Carga de Maat

Fui convidada por Adriana Guarniero a auxiliar no rito da última lua nova no Faces da Lua. O Faces é um templo de Wicca eleusiana aqui em São Paulo, liderado pelo Edu Scarfon, uma casa que sempre me recebe muito bem  e por cujas pessoas tenho muito afeto.

Maat no faces

Adriana Guarniero, eu e Nefersaaset

Adriana me pediu para fazer Maat, a deusa egípcia da justiça e do equilíbrio. É na balança dela – e contra sua pena da verdade – que pesamos nossos corações ao chegarmos ao mundo dos mortos. Se nosso coração, pesado de culpas e remorsos,  pesar mais do que sua pena, o órgão é então devorado por uma criatura bestial e nossa alma é condenada. Para tanto, a mensagem de Maat é que vivamos uma vida justa, correta e leve, para não termos essa desagradabilíssima surpresa no final.

Foi lindo. Maat de fato apareceu e ficou o tempo todo muito junto de mim, em uma relação que eu chamo de enhancement ou um leve aspectamento, coisa de 20% em mim. Mas alterou toda minha percepção do entorno, da relação com as pessoas, com o rito e com a sala. Foi uma grande honra, ainda mais para quem está tão acostumada com a energia ardente e de espreita da Sekhmet, dar espaço interno e físico a Maat é uma leveza só.

Sob inspiração dela, acabou saindo um texto lindo, uma carga da Deusa, que recitei assim que entrei no círculo onde todos me aguardavam, já preparados pela presença do talentoso Nefersaaset.

Segue de presente essa bela Carga da Deusa Maat.

Obrigada iluminada e altiva Maat por vossa inspiração divina!

 

Eu, mãe do infinito

Deusa alada do equilíbrio

Deusa que guia o Sol, os Planetas

E os ciclos das estações

Eu que peso almas e corações

Em busca da pureza e nobreza de espírito

 

Desço aos braços da terra

Venho a vós que clamais por

Justiça, força e verdade

 

Venho sempre que pedíeis

Para que desperteis de vossas tolices

Dou-vos força para que persevereis em

Vossos esforços de parar a destruição do planeta,

De corrigir vossas falhas

De emendar vossa moral e vossa justiça

Venho a vós com minha pena da verdade

Minha estrela cristalina.

Envolta em constelações,

Imbuo cada ser vivo

Com a vontade de viver em harmonia e retidão.

Eu que evito constantemente que o universo retorne ao caos

Dou à luz a ordem

E tudo que é o correto

Que minha vontade seja feita!

Maat 2016

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Águas de fontes e rios sagrados

A água é um elemento presente demais nas nossas vidas. Bebemos água, tomamos banho, lavamos as mãos, usamos o vaso sanitário e damos descarga, choramos, lavamos roupa, caminhamos na chuva, ficamos admirados com fotos poéticas de mar, de rio e de cataratas, sonhamos com praias, piscinas ou cachoeiras.

A água exerce um fascínio sobre nós. É fonte de vida, de purificação, de prazer e também de morte. A água afoga ou a água toma e destrói o que está em seu caminho quando há enchente, enxurrada, tsunami, além de nos desesperar por sua falta – seja por causas naturais ou irresponsabilidade humana.

Com tamanha força e presença em nossas vidas, não admira que ao longo da história tenham havido tantos poços, fontes e rios considerados sagrados por diversas culturas. Pela nossa desconexão moderna, vários deles foram esquecidos em sua sacralidade e servem apenas de fonte natural de recursos para nós. Sabemos se o rio Doce que morreu em 2015 pela tragédia e negligência da Samarco não era sagrado e celebrado por populações indígenas? Sabemos de sua importância para as populações ribeirinhas e como fonte de abastecimento de muitas comunidades, mas e como fonte devocional mesmo? O que sabemos sobre esse rio e tantos outros rios brasileiros?

