O que faz uma Parteira ou Doula da Morte?

Muitas vezes encontro pessoas amigas ou até desconhecidas e me pego falando sobre a morte. É um assunto natural para mim, mas parece que nessa nossa louca sociedade onde tudo é voltado ao crescimento, ao progresso, à juventude e ao sucesso, a morte é um assunto que exige uma certa coragem e qualidade psíquica para que a pessoa se sinta tranquila de abordar.

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Oferecendo um quintú de coca em um cone funerário nos arredores de Puno, Peru.

Já percebi que é sempre mais fácil falar do assunto com quem já viu essa dama bem de perto ou acompanhou a gentil senhora levar embora alguém muito querido seu. Já percebi também que é muitas vezes mais fácil tocar no assunto com quem ainda não passou dos sessenta.

Mas é um assunto do qual não adianta fugir. Aliás, podemos fugir o quanto quisermos do assunto. Já dela,  impossível! A grande verdade é que ninguém sai daqui vivo.

Evitar falar da morte tem efeitos colaterais nocivos para nossa sociedade

Algumas semanas atrás, passei a tarde engarrafando hidromel. Uma amiga muito querida veio me ajudar, e, em nosso intervalo para o almoço, o assunto foi cuidados paliativos, trabalho em hospice care e escolhas para a morte. Numa terça-feira fria, mas de sol, comendo um couscous marroquino no quintal, pode parecer um assunto mórbido, como em determinado momento me ocorreu. Mas quão melhor seria nossa sociedade se tivéssemos naturalidade para abordar o fim da vida?

Essa ideia de que falar na morte a atrai, de que a morte é algo temerário, ruim, que precisa ser evitado de qualquer jeito tem um custo altíssimo para nossa sociedade e nossa saúde psíquica e emocional.

Primeiro, evitar a morte é evitar o fim, a decomposição o término. Não sabemos lidar com o fim de nada, adoramos falar só em começos, em iniciativas, em progresso. Só queremos começar relações, começar um novo emprego, construir, comprar, expandir.

A natureza não funciona assim, tudo ao nosso redor tem ciclos que envolvem uma decadência e então um término. Mas nós só pensamos em criar! Inventamos apetrechos maravilhosos sem levar em conta como aquele apetrecho vai se decompor depois e retornar à natureza. O resultado é que nos encontramos entulhados de lixo de longuíssima decomposição que não sabemos onde enfiar, pois do ponto de vista do planeta, não existe “jogar fora”. Temos um continente de lixo flutuando perto da Austrália, temos animais marinhos engolindo plástico, temos solo e águas poluídas à exaustão. Tudo porque nós não pensamos no fim daquilo que criamos, embora a Mãe Natureza nos tenha demonstrado sua infindável sabedoria em ter tudo planejado: do começo ao final, com 100% de reaproveitamento  de absolutamente tudo.

Nossa negação da morte, nosso medo, nos leva a entregar nossos entes queridos na mão de estranhos no hospital e na indústria funerária, por não querermos ver, não querermos tocar, não querermos lidar com aquilo. Pessoas que amamos são abandonadas por nós porque não sabemos o que fazer com uma passagem, com aquilo que foi e não é mais.

E nossos sentimentos são reprimidos e jogados para os recônditos do inconsciente. O luto não vivido ressurge depois em ataques de pânico, paranoias, fobias e outros distúrbios que atrapalham nossa paz e nossas relações.

O último suspiro

something-beautiful-has-diedEm 2006 eu tive a honra de estar presente no quarto de hospital quando minha avó paterna deu seu último suspiro. Foi uma experiência que mudou minha vida. Estar presente na morte de alguém é um momento profundamente sagrado, que alarga nossa percepção e visão de mundo dali para frente. Não há como ser diferente. E a morte é um momento muito íntimo.

Aquilo mexeu tanto comigo que, quando fui ao Pagan Spirit Gathering daquele ano, em junho, conheci Nora Cedarwing Young e fui ao workshop dela sobre “Escolhas de fim de vida”. Ela é uma mulher incrível, fundadora do Thresholds of Life (Limiares da Vida) e uma pioneira nos EUA no trabalho de Parteira da Morte.

Saí dali pensando sobre a minha e sobre como faz parte da vida falar a respeito, pensar no que queremos quando nossa hora chegar e do que podemos fazer para confortar quem amamos ao testemunhar os últimos momentos deles na Terra. Isso vai desde opções como cremação e doação de órgãos, até quem queremos por perto, que tipos de tratamentos aceitamos que os médicos usem se não pudermos responder por nós mesmos, estando inconsciente em um hospital, além do que podemos dizer ou fazer pelos outros quando estamos testemunhando uma despedida.

Depois acompanhei, animada, esse movimento ganhar fôlego no meio pagão e fora dele, e vi vários amigos meus receberem seus certificados de Death Midwife, Parteira da Morte, pois assim como uma Parteira nos ajuda a chegar a este mundo, quando viemos do desconhecido para cá, uma Parteira da Morte nos ajuda a cruzar amorosamente ao atravessamos o limiar deste plano de volta para o outro.

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Ano passado, consegui eu também fazer a minha formação neste trabalho que é tão humano, ancestral e necessário, com o curso oferecido pela Earth Traditions através da competência amorosa e firme da sacerdotisa Angie Buchanan. É uma formação secular, sem ligação com qualquer denominação religiosa. É um trabalho puramente humano e compassivo.

Da mesma forma que estamos resgatando o parto, humanizando, diminuindo o número de cesarianas, trocando o ambiente hospitalar pelas nossas casas quando tudo corre bem, para retomarmos a forma que paríamos antigamente, também há um movimento de resgate da morte, da possibilidade de velórios em casa, ou de cerimônias alternativas para celebrar nossos familiares e amigos que se foram ou estão de partida, de encontrar formas mais amorosas de nos despedirmos sem dar as costas para um momento tão sagrado quanto aquele da chegada neste mundo.

