Abrindo portais de possibilidades

“Toda mulhcooking-poter é feita à imagem da Deusa.”

Lembro tão claramente da primeira vez que escutei isso, e o quanto esse pensamento instantaneamente abriu em mim um portal de possibilidades e uma elevação imediata de autoestima. Eu já tinha lido as Brumas de Avalon anos antes, já tinha achado lindo mulheres cultuando a Deusa, como criadora de todas as coisas e cujos rituais são os atos de amor e prazer; já havia conhecido um coven de Wicca em Porto Alegre em 1994 e estava levemente familiarizada com a ideia de paganismo, mas nada disso mexeu comigo tão visceralmente quanto o trabalho de cura xamânica do útero do qual participei alguns anos mais tarde.

Nascer e crescer mulher traz em si experiências muito próprias e por vezes muito doloridas por estarmos inseridas em uma sociedade que aprendeu a valorizar muito mais os traços e atitudes masculinas e acabou restringindo as mulheres a certos papéis e limites. Temos, aparentemente, apenas duas escolhas: o caminho do feminino tradicionalmente aceito pelo patriarcado e a sociedade de consumo, ou abrir um atalho à força, endurecendo nossa natureza para sermos aceitas como iguais em um mundo gerido pelo clube do bolinha. Esse clube que aceita, espera e louva as figuras, por exemplo, da mãe perfeita, da barbie, e até do furacão sexy, ao mesmo tempo, abusa de todas elas, pois parece que podem ser usadas quando convém e descartadas, magoadas ou traídas quando convém. Se vamos pela outra senda possível, se não crescemos com uma beleza tradicional e estonteante, ou desejos imediatamente maternais e casadoiros, mas tivemos a sorte de sermos inteligentes e reconhecidas por isso, então, para nos inserirmos e sermos respeitadas de verdade, acabamos por nos masculinizar demais, exacerbando nossa competitividade, nossas cobranças e encontrando um sem fim de dificuldades para relaxar na vida e curtir nossos relacionamentos. Essa postura de animus muito desenvolvido que foi ensinada (e muito bem captada pela minha geração), é um dos grandes paradoxos que estamos vivendo enquanto fêmeas (e machos) e está muito bem descrita nesse texto de Ruth Manus.

Mas será só isso mesmo? Onde podemos vivenciar algo diferente em nossas vidas? Até que ponto nossas escolhas e atitudes sustentam padrões negativos para nós mesmas e até que ponto estamos explorando de fato todas nossas opções e caminhos? É possível um reencontro sagrado e verdadeiramente feminino consigo?

E o quanto um encontro assim, que fortalece nossa natureza verdadeira, pode ser benéfico à toda nossa espécie? Pois afinal, mesmo os homens estando no comando, eles não estão bem, não estão felizes. Se metade da humanidade passa mal, a outra metade, mesmo dominante, não pode estar saudável.

Essas perguntas não têm respostas prontas nem muito menos fórmulas mágicas propondo soluções. São buscas que podem levar a vida toda, mas, com todo o movimento do ressurgimento da Deusa e da proliferação linda e amorosa dos círculos de mulheres, dá para ver que são uma ânsia compartilhada, uma sede de nós mesmas que afeta cada vez mais mulheres que querem viver uma autenticidade, uma irmandade, uma vida mais completa seja lá do que for que nosso âmago e alma precisem exprimir no mundo — e que passa pelo reconhecimento de que nossos corpos e nossas expressões são sagrados.

Dentro da minha busca, já passei por vários momentos, vários cursos, vários círculos, várias observações de vida e fiz um bocado de descobertas. E  é com imensa alegria que agora anuncio que o curso “Ativando o Caldeirão de Poder Feminino” , depois de alguns ensaios, vai finalmente sair, agora em agosto.

Dia 1/8 vai ter uma turma bem pequena na minha casa, as vagas já estão quase completas.

Dia 8/8 o curso acontece no espaço Terapia Femmes na zona sul de São Paulo. Clique aqui para ver o evento.

O primeiro módulo é voltado à retomada do seu poder pessoal e da sua sacralidade como mulher. Vamos passar um dia de vivências e rituais  para celebrar nossa divindade e nos comprometermos com um viver mais amoroso e suave. Também vamos falar e entender as diferentes personalidades e talentos que manifestamos durante as quatro faces arquetípicas que vivemos durante um ciclo menstrual e as fases arquetípicas que vivenciamos ao longo da vida, desde a Donzela até a Anciã.