Quem guarda essa informação são os povos nativos, já que a maioria dos locais sagrados para eles estão relacionados a mitos de origem e narrativas históricas. São locais onde ocorreram fatos ligados à criação da humanidade e a origem das etnias. Como é o caso, por exemplo da Cachoeira de Iauretê, no Amapá.

Embora os católicos se utilizem de água benta, e mesmo os protestantes usem água em batismos e outros rituais, os países ocidentais parecem ter perdido esse respeito e amor por um recurso tão importante, mesmo que para os povos do deserto – de onde surgiu a fé cristã –, fontes, rios e oásis eram sim algo muito especial e considerados presentes divinos. Felizmente há algumas fontes ligadas a nomes de santos, e esses locais mantém esse ar místico e transcendental que a água sempre teve.

É comprovado que a água de alguns locais é sim dotada de propriedades curativas especiais, e histórias de todos os tempos refletem milagres e curas ocorridos para gente que consumiu ou se banhou em certas águas. Com essas águas testadas, e verificado seus teores minerais, nosso capitalismo tratou de engarrafá-las para vender como água pura da fonte ou construir ali spas de águas terapêuticas, às quais só se tem acesso ao frequentarmos o local e, claro, pagando um preço.

September 27 2010 One CTA Card in the Fountain

Piscina decorativa na base da escada da Harold Washington Library em Chicago. Moedas e até um cartão de ônibus.

A ideia do poço dos desejos, que pede apenas uma moeda para satisfazer nossos pedidos mais profundos, seja por brincadeira ou superstição, ainda se mantém, e mesmo em prédios públicos as pessoas por vezes insistem em jogar moedas em algum chafariz existente. É o caso da piscina decorativa ao pé da escada da Harold Washington Library em Chicago, onde as pessoas insistem em jogar não só moedas, mas até cartão de passe de ônibus e metrô.

 

Também há lendas de fontes malignas, que traziam doenças a quem dali bebesse, e cujo espírito enviava maldições aos nomes cantados às suas margens. A água é ambígua, e isso acrescenta a seu mistério.

Por sua qualidade que dá e tira a vida, a água é um dos símbolos mais antigos de tudo que é fora do plano material, tudo que é além do visível. É um meio de contato com os espíritos e um meio de receber bênçãos do além. Os mares, chuvas e rios precisavam ser propiciados e acalmados para que nos fossem benevolentes em nossas viagens e travessias, pois a água sempre guardou o desconhecido e deve ser tratada, no mínimo, com muito respeito.

Em culturas de países mais antigos, é notável a presença e a memória dessas águas sagradas, embora muito também haja se perdido. A mania das metrópoles em cobrir seus rios e córregos para esconder o uso a que foram relegados – como esgoto – nos afasta ainda mais da presença da água e nossa responsabilidade sobre esse recurso de que tanto necessitamos.

Quando se viaja, especialmente em busca de lugares espirituais para nós, é comum a visita a lugares de águas sagradas, e, apesar de todos os obstáculos da inspeção alfandegária, também é comum que o viajante traga um pouco dessa água santa de volta para sua casa.

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no Pueblo de Taos, o rio sagrado não pode ser nem tocado por quem não é da reserva.

Há rios sacros que são intocáveis por quem não é dali, como o Blue Lake do povo Pueblo em Taos no Novo México, EUA. Eles acreditam que seu povo se originou do lago, e conseguiram que o governo lhes devolvesse o local, para que os indígenas tivessem acesso irrestrito. O rio Pueblo, que corre em meio à reserva que podemos visitar, nasce nesse lago e é proibido aos visitantes sequer tocar naquela água.

 

O lago Titicaca no Peru é considerado um lago de águas mágicas. Esconde um sem fim de enigmas, histórias e lendas ligados ao misticismo xamânico, à cosmologia inca e à magia. Até o contorno do lago lembra o de um dos animais sagrados para os incas, o puma. O lago também é visto como uma divindade propriamente dita, Mamakhota.

