Politeístas e suas muitas relações com as divindades

Em um thread facebookiano,  de alguém tentando genuinamente entender como politeístas veem seus deuses, se como entidades separadas ou arquétipos, me peguei resumindo uma parte do material de uma palestra que dei anos atrás no Festival de Paganismo Grego do Faces da Lua em São Paulo, “Estabelecendo e fortalecendo a relação com nossos Deuses: da reverência ao amor romântico, descoberta e revelação de mitologias”.

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Dionísio – British Museum, Londres.

O fato é que a resposta não é única e inclusive varia de praticante para praticante, até dentro de uma mesma tradição e círculo. Ou seja, a forma como cada um se relaciona e percebe sua fé nas diferentes divindades é íntima, pessoal e intransferível.

Para os pagãos politeístas, nossas divindades podem ser percebidas em diferentes níveis, tanto como entidades personificadas com as quais nos comunicamos, como faces de uma força maior e transcendente ou até mesmo há quem sinta que eles não sejam factuais, porém, no entanto, ainda assim existem enquanto elementos de construção humana.

O relacionamento em si com nossos deuses varia desde uma apreciação distante e reverente, passa por uma sensação de parceria e amizade e pode chegar ao amor romântico.

A busca pelo entendimento de qual é essa relação de cada um ou  se existe algo mais geral que se aplicaria à maioria é antiga e já gerou muito textão e pesquisa por aí. Vou partilhar aqui uma abordagem que acho muito clara e inclusiva.

De acordo com os magos canadenses Margarian Bridger e Stephen Hergest da Evergreen Tradition,  no ensaio que escreveram com o título “Pagan Deism: Three Views”, seriam três as formas mais comuns de pagãos relacionarem-se com o conceito de divindade. As três propostas formariam as três pontas de um triângulo, e para facilitar a referência a elas, eles escolheram cores:

“Vermelha: a primeira dessas pontas seria a visão ortodoxa deísta: os deuses são entidades individuais, próprias, com nomes, com as quais podemos nos comunicar quase tal qual nos comunicaríamos com seres humanos. Eles podem ou não ter forma humanoide. Existem em uma forma (“nível”, “plano” ou “dimensão”) que fica muito além da compreensão humana, mas sua existência é verificada de maneira objetiva.

Azul: A divindade existe. Trata-se do Sagrado Irrevogável/ o Grande Mistério/ a Fonte. É tão grandiosa, tão sutil, tão abrangente, que não podemos  esperar compreender mais do que uma pequena fração dela. Sendo humanos, nos relacionamos melhor com aquilo que tem características humanas, assim temos “deuses”: metáforas humanoides ou máscaras às quais aplicamos à Face sem rosto do grande Todo para que através deles possamos apreender e nos relacionar com uma parte desse Todo.

Amarela: Os deuses existem apenas como construções da imaginação e da mente humana. São Verdades. Formas válidas de dar sentido ao pensamento e experiência humanos, personificações de um abstrato que poderia, não fosse isso, ser escorregadio demais para nossa mente compreender, mas não são Factuais; não têm uma existência que possa ser comprovada. Assim como outras abstrações (por exemplo Liberdade, Democracia, Amor, Verdade)  enriquecem nossas vidas e vale a pena acreditar neles, mas é ingênuo pensar que teriam uma existência passível de comprovação objetiva. Não faz diferença que não sejam factuais; são verdadeiros e é isso que importa.” triangle

A crença de grande parte das pessoas não se encaixa certinho em uma das pontas, mas mescla mais de uma cor. Muitos bruxos que trabalham com o Divino Feminino, poderiam se autoclassificar como algum tom de verde, colocando-se em algum lugar entre o azul e o amarelo. Na minha prática, eu ficaria mais na face “roxa”, transitando entre o azul, que para mim descreve a existência de uma força ilimitada, uma consciência única que tudo rege e tudo permeia (um pouco relacionado ao Ain Soph da Kabbalah), mas na prática diária, sou da ponta vermelha, com imagens, preces e rituais de devoção a faces específicas de certas divindades. Há quem se identifique com um conceito mais “laranja”, com uma relação pessoal com os deuses, porém agnósticos quanto à natureza desses deuses. Ateus e junguianos podem se afeiçoar mais à ponta amarela.

