Prazeres físicos em práticas espirituais

Exercícios de meditação, jornadas e práticas devocionais nos chegam sempre acompanhados de  uma lista de benefícios mentais, mágicos e de conhecimento. Quando se fala em resultados físicos, em geral se relaciona a melhoras em estados de saúde e eventuais curas que podemos atingir, mas pouco – ou nada – se discute sobre os prazeres físicos que podemos sentir durante essas práticas, seja pela sensibilidade energética e sua atuação em nossos centros, seja por termos um encontro de cunho sexual com deuses ou outras entidades.

Habitando uma esfera dominada pela cultura judaico-cristã, é comum sentirmos em um primeiro momento como se esse tipo de contato fosse algo proibido ou tabu, para então descobrirmos que não estamos sós nessa experiência.

 

OS SENTIDOS ETÉRICOS

“Só os sentidos podem curar a alma, tal como só a alma pode curar os sentidos.”

– Oscar Wilde

Os sentidos são sem dúvida a porta das nossas percepções neste plano, e agradá-los é algo muito poderoso e prazeroso. Todos sabemos.

Selene and Endymion

Os cinco sentidos, visão, tato, gosto, olfato e audição, podem ser apurados e desenvolvidos, assim temos verdadeiros eruditos, vide um perfumista, um enólogo, um grande chef ou maestro de orquestra.

Como bruxos, logo aprendemos que devemos desenvolver ainda mais esses sentidos para refiná-los a percepções ainda mais sutis… aquelas que raramente podem ser captadas pelas terminações nervosas do corpo, mas são perceptíveis pelos corpos sensíveis energéticos por criarem “perturbações” identificáveis nas nossas energias mais etéricas, a que podemos chamar de Qi (chi) na medicina chinesa e taoísmo ou de prana, na ayurveda, por exemplo.

Também há teorias científicas sobre energias sutis no corpo humano, esses estudos e proposições vêm desde Hipócrates, nascido em 460 AEC (antes da era comum). Pai da medicina, ele descrevia um campo energético que fluía das mãos das pessoas. Pitágoras chamava de pneuma essa energia que tudo permeia, o fogo central do universo. Ele também descrevia três corpos ocupados pela alma: Etéreo, Luminoso e Terrestre. A partir da Idade Média, temos Paracelso, Kepler, Van Helmont, Reichenbach abordando o assunto de diversas formas. Já no século XX, em 1911, Kilner chamou de aura os campos energéticos em três camadas que ele percebeu em seu trabalho no hospital St. Thomas em Londres. Harold Burr, em 1935, médico especialista em neuroanatomia de Yale, revelou que os blocos formadores da vida são “campos eletrodinâmicos”. Ele mediu e mapeou esses “campos de vida” com voltímetros e propôs seu uso para diagnosticar doenças precocemente. Em 1939, Semyon Davidovich Kirlian descobriu que poderia fotografar o campo de alta frequência da corrente colorida de luz emanada pelo corpo humano; Wilhelm Reich, chamava essa energia de Orgone, e estudou alterações no fluxo do orgone em relação a doenças e traumas físicos ou psicológicos.

 

CHAKRAS SUPERIORES

Uma abordagem que muito interessa para ajudar a explicar por que experiências místicas produzem sensações intensas, não apenas de bem estar, mas de prazer físico pode vir da ayurveda.

O prana é entendido como “a primeira essência abaixo da respiração” e seria classificado como o que chamamos de “energia vital”. Não é material, mas está presente em cada partícula da criação é o aspecto expansivo da energia e vyria (potência viril) é sua intensidade. Virya inspira todos os fervores sejam eles místicos, sexuais, criativos, artísticos, políticos, espirituais… No seu corpo físico, prana e vyria são manifestações de ojas, a vitalidade interior. Esses dois, completamente despertos e fusionados, criam samarasya – a benção da fusão entre a vida mística e a instintiva.

Aqui entra também o Sahasrara – chakra coronoário, que tem seu ponto físico no topo da cabeça, traz consciência da unidade do infinito inexpressável. No estado em que se atinge o sahasrara, a experiência e o experienciador são uma e a mesma coisa. O centro de tudo em infinito nada. É além de tudo, porém está aqui e agora, também chamado de nirvana, satori, samadhi, Ain Soph, paraíso, tao…

Um pouco mais abaixo, no crânio, encontramos o Bindu Chakra, um ponto no Sahasrara superior, que seria a fonte de todos os chakras. É o centro onde a unidade se divide na dualidade, a semente da origem do universo, simbolizado ao mesmo tempo por uma lua cheia e uma crescente. É comumente chamado de bindu visarga  – a gota que cai, indicando as gotas de ambrosia continuamente escorrendo do Sahasrara, a fonte do amrit , néctar, que desce fluindo pelo centro da coluna que se chama Sushumna Nadi. Ele é o chakra responsável pela sensação de “banho de mel”.

 

BANHO DE MEL

Nas tradições xamânicas toltecas praticadas no México e no sudoeste americano, se fala nessa sensação de um tremor ou calafrio de corpo inteiro, que começa na cabeça e desce até os pés, como se alguém abrisse o topo do nosso crânio e ali derramasse um líquido morno e aromático. É uma sensação extremamente prazerosa, muitas vezes se demorando no abdômen, onde se sente um ‘frio’ similar a uma montanha russa e alguns espasmos que lembram mesmo um orgasmo sexual.

No livro “Don Juan and the Art of Sexual Energy” de Merilyn Tunneshende, Doña Celestina que está treinando a autora americana descreve o que chama de “Banho celestial”, como uma resposta do corpo energético a algo que o estimula e excita. Não é uma sensação que pode ser forçada ou manipulada, e diferente do orgasmo físico, esse orgasmo do corpo sutil, em vez de começar nos genitais e subir, começa no topo da cabeça e desce.

Para experimentá-lo é necessário muita sensibilidade, extrema até. Muitos vão passar uma vida inteira e jamais vivenciar isso. Ele pode acontecer durante práticas de meditação, ou até por algum estímulo artístico, como uma música que nos toque profundamente a alma.