O rio Ganges, na Índia, é o mais venerado do mundo, considerado pelos hindus uma divindade materna, é usado para tudo. Como banheiro, para cremar os mortos ritualisticamente, para se banhar e expiar suas impurezas… é um rio com partes muito poluídas (embora isso em nada pareça deter o fervor dos hindus dedicados), mas com outras de água ainda muito pura. Quem visita conta que é possível pegar dessa água junto à nascente. Tenho uma amiga que guarda uma garrafinha dessa água na geladeira há nove anos. Desde que trouxe de uma viagem.

Essa é outra característica fascinante dessas águas… parecem não sofrer a deterioração comum de outras águas. Algo há… que nove anos depois, a água não tenha mudado nem de gosto, nem de cheiro. Permanece como deve ser, insípida, inodora e incolor.

A Fonte Vermelha e a Fonte Branca ao pé do Tor

England_2015 (178)Em 2015, tive a oportunidade de visitar Glastonbury, uma cidade inglesa que tem lendas e histórias fascinantes. Realmente é um local muito, muito especial, já que ali é a entrada para Avalon. O Tor, o morro de “Ynis Vitrin”, a ilha de vidro, é dominante na paisagem. E a seu pé, nascem duas fontes. A mais famosa é Chalice Well (Fonte do Cálice), sagrada por ser reconhecidamente um local de fortíssima energia da Deusa, uma força feminina que imbui toda a região do poço e seus jardins, onde se pode passar horas relaxando e aproveitando a energia, além de beber da água e lavar-se com ela.

England_2015 (166)Chalice Well apesar de muito anterior ao cristianismo, também entrou no imaginário cristão pois dizem que foi ali que José de Arimateia teria enterrado o santo graal, e, ao fazê-lo, ali brotou uma fonte de água com gosto de sangue. Isso é verdade, a água de Chalice Well tem gosto de sangue, por ser de teor de ferro altíssimo. Nada mais apropriado para uma fonte da força divina feminina do que uma água que tem gosto de sangue, algo com que as mulheres lidam todos os meses. Não só ela tem o gosto, como também é avermelhada e tinge tudo por onde passa, deixando um rastro vermelho em seu percurso, assim também é conhecida como a Fonte Vermelha.England_2015 (164)

Tenho um amigo americano, com o qual perdi contato, que era HIV positivo. Ele ficou anos fazendo treinamento com sacerdotisas em alguma tradição em Glastonbury. Ficou bebendo da água e também fazia monitoramento sanguíneo enquanto esteve lá e depois de retornar. Ele contava que seus índices virais haviam caído de forma vertiginosa, que deixava os médicos americanos embasbacados.

Fiquei hospedada de frente para Chalice Well, enxergava seus jardins da varanda do quarto de nosso Bed & Breakfast. Todos os dias, a qualquer horário, via pessoas que traziam garrafas para buscar a água. Para entrar nos jardins é preciso pagar um valor que fica para a fundação de Chalice Well, porém há uma bica externa ao muro, com acesso livre a qualquer horário. Foi lá que enchi duas garrafas da sagrada água para trazer para casa.

Do outro lado da rua, ou seja, a questão de vinte metros, e também ao pé do Tor, nasce outra fonte: The White Spring. A Fonte Branca tem bem menos ferro, portanto o gosto é com certeza mais palatável, mas é rica em calcário. Por seu sabor mais agradável, foi usada por um tempo como a fonte oficial da cidade, e em sua nascente foi erigida uma construção para conter as cisternas. Dentro é proibido tirar fotos. O ambiente é marcadamente distinto de Chalice Well. É um prédio escuro, úmido, com o ruído da água e uma atmosfera espiritual que remete mais a um templo. É um templo. E ali não há fundação mantenedora, mas um grupo de voluntários que abre a fonte à tarde para visitação pública. Há incenso queimando, velas, altares. Aliás, dois grandes, um para o Deus Cornífero, e outro para a Deusa Mãe. Ficam diametralmente opostos. Andar ali dentro é andar pisando em águas… é bastante mágica a experiência. E completamente diferente da que se tem do outro lado da rua na fonte feminina. A White Spring, tem uma sensação de elevação, algo que nos puxa para cima, que relaxa ao se derramar sobre nós, ao contrário da gravidade reforçada e amorosa que sobe da terra para nos envolver e acolher em Chalice Well. Ali também é possível se banhar e fazer rituais. O grupo de voluntários também conduz rituais ocasionais no local. E, como na outra fonte, há uma bica externa, onde eu enchia minhas garrafas de água diariamente para beber ao longo das muitas caminhadas e passeios.