O importante é ressaltar que não há conceito “certo” ou mais “divino” do que outro. É apenas um esquema para analisarmos nossa própria percepção e momento, afinal nossas crenças podem mudar ao longo da vida. É bacana refletir sobre onde nos encaixaríamos e de que forma nossos conceitos podem se alterar junto com nossas experiências.

Bruxos, sejam tradicionais, wiccanos, druidas e outros,  podem cair em pontos bem distintos do triângulo e, no entanto, compartilhar das mesmas práticas mágicas e rituais sem perceber que o que é literal para um, é metáfora para o outro, até dentro de um mesmo grupo. Alguém Vermelho pode ser mais relutante em misturar panteões, um Amarelo pode dedicar menos energia às práticas devocionais  e usar seu tempo explorando a psicologia humana – porém como é uma questão muito interna, esses padrões podem passar totalmente despercebidos para quem sussura “Que assim seja” do seu lado, celebrando o mesmo sabbat.

Essa diferença não deve gerar dogmas e brigas para provar se alguém está certo ou forçar ninguém, alegando que só poderá permanecer em um grupo se perceber e acreditar exatamente como o outro.

De acordo com Margarian e Stephen, a maior necessidade de um bruxo amarelo, por exemplo, é a busca da verdade, é uma pessoa que precisa questionar todas as crenças e gosta de uma compreensão mais psicológica das manifestações de fé.  E é exatamente a fé a força motriz do pessoal da ponta vermelha, as experiências deles são suficientes como prova de que as divindades simplesmente são. Ponto final. Um bruxo azul seria o mais místico, cuja necessidade primeira é a de pertencimento.

Como mencionei, meu trabalho diário é dentro do espectro vermelho, tratando os Deuses como entidades separadas, independentes de mim, a quem recorro, a quem adoro e a quem agradeço. E para quem desconhece essa relação e me pergunta se de fato acredito nesses deuses todos, vou responder parafraseando um genial conhecido meu: acredito sim, em todos, Sekhmet, Dionísio, Rhiannon, Hekate, Shiva, inclusive eu os vejo e converso com eles. O segredo é entender que a gente nunca consegue enxergar uma coisa se não acreditarmos que ela existe. É por isso que algumas pessoas, por exemplo, não conseguem enxergar o racismo.

Que os Deuses abençoem todos nós!

 

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Marte e Vênus de Botticelli na National Gallery, Londres.

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Carga de Maat

Fui convidada por Adriana Guarniero a auxiliar no rito da última lua nova no Faces da Lua. O Faces é um templo de Wicca eleusiana aqui em São Paulo, liderado pelo Edu Scarfon, uma casa que sempre me recebe muito bem  e por cujas pessoas tenho muito afeto.

Maat no faces

Adriana Guarniero, eu e Nefersaaset

Adriana me pediu para fazer Maat, a deusa egípcia da justiça e do equilíbrio. É na balança dela – e contra sua pena da verdade – que pesamos nossos corações ao chegarmos ao mundo dos mortos. Se nosso coração, pesado de culpas e remorsos,  pesar mais do que sua pena, o órgão é então devorado por uma criatura bestial e nossa alma é condenada. Para tanto, a mensagem de Maat é que vivamos uma vida justa, correta e leve, para não termos essa desagradabilíssima surpresa no final.

Foi lindo. Maat de fato apareceu e ficou o tempo todo muito junto de mim, em uma relação que eu chamo de enhancement ou um leve aspectamento, coisa de 20% em mim. Mas alterou toda minha percepção do entorno, da relação com as pessoas, com o rito e com a sala. Foi uma grande honra, ainda mais para quem está tão acostumada com a energia ardente e de espreita da Sekhmet, dar espaço interno e físico a Maat é uma leveza só.

