinalis da Almeida Prado também dá uma ajuda e tanto, já que erva eufrásia é a famosa eyebright, praticamente impossível de encontrar por aqui.

Há quem diga que deixar outras pessoas manusearem seu espelho pode influenciar suas visões. Talvez seja mesmo ok resguardá-lo, mas e como fazer no caso de quem usa uma panela da cozinha? As bruxas da idade média usavam muito os utensílios domésticos, faca, vassoura, caldeirão… pela facilidade de acesso e por não chamarem a atenção. E é mais difícil ter controle de uso desses utensílios corriqueiros. Acho que se a panela for em geral manuseada por mim, o fato de ela cozinhar delícias para as pessoas queridas também pode muito bem adicionar ao seu poder visionário, por que não?

E você? Tem alguma experiência com espelhos negros? Compartilhe!

A Deusa Sekhmet

Se Ísis tem mil nomes, dizem que Sekhmet tem dez mil, e Ela é considerada a Deusa mais antiga de todas. Conhecida e reverenciada com epítetos como “Aquela que existia antes mesmo dos Deuses”, “Senhora do lugar do começo do tempo”, “Mãe dos Deuses” ou “Grandiosa da Cura”, Ela é também a “Senhora do Medo”.

A Deusa com cabeça de leão é pouco estudada e o ressurgimento de seu culto ganhou corpo nos últimos dez anos juntamente com o reforço de sua presença arquetípica.

Já existem hoje mais fontes de informação em inglês sobre essa Deusa do que quando Ela surgiu inequívoca e inevitável na minha vida em 2004. Porém, há pouquíssimas fontes confiáveis e acuradas em português, e há meses Ela me pede, ou melhor, exige, que escreva sua história na minha língua mãe.

Essa Senhora da Vida é mais conhecida por seu mito mais terrível, o da Destruição da Humanidade; mas como é possível que uma entidade com tamanho poder destrutivo tivesse erigidas em seu nome estátuas e mais estátuas por todo o Egito? Pois como tudo, Ela tem dois lados, e Aquela que destrói, é a mesma que cura.

O Mito da Destruição da Humanidade foi retirado do Livro da Vaca Celestial, encontrado nas paredes das tumbas reais entre a 19ª e a 20ª dinastia e considerado uma das narrativas mais ancestrais do Egito. Ela é filha e também o Olho de Rá. Na mitologia Egípcia, ele personifica o poder concentrado e dirigido do Sol, e o Olho é na verdade sempre feminino.

Um grupo de humanos se rebela contra Rá, o Deus Sol. O Deus convoca um conselho de deidades anciãs para pedir orientação. Entre os presentes, está o Olho. Nun, o caos primordial, sugere que Rá envie seu Olho contra os humanos rebeldes. O Olho, então, na forma de Hathor, parte para a chacina. Ela mata os rebeldes que haviam fugido para o deserto e retorna para seu pai, Rá, afirmando que Ela “subjugara a humanidade e aquilo lhe fez bem ao coração.” E assim, nasce Sekhmet. Quando Ra percebe que Sekhmet está decidida a destruir a todos os humanos, Ele muda de ideia. Chama seu principal sacerdote e manda moer ocre bem vermelho para misturar em sete mil jarros de cerveja que estava sendo preparada por mulheres. Na véspera da destruição total planejada por Sekhmet, o líquido intoxicante foi derramado sobre os campos por onde Ela daria início à matança. De manhã, Sekhmet encontra os campos reluzindo com a cerveja vermelha. Ao ver seu reflexo na planície alagada, se alegra e bebe tudo que pode. Fica então tão embriagada que sequer consegue reconhecer os humanos, e assim o desastre é evitado.[1] Ela teve de ser vencida pela embriaguez pois não poderia ser dominada pela força. Rá então saúda o retorno de sua filha e decreta que, todos os anos, as mulheres vão preparar levas de cerveja para um grande banquete em honra a Sekhmet.

Em razão dessa história antiga, a oferenda que essa Deusa mais aprecia, é claro, é cerveja vermelha.

As imagens são encontradas por todo o Egito, mas o centro de seu culto era em Mênfis, na divisa entre o Alto e o Baixo Egito. Ainda se pode visitar outros templos importantes, como o Templo de Mut em Karnak e o mortuário de Amenhotep III, que guarda a maioria de suas estátuas.