England_2015 (163)Por ser rica demais em calcário, a cisterna foi desativada porque os canos  constantemente entupiam. Então a fonte foi aposentada no seu papel de abastecimento de água da cidade, e o local permaneceu fechado até o grupo de voluntários assumir.

Por ser rica demais em calcário, a White Spring, deixa um rastro – adivinhe – branco por onde passa.

Não é a coisa mais incrível, fantástica e sagrada? Duas fontes, distantes coisa de vinte metros, deixarem rastros diferentes e tão simbólicos por onde passam? E também descobri que as duas águas se unem em canais subterrâneos e, juntas, abastecem a água do lago que fica dentro da propriedade da abadia de Glastonbury Abbey, que existiu desde o século V e chegou a ser a abadia mais rica e poderosa da Inglaterra até ser destruída por Henrique VIII. (Reza a lenda que o Rei Artur foi enterrado lá com Guinevere).

Usando a água sagrada em casa

Eu também trouxe uma garrafa dessa água da Fonte Branca, e está feliz e linda, junto com a água vermelhinha de Chalice Well na minha geladeira há quase seis meses. Porém, como são garrafas grandes (sim, eu arrisquei mesmo com a alfândega e trouxe no total três litros de água dentro da mala), ocupam espaço, e meu marido anda reclamando.

Então… uma inspiração minha foi de guardar e poder usar essa água em sprays. Uma mistura sagrada para borrifar na aura ou no ambiente, para limpeza e bênção. Optei por combinar com óleos essenciais de acordo com a vibração e efeito que estou buscando.

spraysCriei quatro vidros por enquanto. Alguns com pura água, óleos essenciais e glicerina vegetal, outros com mistura de águas da fonte branca ou da vermelha de Glastonbury
com água desmineralizada e até um pouco de álcool de cereais para ajudar na conservação e evaporação na hora de aplicar.

A água da chuva de dias sagrados na roda do ano é considerada sacra também. É comum coletar essa água e guardar em garrafinhas para usaagua white springr depois em feitiços, talismãs e bênçãos. Outra ideia é guardar água do mar de uma praia muito limpa. O uso é um pouco diferente, por ter sal, ela é basicamente purificadora. Tenho uma garrafa de água do Mariscal, SC há três anos comigo. Segue ótima.

Se você também tem águas sagradas guardadas a sete chaves em algum lugar da sua geladeira e curtiu a ideia de fazer um spray com elas, segue a receita:

Spray para aura ou ambiente

*1 vidro para 120 ml de líquido, com spray

*30 gotas de óleo essencial (boas combinações espirituais e sensoriais são lavanda com olíbano, sândalo com ylang ylang, vetiver com neroli e palmarosa)

*2 colheres de sopa de álcool de cereais ou vodka

*½ colher de chá de glicerina vegetal

* água sagrada ou água desmineralizada (ou uma combinação destas) <120ml, para completar o vidro.