Outra experiência, sem esse “banho” energético, é o profundo prazer que se experimenta ao atingirmos o silêncio mental. Muito se fala nos benefícios mentais e físicos da meditação no mundo moderno, defendida até mesmo por médicos e cientistas. É comprovada sua eficácia para auxiliar em casos de pressão alta, administração de estados de estresse e tensão nervosa, além de proporcionar muito bem-estar.

Mas ao atingirmos, com a prática, o silêncio, o vazio mental mesmo, a ausência de pensamentos que é o objetivo da meditação, há um vislumbre de outra sensação, muito mais profunda e intensa do que a descrição de “bem-estar”. A sensação do silêncio mental tem algo mais… Algo tão atraente que explica o porquê de tantos yoguis e mestres tibetanos conseguirem ficar dias a fio, sem comer, beber, dormir ou falar, nesse estado de meditação. É um sensação tão incrível, da qual não queremos mais sair.

Então essa é uma primeira forma de experimentarmos um prazer muito intenso dentro de práticas espirituais, e um prazer que se manifesta reverberando no corpo físico. E essa forma independe da interação com outros seres, é um voo solo, apenas uma interação nossa com a energia ou os elementos.

 

PRAZER FÍSICO ATRAVÉS DO CONTATO COM ESPÍRITOS, ENTIDADES E DEUSES

Apollo-og-Dahne1Aqui entramos noutro campo de possibilidades. E as ideias a que estamos mais acostumados incluem sonhos eróticos com deuses e entidades do astral ou então incubus e sucubus. Estes últimos são os famosos “demônios” que nos visitam no sono para nos proporcionar um prazer claramente sexual enquanto sugam nossa energia, como vampiros. Quem teve um encontro com um ser desses sabe muito bem o quanto é difícil resistir, mesmo quando ficamos conscientes do que está acontecendo. A sensação é extremamente prazerosa, enquanto ao mesmo tempo muito esquisita e até dolorosa. No dia seguinte, levantamos da cama sem energia e passamos o dia tentando nos recuperar, como quem tem uma ressaca difícil. Portanto, não encorajo ninguém a conscientemente buscar contatos com incubus e sucubus, e se você é constantemente assaltado por eles na sua energia, precisa achar formas de se proteger.

Além dos sonhos, podemos ter contatos íntimos com Deuses, encantados e outros seres dentro de trabalhos visionários ou transes. Pessoas com travas e inibições no plano físico podem ter uma experiência completamente satisfatória e surpreendente nesse nível etérico/astral. É importante ressaltar que o contato sexual com esses seres independe da sua orientação sexual, muitos seres do plano astral não têm esse tipo de diferenciação ou preconceito, e você pode ficar muito surpreso. Vale reforçar que esse contato é iniciado pelo outro lado, raramente consegue ser forçado por nós.

Para os pagãos, o relacionamento com nossas divindades pode variar desde uma apreciação distante e reverente, até uma relação bem mais próxima, passando por uma sensação de parceria e amizade e podendo chegar ao amor romântico. Não se engane, essa história de um deus desejar deitar-se com uma mortal ou de um boto virar homem não é só mitologia grega ou lenda indígena.

Para um exemplo de enlevo ou arroubo de êxtase em contato com a divindade, podemos nos mirar no cristianismo, onde isso é muito documentado. As freiras são conhecidas como “noivas de Cristo”, e isso não é à toa!

Santa Teresa de Ávila se questiona em seus escritos:

Eu queria saber explicar, com o favor de Deus, a diferença que há entre união e arroubo ou enlevo ou voo, que chamam de espírito ou arrebatamento, que são uma coisa só. Digo que esses diferentes nomes se referem a uma só coisa, que também se chama êxtase.

Nesses arroubos (…) não há como resistir, ao contrário da união em que ficamos em nosso próprio terreno, podendo quase sempre, mesmo que com sofrimentos e esforços, resistir, nos arroubos, na maioria das vezes, isso não é possível, pois eles amiúde surgem sem que penseis, nem coopereis, vindo como um ímpeto tão acelerado e forte que vedes e sentir uma nuvem ou águia possante levantar-se e colher-vos com suas asas.”

 

CONTATO SENSUAL COM SERES ELEMENTAIS

Há bruxos que têm aliados constantes do reino dos encantados, os chamados fetchmates, com quem podem manter uma relação de cunho sexual. Um encontro assim com um feérico pode ser também ocasional, dentro de algum trabalho visionário específico, ou, caso tenha muita afinidade com esse reino, pode acabar casando, ou seja, tendo uma noiva ou noivo encantado. Essas histórias eram comuns alguns séculos atrás e seguem acontecendo ainda hoje nos meios mágicos.

“Eu vim a ti pelos portais de pedra naquele monte circundado.

Teu nome elfo tu me deste, um segredo de som prateado

Nos meus pés, sapatos dourados, eu de escarlate vestida

Minha cama é onde deitas tua cabeça, tua boca contra o meu seio.

Não é mortal o meu marido, com ele minha alma mora

E se por isso sou amaldiçoada, essa tristeza levo embora

E ainda sei, e sei tão bem, que o amor não tem barreiras

E vou amar para todo sempre, meu caminhante das estrelas.”

 

O amante desconhecido, Dolores Ashcroft-Nowicki

 

Quem segue tradições de fadas, em um nível avançado, depois de trabalhar com um ser (em geral do sexo oposto) que primeiro se apresenta como aliado e parceiro de trabalho, pode evoluir para uma relação de simbiose completa entre o parceiro humano e o faery. Há tradições bem rígidas a este respeito, não é algo feito levianamente. Caso ocorra um casamento, este é pela eternidade.

O autor Orion Foxwood que tem uma tradição de trabalho muito intenso com esses seres, descreve a relação dele para seus alunos como uma ponte entre os dois mundos: quando ele fecha os olhos, enxerga no mundo de sua noiva fada, quando abre, é ela quem vê para dentro do mundo dele.

Ele também defende que nos encontros com encantados é comum confundirmos qualquer contato como tendo conotação sexual, pelo tipo de energia que eles vibram. Como são de uma rara intensidade, nossa consciência humana atual interpreta e identifica tudo como tensão sexual. Então atenção para não confundir as coisas. Pode não ser essa a intenção do ser que você encontrou.