Sob inspiração dela, acabou saindo um texto lindo, uma carga da Deusa, que recitei assim que entrei no círculo onde todos me aguardavam, já preparados pela presença do talentoso Nefersaaset.

Segue de presente essa bela Carga da Deusa Maat.

Obrigada iluminada e altiva Maat por vossa inspiração divina!

 

Eu, mãe do infinito

Deusa alada do equilíbrio

Deusa que guia o Sol, os Planetas

E os ciclos das estações

Eu que peso almas e corações

Em busca da pureza e nobreza de espírito

 

Desço aos braços da terra

Venho a vós que clamais por

Justiça, força e verdade

 

Venho sempre que pedíeis

Para que desperteis de vossas tolices

Dou-vos força para que persevereis em

Vossos esforços de parar a destruição do planeta,

De corrigir vossas falhas

De emendar vossa moral e vossa justiça

Venho a vós com minha pena da verdade

Minha estrela cristalina.

Envolta em constelações,

Imbuo cada ser vivo

Com a vontade de viver em harmonia e retidão.

Eu que evito constantemente que o universo retorne ao caos

Dou à luz a ordem

E tudo que é o correto

Que minha vontade seja feita!

Maat 2016

Convite de Sekhmet

cwed2014Daqui dois dias vai ter inicio a 10a edição da Conferência de Wicca e Espiritualidade da Deusa em São Paulo. Será minha primeira vez, tanto como participante quanto palestrante nesse evento já tradicional no Brasil. Estou muito honrada com o convite e vou falar sobre “Deusas da pesada: o medo e o fascínio das Senhoras da Guerra e da Escuridão e um encontro com Sekhmet“. Acho um tema pertinente e curioso por essas faces mais escuras da Deusa sofrerem ainda de muita incompreensão, seja por quem as busca como por aqueles que as rejeitam.

Enfim, depois de um bate papo,  vamos fazer um pathworking no final onde vou levar todo mundo para um encontro com essa minha mãe egípcia que faz parte da tribo das Deusas que atraem e assustam. Ontem, em frente ao altar d’Ela, fui chamada (ou seria melhor dizer “impelida”?) a registrar uma mensagem diretamente dessa Deusa. Fica aqui o convite então feito por Sekhmet para os que forem à palestra do CWED ou também para aqueles que a buscam a seu tempo e a seu lugar.

**Meu workshop será no domingo, às 15h30.

 

P1010754Venham todos ao meu encontro neste lugar deste aqui e deste agora
para acessar passem pelo meu templo desde sempre já meu portal constante e confortador.
Meu abraço é calmo, não tema.
não devoro, te inspiro e incito à ação correta e eficaz.
Nada de perder tempo com desnecessidades  — exceto aquelas que são prazeres fortalecedores — como o beijo, a carne o sexo e o cerne de tudo que é bom — o espaço entre dois ou mais.
A companhia é fundamental ao prazer e à diversão. Não temam a companhia
também eu me reúno com vós quando estão entre vários. Gosto da multidão até como turba desenfreada — incêndio — potência — calor – insana loucura torpe que turva o olhar e o coração.
Não tema meu encontro — estendo-te a mão e os sentidos.
Toca-a.
Mira-me.
Abre a boca onde sopro eu a vida para dentro de ti. Que te acorda do teu torpor ambulante.
Eu te sopro a vida — numa respiração boca a boca emergencial, mas só para aqueles com a ousadia de vir me pedir socorro.
 
Hat te sep te sehu.

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Canalização recebida ontem à noite.

Om Sekhmet

Várias pessoas têm encontrado este blog porque vêm à procura de Sekhmet. E eu mesma, nas minhas buscas, venho encontrando canções para Ela que quero aproveitar para compartilhar aqui.