Uma de nossas maiores forças está em descobrir que é possível amar nossos ciclos – do mês e da vida, entendendo a magia e a força de cada um, despertando todo o potencial do nossos úteros, nosso caldeirão criativo que nutre e gesta nossos projetos, sonhos e relacionamentos.

O curso usa conhecimentos e técnicas que vem de tradições xamânicas, como os Toltecas, da magia ocidental com origem cabalística ou celta, e de ensinamentos divulgados pela autora e terapeuta energética Miranda Gray.

Todo trabalho energético e ritualístico mexe com coisas profundas  e seus efeitos podem ser imediatos ou levar anos, não há como prever, mas pela possibilidade inerente de transformação que trazem em si essas propostas, é importante que atendamos o chamado ao nos sentirmos prontas.

Se esse for o seu momento, venha se juntar a nós.

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Lua Branca e Lua Vermelha

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Imagem da artista, escritora e curadora Miranda Gray usada em seus trabalhos do feminino como o curso Red Moon e a Bênção do Útero

Mulher é um bicho esquisito. Já ouvi isso muitas vezes. Não apenas somos “de lua”, como já ouvi dizerem que é preciso “temer um bicho que sangra três dias sem parar e não morre”. Sem dúvida, só esse motivo já basta para deixar os homens desconfiados desses nossos mistérios do sangue.

Os mistérios da natureza fêmea mamífera humana são muitos. Acrescente-se ao sangramento (que em média varia de 10 a 80 ml por ciclo) o fato de que, em sociedades antigas, quando não havia luz elétrica, as mulheres sangravam todas juntinhas na lua nova. E ficavam todas recolhidas em tendas, segundo alguns relatos que sobreviveram, sangrando sobre a terra ou a palha, porque, afinal, não dá para ficar se locomovendo com sangue escorrendo pelas pernas num período em que ainda não havia nem toalhinhas, nem absorventes, nem ob, nem diva cup. As mulheres cíclicas de então ficavam nessas “tendas vermelhas” e eram atendidas pelas meninas mais novas e pelas mulheres mais velhas, experiências que ainda não chegaram ou que já passaram por essa consonância da lua com o útero. Os homens não visitavam essa redoma protetora. Mais um mistério. Que raios se passava lá dentro? Com todas as mulheres reunidas? E era sempre justo quando a lua sumia do céu que a maioria das mulheres cíclicas parava de circular pela aldeia e ia se enfiar numa cabana para sangrar junto a suas irmãs de tribo.

Digo a maioria porque a sociedade sempre conheceu mulheres do contra, as que tinham o ciclo inverso e sangravam nos dias da lua cheia: as mulheres do Ciclo da Lua Vermelha. Essas não acompanhavam a energia crescente e decrescente da lua com seus úteros,elas circulavam normalmente pela aldeia e ajudavam quando as outras estavam encerradas na tenda vermelha, porém sumiam de circulação justamente na plenitude lunar, quando todos faziam festas para a deusa brilhante da noite, que abençoava afastando a escuridão, exacerbando a sensibilidade, provocando partos, subindo marés e indicando a fertilidade das mulheres que acompanhavam o ciclo da lua branca.

Não pensem que as mulheres “primitivas” não faziam ideia de quando estavam férteis. Não pensem. É subestimar demais nossa capacidade de observação e até mesmo a inteligência corporal animal. Tá certo que os homens estavam ocupadíssimos amarrando umas pedras lascadas nuns pedaços de pau para fazer machadinhas e se reunindo em grupos para derrubar o mamute e garantir o sustento da tribo, mas pressupor que a parcela da espécie que ficava parindo bebês, cuidando de crianças e velhos e desenvolvendo melhorias para a comunidade  através de experimentos químicos super complexos como curtir peles e couros, transformar alimentos através do fogo e da cocção e a descoberta de ervas curativas não tinha sequer noção do seu próprio ciclo corporal é um pouco tolo.