Outra possibilidade interessante é quem incorpora um deus ou deusa durante o ato sexual. Isso acontece de forma casual, quando já se está no ato, e, de repente, algo divino ou feérico toma emprestado nosso corpo, para também se divertir. É uma possessão leve, parcial, mas que guia nossos movimentos e pode fazer coisas que não são do nosso repertório normal. A experiência é muito intensa e em geral divertida. É uma invasão por parte da entidade, e você pode ou não acolher, claro. A soberania é sempre sua.

 

TABUS, ONDE DE FATO FICA MINHA LINHA AMARELA? QUAL O LIMITE?

             Eu trabalho apenas com duas restrições, mas elas são absolutamente rígidas, por considerar que seriam envolvimentos muito perigosos para nossa integridade real. Trata-se se interações sexuais com espíritos condicionais (demônios) ou com espíritos de humanos desencarnados. Jamais experimente com essas categorias.

 

E DE QUE NOS SERVEM ESSES CONTATOS?

As práticas individuais que trazem o prazer físico são maravilhosas e enriquecedoras, eu entendo como um acelerador evolutivo. A sensação mais permanente disso, o que nos levaria a um estado constante “orgástico” seria na iluminação, ao atingirmos um estado pleno no Sahashara, achei um texto do Osho que descreve isso muito bem:

“Realmente, quando você alcança ao sahasrar, uma coroa floresce dentro de você, uma lótus de mil e uma pétalas se abre. Nenhuma coroa pode ser comparado com isso, mas assim isso tornou-se apenas um símbolo e o símbolo tem existido por todo o mundo. Isso simplesmente mostra que em toda parte as pessoas se tornaram cônscias e alertas de um modo ou de outro da suprema síntese no sahasrar.

Num orgasmo sexual interior e exterior se encontram, porém momentaneamente. No sahasrar eles se unem permanentemente. É por isso que digo que a pessoa precisa ir do sexo ao samadhi. No sexo noventa e nove por cento é sexo, um por cento é sahasrar; no sahasrar noventa e nove por cento é sahasrar, um por cento é sexo. Eles estão juntos, estão interligados, por profundas correntes de energia. Portanto, se você desfrutou do sexo, não faça lá sua moradia. Sexo é somente um vislumbre do sahasrar. O sahasrar irá proporcionar milhares, milhões de bem aventuranças, de bênçãos a você.”

Já os contatos aprofundam nosso trabalho com os planos interiores, nos trazem maior afinidade e ampliam nossa percepção. Também é uma forma de devoção a nossos deuses oferecendo o presente da nossa energia física através das sensações que eles podem assim também experimentar. No entanto, ninguém jamais deve permitir um contato forçado. As ocorrências de encontros com conotação sexual com seres do astral são também para benefício deles, eles têm interesse nessa troca. Se você se assustar ou não tiver vontade, pare, diga não, você é soberano de todos os seus corpos e tem todo direito de escolher com quem vai se relacionar, mesmo no plano etérico.

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Nós que aqui estamos…

Em outubro de 2017, tive a oportunidade de ir a Portugal para participar de um intensivão com o astrólogo Alan Oken. O curso era voltado para uma visão mais espiritual da astrologia, e, enquanto nos levava pelos ensinamentos dos planetas sob essa visão mais esotérica, Alan também nos levava por diferentes cidades daquele país. Foi assim que fui parar em Évora.

Embora haja toda uma mítica sobre a cidade e sua famosa bruxa, não achei nada de bruxaria por lá. Não estou dizendo que não tenha, estou apenas afirmando que não é visível aos olhos e nada fácil de encontrar pelo Google. Chega a ser estranho, pois nem loja mística consegui localizar.

Templo Romano, Évora

Meu desgosto em encontrar o Templo Romano em reforma

No entanto, a atmosfera não deixa de estar ali, e ela é antiga, muito antiga. Évora, que fica no Alentejo, guarda vestígios até hoje de seu passado pré-histórico (Cromeleque dos Almendres, que será tema de outro post), do domínio romano por que passou (vide o Templo Romano de Évora que no período da minha visita estava em restauração, buáaa!), do domínio visigótico e depois mouro,  antes de os cristãos tomarem conta.

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O antigo palácio da inquisição, agora transformado em centro cultural

 

Isso tudo está lá, e se mantém arqueológica e energeticamente nas camadas que compõem o solo da cidade. E como é que se dorme em cima de tudo isso? Muito mal! A energia do centro antigo é super convulsa, foi um alívio sair de lá. Sem contar que fiquei hospedada bem perto do antigo palácio da inquisição! Ai meus deuses!

Uma das visitas mais impactantes é a Capela dos Ossos, que fica na Igreja de São Francisco.

Foi construída no século XVII por iniciativa dos frades franciscanos que queriam ali criar um espaço de meditação sobre a mortalidade e a transitoriedade da vida. O espaço antes já era uma sala de reflexão, e o local realmente não é tão grande, cerca de 200 m2, mas a visão e a experiência são marcantes.

20171025_141700O ambiente é escuro, tem pouca luz natural e algum auxílio de lâmpadas instaladas estrategicamente. Nas paredes e revestindo as colunas, estão cuidadosamente colocadas ossadas e cerca de 5000 caveiras humanas. A abóbada tem pinturas que aludem à morte. Mesmo com um tema tão mórbido, o conjunto é de uma beleza poética ímpar e tem sobre os visitantes o efeito que almejavam os frades.

 

Os ossos ali vêm de 42 cemitérios que existiam na cidade no século XVI, e é difícil não lembrar do arcano XIII do Tarô, a carta da Morte, que na sua amorosidade eterna nos colhe ao final do ciclo, igualando a todos. Ela é a democracia em si, não diferencia ninguém, e dela ninguém escapa, nem reis, nem sacerdotes, nem mendigos. É ela quem nos torna verdadeiramente humanos e nos faz valorizar a jornada.

20171025_141211Ao chegarmos somos saudados com o aviso: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. E é isso mesmo. Um dia todos chegaremos lá, não na capela de Évora, mas nossa fragilidade física será vencida na nossa hora, e seremos devolvidos e reduzidos aos minerais que nos compõem. E cabe a nós, dentro dessa brevidade da vida humana, nos lembrarmos constantemente da preciosidade que é ter um corpo vivo que respira, pulsa e vibra.

