Afinal o que é magia?

Magia, segundo o dicionário é um substantivo feminino que se define como: “arte que pretende agir sobre a natureza e obter resultados contrários às suas leis, por meio de fórmulas ou de ritos mais ou menos secretos, quer utilizando propriedades da matéria que se afirma serem desconhecidas (magia branca), quer fazendo intervir poderes demoníacos (magia negra), feitiçaria; bruxaria.”

Primeiro, a magia tem sempre algum objetivo, e ele precisa ser claro e preciso. Então existe o objetivo, o método e o resultado. Se, no mundo físico, estou em busca de eletricidade, meu método será a criação de um circuito elétrico, cujo resultado é constatado quando a lâmpada acende. Se quero prosperidade, vou criar não só um bom feitiço ou ritual para atrair essa força para minha vida, como vou me empenhar e ficar atenta às oportunidades no mundo prático. O resultado será um ganho melhor e uma tranquilidade para pagar minhas contas e desfrutar de lazer.

Ela pode ser chamada de branca ou negra, numa referência à magia “do bem”, que atrai coisas boas para sua vida ou busca a cura e o bem estar, ou a magia destrutiva que manipula o livre arbítrio alheio ou destrói algo de outra pessoa, levando em conta apenas a vontade e satisfação de quem origina a magia. Uma amarração para o amor, mesmo sendo para o amor, é magia destrutiva e manipulativa.

A definição do dicionário (acima) é equivocada neste sentido, pois coloca como “magia branca” uma magia que usa componentes da natureza, não importando o objetivo, e coloca como “magia negra” aquela que emprega poderes demoníacos. O problema é a definição de demoníaco num país cristão, pois qualquer força que não seja de Jesus é considerada demoníaca, mesmo quando não é demônio. Mesmo se forem espíritos da natureza, que estão te ajudando a operar uma cura, não importa que você explique que é um ser feérico – no cristianismo, um curupira é um demônio, a sereia é um demônio e por aí vai. E, de novo, não fala nada sobre a finalidade da magia.

Ela pode ser também Alta ou Baixa magia. A Alta magia lida num método estruturado para desenvolvimento espiritual e pessoal. A Baixa magia tem relação a alguma forma de manipulação da realidade física, ou seja, feitiços. Em geral, quem tem a bruxaria como caminho espiritual, pratica uma combinação das duas.

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eu, de Hekate moderna

É bacana que no português temos a palavra “magia”, para tratar da definição colocada acima, e temos a palavra “mágica”, que é usada para truques de prestidigitação, da mesma forma que temos uma clara diferença entre as funções de um mago e as de um mágico. No inglês não é assim.

No inglês só existe a palavra “magic” que serve para as duas coisas. Então, para diferenciar o que era ligado a estados e manipulação da realidade através da vontade pessoal, dos truques usados por um David Cooperfield, por exemplo, o mago Aleister Crowley, que adorava ser diferentão e causar muito, cunhou a grafia “magick”, para distinguir as duas e deixar claro que “magick” era o método dele, que tratava a magia como “a arte e a ciência para provocar mudanças segundo nossa vontade”. Essa grafia ficou tão difundida que hoje a norma é escrever assim em toda a literatura americana ou britânica sobre o tema.

A grande atração da magia é sua capacidade de causar transformações no plano físico se utilizando de meios não-físicos. E para a ação da força mágica, as leis físicas de tempo e distância não se aplicam.

Durante séculos a ciência e a magia estiveram em posições diametralmente opostas, no campo de batalha. Não havia uma linguagem comum, e a magia era descartada como superstição e irrealidade. A ciência por todo esse tempo debochou e menosprezou de tudo que era relacionado ao mundo das forças espirituais.

Com a popularização de certos conceitos da física quântica, há uma animação geral de que a ciência e a magia estão finalmente encontrando um ponto comum, estão começando a se entender e se explicar. Afinal, a magia do passado seria a ciência do futuro, pois tanta coisa que era entendida como feitiço antigamente hoje é passível de explicação científica, e é possível que daqui um tempo a física incorpore a magia dentro de seu rol das forças naturais.

Enquanto isso, ando refletindo sobre esse uso cada vez mais constante de tentar se calcar nas explicações da física quântica para explicar o que fazemos. Se a ciência nunca esteve nem aí pra nós, e os bruxos e sensitivos seguiam cumprindo suas devidas funções mesmo em meio ao total descrédito das instituições científicas, por que diabos estamos tão preocupados em nos provar decentes e verdadeiros agora usando explicações justamente de quem nunca esteve a nosso favor? É algo para pensar.

Que tanta necessidade tenho eu de provar meu valor dentro do establishment quando esse establishment nunca foi gentil com meus iguais? Que ótimo que a ciência está encontrando explicações nos seus moldes para o que desde sempre é vivenciado pela humanidade, mas eu não tenho que me valer dos parcos conhecimentos e provas científicas nessas áreas para explicar aquilo que eu faço e que é muito maior do que eles conseguiram descobrir. Se a ciência está engatinhando nessas questões, não me acrescenta nada usá-la.