Quando nascemos somos esperados, com enxovais e mãos carinhosas de tias, avôs, amigos, madrinhas, que querem nos alisar, segurar, elogiar, encher de beijos. Ao morrermos, somos abandonados, porque esquecemos de como lidar com a partida e tudo que se desmancha, por medo, insegurança e falta de jeito. Os carinhos, palavras e beijos são substituídos apenas pelas mãos amorosas de profissionais de saúde, quando damos sorte de encontrá-las.

O que faz uma parteira da morte?

img_20151123_121952210Parteiras ou doulas da morte também são conhecidas em algumas regiões dos EUA e Inglaterra como Home Funeral Guides, e são pessoas preparadas para apoiar,  em questões práticas, espirituais e emocionais, tanto as famílias como a pessoa que está morrendo

Conversamos com as famílias e a pessoa para expor opções (estilos de funeral, enterro, cremação, o que fazer com as cinzas), ajudamos a organizar a preparação de documentos (testamentos, testamento vital, diretrizes avançadas, declaração de vontade, procurações), fazemos vigílias, organizamos memoriais e cerimônias, lemos histórias, aplicamos técnicas holísticas para trazer conforto e alívio, criando um ambiente amoroso e facilitando a comunicação entre todos os envolvidos.

Não somos da área médica e não fazemos serviço de enfermagem ou tarefas normalmente da alçada dos cuidadores. Trabalhamos como acompanhantes holísticas, orientando a pessoa que está morrendo a fim de facilitar uma passagem tranquila e suave, reconhecendo suas necessidades individuais e criando um ambiente sagrado e reconfortante para ela, seja num hospital, clínica ou em casa.

Trabalhamos sem qualquer denominação religiosa, adaptando nossos serviços para respeitar a fé e as crenças da pessoa sobre a vida e o que existe além dela.

Apoiamos as famílias e amigos com elementos humanizados e reconfortantes num momento difícil, enquanto oferecemos tranquilidade auxiliando a pessoa que está morrendo para que vivencie a morte que ele ou ela deseja.

Falar sobre essas escolhas e o que desejamos é das coisas mais importantes que a família e os amigos podem fazer para se preparar para o fim da vida. Não vamos deixar que quem a gente ama seja pego de surpresa, sem fazer a menor ideia de nossos desejos, piorando a experiência da dor da perda ao acrescentar o medo de não estarem fazendo a escolha certa para nós. Embora sempre difícil e doloroso, o fim da vida pode sim ser muito rico. O aprendizado, as trocas, as epifanias e o amor ocorrem até o último suspiro e se perpetuam além. Tocar no assunto com coragem e naturalidade tem grandes chances de enriquecer essa experiência que é parte da vida de todos.

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Somos Bruxos

Publicado em 4 de janeiro de 2015 em gedeparma.com por Gede Parma. Traduzido sob licença do autor.

“A Bruxa tem uma História – Ela é ao mesmo tempo completamente humana e totalmente transcendente. Alguns podem indicá-la como a grande realização e o começo do “sobrenaturalismo” humano, no entanto, o Bruxo, por suas próprias condições e entendimentos, tanto no saber quanto na prática, não deve e não pode transcender a Natureza, cujo outro nome é “Sorte”. A Bruxa existe em todas as culturas humanas, permeou e penetrou o subconsciente e invadiu os sonhos dos homens, seduziu os oprimidos para que revelassem e canalizassem poder e se entregaram por inteiro à Floresta dos Encantamentos – o WildWood, o bosque selvagem. Ele é um feiticeiro magistral e sábio, pelo menos esse seria o ideal, continuamente refinando suas relações, cultivando conexões, cantarolando encantamentos de apelo sensual. É um conclamador de Espíritos e um conversador de criaturas. Qualquer estudo periférico de Bruxaria presente no folclore vai assinalar a capacidade do Bruxo de comungar com seres não humanos, como se houvesse um pacto ancestral e secreto entre eles, e, ao fazê-lo, conspiram contra os paradigmas que oprimem, subjugam, atormentam e lucram à revelia do delicado e feroz equilíbrio entre todas as coisas. Parte desse equilíbrio é a manifestação de forças escuras, destrutivas e degenerativas quando as comunidades humanas começam a se impor sobre os lugares selvagens. De fato um bruxo, enquanto é certamente humano, evocando o jorro completo de emoções humanas, é também um guardião do Coração Selvagem – ainda hoje isso é assim, uma aspiração, uma verdade profunda que orienta as muitas expressões da Nossa Arte, Nossa Mais Nobre Arte.

A Bruxa também é uma sacerdotisa; Ela é consorte com os Deuses, aqueles Espíritos grandiosos e potentes, aliados à humanidade – ao que tudo indica – a quem já dissemos: “Que o Louvor, a Paz e o Poder estejam convosco – vós haveis enobrecido nossa raça!”, e o fizeram. Assim, nossos clãs plurais guardam, mantêm e fomentam pactos com esses seres. É triste que muitos tenham perdido, violado e destruído esses consórcios, pois os Antigos Deuses, conquanto onipresentes, se retraem e caem no esquecimento. A grande renascença do paganismo no mundo ocidental de hoje está servindo para revigorar a presença Deles entre o povo. Embora, na verdade, parece que os Deuses Antigos estão em constante renovação e são especialmente astuciosos. Seus Nomes são invocados constantemente em slogans publicitários, nos nomes dos dias da semana, nos meses do ano, em programas de televisão, no cinema, nos livros. Os seres humanos são criaturas ao mesmo tempo altamente inovadoras e acomodadas, da assim chamada superstição, e ainda batemos na madeira, sabemos nossos signos solares, procuramos videntes e intérpretes dos augúrios, sinais e auspícios e aventamos um mundo prenhe de magia selvagem.