Feliz Samhain!!!

 

Eclipses para todo lado

Nos últimos meses, os eclipses ganharam espaço nas mídias sociais, mas muitos dos textos divulgados têm uma visão distorcida sobre esses fenômenos astronômicos. O que diz a astrologia sobre o efeito dos eclipses nas nossas vidas? E como entender magicamente a tensão que ocorre quando um astro encobre o outro?

Já falei disso antes aqui, mas agora segue um vídeo com várias explicações legais.

 

Datas dos próximos eclipses:
15/2/2018 Solar parcial 27 aquário
13/7/2018 Solar parcial 20 câncer
27/7/2018 Lunar total 4 aquário/ 4 leão
11/8/2018 Solar parcial 18 leão
6/1/2019 Solar parcial 15 capricórnio

O grande eclipse de Agosto 2017 (para quem está nos Estados Unidos)

a_mach_eclipse_greateclipse_170803.today-inline-vid-featured-desktopEstá todo mundo falando do eclipse solar que vai acontecer em três dias. Sim, no dia 21 de agosto de 2017 teremos um eclipse solar total que poderá ser avistado em sua completude de oeste a leste dos Estados Unidos. Mas o que isso significa para a sua vida? Talvez nada.

O que é um eclipse?

Um eclipse solar acontece quando a silhueta da lua se interpõe entre a Terra e o sol, tapando a luminosidade deste. Claro que a lua é muito menor que o sol, porém, vista da Terra, quando se encaixa direitinho na frente do astro-rei, ela consegue tapar a luz do dia e, num eclipse total, tudo escurece por alguns minutos . Os passarinhos se atrapalham e voltam para seus ninhos, e os humanos de antigamente achavam que algum monstro havia engolido o globo de fogo que brilha sobre nós ou estava ocorrendo algum outro fenômeno sobrenatural que, em geral, trazia mau agouro e problemas para a tribo ou o reino.

Agora que sabemos calcular fenômenos astronômicos, temos a Nasa para monitorar tudo e a internet para divulgar trocentas bobagens em cima dos acontecimentos, a gente consegue prever quando teremos eclipses e, sendo assim, ninguém dos humanos se assusta mais.

Existem quatro tipos de eclipse solar, e eles sempre acontecem durante a fase da lua nova.

  • Total: quando a silhueta da lua obscurece o sol por completo, o último foi em março de 2016 (o último que eu vi assim foi no pátio da minha faculdade em Porto Alegre, não lembro o ano).
  • Anular: Quando sol e lua estão alinhadinhos com a Terra, mas a bola da lua não está tão grande a ponto de escurecer tudo, então a gente vê um anel de fogo no céu. O último foi agora em fevereiro de 2017, bem durante o carnaval, e podia ser avistado do Brasil. Do meu quintal, no entanto, não dava pra ver o anel perfeito, apenas uma “mordida” que tinha sumido do Sol.
  • Híbrido: de certos pontos da Terra é avistado como um eclipse total, de outras partes, se vê como anular.
  • Parcial: quando sol e lua não estão assim tão perfeitamente alinhados, e o efeito que se dá é que um pedaço do sol está faltando. Nada escurece (já que é preciso tapar 99% do sol para causar qualquer escuridão).

De todo modo, é importante saber que: TODOS OS ANOS TEMOS DE 2 A 5 ECLIPSES SOLARES ocorrendo e que podem ser avistados de algum lugar do planeta . O total é de, em média, 240 eclipses solares por século. É muito eclipse. Não é um evento raro, não é algo extasiante ou nunca visto.

Então por que tá todo mundo louco com esse eclipse de 21 de agosto? A resposta é simples: porque além de ser um eclipse total, ele pega toda a extensão dos Estados Unidos. O hype mundial é porque é um hype americano. Só. Ponto.

Os americanos compraram todos os “óculos para eclipse” à venda no mercado, estão viajando e hotéis estão lotados nas regiões que poderão avistar o eclipse na sua totalidade. Algo, que, inclusive, *todos* os sábios de antigamente aconselhariam negativamente. Pois se o eclipse é uma ocorrência nefasta, por que diabos alguém vai caçar o sol para avistar um?

O que torna este eclipse especial para os americanos é a mídia, martelando sem parar que desde 1918 eles não têm um eclipse solar total cuja sombra percorra o país de oeste a leste em toda sua largura, e que desde 1257 não acontece de um eclipse assim recair exclusivamente sobre solo americano (se bem que, claro, em 1257 aquilo lá era território indígena e tinha o nome que os nativos davam).

O outro grande motivo de alarde lá é que o eclipse vai se dar aos 28 graus de Leão, o que cai em cima, na tampa, cravado no ascendente do presidente americano Donald Trump. Mas, coincidentemente, também cai na tampa, cravadinho no *meu* ascendente, que descobri, é o mesmo do Trump. Buuuuu!!!!

Então com certeza para mim será um grande evento, e pro Trump também. Mas se o eclipse – não importa se é total, parcial ou anular – não for cair em cima do seu ascendente, sol, lua ou outro planeta importante no seu mapa astrológico (ou do mapa da sua cidade ou país),  a chance é enorme de que você não vá sentir o efeito.

Então parem com essas baboseiras de sites de que o eclipse anuncia uma nova era, que a super lua vai mudar o paradigma da existência humana, que os portais vão se abrir e uma nova consciência vai finalmente chegar, bla bla bla bla bla.  Ou algo mudou desde as 20 super luas que tivemos ano passado?

Não vamos botar a cargo dos astros aquilo que NÓS COMO SERES HUMANOS precisamos dar conta de fazer. O lixo e a atrapalhação são nossos, vamos parar de achar que alguma salvação vem de fora, vamos nós trabalhar para construir uma vida mais justa e harmônica, e cuidar do planeta antes que ela se livre de nós porque estamos causando muito estrago.

Mas, se cair em cima dos pontos importantes do meu mapa, que efeitos ele tem?

Para saber se este eclipse terá um efeito sobre você, uma pista é examinar o que rolou na tua vida no segundo semestre de 1998. Os eclipses têm um ciclo de mais ou menos 19 anos para pegar um mesmo ponto no céu. Em 22/8/1998 houve um eclipse anular no grau 28 do Leão.