Sekhmet é uma Deusa do Egito antigo com cabeça de leoa. Ela tem muitos nomes e muitas funções, várias delas parecem mesmo contraditórias. Ela é a Deusa da Guerra, da Pestilência e da Destruição, e ao mesmo tempo é a Senhora da Medicina e da Cura, e é através de Sua vontade que nasceram as Artes. Muitas são suas bênçãos.

omsekhmetBGA primeira música que compartilho é de Abbie Spinner McBride e, segundo a artista, foi escrita para homenagear a experiência no deserto de Nevada, para inspirar a todos que cruzam o deserto caminhando em busca de paz. (Lá nesse deserto existe um templo para Sekhmet; assunto para um outro post!)

Segundo Abbie “É um chamado em busca de orientação, uma prece por força e uma bênção de sua Presença. Cante quando quiser sentir Suas patas poderosas lhe envolvendo e protegendo. Cante quando quiser uma Mãe amorosa caminhando a seu lado. Cante quando quiser um guia para passar pelo Mundo Inferior e cante como um cântico de gratidão por este momento, este coração que pulsa, esta inspiração.”

Om Sekhmet.

Para ouvir, clique abaixo:

http://www.mcbridemagic.net/pages/pages/spinners-web/om-sekhmet.php

 

Litania a Sekhmet

Segue uma invocação das mais tradicionais à Deusa Sekhmet. Não tenho certeza da origem, assim que puder confirmá-la, acrescentarei aqui no post. É bem provável que seja retirada da sequência imensa de epítetos presentes nas estátuas dEla distribuídas pelo Egito. É a mais completa litania que conheço em inglês, e senti que estava faltando uma tradução para os que se interessam em cultuar essa Deusa na nossa língua portuguesa.

Declamada com o devido fervor, tem  efeito poderoso. 😉

Invocação a Sekhmetbaixorelevo sekhmet

Assim como em Mênfis

Que se faça agora!

 Escutai-me, vos suplico,

Ó Poderosa!

Senhora de Rekht,

Senhora de Pekhet,

Senhora de Set,

Senhora de Rehesaui,

 Senhora de Tchar e de Sehert!

Mãe no horizonte do céu

Na barca dos Milhões de Anos

Sois a Grande Defensora!

Sois a Destituidora de Qetu!

Preservai-nos da câmara do mal das almas de Hes-hra!

Libertai-nos

 do refúgio dos Demônios!

 Ó Vós que sois

  Sekhmet,

Que dá vida aos Deuses,

 Sekhmet,

Senhora da Chama,

  Sekhmet,

 Grandiosa da Magia

 Sekhmet,

Eterno é Vosso Nome!

 Ó, escutai-me agora!

 Sekhmet,

da Cabeça de Leoa,

 Sekhmet,

 cuja cor é Vermelha,

 Sekhmet,

 Filha de Ra,

 Sekhmet

Senhora de Amt,

Senhora de Manu,

Senhora de Sa,

Senhora de Tep-nef,

Senhora do Paraíso!

 No trono do silêncio,

Mesmo,  nada mais será dito além de

Aquela que Cinge!

 Perco-me em Vós!

 Consorte de Ptah,

Sekhmet,

Poderoso é Vosso Nome!

 Ó, ouça-me agora!

 Sekhmet

Deusa da Pestilência,

 Sekhmet

Deusa das Guerras,

 Sekhmet

Rainha do Deserto

 Sekhmet

 Terrível é Vosso Nome!

  Ó vinde a mim!

 Sekhmet

Destruidora de Rebeliões,

  Sekhmet,

Olho Ardente de Rá,

 Sekhmet,

 Protetora, Governante

 Sekhmet,

Sagrado é Vosso Nome!

 Ó, Revelai-Vos para mim!

 Sekhmet

Mãe dos Deuses,

 Sekhmet,

 Ama das Coroas,

 Sekhmet,

Sois chamada de a Única,

 Sekhmet,

Amado é Vosso nome!

 Possuí-me agora, Ó Majestosa!

 Sekhmet,

Maior do que Ísis,

 Sekhmet,

Maior que Hathor,

 Sekhmet,

Maior que Bast,

 Sekhmet,

Maior que Maat,

 Sekhmet,

Misterioso é Vosso Nome!