Sala de Sekhmets no Museu do Louvre

A quantidade de estátuas erigidas para Ela é assombrosa. E muitas Sekhmets podem ser visitadas hoje no Louvre, no Museu Britânico e até no Field Museum em Chicago. Acho que foi no Louvre onde me descobri em uma sala inteira só de Sekhmets!

São em geral imensas, com mais de dois metros de altura. Na maioria, Ela está sentada em um trono, segurando o Ankh na mão esquerda. A pedra escolhida pelos escultores em geral era o diorito, uma pedra cuja origem ígnea reafirma a ligação dela com o fogo e o sol. A cor negra do diorito também representa os aspectos complementares do mundo inferior: a morte e a fertilidade da terra profunda.

Das muitas deidades leoninas dos egípcios, Ela era a mais poderosa e a mais temida. Significando ao mesmo tempo destruição e proteção, portanto era melhor apaziguar essa força e garantir que Ela estivesse sempre do seu lado.

A energia solar, curadora, protetora e guardiã da justiça que Sekhmet emana tem falado ao coração de muitas mulheres e homens. Mas para amá-la, honrá-la e usar sua força com sabedoria é preciso conhecê-la. E essa foi só a primeira parte de todo um processo de apresentação. Se Sekhmet anda chamando por você, seja bem vindo/a!


[1] Wente Jr., Edward F. The Book of the Heavenly Cow, publicado em The Literature of Ancient Egypt, editado por William Kelly Siimpson. New Haven, CT: Yale University Press, 2003. p. 289-292. Tradução livre.

O Louco e o salto dionisíaco

Para muitos, o primeiro Dionísio pode vir na forma do Louco. O arcano zero. O arcano sem número, o coringa do baralho, que pode ser colocado à frente do Mago, depois do Mundo ou onde quer que seja necessária uma entrega desavisada, uma rendição irresponsável.

Para responsabilidade temos vovô Cronos, para a justiça temos papai Zeus, e se existe o neto para a loucura, é porque ela também é imprescindível à experiência humana e merece um lugar no Olimpo, sapateie, esperneie e negue quem quiser.
Meu primeiro Dionísio foi O Louco. O tolo muito bem representado no baralho Thoth – resultado da união da mente mágica de um e dos traços mágicos da outra.

The Fool from the Thoth Tarot Deck by Aleister Corwley and Lady Frieda Harris

 

Naquele quadro virado em carta, o deus da primavera veste verde para exibir toda sua força criativa junto das uvas suculentas da colheita. Na cabeça, os chifres do fértil masculino selvagem; na mão direita o cálice do magnetismo da forma, e na esquerda a tocha ardente da eletricidade – ambos símbolos alquímicos, forças opostas que em seu encontro fornecem o requisito básico para o verdadeiro salto quântico acontecer.

 
A força telúrica e a exuberância deste Deus espiralam para fora num cordão umbilical que parte não de seu umbigo, que seria voltado para si e mesquinho para o mundo, mas de seu coração, a sexta sefira, a esfera do amor belo, que irradia para o mundo o que temos de melhor, abraçando tudo, redimindo tudo e fazendo a conexão do eu com a unidade do cosmos.
Mas, para entender e viver esse nível de insanidade sábia e potente, é preciso primeiro aceitar o convite de pular.

Mago ou místico?

Diferentemente de outras filosofias ou religiões, o trabalho de um mago ou bruxo tem muito pouco a ver com acreditar e muito a ver com fazer.  Para alguém se dizer cristão, existencialista ou até mesmo agnóstico, acreditar (ou deixar de) é o suficiente. Entretanto, para ser um mago é absolutamente imprescindível a pessoa trabalhar com a magia.*

Há um bom número de pagãos nas mais diversas linhas e tradições que se sentem plenamente felizes em celebrar sabás, sentirem-se unidos à Grande Mãe, fazerem preces frente a seus altares, usarem de alguns exercícios de meditação e estudarem diferentes disciplinas sem, no entanto, botarem muito a mão na massa no sentido de criarem seus próprios rituais ou fórmulas. Nada de errado com isso. É algo que vem de cada um. Todos começamos procurando um mestre, professor ou um líder (que pode estar presente na forma de livros, claro) em busca de conhecimento e orientação. Quem tem uma batida mais mística, focada na transcendência, tende a colocar seu mestre na posição de guru e acaba receoso de experimentar ou testar qualquer teoria ou prática diferente ou mais arriscada. Em geral eu chamaria este grupo de místicos ou esotéricos.