Caso conheça seu mapa, examine então se ele vai tocar seu ascendente, lua ou sol, principalmente. Depois, veja em que casa vai cair. Isso sim será afetado, aquela área da sua vida estará propensa a grandes eventos, onde algo termina e algo novo se inicia.

Eclipses solares disparam nascimentos, casamentos, promoções, avanço incrível na carreira, contratos, viagem, venda ou compra de casa, cirurgias, perda de animais de estimação ou novo animal na casa, início de estudos, e por aí vai. Em geral tende a puxar o foco para áreas da vida que precisam de atenção ou mudança. Ele pode inspirar, motivar ou pressionar você na direção do que necessita.

Eclipses lunares (que acontecem durante a lua cheia) também têm efeitos, mas tendem a ser mais emocionais. O último, do dia 7/8 agora, trouxe à tona questões com amizades, por exemplo, já que tende a revelar o caráter das pessoas.

Se pegar teu signo ou teu ascendente, a tendência é de uma vida nova pela frente ou até um casamento (o que é uma vida nova pela frente).

Dito isso, astrologia é como um relógio. Para saber o que vai acontecer no mundo ou na nossa vida, é só observar as pistas nas ocorrências de quando aquilo se deu da última vez.

Os americanos estão torcendo que algo muito ruim aconteça ao Donald. Ok pode ser, mas pode ser bem o contrário. Pode ser que a vida nova dele seja sair da presidência, mas pode ser que algo se dê que favoreça aquele homem horrível.

O que me intriga é que em 1776, ano da independência dos EUA, houve um eclipse parcial (não era total e não caía sobre os EUA)  em agosto no grau 21 do Leão. Então dado isso, de que é próximo deste, e mais o fato de que cai sobre o ascendente do presidente, pode ser que algo novo surja no horizonte e mude o rumo da política da nação. Este também opõe no grau a lua dos EUA, ou seja, afeta o povo (que será ainda mais diretamente afetado no próximo eclipse, em 2018).

Ah, em tempo, os efeitos pessoais que um eclipse tem no nosso mapa tendem a durar até o próximo eclipse do mesmo tipo. Portanto, se este agora cair na sua casa 10, da carreira e reputação social, a pressão que você vai sentir para buscar reconhecimento, a garra e determinação e as chances de aumento de salário ou visibilidade duram até fevereiro de 2018, quando o eclipse solar parcial será aos 27 do aquário.

Sinceramente, fora da minha vida pessoal (e de todos que partilham do mesmo ascendente, haha), não espero grandes efeitos mundiais deste eclipse de agora – posso estar enganada claro –, estou seriamente preocupada é com o que vem em 6/1/2019. Com o tipo de conjunção que teremos no céu, nossa divisão social, nossa materialidade e nossos horrores podem chegar a um extremo nunca visto.

Vamos todos, por favor, nos engajar verdadeiramente em transformações e crescimento pessoal, em ativismo, em lutas por justiça e igualdade, em fazer bons atos, atos amorosos, que repercutam junto aos nossos próximos, para que a gente evite que algo assim aconteça.

 

 

 

 

A bruxaria é antiga

England_2015 (247)A bruxaria é antiga. Ela nasceu da curiosidade humana de buscar alcançar o mesmo conhecimento e a capacidade dos Deuses. É filha da desobediência, filha da necessidade – nascida do encontro com o outro e o outro mundo, tudo aquilo que não é nós, aquilo que vai além dos sentidos ordinários, mas que era visto, vivenciado e honrado antes de virar proibido. Antes de virar pecado. Antes de pararmos de enxergar. Antes de deixar de ser compreendido pelo próprio afastamento da experiência humana.

A bruxaria é antiga. Ela desperta sentidos adormecidos ou é despertada em nós porque os sentidos adormecidos acordam de repente. Ela abre a visão, a audição, o tato, e principalmente a compreensão de que não estamos sós, que não fomos abandonados, não somos separados do mundo natural, do encanto, e principalmente que não precisamos de redenção alguma.

A bruxaria é antiga. Sabe usar o que há e o que é possível, o corpo, o ambiente, a casa. Cuspe, osso, folha. Água, sol, lágrima. Urina, pano, barro. Caldeirão, faca, vassoura, cálice, prato, pilão e espelho. O que é possível e passível de se disfarçar, pois a bruxaria enxerga os perigos, e fala em silêncios, em sinais, em murmúrios. Anda pelo escuro e se move sem provocar ruído. Sabe não chamar a atenção quando essa atenção é perigosa e pode levar à fogueira, ou à fogueira das vaidades.

A bruxaria é antiga e é não-binária, transita entre polaridades. Sendo selvagem, não determina o tom, nem cobra que você se posicione rigidamente – como se fosse possível lhe colocar inteiro em uma caixinha. Tudo cabe, toda chama cabe. Se te arde o espírito, você é dela, e ela é sua, mesmo que você não faça nada, mas é melhor se fizer.

19121648_307273559699522_4339839048429338624_nA bruxaria é antiga e ela em si não dá regras, exceto aquelas que cada um encontra no seu caminho particular com os Deuses, os espíritos e os encantados. Aquelas que vêm do aprendizado, do tombo, do erro, da atenção, da revelação e das leis do retorno.

A bruxaria não é elitista, não demanda livros, não demanda iniciações pagas, viagem a lugares sagrados nem retiros em spas do espírito. Mas ela é plural e sempre pode se beneficiar muito de várias dessas coisas.

A bruxaria é antiga, tão antiga que é ancestral. Nascida do desespero de não ser ouvido, de não ter justiça humana que ajude, de não encontrar meio mundano de tocar a vida para frente ou superar a adversidade. Ela é nascida da celebração do pacto do visível com o invisível e da necessidade de partilhar com o invisível porque a vida é mais e a vida pede.