Cristais de água

Masaru Emoto é o japonês que fotografa moléculas de águas congeladas. O trabalho dele é fascinante. Ele não só compara moléculas de água de fontes sagradas do mundo com águas comuns ou até poluídas, mas também compara moléculas do mesmo copo de água antes e depois de receberem uma oração, por exemplo. É impressionante as alterações moleculares que ocorrem sob a ação de sentimentos humanos (eu te amo, eu te odeio), estilos musicais, ou preces de qualquer tipo, rabinos, sufis, cristãos, budistas, e reiki, por exemplo. Considerando que nossos corpos e nosso planeta são compostos de 80% de água, imagine que tipo e força de ação nossos pensamentos individuais e coletivos podem ter sobre essa substância!

Isso também quer dizer que toda e qualquer água pode ser sacralizada ou benta. E é isso que devemos fazer. Abençoar o copo que bebemos, abençoar nosso corpo, enviar sentimentos de amor e bênção às águas que nos rodeiam, mesmo as mais poluídas. Imagine o espírito do rio Tietê… como precisa de atenção e encorajamento.

Um mapa de nossas águas sagradas

Em um país jovem e inconsciente como o nosso, onde ninguém consultou os habitantes nativos e onde, para homenagear e peticionar orixás (que são deuses importados, embora já muito arraigados por aqui), as pessoas entopem o oceano e os rios com material plástico, cabe a nós redescobrirmos e retomarmos o hábito de fazer oferendas naturais, peregrinações e devoções às águas sagradas que existem no nosso território. Eu adoraria que nos lançássemos em uma campanha de pesquisa e busca desses locais. E adoraria que quem já tem algum conhecimento sobre isso ajudasse, apontando suas descobertas aqui em comentários ou em outro lugar! Vamos fazer um mapa de nossos tesouros abençoados aquáticos brasileiros?

Trago um Tambor… 

(tradução de “I Bring a Drum” de autoria de Gede Parma, ) “Atentem para este feitiço cantado por minhas entranhas, seus torturadores do solo e do fio da seda Conheça minha fúria zelador da torre que atira desgosto umedecido lá de cima sobre o povo que treme confuso. Sabemos que a Terra se revoltará e te derrotará, o raio do Trovejante te opõe, embora finjas empunhá-lo junto dele. Vem até a minha porta, vais me encontrar em meus aposentos, nu, segurando um tambor, com uma espada desembainhada sobre meus dedos dos pés e uma faca no meu cabelo Estarei pintado com o sangue dos meus ancestrais, sentirás o aroma de algo arrebatador, e o cheiro vai coalhar o ácido do teu estômago… Eu ouvi as palavras do lindo peregrino Escutei os sábios através do vento Girei a roda sagrada Espiei dentro de lugares que manténs inacessíveis, até mesmo ao teu próprio coração, pois os grilhões das atitudes malévolas acorrentam e prendem todas as mentes dadas à maquinação e planejamento dos feitos. Dei as costas e fingi não ver essa farsa e esse desfile da gula frente à consciência, frente à preciosa comunidade Senti-me roubado e cegado por isso… Mas tenho magia… não me esqueci; na verdade, me fortaleci com o mundo selvagem, na verdade, lembrei de uma serpente profunda dentro de mim cuja sedução é o dom do paraíso, cuja floração e fruto são a memória da inocência que habita em mim ainda agora… Tu me envolves em uma guerra que não pode ser vencida, então passo por ti, e sei que eventualmente vais me estraçalhar… Sei que muitos outros também cairão… mas passo por ti agora, não me importo e me importo totalmente. Vou fazer uma coisa… Estás maculado dentro de mim, mas sei o segredo para te desemaranhar. Sei que fui feito para a liberdade, que tudo busca a liberdade. Sei disso. E então meu querido… ainda agora, passo por ti. O olho não pode voltar-se para ver, e estou dentro do olho. Ainda agora, na escuridão grávida que transpira estrelas e bebe do orvalho, posso escutar o Infinito se estendendo para dentro de si mesmo. Buscamos juntos, afundamos juntos, caímos juntos, mesmo nos laços de amor que se desamarram. Pela mão da graça me é dado o fôlego para respirar… do coração da selva sou lançado sobre o mundo… Trago um Tambor… sempre o fiz. Será tudo anulado, pois estou disposto a ingeri-lo agora… Vou beber deste veneno… dentro de mim… dentro de mim… o Tambor e a Chama. Reúnam-se aqui. Deixe-nos descansar. Deixe-nos dançar. Sonharemos por ousarmos atentar para o feitiço cantado nas entranhas.” 11036345_804396536297008_3573389292129680169_n