Na verdade, para se trabalhar com magia não é necessário se dedicar a nenhuma linha espiritual. Existe magia puramente prática, que vai desde o hoodoo,que surgiu na Louisiana nos Estados Unidos, até a singela simpatia nossa de cada dia.

Porém há aqueles que reúnem as qualidades do místico, ou seja, norteando-se por uma busca espiritual, somadas às técnicas e ferramentas da magia para avançarem em seu desenvolvimento. Estes últimos são os chamados magos, que inclusive depois de algum tempo acabam descobrindo que têm de abrir seu próprio caminho, que não há alguém que possam necessariamente seguir à risca ou algo em que apenas basta acreditar.

Essas pessoas até começam por um caminho com certa pavimentação, mas quanto mais desbravam, mais percebem que devem se arriscar por vias menos transitadas, redescobrindo uma trilha testada por poucos ou até mesmo abrindo um atalho que vá servir apenas para sua própria passagem. E é preciso coragem para ser mago. Lembro com perfeição quando, durante um workshop chamado “Riding the dragon”, que fiz no meu primeiro Pagan Spirit Gathering, alguém perguntou se o exercício que faríamos era seguro, e ouvi meu professor, Matthew Ellenwood, responder com toda a firmeza: “Não existe magia segura.”.

Magia se refere a um certo conjunto de ações cujo o primeiro requisito é definir o objetivo daquilo que se está fazendo. Pode-se fazer um ritual de magia para consagrar uma ferramenta, fazer um trabalho de cura, evocar ou invocar entidades, conversar com seu Eu superior, consultar um oráculo, fazer um feitiço e uma série de outras coisas. Mas invariavelmente sempre devemos ter um propósito, quanto mais específico, delineado e preciso, melhor. Concordo com os autores que afirmam que a escolha do propósito não é apenas o primeiro passo, mas é também o mais importante em qualquer trabalho mágico.*

Há o antigo adágio que diz: careful what you wish for, pois um desejo expresso está solto no cosmos e tende a se concretizar de maneira bem literal. Melhor para nós se ele for bem formulado e feito da forma mais consciente possível.  É comum termos surpresas desagradáveis ou intrigantes ao recebermos do universo respostas inesperadas e diretas a preces expressas de maneira leviana.

Um exemplo pessoal e modesto foi meu imenso desejo de ter ao meu redor paredes sólidas. Em todos meus anos de EUA, as divisórias de drywall sempre me faziam sentir numa casinha da lego que não me dava segurança. Resultado, o prédio onde moro hoje no Brasil tem paredes tão grossas que é impossível bater um prego; o simples ato de pendurar um quadro exige o uso de uma furadeira profissional.

E aos que me perguntam se acredito em magia, espíritos e jornadas xamânicas, respondo que não é uma questão de acreditar; eu não preciso ter fé que isso existe, trata-se de uma experiência tangível. É como tomar banho. Não preciso acreditar que se entrar embaixo do chuveiro vou sair mais limpa, eu sinto isso na pele.

* Indica parágrafo fortemente inspirado nas palavras e escritos do meu professor Matthew Ellenwood.

Pagão, gentio ou bruxo?

Pagão vem do latim paganus,termo que se referia ao morador do campo, cuja expressão e vivência espiritual eram voltadas para a natureza e seus ciclos de plantação, colheita e estio. Para o pagão ou gentio, a divindade tinha muitas faces, sendo assim, em geral era politeísta.

Eis a definição do dicionário Houaiss:

:: pagão          Datação: sXIII   adjetivo e substantivo masculino

1 que ou aquele que não foi batizado  2 adepto de qualquer religião que não adota o batismo ou adota o politeísmo

 ::gentio           Datação: sXIII adjetivo e substantivo masculino

1 que ou aquele que professa o paganismo; idólatra  2 que ou aquele que não é civilizado; selvagem   3 entre os hebreus, que ou aquele que é estrangeiro ou não professa a religião judaica.