Bruxos são da cura – em nosso trabalho espiritual, muitos induziram conexões com o Reino Vegetal, obtendo remédios e também venenos – e o agora infame ditado “Um bruxo que não consegue ferir não consegue curar” sublinha nosso trabalho. Precisamos ser capazes de trabalhar com ambas as “mãos”, segundo o falecido Andre Chumbley declarou – de bênçãos e dádivas, maldições e amarrações – para que possamos efetuar o trabalho de limitar o comportamento inescrupuloso e de malignidade duradoura nas comunidades humanas e em nossas próprias redes de familiaridade e afeto. Também estamos abrindo as portas para a abundância, a prosperidade, o amor e a clareza. Precisamos ter capacidade de enervar a psique para frutificar aquilo que é Justo entre nós em nossa necessária e valiosa relação com o Outromundo, ou seja, o mundo além-do-humano que é inteiramente encantado.

Somos poetas, somos os magos da palavra, somos os cantores de feitiços aos Ventos das Direções, que as Sentinelas Ancestrais possam nos ouvir, fortalecendo e guiando nosso trabalho. Algumas de nossas lendas contam que somos filhos dos Nefilins, da prole dos Decaídos que “caíram de amores” com as radiantes e lindíssimas Filhas dos Homens e nos dotaram de seu Fogo Hábil, a Chama Bruxa. Esse foi o começo do chamado Sangue Feérico e Sangue Bruxo e alguns de nós somos tão gêmeos e irmãos das raças fadas que somos levados a nos tornar Faerie Doctors, curandeiros, e, com nossos aliados do reino Fae (Encantados), somos dados à sabedoria do Povo Verde, para que deles possamos atiçar soluções para problemas que podem mesmo ter começado com os Bons Vizinhos. Alguns encantados também estão dispostos a conceder dádivas e ativar bênçãos em gente humana, repito, contanto que nosso pacto seja rico e vital, honesto e honrado.

Somos videntes, somos treinados nas Artes que perfuram os Véus, tantas vezes tidos como aquilo que define onde começa um reino e termina outro. Somos dados a trabalhos e modos que expandem e contraem nossa força-vital, a presença de nossa consciência e sua inerente mutabilidade, para que possamos ter um vislumbre da Grande Eternidade destilada em momentos na espiral de acordo com nosso envolvimento pessoal e (in)ação, ou mesmo um envolvimento coletivo e (in)ação. Para isso, nós fazemos Jornadas, somos xamânicos; alguns até diriam que Bruxos são Xamãs, e, em boa parte do nosso trabalho, somos mesmo. Parte de nosso trabalho pode ser menos sancionada pelas convenções sociais, mas, de novo, os processos internos da maioria dos praticantes de xamanismo deixariam a maioria das pessoas aterrorizada e exausta só de ouvir falar. As pessoas são sempre cautelosas perto de qualquer um que esteja em forte contato com o Outromundo e as forças e poderes “Outros”, já que são voláteis, vistas como caóticas, instáveis, e, em última instância, aterrorizantes de um jeito que não exige aptidão moral, mas uma audácia perigosa e tola. O tipo de audácia evocada pelo Amor é o tipo de audácia que as Bruxas se tornam habilidosas em produzir quando falamos com os Espíritos, quando tecemos com o Mistério (Wyrd). É o motivo de chamarmos isso de Trabalho, um Ofício. Cada cultura tem uma atitude diferente na sua relação com os tipos de indivíduos a que poderíamos chamar de bruxos. Cada comunidade pode ter suas próprias histórias, lendas e folclore por trás daquela pessoa à margem do vilarejo ou aldeia, que supostamente sai à noite para onde “pessoas de bem” não sonhariam ir e compactua diretamente com Espíritos perante os quais “as pessoas de bem” se acovardariam. Mesmo quando as qualidades benéficas ou radiantes desses Espíritos são óbvias, muita gente tradicional ainda preferiria errar escolhendo a opção mais segura.

Quando fazemos as jornadas, quando voamos, quando entramos em transe e saltamos o muro, mergulhamos fundo na Escuridão, espiralamos em condutos aquíferos ocultos, ou rasgamos o céu como cometas, estamos em missão, estamos caçando e quiçá sendo perseguidos pela própria coisa que caçamos. Somos sonhadores nisso, capazes de, ao mesmo tempo, nos relacionar através de histórias com o que é Profundamente Real e extrair através da vontade as ferramentas e poderes necessários para podermos concluir a jornada em segurança, embora nem sempre nos sintamos seguros ao fazê-lo. Somos desafiados, e embora seja difícil assustar uma Bruxa, ainda somos criaturas primitivas, e perder o senso do Sagrado Terror é perder o impacto e o sublime e, portanto, o sentido da magia profunda.

Somo iniciados – como outros xamãs – e esses Deuses do terror da Iniciação são também os Portadores e Mensageiros da Luz que nos auxiliam em nossa maestria. Esse é o Nosso Diabo, Nosso Mestre, Nosso Rei de Chifres com a Chama entre as Marcas de Sua Coroa. Nossa Senhora é a Fonte de Nosso Poder e a Rainha das Fadas e das Bruxas, do encontro entre os Reinos Verde e Vermelho, para que juntos possamos compreender os Mistérios do Branco e do Preto, de onde emergimos e para onde caímos. A Rosa Azul, a Chama Azul, é com frequência o sinal de nossa feitiçaria, por habitar e sussurrar entre todos e ser o Graal dos Mistérios Ocultos, potentes por não podermos falar deles de jeito nenhum.