Visita às fiandeiras

No solo escuro e fértilthree fates

na base de Yggdrasil

ouço o ritmo cadenciado do corte de uma tesoura.

Apesar de tão definitivo, o som chega com um neutro distanciamento

Não sinto horror

Nem pena

Nem medo do momento em que o meu corte virá.

O fio da tesoura me parece um agente amoroso e compassivo. 

Medo, sinto da que mede

que analisa  julga 

e determina.

A moça que fia é um fofa, de bochechas rosadas e lábios carnudinhos. Não consigo nem dizer “carnudos”, porque daria a ela uma conotação sensual mais madura que ela não parece ter. 

Desta vez, ouvi a roca e não o fuso, e ela fia numa animação esperançosa

Acho que atende tudo que lhe pedem. O que as pessoas não sabem é que a voz que ela escuta é a do nosso lado meio anjo, meio irmão mais velho — que habita um pouquinho acima de nossas cabeças. 

Seu olhar desfia galáxias

Seu silêncio faz corar a eloquência de uma montanha

Os presentes que dão a conhecer são lembrados só quando elas permitem

Num caldeirão, imagens fervem e borbulham

mas é preciso mais do que coragem para espiar dentro.

Om Sekhmet

Várias pessoas têm encontrado este blog porque vêm à procura de Sekhmet. E eu mesma, nas minhas buscas, venho encontrando canções para Ela que quero aproveitar para compartilhar aqui.

Sekhmet é uma Deusa do Egito antigo com cabeça de leoa. Ela tem muitos nomes e muitas funções, várias delas parecem mesmo contraditórias. Ela é a Deusa da Guerra, da Pestilência e da Destruição, e ao mesmo tempo é a Senhora da Medicina e da Cura, e é através de Sua vontade que nasceram as Artes. Muitas são suas bênçãos.

omsekhmetBGA primeira música que compartilho é de Abbie Spinner McBride e, segundo a artista, foi escrita para homenagear a experiência no deserto de Nevada, para inspirar a todos que cruzam o deserto caminhando em busca de paz. (Lá nesse deserto existe um templo para Sekhmet; assunto para um outro post!)

Segundo Abbie “É um chamado em busca de orientação, uma prece por força e uma bênção de sua Presença. Cante quando quiser sentir Suas patas poderosas lhe envolvendo e protegendo. Cante quando quiser uma Mãe amorosa caminhando a seu lado. Cante quando quiser um guia para passar pelo Mundo Inferior e cante como um cântico de gratidão por este momento, este coração que pulsa, esta inspiração.”

Om Sekhmet.

Para ouvir, clique abaixo:

http://www.mcbridemagic.net/pages/pages/spinners-web/om-sekhmet.php

 

Litania a Sekhmet

Segue uma invocação das mais tradicionais à Deusa Sekhmet. Não tenho certeza da origem, assim que puder confirmá-la, acrescentarei aqui no post. É bem provável que seja retirada da sequência imensa de epítetos presentes nas estátuas dEla distribuídas pelo Egito. É a mais completa litania que conheço em inglês, e senti que estava faltando uma tradução para os que se interessam em cultuar essa Deusa na nossa língua portuguesa.

Declamada com o devido fervor, tem  efeito poderoso. 😉

Invocação a Sekhmetbaixorelevo sekhmet

Assim como em Mênfis

Que se faça agora!

 Escutai-me, vos suplico,

Ó Poderosa!