Grosso modo, todas as religiões anteriores ao cristianismo, judaísmo e islamismo são consideradas pagãs — até mesmo algumas bem expressivas nos dias de hoje como o budismo, o hinduísmo e o candomblé. A cultura de grandes civilizações como a grega, a romana e a egípcia também era pagã ou gentílica.

Porém esses termos e sua má reputação só surgiram com a igreja cristã, cujos padres estavam determinados a catequizar e converter toda uma população que eles consideravam ignorante.

Hoje o termo paganismo ou neopaganismo abarca várias práticas contemporâneas de uma espiritualidade baseada e focada na natureza, honrando a divindade como imanente, inseparável e contida na natureza de um ser. Ou seja, deus, deusa e deuses estão contidos, moram e são expressos através de cada pedacinho da criação, inclusive cada um de nós.

A partir dessa visão – muito mais clara e palpável do que o conceito de “onipresença” – fica impossível para qualquer um que professe uma fé pagã dissociar sua religião de uma preocupação ecológica e de máximo respeito e reverência à natureza; pois a natureza Deusa é.

A hipótese Gaia, proposta pelo químico James Lovelock nos anos 70, sugere que os gregos não estavam criando nenhuma alegoria quando personificaram nosso planeta como uma Deusa. Lovelock propõe que a Terra é um organismo vivo, um ser mais antigo e muito mais complexo do que podemos imaginar.

Para os pagãos, isso é muito claro: os panteões antigos de deuses não são alegóricos nem mitológicos, eles são respeitados como verdade e cultuados com devoção. Embora a maioria seja politeísta, alguns acreditam que os inúmeros deuses e deusas representam apenas aspectos de uma energia maior que seria a fonte de tudo.

Como as tradições neopagãs não têm dogmas, a interpretação e a prática acabam sendo tão individuais quanto o DNA de cada praticante. Porém há algumas, digamos, linhas gerais que são compartilhadas pela maioria. Além da imanência divina e do politeísmo, é comum a percepção da divindade como Deus e Deusa, que se manifestam no ciclo das estações, da morte e do renascimento, e várias tradições têm na divindade feminina seu foco predominante. Também é comum uma ênfase severa na responsabilidade pessoal sobre nossas ações e nossas experiências de vida, com uma ética baseada na inexorável lei do retorno.

Paganismo como religião nativa

Boa parte do paganismo hoje no ocidente é amplamente baseado nas práticas europeias das tribos célticas e nórdicas. O próprio uso da palavra “tribo” já deveria dar a pista do que muitos não percebem: que o neopaganismo é sim um conjunto de práticas espirituais baseado em tradições das populações nativas ou gentílicas da Europa.

Esta retomada das crenças mais antigas da humanidade aparece de muitas formas. Há os que buscam reconstruir as antigas religiões pré-cristãs, como o reconstrucionismo helênico e o celta, enquanto outros reinterpretam e recombinam panteões de deidades, afinal como já vivemos uma mistura de genes, etnias e culturas, nada mais natural do que a globalização se manifestar também no nosso altar.

Dentre as tradições pagãs contemporâneas a Wicca é talvez a denominação mais conhecida, mas é importante frisar que há muitas outras. Alguns grupos pagãos são mais adeptos de rituais formais, ligados à magia cerimonial das sociedades secretas, outros preferem vivências mais xamânicas ou têm seu foco nas questões do feminino, muitos se dedicam à celebração das fases da lua e dos ciclos do ano, ao conhecimento psicológico, a trabalhos de cura com ervas e cristais, ao desenvolvimento de seus poderes psíquicos, formulação de feitiços, poções e até artes culinárias ou manuais. Aqueles que combinam várias práticas sem seguir uma linha específica se autodenominam de “ecléticos”.

E o bruxo, onde se encaixa?

Essa é uma palavra complicada e com muitos sentidos. Na versão bonitinha e inofensiva, é quando alguém diz: “Minha amiga é bruxinha, ela joga tarot.” Na versão medieval, quando a palavra foi deturpada, ligada à malignidade e privada de seu significado, tomou a conotação do dicionário que diz ser “quem se utiliza de supostas forças sobrenaturais para causar malefícios, prever o futuro e fazer sortilégio”.

