Somos Bruxos

Publicado em 4 de janeiro de 2015 em gedeparma.com por Gede Parma. Traduzido sob licença do autor.

“A Bruxa tem uma História – Ela é ao mesmo tempo completamente humana e totalmente transcendente. Alguns podem indicá-la como a grande realização e o começo do “sobrenaturalismo” humano, no entanto, o Bruxo, por suas próprias condições e entendimentos, tanto no saber quanto na prática, não deve e não pode transcender a Natureza, cujo outro nome é “Sorte”. A Bruxa existe em todas as culturas humanas, permeou e penetrou o subconsciente e invadiu os sonhos dos homens, seduziu os oprimidos para que revelassem e canalizassem poder e se entregaram por inteiro à Floresta dos Encantamentos – o WildWood, o bosque selvagem. Ele é um feiticeiro magistral e sábio, pelo menos esse seria o ideal, continuamente refinando suas relações, cultivando conexões, cantarolando encantamentos de apelo sensual. É um conclamador de Espíritos e um conversador de criaturas. Qualquer estudo periférico de Bruxaria presente no folclore vai assinalar a capacidade do Bruxo de comungar com seres não humanos, como se houvesse um pacto ancestral e secreto entre eles, e, ao fazê-lo, conspiram contra os paradigmas que oprimem, subjugam, atormentam e lucram à revelia do delicado e feroz equilíbrio entre todas as coisas. Parte desse equilíbrio é a manifestação de forças escuras, destrutivas e degenerativas quando as comunidades humanas começam a se impor sobre os lugares selvagens. De fato um bruxo, enquanto é certamente humano, evocando o jorro completo de emoções humanas, é também um guardião do Coração Selvagem – ainda hoje isso é assim, uma aspiração, uma verdade profunda que orienta as muitas expressões da Nossa Arte, Nossa Mais Nobre Arte.

A Bruxa também é uma sacerdotisa; Ela é consorte com os Deuses, aqueles Espíritos grandiosos e potentes, aliados à humanidade – ao que tudo indica – a quem já dissemos: “Que o Louvor, a Paz e o Poder estejam convosco – vós haveis enobrecido nossa raça!”, e o fizeram. Assim, nossos clãs plurais guardam, mantêm e fomentam pactos com esses seres. É triste que muitos tenham perdido, violado e destruído esses consórcios, pois os Antigos Deuses, conquanto onipresentes, se retraem e caem no esquecimento. A grande renascença do paganismo no mundo ocidental de hoje está servindo para revigorar a presença Deles entre o povo. Embora, na verdade, parece que os Deuses Antigos estão em constante renovação e são especialmente astuciosos. Seus Nomes são invocados constantemente em slogans publicitários, nos nomes dos dias da semana, nos meses do ano, em programas de televisão, no cinema, nos livros. Os seres humanos são criaturas ao mesmo tempo altamente inovadoras e acomodadas, da assim chamada superstição, e ainda batemos na madeira, sabemos nossos signos solares, procuramos videntes e intérpretes dos augúrios, sinais e auspícios e aventamos um mundo prenhe de magia selvagem.

Bruxos são da cura – em nosso trabalho espiritual, muitos induziram conexões com o Reino Vegetal, obtendo remédios e também venenos – e o agora infame ditado “Um bruxo que não consegue ferir não consegue curar” sublinha nosso trabalho. Precisamos ser capazes de trabalhar com ambas as “mãos”, segundo o falecido Andre Chumbley declarou – de bênçãos e dádivas, maldições e amarrações – para que possamos efetuar o trabalho de limitar o comportamento inescrupuloso e de malignidade duradoura nas comunidades humanas e em nossas próprias redes de familiaridade e afeto. Também estamos abrindo as portas para a abundância, a prosperidade, o amor e a clareza. Precisamos ter capacidade de enervar a psique para frutificar aquilo que é Justo entre nós em nossa necessária e valiosa relação com o Outromundo, ou seja, o mundo além-do-humano que é inteiramente encantado.

Somos poetas, somos os magos da palavra, somos os cantores de feitiços aos Ventos das Direções, que as Sentinelas Ancestrais possam nos ouvir, fortalecendo e guiando nosso trabalho. Algumas de nossas lendas contam que somos filhos dos Nefilins, da prole dos Decaídos que “caíram de amores” com as radiantes e lindíssimas Filhas dos Homens e nos dotaram de seu Fogo Hábil, a Chama Bruxa. Esse foi o começo do chamado Sangue Feérico e Sangue Bruxo e alguns de nós somos tão gêmeos e irmãos das raças fadas que somos levados a nos tornar Faerie Doctors, curandeiros, e, com nossos aliados do reino Fae (Encantados), somos dados à sabedoria do Povo Verde, para que deles possamos atiçar soluções para problemas que podem mesmo ter começado com os Bons Vizinhos. Alguns encantados também estão dispostos a conceder dádivas e ativar bênçãos em gente humana, repito, contanto que nosso pacto seja rico e vital, honesto e honrado.