Senhora de Rekht,

Senhora de Pekhet,

Senhora de Set,

Senhora de Rehesaui,

 Senhora de Tchar e de Sehert!

Mãe no horizonte do céu

Na barca dos Milhões de Anos

Sois a Grande Defensora!

Sois a Destituidora de Qetu!

Preservai-nos da câmara do mal das almas de Hes-hra!

Libertai-nos

 do refúgio dos Demônios!

 Ó Vós que sois

  Sekhmet,

Que dá vida aos Deuses,

 Sekhmet,

Senhora da Chama,

  Sekhmet,

 Grandiosa da Magia

 Sekhmet,

Eterno é Vosso Nome!

 Ó, escutai-me agora!

 Sekhmet,

da Cabeça de Leoa,

 Sekhmet,

 cuja cor é Vermelha,

 Sekhmet,

 Filha de Ra,

 Sekhmet

Senhora de Amt,

Senhora de Manu,

Senhora de Sa,

Senhora de Tep-nef,

Senhora do Paraíso!

 No trono do silêncio,

Mesmo,  nada mais será dito além de

Aquela que Cinge!

 Perco-me em Vós!

 Consorte de Ptah,

Sekhmet,

Poderoso é Vosso Nome!

 Ó, ouça-me agora!

 Sekhmet

Deusa da Pestilência,

 Sekhmet

Deusa das Guerras,

 Sekhmet

Rainha do Deserto

 Sekhmet

 Terrível é Vosso Nome!

  Ó vinde a mim!

 Sekhmet

Destruidora de Rebeliões,

  Sekhmet,

Olho Ardente de Rá,

 Sekhmet,

 Protetora, Governante

 Sekhmet,

Sagrado é Vosso Nome!

 Ó, Revelai-Vos para mim!

 Sekhmet

Mãe dos Deuses,

 Sekhmet,

 Ama das Coroas,

 Sekhmet,

Sois chamada de a Única,

 Sekhmet,

Amado é Vosso nome!

 Possuí-me agora, Ó Majestosa!

 Sekhmet,

Maior do que Ísis,

 Sekhmet,

Maior que Hathor,

 Sekhmet,

Maior que Bast,

 Sekhmet,

Maior que Maat,

 Sekhmet,

Misterioso é Vosso Nome!

 Eu me perco em Mistério!

 Sekhmet,

A Preeminente,

 Sekhmet,

Luz além da Escuridão,

 Sekhmet,

Soberana de seu Pai,

 Sekhmet,

Oculto é Vosso Nome!

 Arrebatadora, a minha morte!

 Sois Amni-seshet,

Destruidora, Defensora!

Sois o Terror

Frente ao Qual tremem os espíritos malignos!

Sois Luxúria!

Sois Vida!

 A Sempre Flamejante!

 Tekaharesa-Pusaremkakaremet,

Sefi-per-em-Hes-Hra-Hapu-Tchet-f, 

 Ama dos Encantamentos,

Fonte e Palavra de Poder,

Proibido é Teu Nome!

 Sou aquele que é  impermeável!

  Não nos consumais

Com Vosso Fogo,

Dai-nos a Luz!

 Ó, Senhora,

Mais poderosa do que os Deuses,

As adorações sobem a Vosso encontro!

Todos os seres Vos saúdam!

Ó Senhora,

 Mais poderosa do que os Deuses!

 Preservado além da Morte,

Esse nome Secreto,

Ó Ser

Chamado Sekhmet.

Honrando Sekhmet

Sekhmet apareceu na minha vida com uma força que é toda dela. Foi se infiltrando em uma série de coincidências, incluindo sonhos e até um desenho animado. Demorei um pouco, mas entendi o recado. Ao longo desses dez anos de relacionamento estável passamos por diferentes fases para nos conhecermos melhor.

Comecei tímida, com uma mini estátua douradinha e mal acabada no altar. Hoje até um bracinho quebrou desta minha primeira – embora diminuta – Sekhmet. Passei a acender minhas primeiras velas vermelhas pra ela, sempre em honra, em culto, em devoção. Demorei para começar a pedir.