Muitos praticantes de paganismo utilizam o termo bruxo ou bruxa com orgulho, remetendo a um tempo bem anterior à inquisição, quando em diferentes idiomas esse era o título que indicava o pajé, xamã, sábio, sacerdotisa ou sacerdote da Antiga Religião, alguém que sabia curar, aconselhar e interceder junto aos deuses em nome da tribo ou aldeia.

Terra Mysterium, trupe de atores, cantores e músicos de Chicago, IL.

Escolher usar a expressão bruxaria para denominar nossa espiritualidade é um ato de bravura, de romper com estereótipos nocivos gerados e mantidos por uma instituição religiosa que tratou de exterminar com qualquer manifestação de fé contrária ou diferente. Declarar-se bruxo é ter a coragem de reivindicar o direito de vivermos uma liberdade verdadeira de crença, livre de rótulos ultrapassados, de incompreensão e repressão.

Na minha ousadia, gosto muito dos termos bruxo e gentio. E você?

 

*nos Estados Unidos é crescente o número de pagãos que se identifica com o termo “heathen” em vez de “pagan”. A tradução mais próxima que encontrei no português para heathen é a palavra “gentio”.

Lua e Estrela

Apesar de a lua já parecer plenamente cheia no céu desde ontem à noite, hoje é o dia oficial dela.  Este mês ainda teremos uma segunda lua cheia no último dia de agosto, a chamada Lua Azul.

Esta lua ainda por cima coincidiu com o festival de Imbolc no hemisfério sul e Lughnassad, no norte. Para nós, um tempo bem no meio do inverno, quando começamos a sentir uma tênue mudança na energia, um acordar da natureza rumo à primavera. Isso era sempre mais claro para mim no hemifério norte, quando em fevereiro eu via as primeiras plantinhas corajosas tentando brotar ainda junto com a neve. No lado sul,  onde quase tudo permanece verde (graças aos deuses!), é mais fácil percebermos as influências astrológicas e o aumento gradual das horas do dia.

Lua cheia em Aquário

Os egípcios sabiam que a ascensão da estrela Sirius coincidia com a esperada cheia do rio Nilo. O rio sempre transbordava durante o ciclo da lua cheia de Aquário. O símbolo do  zodíaco é um homem com um jarro d´água nas mãos, imagem que se assemelha ao hieróglifo que representava o Nilo: um homem andrógino (Hapy) derramando jarros de água.

Essa imagem também lembra muito o arcano XVII no Tarot, a Estrela.

Seria coincidência? A artista Julie Cuccia-Watts acha que não e por isso mesmo ilustrou a Estrela de seu Maat Tarot com Hapy, o deus do rio Nilo.

The Star from the Maat Tarot, by Julie Cuccia-Watts.

A interpretação tradicional da carta tem a ver com sincronicidade, quando tudo se encaixa no lugar certo; quando as coisas parecem fluir  melhor do que o esperado, como se um dedinho divino tocasse os eventos humanos.

Uma lua cheia sempre é boa para atrair público para eventos grandes e para enxergarmos situações com clareza, porém também há uma tendência a sermos mais emocionais e reativos em tudo, então fique atento para evitar situações de conflito.

A lua cheia em Aquário tende a exacerbar esse desejo de socializar e dá vontade de experimentar lugares novos, receitas novas, filmes alternativos, enfim, qualquer coisa que saia da rotina. É mais propícia para reunir amigos do que para encontros íntimos. Na hora de sair, evite depender de carona, pois há uma necessidade maior de liberdade e cada um fazer as coisas do seu jeito.

Com a criatividade e desejo de experimentar em alta, quem costuma ser muito rígido e controlado pode encontrar justamente a oportunidade de cometer uma pequena extravagância ou arriscar algo fora do comum.

No entanto, se olharmos pelos aspectos astrológicos essa lua traz um período de confusão em estradas e aeroportos com o aumento no volume de gente viajando (ainda por cima com Mercúrio ainda retrógrado), o clima se manifesta fora do padrão e aumenta o risco de chuvas fortes e enchentes em vários lugares do planeta, e debates e encontros políticos trazem resultados confusos – o que não é um bom presságio para o começo do julgamento do mensalão em Brasília. Para nossa sorte, o Sol faz um sêxtil com Júpiter  o que facilita interações sociais e deixa todo mundo mais positivo.

Quem sabe a Estrela está olhando por nós, after all.