E assim criamos Arte das Palavras, sugerindo e apontando para os Mistérios, deixando sinais e pistas, mas jamais entregando o ouro; somos impossibilitados. E assim somos humildes e honrados e exaltamos a quintessência uns dos outros, Nossa Divindade, enquanto giramos nossas rodas, assumimos nossas cores, derramamos tinta e óleo sobre a tela, exprimimos som e ritmo e a poesia da escrita que palpita no coração e estremece a fundação dos mundos. Ao menos é esse o objetivo. Se nossa arte puder nos desfazer e abrir o olhar e o coração ao caminho rosado beijado pelo espinho; se pudermos sentir entre os dedos, na malha de carne e osso, os filamentos de Deus, do Esquecimento e de Faerie formando uma trança bem urdida, então nossa Arte É Nobre!

Alguns de nós, não todos, são meretrizes selvagens – messalinas sagradas – e trabalhamos com a sombra e a música do sexo para que possamos exaltar esse dom mais precioso da nossa Deusa e refazer a urdidura e a trama estrangulada e rasgada em uma tapeçaria plena e forte, adornada por nossos atos sexuais. Gememos, suspiramos, beijamos, guinchamos, lambemos, acariciamos, mergulhamos, fodemos em feroz devoção ao que é mais primitivo, que é mais internamente aterrorizante, aquele alcance perigoso e profundo para que possamos revelar de verdade que TODOS OS RITOS DE AMOR E PRAZER SÃO OS RITUAIS DELA! Palavras manifestas por um Bruxo, um Poeta, um Sonhador, um Vidente, que teve ouvidos para escutar!

Somos professores – passamos adiante o folclore e as técnicas avermelhadas, legendárias e formatadas segundo a maneira que fomos ensinados, mas todos os bons professores de Bruxaria sabem que nossos mestres originais e contínuos são os Antigos, as Sentinelas, aqueles que se apaixonaram por nossas ancestrais, que enobreceram nossas aspirações e nos ofereceram a Arte, aqueles das Raças Feéricas que se aliam a nós e nos testam, os Elementos leviatânicos e ancestrais, os Deuses para quem sussurramos na noite e a própria Senhora do Destino.

Somos aspirantes. Vivemos pela experiência e testamos a Verdade no Caldeirão do Caos. Somos Bruxos.”

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Um programa de formação na arte da magia sagrada

Tenho dificuldade para me encaixar. Sempre foi assim. Me foi dado um nome raro, não me furaram a orelha quando pequena, sou canhota. Já começou daí a sequência de diferenças que viriam a marcar minha passagem pelos rincões do planeta.

Não bastasse isso, me desloco. Ao escolher uma nova casa em um novo lugar, preciso começar tudo de novo, fazer redes de amigos, conhecer o meio pagão local e buscar um grupo para me inserir.

Depois de cinco anos de volta ao Brasil, estou decidida a atender ao chamado de ensinar aquilo que me foi passado e formar eu mesma um grupo novo de práticas e devoção. Um grupo novo em folha, mas de técnicas e ensinamentos muito antigos, mesclados ao que nos oferece a globalização.

Eu passei por uma formação mágica de escola de mistérios com um professor americano, um programa pesadíssimo que praticamente faz a gente abdicar da vida mundana para poder completar. Como esse nível de dedicação é quase impossível, o que vou repassar é uma versão adaptada para um tempo maior, com um pouco menos de volume de trabalho por período, embora não menos exigente.

Muito importante salientar que a educação mágica que ofereço é na linha da Bruxaria Tradicional Moderna. Para entender melhor que raio é isso, clique aqui, onde explico direitinho essa vertente.

Desde os tempos antigos, as escolas de mistérios existiram para saciar a sede daqueles que sentem o chamado da busca pelo conhecimento, tanto de si quanto dos mundos invisíveis. É uma universidade do saber da alma, onde aprendemos a despertar e desenvolver nosso potencial mágico e espiritual. O objetivo é um profundo conhecimento e maestria do seu eu para poder fazer o meio de campo entre as forças espirituais e o plano físico, trabalhando curas pessoais, com resultados visíveis na melhora da sua qualidade de vida e de relações, e também trabalhar a serviço de curas planetárias, auxiliando os vários planos, mediando energias e oferecendo sua colaboração na recuperação do equilíbrio terrestre nos diversos reinos.

Sobre a formação

O currículo é composto de um plano de 12 aulas mensais, algumas precisariam ser presenciais, material de leitura e tarefas que envolvem desde práticas das técnicas ensinadas (algumas de preferência em duplas) até pesquisas individuais e também construção de objetos.

Algumas teorias e práticas abordadas:

* trabalhando os quatro elementos

* artes divinatórias e abertura dos sentidos

* defesa energética

* autoconhecimento e autotransformação

* sistemas energéticos do corpo: chakras, meridianos, doshas

* medicina energética básica

* magia com velas, talismãs, ervas, pedras

* magia com tarot

*alinhando sua alma tríplice

* jornadas xamânicas

* celebrando a sacralidade dos ciclos e dos elementais do lugar onde você habita

Não é um programa iniciatório, mas, ao final dos primeiros doze meses, todos que concluírem o currículo de maneira satisfatória e passarem por um exame final, podem prosseguir para o segundo ano, avançado, onde poderão explorar mais profundamente a área de sua escolha, o caminho do mago, o caminho do bruxo ou o caminho do curandeiro, e ser convidado a integrar um clã de bruxaria em formação.