Somos videntes, somos treinados nas Artes que perfuram os Véus, tantas vezes tidos como aquilo que define onde começa um reino e termina outro. Somos dados a trabalhos e modos que expandem e contraem nossa força-vital, a presença de nossa consciência e sua inerente mutabilidade, para que possamos ter um vislumbre da Grande Eternidade destilada em momentos na espiral de acordo com nosso envolvimento pessoal e (in)ação, ou mesmo um envolvimento coletivo e (in)ação. Para isso, nós fazemos Jornadas, somos xamânicos; alguns até diriam que Bruxos são Xamãs, e, em boa parte do nosso trabalho, somos mesmo. Parte de nosso trabalho pode ser menos sancionada pelas convenções sociais, mas, de novo, os processos internos da maioria dos praticantes de xamanismo deixariam a maioria das pessoas aterrorizada e exausta só de ouvir falar. As pessoas são sempre cautelosas perto de qualquer um que esteja em forte contato com o Outromundo e as forças e poderes “Outros”, já que são voláteis, vistas como caóticas, instáveis, e, em última instância, aterrorizantes de um jeito que não exige aptidão moral, mas uma audácia perigosa e tola. O tipo de audácia evocada pelo Amor é o tipo de audácia que as Bruxas se tornam habilidosas em produzir quando falamos com os Espíritos, quando tecemos com o Mistério (Wyrd). É o motivo de chamarmos isso de Trabalho, um Ofício. Cada cultura tem uma atitude diferente na sua relação com os tipos de indivíduos a que poderíamos chamar de bruxos. Cada comunidade pode ter suas próprias histórias, lendas e folclore por trás daquela pessoa à margem do vilarejo ou aldeia, que supostamente sai à noite para onde “pessoas de bem” não sonhariam ir e compactua diretamente com Espíritos perante os quais “as pessoas de bem” se acovardariam. Mesmo quando as qualidades benéficas ou radiantes desses Espíritos são óbvias, muita gente tradicional ainda preferiria errar escolhendo a opção mais segura.

Quando fazemos as jornadas, quando voamos, quando entramos em transe e saltamos o muro, mergulhamos fundo na Escuridão, espiralamos em condutos aquíferos ocultos, ou rasgamos o céu como cometas, estamos em missão, estamos caçando e quiçá sendo perseguidos pela própria coisa que caçamos. Somos sonhadores nisso, capazes de, ao mesmo tempo, nos relacionar através de histórias com o que é Profundamente Real e extrair através da vontade as ferramentas e poderes necessários para podermos concluir a jornada em segurança, embora nem sempre nos sintamos seguros ao fazê-lo. Somos desafiados, e embora seja difícil assustar uma Bruxa, ainda somos criaturas primitivas, e perder o senso do Sagrado Terror é perder o impacto e o sublime e, portanto, o sentido da magia profunda.

Somo iniciados – como outros xamãs – e esses Deuses do terror da Iniciação são também os Portadores e Mensageiros da Luz que nos auxiliam em nossa maestria. Esse é o Nosso Diabo, Nosso Mestre, Nosso Rei de Chifres com a Chama entre as Marcas de Sua Coroa. Nossa Senhora é a Fonte de Nosso Poder e a Rainha das Fadas e das Bruxas, do encontro entre os Reinos Verde e Vermelho, para que juntos possamos compreender os Mistérios do Branco e do Preto, de onde emergimos e para onde caímos. A Rosa Azul, a Chama Azul, é com frequência o sinal de nossa feitiçaria, por habitar e sussurrar entre todos e ser o Graal dos Mistérios Ocultos, potentes por não podermos falar deles de jeito nenhum.

E assim criamos Arte das Palavras, sugerindo e apontando para os Mistérios, deixando sinais e pistas, mas jamais entregando o ouro; somos impossibilitados. E assim somos humildes e honrados e exaltamos a quintessência uns dos outros, Nossa Divindade, enquanto giramos nossas rodas, assumimos nossas cores, derramamos tinta e óleo sobre a tela, exprimimos som e ritmo e a poesia da escrita que palpita no coração e estremece a fundação dos mundos. Ao menos é esse o objetivo. Se nossa arte puder nos desfazer e abrir o olhar e o coração ao caminho rosado beijado pelo espinho; se pudermos sentir entre os dedos, na malha de carne e osso, os filamentos de Deus, do Esquecimento e de Faerie formando uma trança bem urdida, então nossa Arte É Nobre!

Alguns de nós, não todos, são meretrizes selvagens – messalinas sagradas – e trabalhamos com a sombra e a música do sexo para que possamos exaltar esse dom mais precioso da nossa Deusa e refazer a urdidura e a trama estrangulada e rasgada em uma tapeçaria plena e forte, adornada por nossos atos sexuais. Gememos, suspiramos, beijamos, guinchamos, lambemos, acariciamos, mergulhamos, fodemos em feroz devoção ao que é mais primitivo, que é mais internamente aterrorizante, aquele alcance perigoso e profundo para que possamos revelar de verdade que TODOS OS RITOS DE AMOR E PRAZER SÃO OS RITUAIS DELA! Palavras manifestas por um Bruxo, um Poeta, um Sonhador, um Vidente, que teve ouvidos para escutar!