Ela é Arte, ela é Ofício, ela é Religião, ela é Feitiçaria, ela é Espiritualidade, e também pode não ser nada disso. A bruxaria não pode ser domesticada, ela não se curva a rótulos ou a regras que venham de fora da tradição a qual você pertence. Ela não suporta a perseguição religiosa contra a liberdade de crença e de prática, muito menos quando é empunhada por filhos seus que, num enlevo de soberba, usam de deboche e escárnio para diminuir e difamar quaisquer outras vertentes e práticas que difiram da sua. Ela é um fogo, um dom que é presente dos Deuses. E os Deuses não costumam tolerar a intolerância de alguns de seus filhos para com os outros.

Ela pode ser xamânica, extática, hereditária, wiccana, heathen, nórdica, gentia, natural, cigana, tradicional, moderna, luciferiana, cerimonial, umbandista, espiritista, druídica, contemporânea, possessória, ela é de quem quiser ser dela, de quem arde com ela, de quem dança com ela, de quem deseja arriscar chamar a si de bruxo e carregar sua marca indelével e inconfundível.

Bruxaria não tem dono. Ela é tão antiga quanto a humanidade, não é um nome com marca registrada.

A bruxaria é herege e libertária. Pelos Deuses, que ela continue assim.

 

Na casa dos espíritos – oferendas, trocas e sacrifício (um texto de Gede Parma)

*Gede Parma é um bruxo australiano, autor de quatro livros: Spirited – taking paganism beyond the circle; By Land, Sky and Sea – three realms of shamanic witchcraft; Ecstatic Witchcraft – magick, philosophy & trance in the shamanic craft; Magic of the Iron Pentacle, este último juntamente com Jane Meredith. Ele é parte das tradições Wildwood e Reclaiming. Mora atualmente em Melbourne, mas viaja constantemente para ensinar workshops e virá ao Brasil em novembro, oferecendo workshops em São Paulo, Rio de Janeiro e, possivelmente, Brasília. No intuito de que o trabalho sensacional que ele conduz seja mais conhecido dos leitores brasileiros, venho traduzindo alguns dos textos dele neste blog, com autorização e amizade do autor. Para saber mais, visite o website do autor e leia também os outros textos dele já publicados aqui no Elemento Chão.

 

Na casa dos espíritos – oferendas, trocas e sacrifício

27 de novembro de 2012 (leia o original aqui)

Observação: Este ensaio é reforçado pelas minhas experiências como bruxo da tradição WildWood, portador das cargas de curandeiro e de xamã, e como trabalhador do plano espiritual e receptáculo (possessório e oracular) entre os mundos.

Este ensaio é dedicado a Pipaluk – meu querido amigo, aluno e professor.

Alguns meses atrás, tive um debate, dentro de uma situação de ensino do ofício xamânico (via Skype) com meu aluno à distância, Pipaluk, que mora na Holanda. Falávamos dos conceitos mais amplos do xamanismo, relacionados ao entendimento vivencial da Divindade, dos Deus, dos Espíritos e nossa conexão com eles enquanto bruxos xamânicos e selvagens. Afinal, somos tradicionalmente trabalhadores do plano espiritual. Tudo é espírito; tudo é Deus. Esse é um conceito chave em uma variedade de tradições contemporâneas da Arte, inclusive na Wildwood e Anderson Feri. Como Victor Anderson, um dos últimos grandmasters da tradição diria, nós bruxos temos mais em comum com os Shinto e os Ainu do Japão do que com os magos cerimoniais da Europa medieval. Trabalhamos com o ímpeto dinâmico e residimos no centro imóvel e caótico do cosmos vivo, tal como seres presentes, alinhados e sagrados (cientes disto e experientes nessa consciência) em vez atuarmos como ditadores de uma máquina ordenada e mecânica. Reconheço que esta última é uma representação radical das tradições de magia cerimonial como um todo, mas estou me referindo a uma compreensão e prática populistas e quiçá equivocadas dos sistemas de Ocultismo/Esoterismo Ocidental, em oposição aos verdadeiros adeptos que já conheci e respeito.

Antes que possa abordar a natureza de Oferendas, Trocas e Sacrifícios no contexto das relações com as entidades, preciso primeiro definir o que quero dizer por Espírito, e até mesmo, “Divindade” ou um Deus.

Um Espírito é uma potência/força incorporada (tudo é físico, tudo é possuidor de [um] corpo); um senso de percepção de si reside nesse Espírito e é sua qualidade animadora. Isso não precisa ser necessariamente medido ou quantificado pelos conceitos racionalista-científicos de “sensciência”; por exemplo, uma pedra é um espírito porque se expressa como possuindo forma e corpo e tem noção de si como pedra e apresenta esta natureza.

Uma Divindade (Deus/a) é um espírito que é tão ciente de suas origens auto-provocadas que, assim como a Mãe Primordial/Grande Deusa, fica tão inebriada por sua própria imagem e reflexo causados pela Dança Luminosa (matéria estelar) que as bordas fenomenais de “pessoalidade” se dissolvem e se acomodam de tal forma que o Deus se torna uma História (Pró)Ativa; um Altar de Mitos. Tudo isso é de uma realidade das mais profundas.

Todas as deidades, dentro dessa compreensão e relação Experiencial, Ontológica e Teológica são portanto “crísticas” (relativo aos ensinamentos da natureza divina no místico) no sentido de que há um sacrifício consciente das “bordas fenomenais” do estar-humano a serviço e celebração dos Povos Conscientes. Com frequência sinto que algumas divindades, alguns Deuses (uso esse termo de uma forma contendo nenhum e todos os gêneros ao mesmo tempo), estão mais próximos de nossa humanidade do que outros; de fato, alguns desses Grandes Espíritos (Potências Ocultas), segundo alguns ensinamentos e lendas tradicionais, um dia foram humanos. Somos todos Deuses em formação, afinal somos feitos à imagem e semelhança Dela, e como diria T. Thorn Coyle: “A Deusa em si está em processo de formação”.