Uma das minhas amigas que já tinha ouvido o chamado me avisou sobre a cerveja vermelha, a bebida favorita e, portanto, a oferenda principal. Mas quente ou gelada? – – Tanto faz, mas se você prefere beber gelada, então sirva gelada, dê o seu melhor para a Deusa. Preciso servir num copo? – Não é necessário, pode só abrir a garrafa, tudo bem.

Outra, uma mulher mais velha, bem mais vivida, me avisou da estátua do museu de história natural da cidade. Aquela, mesmo em estado bem regular, de nariz e orelha quebradinhos, carcomida pelos cinco milênios de história e seu trajeto do Egito aos Estados Unidos, sentada em seu trono glorioso, mas discreto, passando por vezes despercebida como pano de fundo de inúmeras fotos turísticas e balbúrdias dos grupos escolares, bem no meio do salão da exposição do Egito Antigo, aquela mesma, se move. Ela responde se você perguntar. Fui lá, no meio da semana, conversar com ela.

Sekhmet do Field Museum em Chicago

Sekhmet do Field Museum em Chicago

Ainda bem que eu tinha o português para ficar sussurrando, plantada, em meio a idas e vindas de gentes de todas as idades, tipos e etnias. Conversei, me apresentei, pedi licença, agradeci, e perguntei se ela me aceitava como filha. Quando, já satisfeita apenas por ter tido aquele quality time, com aquela conversa do fundo do coração, eu estava de saída, conformada e feliz, quando vi o gesto. Inconfundível. Exato. Perfeito. Inesperado. Totalmente inesperado. E sou mais uma a dizer: ela se mexe sim.

Já as do Louvre, que tem uma sala cheinha de Sekhmets, não respondem perguntas, não acenam com a cabeça, apenas oscilam ritmicamente em seus tronos, como quem assiste a vida e as eras passando de sua cadeira de balanço. Se tiver a chance, confira. E me conte depois, se elas mudaram alguma coisa.

Hoje o altar dela é ponto de honra da minha sala. A estátua grande que tenho foi encomendada especialmente de uma artista que a fez baseada em fotografias. É linda. E eu soube depois, que ao fazer a estrutura de aramado dentro da estátua, a artista cortou os dedos com o material, durante o trabalho. Ela me disse depois, “aí dentro tem meu sangue, dei meu sangue por essa sua estátua”.  E eu penso: que perfeito! Não poderia ser mais perfeito. E penso também: será que, para cada uma das milhares de estátuas dela que existiram em dado momento no Egito, Ela foi exigindo algum sacrifício dos escultores que se dedicavam a representá-la?

Descobri há pouco tempo que ela gosta também, óbvio, de carne crua! Isso não é o tipo de informação que se acha escrita por aí, é o tipo de informação que a gente tem acesso com a vivência e outras técnicas de buscar conhecimento. Tem outras coisas, mas vou deixando espaço para você descobrir, na sua própria jornada, a seu próprio tempo.

Mas comece com a vela vermelha, a cerveja vermelha e, se não tem uma estátua, imprima uma foto da internet, mas escolha uma tradicional, seja retratando uma das estátuas ou papiros egípcios, com ela no trono, ou de pé, com o Ankh na mão.

Se achar um pingente, compre, e leve Ela com você.

Para o altar, comece com simplicidade e vá incrementando. Como Ela é solar, pense no posicionamento de acordo com o sol, para que você fique voltada/o para onde ele nasce ou por onde ele passa ao longo do dia – leste ou norte, portanto, já que estamos no hemisfério sul.  É minha sugestão.  Mas vá descobrindo, se aventurando, se abrindo para entender e receber as mensagens sutis ou não (há!) que vão aparecer.

Ah, e hoje eu sempre sirvo a cerveja em copos. Afinal, Ela é uma Lady!P1010443