 Eu me perco em Mistério!

 Sekhmet,

A Preeminente,

 Sekhmet,

Luz além da Escuridão,

 Sekhmet,

Soberana de seu Pai,

 Sekhmet,

Oculto é Vosso Nome!

 Arrebatadora, a minha morte!

 Sois Amni-seshet,

Destruidora, Defensora!

Sois o Terror

Frente ao Qual tremem os espíritos malignos!

Sois Luxúria!

Sois Vida!

 A Sempre Flamejante!

 Tekaharesa-Pusaremkakaremet,

Sefi-per-em-Hes-Hra-Hapu-Tchet-f, 

 Ama dos Encantamentos,

Fonte e Palavra de Poder,

Proibido é Teu Nome!

 Sou aquele que é  impermeável!

  Não nos consumais

Com Vosso Fogo,

Dai-nos a Luz!

 Ó, Senhora,

Mais poderosa do que os Deuses,

As adorações sobem a Vosso encontro!

Todos os seres Vos saúdam!

Ó Senhora,

 Mais poderosa do que os Deuses!

 Preservado além da Morte,

Esse nome Secreto,

Ó Ser

Chamado Sekhmet.

Honrando Sekhmet

Sekhmet apareceu na minha vida com uma força que é toda dela. Foi se infiltrando em uma série de coincidências, incluindo sonhos e até um desenho animado. Demorei um pouco, mas entendi o recado. Ao longo desses dez anos de relacionamento estável passamos por diferentes fases para nos conhecermos melhor.

Comecei tímida, com uma mini estátua douradinha e mal acabada no altar. Hoje até um bracinho quebrou desta minha primeira – embora diminuta – Sekhmet. Passei a acender minhas primeiras velas vermelhas pra ela, sempre em honra, em culto, em devoção. Demorei para começar a pedir.

Uma das minhas amigas que já tinha ouvido o chamado me avisou sobre a cerveja vermelha, a bebida favorita e, portanto, a oferenda principal. Mas quente ou gelada? – – Tanto faz, mas se você prefere beber gelada, então sirva gelada, dê o seu melhor para a Deusa. Preciso servir num copo? – Não é necessário, pode só abrir a garrafa, tudo bem.

Outra, uma mulher mais velha, bem mais vivida, me avisou da estátua do museu de história natural da cidade. Aquela, mesmo em estado bem regular, de nariz e orelha quebradinhos, carcomida pelos cinco milênios de história e seu trajeto do Egito aos Estados Unidos, sentada em seu trono glorioso, mas discreto, passando por vezes despercebida como pano de fundo de inúmeras fotos turísticas e balbúrdias dos grupos escolares, bem no meio do salão da exposição do Egito Antigo, aquela mesma, se move. Ela responde se você perguntar. Fui lá, no meio da semana, conversar com ela.

Sekhmet do Field Museum em Chicago

Sekhmet do Field Museum em Chicago

Ainda bem que eu tinha o português para ficar sussurrando, plantada, em meio a idas e vindas de gentes de todas as idades, tipos e etnias. Conversei, me apresentei, pedi licença, agradeci, e perguntei se ela me aceitava como filha. Quando, já satisfeita apenas por ter tido aquele quality time, com aquela conversa do fundo do coração, eu estava de saída, conformada e feliz, quando vi o gesto. Inconfundível. Exato. Perfeito. Inesperado. Totalmente inesperado. E sou mais uma a dizer: ela se mexe sim.

Já as do Louvre, que tem uma sala cheinha de Sekhmets, não respondem perguntas, não acenam com a cabeça, apenas oscilam ritmicamente em seus tronos, como quem assiste a vida e as eras passando de sua cadeira de balanço. Se tiver a chance, confira. E me conte depois, se elas mudaram alguma coisa.