Para comprovar isso, taí a Vênus de Laussel, também chamada de “Femme a la corne” um relevo esculpido em calcárioVenus de Laussel ainda no paleolítico, entre 29 e 22 mil anos atrás, que, como tantas outras expressões encontradas dos humanos daquele período da nossa história, retrata uma mulher de medidas exuberantes (ou seja, muito fêmea e redondinha!), sem detalhes de rosto, mas com os seios,  as coxas, o ventre e os genitais bem desenhados. Essa, que foi encontrada em uma caverna na França, tem a mão esquerda sobre o ventre, e a direita segurando um objeto em forma de meia-lua ou chifre, com treze marcações, para o qual ela aparenta estar olhando. Uma das interpretações mais comuns feitas pelos estudiosos é de que a figura seja uma deusa da fertilidade ou uma sacerdotisa xamânica, segurando o que seria  uma espécie de calendário rudimentar, marcando o número de lunações em um ano. E quem mais tem treze “luas”em um ano? Quem acompanha as lunações com sangramentos mensais?  Aí está… A Vênus de Laussel, por ser uma figura feminina que segura essa lua  com as treze ranhuras, demonstra claramente que era sabido que a mulher tinha treze sangramentos em um ciclo solar anual. Para reforçar essa ideia, a imagem ainda por cima tem vestígios de ocre vermelho, indicando sangue.

Esse pigmento vermelho, trata-se de um óxido de ferro mineral usado em pinturas e tingimentos,  é também encontrado em um número muito grande de sepultamentos e tumbas do período pré-histórico, inclusive no nordeste brasileiro. É notável a quantidade de achados arqueológicos de pessoas enterradas em decúbito lateral (de lado) e posição levemente encolhida, quando não claramente fetal, em diversos continentes da Terra, com seus restos mortais, ossos, ou mesmo fibras que envolviam os corpos cobertos com esse pigmento avermelhado. Uma das interpretações é que esses povos claramente entendiam que, assim como todos viemos de um útero vermelho e nascemos envoltos em sangue, da mesma forma, também nos ritos fúnebres, somos devolvidos envoltos nesse sangue simbólico ao útero da terra, ao útero da natureza, a Grande Mãe, que nos recebe de volta em seu ventre que nos transformará e nos parirá em um outro mundo ou plano existencial.

Se de uma mãe viemos, a uma mãe voltaremos.

A sintonia dos nossos ciclos, mesmo como mulheres modernas usando apps de receitas e vendo séries no netflix, ainda tende a acompanhar a lua, seja em consonância, férteis na lua cheia e sangrando na lua nova, ou expressando a energia oposta. São os chamados Ciclos da Lua Branca e da Lua Vermelha.

Ao longo da vida oscilamos entre os dois, passeando de um ponto ao outro dependendo de como estamos com nossa energia: se mais “maternas” e concordantes com expectativas tradicionais de gênero sobre a passividade e acolhimento femininos (características muito louvadas em nós pela sociedade patriarcal), ou se estamos indo contra a correnteza, tentando criar um novo caminho, testando novas águas solitárias, nos colocando à margem dos papéis prontos e sendo imprevisíveis, amazonas, misteriosas e indomáveis.

É muito interessante observar os movimentos do nosso ventre nesse sentido para entendermos a vontade do corpo e o que ele nos revela sobre a energia que nos interessa *de fato* em cada momento.

Se você não está menstruando nem na lua nova nem na cheia exatamente, é porque seu ciclo está oscilando rumo a uma direção ou outra. Fique atenta para acompanhar para onde ele aponta.

A Vênus de Laussel, do alto de seus 45 cm, nos mostra que sempre soubemos das coisas, o importante é prestar atenção e valorizar a sabedoria que nos pertence desde sempre.

**esse texto nasceu como parte da preparação para o curso Ativando o Caldeirão de Poder Feminino. Para um dia de vivências ritualísticas e papos profundos sobre a essência de nossa natureza cíclica e sacralidade femininas, entre em contato comigo para saber das próximas datas ou organizar uma turma na sua região.