Esse programa terá início na segunda quinzena de outubro  – primavera do hemisfério sul. Caso tenha interesse, entre em contato pelo email petruciafinkler@gmail.com para mais informações.

O número de alunos que posso aceitar é limitado pela minha capacidade de acompanhar de perto a evolução de cada um e poder me manter presente e disponível como mentora dos processos.

Distância geográfica não é um impedimento para a formação, embora eu adoraria ter um pequeno grupo em São Paulo. Questões financeiras também não devem ser um impedimento. Se as coisas que normalmente escrevo, ou algo em mim fala à sua alma e  você sente que gostaria muito de me ter como orientadora, entre em contato comigo.

***A primeira turma foi decidida e fechada no dia 2/9/2015. Devo abrir novamente para interessados em julho ou agosto de 2016.

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carta do “Journey into Egypt Tarot” de Julie Cuccia-Watts

Canção para uma existência distraída

Todas as coisas são uma só coisa e vêm de uma só coisa. Poeira estelar, poeira lunar, poeira solar e planetária. Deste pó viemos todos nós. Belos, unidos em uníssono, somos Deuses maxi potentes, mas não o sabemos, pois estamos e somos em pedaços.

Retalhos de nós, retalhos do que podemos ser; frangalhos e migalhas de mil espelhos, onde nos vemos refletidos, todos os dias, numa miríade de ferramentas virtuais ou não, mas que apenas conseguem refletir uma parte do que nem chega perto da força e da beleza de nosso âmago. Sabemos o que é essa força e essa beleza? Não. Não tocamos, não mergulhamos, não adentramos nosso coração e espírito. Uma pena. Uma dor que aumenta e nada cura, ao menos nada do que comumente buscamos. Estamos voltados na direção errada como espécie.

Nosso amor ainda vive em fagulhas internas, sedentas de toque, sedentas de atenção. Dê. Elas, assim que atiçadas, podem se tornar labaredas que consomem as dúvidas, as incertezas, a falta de caminho e a falta de ânimo. Para desfrutar da vida, que é o único motivo verdadeiro de estarmos aqui, há que se atiçar essa chama.

Busca teu espírito antes que ela se apague. Veja se está em brasa — se enxergares é porque ela ainda queima, mesmo que tênue.

Quem alimenta a chama e encontra o vazio em si fica pleno. Só assim poderemos ser. Longe das distrações, dos ruídos, das exigências externas e internas. Apenas.

Adentre seu âmago

Adentre seu âmago

Bruxaria Tradicional – uma vertente pagã aberta e fascinante

É fato que, de todas as tradições de bruxaria possíveis no paganismo, a Wicca é hoje a mais difundida, mas vale lembrar que embora todo wiccano seja bruxo, nem todo bruxo é wiccano. Eu, por exemplo, embora tenha muitos amigos em diversas tradições da Wicca e participe de muitos eventos e festivais organizados por templos e igrejas de Wicca, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, não sou praticante dessa linha, mas sim do que se chama Bruxaria Tradicional ou Old Craft. Submission-3-The-Unborn

Porém, acho necessário esclarecer que minhas práticas e minha linhagem também não são as mesmas dos conceitos e preceitos sobre os quais foi fundado no Brasil o Conselho de Bruxaria Tradicional. Pelo que entendi  através do material da organização e também de conversas com o pessoal do Conselho (e posso estar equivocada), eles consideram Bruxaria Tradicional as linhagens de ensinamentos e práticas que descendem diretamente de práticas familiares ou locais da Europa pré-cristã e que sejam puras e fiéis à região de onde a tradição provém. Por exemplo, se minha tradição é Britânica, eu não poderia misturar panteões de deuses, mesmo morando nas Américas, mas sim preservar e conectar-me com os deuses de um único panteão, Celta, digamos; bem como eu não poderia misturar práticas de magia cerimonial ou de outras linhas mais modernas ou não.

Há quem defenda por aí que Bruxaria Tradicional mesmo não existe, por não existir mais nenhuma tradição tão pura que não tenha sofrido influências ao longo dos séculos, e também há quem diga que Bruxaria Hereditária (que é uma vertente considerada tradicional) é algo inventado e muito discutível. Discordo desses dois pontos por conhecer e descender (no sentido de ter por mestres e ter recebido linhagem) de bruxos incríveis que são exatamente dessas vertentes. A força e a verdade de um mago ou bruxo a gente conhece pelo trabalho e pela vida da pessoa, acho dispensável ficar debatendo se os meios pelos quais a pessoa faz seus contatos nos outros mundos –  e desenvolve seu trabalho neste –  são ou não validados pela pequenez de nossa classificação e hierarquias humanas. Isso é necessário quando a pessoa quer fazer ou se diz parte de uma tradição instituída com regras próprias;  fora isso, tudo é possível, e temos de estar abertos a todas as formas pelas quais os poderes podem se manifestar e os conhecimentos podem ser transmitidos aos andarilhos desses muitos caminhos.

A Bruxaria Tradicional na qual percorro meus dias e trabalhos mágicos é em parte pré-Wicca e dela difere em várias coisas, porém tem sim misturas bem contemporâneas, o que é impossível de evitar já que estamos tão globalizados (não só em nossas informações, mas em nossos próprios genes!!!), e por isso estou curtindo muito a nova alcunha que vi para o termo: Bruxaria Tradicional Moderna.

Meu amigo, e agora também professor, Gede Parma, que é um autor pagão australiano,  anda fazendo umas postagens no facebook compartilhando certos conceitos sob sua ótica  de bruxo tradicional.