Hoje o altar dela é ponto de honra da minha sala. A estátua grande que tenho foi encomendada especialmente de uma artista que a fez baseada em fotografias. É linda. E eu soube depois, que ao fazer a estrutura de aramado dentro da estátua, a artista cortou os dedos com o material, durante o trabalho. Ela me disse depois, “aí dentro tem meu sangue, dei meu sangue por essa sua estátua”.  E eu penso: que perfeito! Não poderia ser mais perfeito. E penso também: será que, para cada uma das milhares de estátuas dela que existiram em dado momento no Egito, Ela foi exigindo algum sacrifício dos escultores que se dedicavam a representá-la?

Descobri há pouco tempo que ela gosta também, óbvio, de carne crua! Isso não é o tipo de informação que se acha escrita por aí, é o tipo de informação que a gente tem acesso com a vivência e outras técnicas de buscar conhecimento. Tem outras coisas, mas vou deixando espaço para você descobrir, na sua própria jornada, a seu próprio tempo.

Mas comece com a vela vermelha, a cerveja vermelha e, se não tem uma estátua, imprima uma foto da internet, mas escolha uma tradicional, seja retratando uma das estátuas ou papiros egípcios, com ela no trono, ou de pé, com o Ankh na mão.

Se achar um pingente, compre, e leve Ela com você.

Para o altar, comece com simplicidade e vá incrementando. Como Ela é solar, pense no posicionamento de acordo com o sol, para que você fique voltada/o para onde ele nasce ou por onde ele passa ao longo do dia – leste ou norte, portanto, já que estamos no hemisfério sul.  É minha sugestão.  Mas vá descobrindo, se aventurando, se abrindo para entender e receber as mensagens sutis ou não (há!) que vão aparecer.

Ah, e hoje eu sempre sirvo a cerveja em copos. Afinal, Ela é uma Lady!P1010443

Carga da Deusa Sekhmet

Petrucia Finkler, 2012

Eu sou a Toda Poderosa, chamada à existência por meu pai, para vingá-lo.

Sa Sekhem Sahu de cabeça de leoa.

Sou filha de Ra, a Destruidora, a Dama Vermelha.

Sinta minha respiração no vento quente do deserto

e meu corpo no brilho intenso do Sol do meio-dia.

Eu carrego a sabedoria da violência e da destruição adequadas.

E embora possa curar qualquer chaga ou mal de corpo ou de alma,

minha maior dádiva está na proteção contra os inimigos, a injustiça e a peste.

Pois Eu sou a executora de Ma’at.

Eu sou a Grande Defensora e o Terror diante do qual os demônios tremem!

Minha chama purificadora clama por tua alma, para que se erga.

Pois eis que sou o instinto guerreiro que ferve em teu sangue

e a força inquestionável que caminha equilibrada entre a vida e a morte.

Que meu culto seja feito no coração que é puro e livre.

E permita que teu espírito se abra sem reservas,

pois nada pode ser ocultado do Olho de Ra.

Nem mesmo tua luxúria e tua alegria.

E se buscas conhecer-me, não me chame em vão;

Mas ergue tua taça e junte-se a mim em elegante embriaguez

Quando estiveres pronta a te entregar à tua vitalidade crua, à tua criatividade e a saciar teus sentidos.

Porque eis que, assim como Eu,

A paixão de meus filhos é de natureza tanto solar quanto feminina.

Eu sou vossa fonte e palavra de poder.

Adorado é meu nome.

Eu não vos consumo com meu fogo, eu lhes ofereço a luz.

***Esse texto foi escrito sob inspiração Divina em 2012. O original foi recebido em inglês, e Sekhmet pediu que fosse traduzido pela imensa carência de material sobre Ela na língua portuguesa. A Deusa e eu pedimos que seja usado com respeito nas atividades de devoção e invocação d’Ela. Se for reproduzido em outro lugar, que seja incluído o devido crédito de autoria.

Sekhmet do templo de Mut, em Luxor. Granito 1403-1365 AEC (Antes da Era Corrente)

Sekhmet do templo de Mut, em Luxor. Granito 1403-1365 AEC (Antes da Era Corrente)