Isso é, de certa forma, uma perspectiva místico-iniciatória e voltada aos Mistérios; entretanto, deriva de minhas próprias experiências como um bruxo xamânico e um trabalhador espiritual tradicional. Compreendendo o que digo acima, como não fazer oferendas aos Deuses, aos Grandes Espíritos, a Todos os Espíritos, pois quando entro em Suas Casas, tenho acesso ao Atemporal, ao Mítico, à raiz das histórias. Talvez cada divindade individual – Kali, Odin, Lugh, Iemanjá, e todos os outros – beba de certas qualidades eternas e emanações da Deusa em Si, e assim se torna possuidor daquilo que o falecido Carl G. Jung chamou de arquétipos, que não residem apenas em nossas mentes pessoais, mas no “Inconsciente Coletivo”, que permeia cada um de nós –surgimos da Escuridão Inconsciente que é o espaço sem fôlego da Deusa. No entanto, levando isso em consideração, também é verdade para mim que a Deusa é o Todo Divino, é plural e infinita em uma miríade de expressões e portanto, Todos os Espíritos (todos nós) possuímos uma história muito única, sagrada e potente de nosso Próprio Self Sagrado. Muitos rios saindo e voltando do grande oceano.

Quando adentro a Casa do(s) Espírito(s), e entro no templo de Afrodite (talvez, como faço muitas vezes), levo uma oferenda de forma, e de força, para simplesmente expressar meu amor e adoração da potência, história e fonte mítica profunda que é Afrodite. Esse é o primeiro tipo de oferenda, uma simples expressão de gratidão por dividir espaço sagrado e tempo, com uma adoração ao Espírito Sagrado do Deus. Ele vem do Meu Deus (minha Alma Estelar, meu Eu Superior mais Profundo) e portanto é uma consolidação da ponte que conecta nossos espíritos. Isso é, como se diz, educado, mas não feito por obrigação ou necessidade. Quando visitamos a casa uns dos outros no plano humano, muitos de nós levam presentes de comida, bebida, arte e até histórias para contar. Todas essas oferendas são maravilhosas para se compartilhar.

Há oferendas para fechar um “acordo” ou trabalho de troca que vai acontecer entre espíritos. Essas oferendas vêm de um entendimento de que é “correta”uma “troca de energia” entre os espíritos. Agora, um pagão que não seja bruxo, curandeiro ou xamã, pode sentir que estejam aplacando os espíritos ao fazer isso e garantindo a benevolência deles para um novo ciclo. Um Bruxo sabe que os Espíritos (não todos) na verdade desejam estar em relação com a gente, e assim essa troca é feiticeira no contexto de trabalho, preces/expiações. O tipo de oferenda vai depender se a pessoa está calcada nos costumes e tradições (o que se sabe que o espírito aprecia como oferenda/troca com base em uma relação contínua e de observância) ou num diálogo pessoal com o(s) espírito(s). Eu, por exemplo, sou um sacerdote-amante do deus Hermes e mesmo sabendo, já por conta de oito anos de oferendas e sacrifícios para Hermes no âmbito da gratidão, adoração e troca mágica, aquilo que Ele adora e prefere, Hermes também é brincalhão, engraçado e sensual, sendo assim, recentemente, quando perguntei ao Deus o que Ele gostaria em troca de preces atendidas e auxílio nos meus trabalhos, expressou que gostaria muito de fazer amor comigo diretamente. Na verdade, isso ficou marcado para amanhã à noite (uma quarta-feira), mas já aconteceu espontaneamente várias vezes antes. Também recentemente, depois de proteger o carro do meu amigo que estava destrancado em um lugar meio perigoso e garantindo que o veículo permanecesse lá, decidiu que ele queria que eu, em troca, me aproximasse do próximo papagaio que eu visse com plumagem vermelha e verde (e com toques de azul) e sussurrasse para o bicho: “Desastre é uma coisa engraçada”. Aceitei o desafio! Na noite seguinte, eu estava assistindo um episódio qualquer de Family Guy, e o personagem Peter decide se tornar um pirata por causa de um papagaio incrível que conheceu na clínica veterinária. O tal papagaio era vermelho e verde (com toques de azul) e eu logo reconheci a natureza brincalhona e cômica dessa sincronicidade, então gatinhei até a TV e sussurrei “Desastre é uma coisa engraçada” para o papagaio na tela. Trabalhar com os espíritos não carece de acontecimentos risíveis e bizarros.

E quanto ao sacrifício? Que é tornar sagrado? Esse é um mistério. A verdadeira natureza do sacrifício diz respeito a estar disposto a ficar aberto, vulnerável e confiar, rendendo-se ao mistério, sob os auspícios de sua própria Soberania; se não temos nossa Soberania, então de que vale o sacrifício? Não farei sacrifícios, como mencionado acima, para apaziguar ou aplacar necessariamente algo, pois o conceito de antropomorfizar as forças cósmicas, muitas das quais são Deuses e Grandes Espíritos, é ridícula em seu evidente antropocentrismo; nem tudo é padronizado ou qualificável, no cósmico, por meio de sua relação com nossa espécie. Sendo assim, sacrifício é uma vontade em entrar no Caos e Incerteza (infinitas possibilidades) com o outro. Sacrificar-se é pausar por um momento sagrado, ficar em silêncio e conscientemente observar e escutar. Ali aprendemos, e o mistério flui, e recebemos iniciação múltiplas vezes como um presente da Graça. Oferecemos sacrifício para marcar o significado profundo e poderoso dessas epifanias, e uma grande potência é liberada para alimentar a nós e todos os Deuses. Tornar sagrado quer dizer exatamente isso – criar o Sagrado com o Mistério.

Uma prece:

“Eu habito a Casa dos Espíritos – sempre e para sempre.

Primeiro, rezo a meu próprio Eu Sagrado, e para o Deus que Coroa minhas Almas – que eu conheça meu mistério e beba fundo em minha fonte.

Rezo também para os Grandes Espíritos que me circundam em aliança – que trabalhemos juntos em Amor, Verdade e Sabedoria, para revelar e festejar a beleza do paraíso juntos.

Rezo à Deusa Infinita, a Avó do Espaço Sem Alento e da Hora da Meia-Noite, rezo para a Tecelã para que o Inefável esteja bem e eu esteja bem com o Inefável.”

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Politeístas e suas muitas relações com as divindades

Em um thread facebookiano,  de alguém tentando genuinamente entender como politeístas veem seus deuses, se como entidades separadas ou arquétipos, me peguei resumindo uma parte do material de uma palestra que dei anos atrás no Festival de Paganismo Grego do Faces da Lua em São Paulo, “Estabelecendo e fortalecendo a relação com nossos Deuses: da reverência ao amor romântico, descoberta e revelação de mitologias”.