Achei a definição de Bruxaria Tradicional maravilhosa e pedi permissão para traduzir e postar – a qual ele concedeu. Segue, portanto, a definição de Tradicional Witchcraft ou Old Craft segundo Gede Parma:

“1. Um movimento diverso do renascimento da Wicca nos anos 1950 e 60, centralizado inicialmente em torno de Robert Cochrane (Roy Bowers), o mestre original (conhecido) do Clã de Tubal Cain. Alegações de linhagem/costumes de bruxaria mais autência ou pré-moderna eram centrais a esses debates e perspectivas. Por fim, embora o movimento moderno conhecido amplamente como Tradicional ou Old Craft seja contemporâneo da Wicca, não deveria, na minha opinião, ser definido constantemente contrapondo-se a ela.

(Com uma ressalva: um Wicanno Gardneriano pode de fato ser um bruxo tradicional, assim como um bruxo tradicional pode também ser iniciado na Wicca. Enquanto o ritual da Wicca aparenta ser fundamentalmente baseado em magia grimórica salomônica e renascentista, o ritual da maioria das linhas de Bruxaria Tradicional bebem do folclore europeu codificado em histórias/canções/rimas antigos, costumes localizados e também do testemunho de várias bruxas acusadas durante a Inquisição).

2. Qualquer prática de bruxaria ou linhagem/tradição/clã inspirados na bruxaria histórica e folclórica da Europa e sua diáspora, identificando-se com ela de formas texturizadas e narrativas.

3. Assim como no item 2, e potencialmente se identificando com o item 1, uma bruxa tradicional trabalha tanto com linhas vermelhas quanto brancas. A linha vermelha se refere ao conhecimento e práticas bem avermelhados, passados de mão em mão, de boca a ouvido, do sopro à carne, através do tempo e do espaço. A linha branca é a gnose iniciática/iniciatória e a comunhão reveladora aprofundada ou visionária com o Outro Mundo, com os espíritos, com os espíritos pessoais,  por exemplo, Inspiração. Bruxaria sem conexão  e sinergia conscientes (como pactos, casamentos e promessas) com os Espíritos, definitivamente, não é bruxaria tradicional.

Passada a mim pelo Fogo Divino

pelo Olho, de novo e de novo

Branco o clarão do Lorde Serafim

Fiado dentro da Próprio Corpo da Mente

Vermelho o Rio inchado e forte

na terra da Soberania

onde rainhas antigas deram luz

às histórias que me libertariam

Vivificado em prata na Noite

onde o silêncio traz o sonho carregado

entre o Pensamento e a Memória

Ó antigo conceda a Chama Real

Três Fios trançados em meu Cordão

Serpente Viva no meu pescoço

pendurada como o laço do Enforcado

Astúcia dos bruxos, feito dos bruxos.”

Gede Parma ainda adiciona abaixo do post mais alguns comentários:

“Exemplos de Tradições contemporâneas que são consideradas ou se dizem ‘Tradicionais ou Old Craft’ incluem:

Clã de Tubal Cain

Cultus Sabbati

1734

Anderson Faery/Feri (também chamado Vicia)

Anderean Craft

Sophian Thread of WildWood

Glenshire Order of Witches

Lady Circe’s Lineage and Mantle-Bearers

Além da miríade de outros grupos e indivíduos conhecidos e desconhecidos que usam ou não algum nome.

Também devo mencionar que outra explicação muito direta de Tradicional ou Old Craft é qualquer grupo, prática individual, ordem ou linhagem que seja anterior ao revival dos anos 1950 e dá seguimento a costumes, técnicas e conhecimentos mais antigos.

E AINDA, que estou ciente de que dentro das tradições Gardnerianas e Alexandrinas há amplos conhecimentos tradicionais, práticas e técnicas!”

Então aí está. Espero que esses comentários ajudem a esclarecer mais uma das vertentes possíveis para vivermos essa espiritualidade tão fascinante.

Walpurgis

Refletindo sobre as estações, lembro que

no reino dos seres elementais, das fadas,

tudo é  inverso e o avesso do nosso, eles mesmos dizem.

Mas nem precisamos ir para o outromundo para testemunharmos uma inversão:

nosso lindo planetinha,

como uma pilha-bateria,

nos mostra diariamente que

no hemisfério de cima, o sol gira para um lado,

no de baixo, para o outro.

Que o hemisfério de baixo tem calor

enquanto o de cima passa frio.

Complementaridades

duas faces opostas unidas pelo aço de um espelho

– divididas pelo véu da percepção

ou onze horas num avião da United.

 

Aqui, hoje, Beltane.

Nosso Beltane do sul é escorpionino

É mais safado, ferrenho, sedento,

misterioso e mórbido. Mas é Beltane.

Porque o que vem a seguir, é mais calor e mais vida.

Quem lê muito (ou vê e sente) sabe

que são  duas as datas onde o véu entre Este

Mundo e o De Lá vira um nada de um fio de linha:

Samhain e Beltane.

Grandes marés de poder quando

fadas e espíritos atravessam as linhas, os véus e os espelhos.

 

Faço massagem sueca com um massagista sueco.

(Sei que sou sortuda)

Ele ontem me perguntou do Halloween. O que eu acho?

Comento que para mim  a energia é a do oposto, Beltane, que corresponde ao 1º de maio para o norte.

E ele então me conta que, na Suécia, um país com fortes resquícios Pagãos,

o dia das bruxas mesmo é o 30 de abril,

quando fogueiras imensas são acesas por todo o país

porque as bruxas estão se reunindo.

E o povo se diverte bebendo e cantando e iluminando com fogueiras a chegada da primavera.

(O fogo é um portal para a Grande Branquidão e a Escuridão do além e também um protetor contra tudo de ruim que pode vir colar em nós numa noite de poder.)

Uma celebração que em sueco se chama Valborg

Mas a gente também conhece por Walpurgis.