Trago um Tambor… 

(tradução de “I Bring a Drum” de autoria de Gede Parma, ) “Atentem para este feitiço cantado por minhas entranhas, seus torturadores do solo e do fio da seda Conheça minha fúria zelador da torre que atira desgosto umedecido lá de cima sobre o povo que treme confuso. Sabemos que a Terra se revoltará e te derrotará, o raio do Trovejante te opõe, embora finjas empunhá-lo junto dele. Vem até a minha porta, vais me encontrar em meus aposentos, nu, segurando um tambor, com uma espada desembainhada sobre meus dedos dos pés e uma faca no meu cabelo Estarei pintado com o sangue dos meus ancestrais, sentirás o aroma de algo arrebatador, e o cheiro vai coalhar o ácido do teu estômago… Eu ouvi as palavras do lindo peregrino Escutei os sábios através do vento Girei a roda sagrada Espiei dentro de lugares que manténs inacessíveis, até mesmo ao teu próprio coração, pois os grilhões das atitudes malévolas acorrentam e prendem todas as mentes dadas à maquinação e planejamento dos feitos. Dei as costas e fingi não ver essa farsa e esse desfile da gula frente à consciência, frente à preciosa comunidade Senti-me roubado e cegado por isso… Mas tenho magia… não me esqueci; na verdade, me fortaleci com o mundo selvagem, na verdade, lembrei de uma serpente profunda dentro de mim cuja sedução é o dom do paraíso, cuja floração e fruto são a memória da inocência que habita em mim ainda agora… Tu me envolves em uma guerra que não pode ser vencida, então passo por ti, e sei que eventualmente vais me estraçalhar… Sei que muitos outros também cairão… mas passo por ti agora, não me importo e me importo totalmente. Vou fazer uma coisa… Estás maculado dentro de mim, mas sei o segredo para te desemaranhar. Sei que fui feito para a liberdade, que tudo busca a liberdade. Sei disso. E então meu querido… ainda agora, passo por ti. O olho não pode voltar-se para ver, e estou dentro do olho. Ainda agora, na escuridão grávida que transpira estrelas e bebe do orvalho, posso escutar o Infinito se estendendo para dentro de si mesmo. Buscamos juntos, afundamos juntos, caímos juntos, mesmo nos laços de amor que se desamarram. Pela mão da graça me é dado o fôlego para respirar… do coração da selva sou lançado sobre o mundo… Trago um Tambor… sempre o fiz. Será tudo anulado, pois estou disposto a ingeri-lo agora… Vou beber deste veneno… dentro de mim… dentro de mim… o Tambor e a Chama. Reúnam-se aqui. Deixe-nos descansar. Deixe-nos dançar. Sonharemos por ousarmos atentar para o feitiço cantado nas entranhas.” 11036345_804396536297008_3573389292129680169_n

Visita às fiandeiras

No solo escuro e fértilthree fates

na base de Yggdrasil

ouço o ritmo cadenciado do corte de uma tesoura.

Apesar de tão definitivo, o som chega com um neutro distanciamento

Não sinto horror

Nem pena

Nem medo do momento em que o meu corte virá.

O fio da tesoura me parece um agente amoroso e compassivo. 

Medo, sinto da que mede

que analisa  julga 

e determina.

A moça que fia é um fofa, de bochechas rosadas e lábios carnudinhos. Não consigo nem dizer “carnudos”, porque daria a ela uma conotação sensual mais madura que ela não parece ter. 

Desta vez, ouvi a roca e não o fuso, e ela fia numa animação esperançosa

Acho que atende tudo que lhe pedem. O que as pessoas não sabem é que a voz que ela escuta é a do nosso lado meio anjo, meio irmão mais velho — que habita um pouquinho acima de nossas cabeças. 

Seu olhar desfia galáxias

Seu silêncio faz corar a eloquência de uma montanha

Os presentes que dão a conhecer são lembrados só quando elas permitem

Num caldeirão, imagens fervem e borbulham

mas é preciso mais do que coragem para espiar dentro.

Canção para uma existência distraída

Todas as coisas são uma só coisa e vêm de uma só coisa. Poeira estelar, poeira lunar, poeira solar e planetária. Deste pó viemos todos nós. Belos, unidos em uníssono, somos Deuses maxi potentes, mas não o sabemos, pois estamos e somos em pedaços.

Retalhos de nós, retalhos do que podemos ser; frangalhos e migalhas de mil espelhos, onde nos vemos refletidos, todos os dias, numa miríade de ferramentas virtuais ou não, mas que apenas conseguem refletir uma parte do que nem chega perto da força e da beleza de nosso âmago. Sabemos o que é essa força e essa beleza? Não. Não tocamos, não mergulhamos, não adentramos nosso coração e espírito. Uma pena. Uma dor que aumenta e nada cura, ao menos nada do que comumente buscamos. Estamos voltados na direção errada como espécie.

Nosso amor ainda vive em fagulhas internas, sedentas de toque, sedentas de atenção. Dê. Elas, assim que atiçadas, podem se tornar labaredas que consomem as dúvidas, as incertezas, a falta de caminho e a falta de ânimo. Para desfrutar da vida, que é o único motivo verdadeiro de estarmos aqui, há que se atiçar essa chama.

Busca teu espírito antes que ela se apague. Veja se está em brasa — se enxergares é porque ela ainda queima, mesmo que tênue.

Quem alimenta a chama e encontra o vazio em si fica pleno. Só assim poderemos ser. Longe das distrações, dos ruídos, das exigências externas e internas. Apenas.

Adentre seu âmago

Adentre seu âmago