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Dionísio – British Museum, Londres.

O fato é que a resposta não é única e inclusive varia de praticante para praticante, até dentro de uma mesma tradição e círculo. Ou seja, a forma como cada um se relaciona e percebe sua fé nas diferentes divindades é íntima, pessoal e intransferível.

Para os pagãos politeístas, nossas divindades podem ser percebidas em diferentes níveis, tanto como entidades personificadas com as quais nos comunicamos, como faces de uma força maior e transcendente ou até mesmo há quem sinta que eles não sejam factuais, porém, no entanto, ainda assim existem enquanto elementos de construção humana.

O relacionamento em si com nossos deuses varia desde uma apreciação distante e reverente, passa por uma sensação de parceria e amizade e pode chegar ao amor romântico.

A busca pelo entendimento de qual é essa relação de cada um ou  se existe algo mais geral que se aplicaria à maioria é antiga e já gerou muito textão e pesquisa por aí. Vou partilhar aqui uma abordagem que acho muito clara e inclusiva.

De acordo com os magos canadenses Margarian Bridger e Stephen Hergest da Evergreen Tradition,  no ensaio que escreveram com o título “Pagan Deism: Three Views”, seriam três as formas mais comuns de pagãos relacionarem-se com o conceito de divindade. As três propostas formariam as três pontas de um triângulo, e para facilitar a referência a elas, eles escolheram cores:

“Vermelha: a primeira dessas pontas seria a visão ortodoxa deísta: os deuses são entidades individuais, próprias, com nomes, com as quais podemos nos comunicar quase tal qual nos comunicaríamos com seres humanos. Eles podem ou não ter forma humanoide. Existem em uma forma (“nível”, “plano” ou “dimensão”) que fica muito além da compreensão humana, mas sua existência é verificada de maneira objetiva.

Azul: A divindade existe. Trata-se do Sagrado Irrevogável/ o Grande Mistério/ a Fonte. É tão grandiosa, tão sutil, tão abrangente, que não podemos  esperar compreender mais do que uma pequena fração dela. Sendo humanos, nos relacionamos melhor com aquilo que tem características humanas, assim temos “deuses”: metáforas humanoides ou máscaras às quais aplicamos à Face sem rosto do grande Todo para que através deles possamos apreender e nos relacionar com uma parte desse Todo.

Amarela: Os deuses existem apenas como construções da imaginação e da mente humana. São Verdades. Formas válidas de dar sentido ao pensamento e experiência humanos, personificações de um abstrato que poderia, não fosse isso, ser escorregadio demais para nossa mente compreender, mas não são Factuais; não têm uma existência que possa ser comprovada. Assim como outras abstrações (por exemplo Liberdade, Democracia, Amor, Verdade)  enriquecem nossas vidas e vale a pena acreditar neles, mas é ingênuo pensar que teriam uma existência passível de comprovação objetiva. Não faz diferença que não sejam factuais; são verdadeiros e é isso que importa.” triangle

A crença de grande parte das pessoas não se encaixa certinho em uma das pontas, mas mescla mais de uma cor. Muitos bruxos que trabalham com o Divino Feminino, poderiam se autoclassificar como algum tom de verde, colocando-se em algum lugar entre o azul e o amarelo. Na minha prática, eu ficaria mais na face “roxa”, transitando entre o azul, que para mim descreve a existência de uma força ilimitada, uma consciência única que tudo rege e tudo permeia (um pouco relacionado ao Ain Soph da Kabbalah), mas na prática diária, sou da ponta vermelha, com imagens, preces e rituais de devoção a faces específicas de certas divindades. Há quem se identifique com um conceito mais “laranja”, com uma relação pessoal com os deuses, porém agnósticos quanto à natureza desses deuses. Ateus e junguianos podem se afeiçoar mais à ponta amarela.

O importante é ressaltar que não há conceito “certo” ou mais “divino” do que outro. É apenas um esquema para analisarmos nossa própria percepção e momento, afinal nossas crenças podem mudar ao longo da vida. É bacana refletir sobre onde nos encaixaríamos e de que forma nossos conceitos podem se alterar junto com nossas experiências.

Bruxos, sejam tradicionais, wiccanos, druidas e outros,  podem cair em pontos bem distintos do triângulo e, no entanto, compartilhar das mesmas práticas mágicas e rituais sem perceber que o que é literal para um, é metáfora para o outro, até dentro de um mesmo grupo. Alguém Vermelho pode ser mais relutante em misturar panteões, um Amarelo pode dedicar menos energia às práticas devocionais  e usar seu tempo explorando a psicologia humana – porém como é uma questão muito interna, esses padrões podem passar totalmente despercebidos para quem sussura “Que assim seja” do seu lado, celebrando o mesmo sabbat.

Essa diferença não deve gerar dogmas e brigas para provar se alguém está certo ou forçar ninguém, alegando que só poderá permanecer em um grupo se perceber e acreditar exatamente como o outro.

De acordo com Margarian e Stephen, a maior necessidade de um bruxo amarelo, por exemplo, é a busca da verdade, é uma pessoa que precisa questionar todas as crenças e gosta de uma compreensão mais psicológica das manifestações de fé.  E é exatamente a fé a força motriz do pessoal da ponta vermelha, as experiências deles são suficientes como prova de que as divindades simplesmente são. Ponto final. Um bruxo azul seria o mais místico, cuja necessidade primeira é a de pertencimento.

Como mencionei, meu trabalho diário é dentro do espectro vermelho, tratando os Deuses como entidades separadas, independentes de mim, a quem recorro, a quem adoro e a quem agradeço. E para quem desconhece essa relação e me pergunta se de fato acredito nesses deuses todos, vou responder parafraseando um genial conhecido meu: acredito sim, em todos, Sekhmet, Dionísio, Rhiannon, Hekate, Shiva, inclusive eu os vejo e converso com eles. O segredo é entender que a gente nunca consegue enxergar uma coisa se não acreditarmos que ela existe. É por isso que algumas pessoas, por exemplo, não conseguem enxergar o racismo.

Que os Deuses abençoem todos nós!

 

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Marte e Vênus de Botticelli na National Gallery, Londres.