Somos professores – passamos adiante o folclore e as técnicas avermelhadas, legendárias e formatadas segundo a maneira que fomos ensinados, mas todos os bons professores de Bruxaria sabem que nossos mestres originais e contínuos são os Antigos, as Sentinelas, aqueles que se apaixonaram por nossas ancestrais, que enobreceram nossas aspirações e nos ofereceram a Arte, aqueles das Raças Feéricas que se aliam a nós e nos testam, os Elementos leviatânicos e ancestrais, os Deuses para quem sussurramos na noite e a própria Senhora do Destino.

Somos aspirantes. Vivemos pela experiência e testamos a Verdade no Caldeirão do Caos. Somos Bruxos.”

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Um programa de formação na arte da magia sagrada

Tenho dificuldade para me encaixar. Sempre foi assim. Me foi dado um nome raro, não me furaram a orelha quando pequena, sou canhota. Já começou daí a sequência de diferenças que viriam a marcar minha passagem pelos rincões do planeta.

Não bastasse isso, me desloco. Ao escolher uma nova casa em um novo lugar, preciso começar tudo de novo, fazer redes de amigos, conhecer o meio pagão local e buscar um grupo para me inserir.

Depois de cinco anos de volta ao Brasil, estou decidida a atender ao chamado de ensinar aquilo que me foi passado e formar eu mesma um grupo novo de práticas e devoção. Um grupo novo em folha, mas de técnicas e ensinamentos muito antigos, mesclados ao que nos oferece a globalização.

Eu passei por uma formação mágica de escola de mistérios com um professor americano, um programa pesadíssimo que praticamente faz a gente abdicar da vida mundana para poder completar. Como esse nível de dedicação é quase impossível, o que vou repassar é uma versão adaptada para um tempo maior, com um pouco menos de volume de trabalho por período, embora não menos exigente.

Muito importante salientar que a educação mágica que ofereço é na linha da Bruxaria Tradicional Moderna. Para entender melhor que raio é isso, clique aqui, onde explico direitinho essa vertente.

Desde os tempos antigos, as escolas de mistérios existiram para saciar a sede daqueles que sentem o chamado da busca pelo conhecimento, tanto de si quanto dos mundos invisíveis. É uma universidade do saber da alma, onde aprendemos a despertar e desenvolver nosso potencial mágico e espiritual. O objetivo é um profundo conhecimento e maestria do seu eu para poder fazer o meio de campo entre as forças espirituais e o plano físico, trabalhando curas pessoais, com resultados visíveis na melhora da sua qualidade de vida e de relações, e também trabalhar a serviço de curas planetárias, auxiliando os vários planos, mediando energias e oferecendo sua colaboração na recuperação do equilíbrio terrestre nos diversos reinos.

Sobre a formação

O currículo é composto de um plano de 12 aulas mensais, algumas precisariam ser presenciais, material de leitura e tarefas que envolvem desde práticas das técnicas ensinadas (algumas de preferência em duplas) até pesquisas individuais e também construção de objetos.

Algumas teorias e práticas abordadas:

* trabalhando os quatro elementos

* artes divinatórias e abertura dos sentidos

* defesa energética

* autoconhecimento e autotransformação

* sistemas energéticos do corpo: chakras, meridianos, doshas

* medicina energética básica

* magia com velas, talismãs, ervas, pedras

* magia com tarot

*alinhando sua alma tríplice

* jornadas xamânicas

* celebrando a sacralidade dos ciclos e dos elementais do lugar onde você habita

Não é um programa iniciatório, mas, ao final dos primeiros doze meses, todos que concluírem o currículo de maneira satisfatória e passarem por um exame final, podem prosseguir para o segundo ano, avançado, onde poderão explorar mais profundamente a área de sua escolha, o caminho do mago, o caminho do bruxo ou o caminho do curandeiro, e ser convidado a integrar um clã de bruxaria em formação.

Esse programa terá início na segunda quinzena de outubro  – primavera do hemisfério sul. Caso tenha interesse, entre em contato pelo email petruciafinkler@gmail.com para mais informações.

O número de alunos que posso aceitar é limitado pela minha capacidade de acompanhar de perto a evolução de cada um e poder me manter presente e disponível como mentora dos processos.

Distância geográfica não é um impedimento para a formação, embora eu adoraria ter um pequeno grupo em São Paulo. Questões financeiras também não devem ser um impedimento. Se as coisas que normalmente escrevo, ou algo em mim fala à sua alma e  você sente que gostaria muito de me ter como orientadora, entre em contato comigo.

***A primeira turma foi decidida e fechada no dia 2/9/2015. Devo abrir novamente para interessados em julho ou agosto de 2016.

carta do

carta do “Journey into Egypt Tarot” de Julie Cuccia-Watts