Viver a magia é admitir que existe um mundo muito real de forças espirituais que coexiste com a realidade física. Este outro mundo e seus habitantes podem ser acessados e contatados em busca de cooperação. E também é viver atento ao fato de que o pensamento é uma força criadora, que influenciamos sim nossa realidade, não de forma vã e simplificada, mas que nossa observação, foco e energia alimentam certos canais e furtam-se de perceber outros. De acordo com nossos padrões, vamos repetindo nossas experiências de vida e nossos erros, não sabemos usar esse nosso incrível poder criativo.

Essa influência que podemos ter é mais facilmente compreendida se entendermos o universo como holográfico, com cada fragmento sendo um espelho do todo, e é por isso que temos acesso a esse todo, sendo a grande via de acesso o subconsciente. Mas quem é que consegue saber de fato tudo o que lhe vai no subconsciente? É o subconsciente que acaba criando essas experiências todas que vivemos, então vamos no automático, lidando com realidades formadas inconscientemente por nós.

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Grupo Terra Mysterium de Chicago, IL, 2009. Sou a segunda da direita para a esquerda.

Trazer as sombras para a luz não é só extremamente curativo, mas extremamente forte e prático. É conseguirmos canalizar nossas pulsões e forças interiores como correntes a nosso favor, como no arcano VII do Tarot, o Carro, onde o homem controla e comanda um cavalo branco e um preto, com cada um insistindo em andar para um lado diferente. Aliar o pensamento criativo com a emoção limpa e clara, os dois em uníssono, é o que provoca mudanças objetivas via experiências subjetivas.

Os bons resultados se dão quando sentimos que verdadeiramente somos merecedores daquilo. Se não nos acreditamos merecedores de amor, então o amor não virá, não importa que feitiços eu faça. Os feitiços primeiro deveriam ser voltados para me sentir digna de ser amada, e, só com isso resolvido, partiria então para atrair um amor. Mas trabalhar em etapas exige muito autoconhecimento, algo que não é todo mundo que tem coragem de empreender.

Então o objetivo é sempre provocar uma mudança, o método tem a ver com entrar em contato com as energias e forças mais apropriadas do outro mundo para ajudar na tarefa, e o resultado virá em acordo com nossa real intenção.

Porém às vezes o resultado é outro, ou nenhum. A magia é, por natureza, imprecisa.

Coisas que ajudam muito:

  • Já no preparo para um ritual e durante todo o tempo em que se faz o ritual, deve-se pensar, visualizar e sentir o objetivo como já tendo acontecido, não no futuro, mas no presente.
  • Um estado de consciência levemente alterado é necessário para ser eficaz, não podemos estar tensos. O relaxamento e a tranquilidade fazem com que tudo ande melhor. Atenção, o estado alterado é alcançado naturalmente, sem o uso de substâncias externas a nós.
  • Esforço demais parece afugentar o que queremos. Precisamos lançar a energia e esperar que a coisa se desenrole. Por isso devemos fazer o ritual, o feitiço, a simpatia, como que celebrando algo já conquistado e, então, imediatamente depois, deixar pra lá. Fazer outra coisa, ver TV, sair com amigos, mudar o foco completamente.
  • Entender que a vibração só pode ser feita numa única direção: ou é contra ou é a favor de algo, ou atrai ou repele. Não posso fazer um feitiço que ao mesmo tempo me proteja e afaste todo o mal. Ou é proteção ou é para afastar o mal. São movimentos contrários, e misturar os dois, nem que seja na forma com que se fala, pode dar um super tilt, um choque de forças, resultando – na melhor das hipóteses – em coisa nenhuma. Fique aliviado se o resultado for igual a nada. Porque um choque de forças grande, colocando muitas intenções misturadas num trabalho só, pode dar em algo que bagunça e desanda a tua vida seriamente. Falo por experiência.
  • Atenção a horas planetárias, dia da semana, estação do ano e lugar/ambiente em que se faz algo afeta muito, especialmente na psicologia do mago, e isso tem um resultado direto e potencializante.

Seguir receitas antigas e testadas pode ajudar ou limitar. Se estiver inseguro de suas pesquisas, vá no que já foi feito. Do contrário, sinta-se livre para criar uma invencionice cuidadosa, sempre evitando misturar ingredientes e ideias que possam ser divergentes.  Estudar as correspondências é fundamental para não fazer um feitiço de fogo usando ingredientes relativos ao elemento água, por exemplo.

Menos é mais, vá no simples, e confie também naquilo que te ocorre espontaneamente, seja um gesto, um sopro, um prato que você cozinha, algo feito na hora usando o que se tem em casa, ou até um simples desejo ao avistar uma estrela.

Estude muito, estude sempre, mas ouça também a sabedoria singela que habita seu interior.

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