No folclore germânico, a Walpurgisnacht,

a noite entre 30 de abril e 1º de maio,

é quando as bruxas de reúnem no pico de Brocken e festejam com seus deuses.

Como tantas datas  do norte da Europa, a força do dia é celebrada na noite da véspera.

31 de outubro/1º de novembro * 30 de abril/1º de maio

Duas noites de energia muito poderosa e espelhada,

que vale para qualquer ponto onde você estiver no globo,

“Nas quais, todos que partilhem da reunião do sabá serão aqueles cujo contato com o mundo sutil será estabelecido e gradualmente se fortalecerá.”

Nosso Beltane do sul carrega muito bem essa energia de Walpurgis.

Não é preciso importar e inverter datas e rodas quando nossa natureza de poder funciona perfeitamente bem.

Celebremos então o amor, celebremos a fertilidade da terra

e a natureza mística, oculta e profunda do sexo e da morte.

Feliz Beltane! Feliz Walpurgis!

 

Noite de Walpurgis

“(…) A terra escura se espalhou como uma tapeçaria antiga

Não passava de uma negrura sem fim, grávida de vida invisível.

Na escuridão, surgiram fogos em tal número

Que as estrelas acima poderiam ter pensado a terra como espelho delas.

E os pés de Walpurga se moviam nos espaços escuros entre os fogos

Pés tão jovens, pisando uma terra mais antiga do que ela podia imaginar.

Nos locais iluminados pelas chamas, as coisas vivas levantavam voo

Até a longa sombra do Brocken, que alcançava o sonho de qualquer pessoa.

Elas voavam, levando com elas a história inteira do mundo.

 Quem escuta a verdadeira história do mundo? Quem voa para os braços

Do Mestre de uma história tão comprida e antiga? Quem tem tamanha coragem?

Que bruxa ou vidente conseguiria suportar a terrível visão

Do verme devorador chamado Esquecimento? (…)”

 

Noite de Walpurgis em Thingstätte na Montanha Sagrada em Heidelberg, 30 de abril 2007

Noite de Walpurgis em Thingstätte na Montanha Sagrada em Heidelberg, 30 de abril 2007

**os trechos entre aspas são retirados do livro “Letters from the Devil’s Forest: An Anthology of Writings on Traditional Witchcraft, Spiritual Ecology and Provenance Traditionalism” de Robin Artisson.

Bê-á-bá do paganismo – ou uma ajuda para quem me pergunta: “Hã, você é o quê?”.

Quando se tem um caminho espiritual que foge ao convencional (especialmente quando é fora das três grandes religiões – judaísmo, cristianismo, islamismo) é difícil escapar a comentários ou perguntas totalmente atrapalhados de pessoas com as melhores intenções. Quando digo que sou pagã, quem tem alguma vaga noção do que seja me presume Wicca (que é apenas uma das vertentes do paganismo), se falo em Bruxaria Tradicional, me imaginam fazendo poções, feitiços e conjurando espíritos nas horas vagas e, uma vez, tentando explicar para uma moça que eu não era cristã, ela me respondeu: “Ah, tudo bem, também não sou católica”.

Não, darling, não foi isso que eu disse.

Para ajudar as pessoas de fora a entenderem essa espiritualidade que cresce muito rapidamente (tanto em números de curiosos quanto de praticantes), dar algum tipo de norte para quem está buscando entender mais sobre essa fé – e também para alguma mãe que descobriu que a filha adolescente agora anda com um pentagrama pendurado no pescoço e lendo livros de bruxaria –, achei que poderia escrever um textinho bem básico e esclarecedor. Outro motivo válido é oferecer conhecimento para ajudar a erradicar a ignorância que leva às atitudes de intolerância religiosa.

Denominadores comuns

um altar coletivo

um altar coletivo

Paganismo, ou melhor, neopaganismo é um termo bastante amplo que inclui várias práticas distintas de espiritualidade sempre baseadas em crenças pré-monoteístas, variando desde a Wicca, que é a denominação mais conhecida hoje em dia, ao Asatru, Helenismo, Kemetismo, Druidismo, Xamanismo e a Bruxaria Tradicional entre outras – lembrando que o Candomblé, o Budismo e o Hinduísmo também são religiões que figuram tecnicamente como paganismo. Algumas linhas tentam reconstruir práticas religiosas pré-cristãs, outras se fundamentam em panteões de deuses e rituais antigos reinterpretados para nosso mundo moderno globalizado e tecnológico.

Como cada um tem práticas, crenças e linhas muito distintas, vou tentar resumir e apresentar alguns conceitos que são comuns à maioria:

  1. São religiões ou espiritualidades NÃO- cristãs. A exemplo do judaísmo e do islamismo, a figura de J.C. não conta e não entra em nossas preces e rituais. Porém, no Brasil, onde tudo é muito misturado, tudo é possível. Quem nunca entrou numa lojinha esotérica e encontrou lá aquela famosa imagem do sagrado coração de Jesus? Como eu disse, aqui é tudo misturado, é quase inconcebível para muita gente que a pessoa seja espiritualizada e dê zero importância à figura pendente na cruz, então não duvido que tenha gente que concilie esses caminhos.
  2.  Não há nenhum dogma, nenhum livro ou ensinamento máximo estabelecendo no que as pessoas devem acreditar ou como devem levar suas vidas. As diferentes tradições têm práticas e linhas mais estabelecidas, mas há muitos pagãos ecléticos que misturam o que faz sentido para eles, e mesmo quem tem linhagens específicas ainda assim tem sempre abertura para (e deve!) desafiar o que quiser e seguir a descoberta do seu caminho dentro de uma determinada tradição. No fundo, então, você é sempre seu próprio pastor e guia. Isso exige uma responsabilidade pessoal do caramba. Há linhas que enfatizam rituais mais formais e cerimoniosos, outras praticam xamanismo e curas naturais, há quem prefira se dedicar a artes manuais, ervas medicinais, feitiços, meditações ou até cozinha mágica. As formas de viver e manifestar nossa espiritualidade são múltiplas.
  3. A divindade (Deus/Deusa) é honrada como imanente na natureza, ou seja, a divindade mora dentro, e não, fora. Como essa força está dentro, não ficamos procurando transcender a matéria para atingir algo que está no além e distante de nós. O paraíso é aqui e ter um corpo é o maior presente.
  4. Deus é Deus e Deusa. A força criadora é vivida como uma polaridade. Nos rituais e cultos, a Deusa tende a ser mais celebrada em várias das tradições, afinal nosso planeta é feminino (Gaia), a Natureza é Mãe e quem dá a vida é a mulher.
  5. Além da força criadora primordial se dividir em polaridades masculina e feminina, muitos pagãos também são politeístas, cultuando diferentes panteões das religiões antigas,vendo nos diferentes deuses e deusas e suas características as representações das várias faces da divindade primordial. Muitos são ainda animistas, respeitando a alma e a consciência que habita todas as formas de vida e até corpos inanimados.
  6. Sendo uma espiritualidade voltada ao culto da terra, são celebrados os festivais das estações do ano e os ciclos de morte e renascimento.  A roda da vida é sagrada em todas as suas manifestações, assim como também são sagradas as direções dos pontos cardeais e os quatro elementos da natureza. Como a natureza é sagrada, um dos traços mais comuns em todas as variadas manifestações possíveis do paganismo está na consciência ecológica e todas as práticas green.
  7. A maioria dos pagãos acredita na reencarnação, mas conheço alguns que não partilham dessa ideia.
  8. Nos reunimos para celebrar nossa espiritualidade e praticar magia, que envolve práticas ancestrais como encantamentos,música, dança, exercícios de concentração, rituais de cura e muita visualização criativa.
  9. A responsabilidade pessoal é muitíssimo enfatizada. Cabe a você decidir o que é certo e errado, mas, lembre-se tudo que vai volta. Ponto. Ninguém escapa da lei do retorno. Para os wiccanos, então, tudo que você faz volta multiplicado por três. Entendeu o tamanho da responsabilidade de arcar com nossos atos e nossas escolhas?

As tradições

o templo mais perfeito é a natureza

o templo mais perfeito é a natureza

A mais comum hoje é a Wicca, uma forma de bruxaria que surgiu na década de 1950 e é muito praticada nos Estados Unidos e no Brasil. Das tradições wiccanas originais que são as linhas Gardneriana ou Alexandrina, surgiram várias outras como Feri, Diânica. Helênica, Céltica, etc.

Além dessas formais, há tradições familiares, de bruxas e bruxos que passam seus ensinamentos de pai para filho dentro de uma mesma família, como acontece na stregheria italiana, ou a alguém que eles “adotam”.

Há também muitos praticantes solitários, então a pessoa estuda as tradições, apreende aquilo que sente fazer sentido para ela mesma e cria suas próprias combinações e rituais.

“Coven” é o nome dado ao grupo de bruxos praticantes das tradições mais contemporâneas. Bruxos de linhagem familiar ou os praticantes de bruxaria tradicional se organizam em Clãs ou são descendentes de um clã. Os grupos são liderados por um sacerdote ou sacerdotisa (ou os dois), e é importante verificar se essas pessoas tem estofo, se passaram por vários anos de estudo e foram iniciadas em uma tradição em particular – não basta se dizer sacerdote, tem que ter café no bule.

Tradições formais e sérias exigem dedicação e um programa rígido de estudos antes de considerar o aprendiz para uma iniciação. Bruxaria não tem certificado, e “iniciações” oferecidas em cursos rápidos de uma tarde não fazem sentido algum. É um trabalho demorado, de muito autoconhecimento e muita dedicação para se estabelecer contatos nos mundos interiores. Por isso, esse caminho não é para todo mundo.

O que a bruxaria não é:

NÃO é satanismo. Essa figura nem existe nas religiões pré-cristãs. Não acreditamos em céu, inferno e diabo. Como é que iríamos cultuar uma figura na qual sequer acreditamos?

Também não é ficar fazendo feitiços, poções e magia. Há uma diferença entre feitiçaria como prática e bruxaria como espiritualidade. Qualquer pessoa de qualquer religião pode fazer feitiços. Um ateu pode fazer feitiços se quiser. Feitiçaria não necessariamente envolve celebrações específicas, práticas de devoções à natureza e, muito menos, exige que se leve em conta alguma ética e o respeito ao livre-arbítrio do outro. Para ser um feiticeiro poderoso não é requisito celebrar o equinócio da primavera nem assumir conscientemente a responsabilidade de sermos parte de uma grande rede cósmica onde nosso papel é sempre buscar uma evolução maior; mas, para um pagão sério, essas coisas vêm antes do preparo de uma maldição para estragar o aparelho de som do vizinho.

Para muitos, a bruxaria é antes de tudo uma prática religiosa, de fé, de sintonia consigo mesmo e com o mundo natural. É abrir-se para escutar o vento, sentir a água, ler o fogo e relaxar na terra. Magia é alterar a energia e a consciência por força da vontade. Magia é parte importante da bruxaria, mas há bruxos que quase nunca fazem feitiços, e muitos fazem para transformarem a si mesmos, num esforço de se lapidar internamente para, aí sim, manifestar no externo a prosperidade, a sabedoria e, principalmente, a paz e a harmonia que todos desejamos na vida.

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