Politeístas e suas muitas relações com as divindades

Em um thread facebookiano,  de alguém tentando genuinamente entender como politeístas veem seus deuses, se como entidades separadas ou arquétipos, me peguei resumindo uma parte do material de uma palestra que dei anos atrás no Festival de Paganismo Grego do Faces da Lua em São Paulo, “Estabelecendo e fortalecendo a relação com nossos Deuses: da reverência ao amor romântico, descoberta e revelação de mitologias”.

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Dionísio – British Museum, Londres.

O fato é que a resposta não é única e inclusive varia de praticante para praticante, até dentro de uma mesma tradição e círculo. Ou seja, a forma como cada um se relaciona e percebe sua fé nas diferentes divindades é íntima, pessoal e intransferível.

Para os pagãos politeístas, nossas divindades podem ser percebidas em diferentes níveis, tanto como entidades personificadas com as quais nos comunicamos, como faces de uma força maior e transcendente ou até mesmo há quem sinta que eles não sejam factuais, porém, no entanto, ainda assim existem enquanto elementos de construção humana.

O relacionamento em si com nossos deuses varia desde uma apreciação distante e reverente, passa por uma sensação de parceria e amizade e pode chegar ao amor romântico.

A busca pelo entendimento de qual é essa relação de cada um ou  se existe algo mais geral que se aplicaria à maioria é antiga e já gerou muito textão e pesquisa por aí. Vou partilhar aqui uma abordagem que acho muito clara e inclusiva.

De acordo com os magos canadenses Margarian Bridger e Stephen Hergest da Evergreen Tradition,  no ensaio que escreveram com o título “Pagan Deism: Three Views”, seriam três as formas mais comuns de pagãos relacionarem-se com o conceito de divindade. As três propostas formariam as três pontas de um triângulo, e para facilitar a referência a elas, eles escolheram cores:

“Vermelha: a primeira dessas pontas seria a visão ortodoxa deísta: os deuses são entidades individuais, próprias, com nomes, com as quais podemos nos comunicar quase tal qual nos comunicaríamos com seres humanos. Eles podem ou não ter forma humanoide. Existem em uma forma (“nível”, “plano” ou “dimensão”) que fica muito além da compreensão humana, mas sua existência é verificada de maneira objetiva.

Azul: A divindade existe. Trata-se do Sagrado Irrevogável/ o Grande Mistério/ a Fonte. É tão grandiosa, tão sutil, tão abrangente, que não podemos  esperar compreender mais do que uma pequena fração dela. Sendo humanos, nos relacionamos melhor com aquilo que tem características humanas, assim temos “deuses”: metáforas humanoides ou máscaras às quais aplicamos à Face sem rosto do grande Todo para que através deles possamos apreender e nos relacionar com uma parte desse Todo.

Amarela: Os deuses existem apenas como construções da imaginação e da mente humana. São Verdades. Formas válidas de dar sentido ao pensamento e experiência humanos, personificações de um abstrato que poderia, não fosse isso, ser escorregadio demais para nossa mente compreender, mas não são Factuais; não têm uma existência que possa ser comprovada. Assim como outras abstrações (por exemplo Liberdade, Democracia, Amor, Verdade)  enriquecem nossas vidas e vale a pena acreditar neles, mas é ingênuo pensar que teriam uma existência passível de comprovação objetiva. Não faz diferença que não sejam factuais; são verdadeiros e é isso que importa.” triangle

A crença de grande parte das pessoas não se encaixa certinho em uma das pontas, mas mescla mais de uma cor. Muitos bruxos que trabalham com o Divino Feminino, poderiam se autoclassificar como algum tom de verde, colocando-se em algum lugar entre o azul e o amarelo. Na minha prática, eu ficaria mais na face “roxa”, transitando entre o azul, que para mim descreve a existência de uma força ilimitada, uma consciência única que tudo rege e tudo permeia (um pouco relacionado ao Ain Soph da Kabbalah), mas na prática diária, sou da ponta vermelha, com imagens, preces e rituais de devoção a faces específicas de certas divindades. Há quem se identifique com um conceito mais “laranja”, com uma relação pessoal com os deuses, porém agnósticos quanto à natureza desses deuses. Ateus e junguianos podem se afeiçoar mais à ponta amarela.

O importante é ressaltar que não há conceito “certo” ou mais “divino” do que outro. É apenas um esquema para analisarmos nossa própria percepção e momento, afinal nossas crenças podem mudar ao longo da vida. É bacana refletir sobre onde nos encaixaríamos e de que forma nossos conceitos podem se alterar junto com nossas experiências.

Bruxos, sejam tradicionais, wiccanos, druidas e outros,  podem cair em pontos bem distintos do triângulo e, no entanto, compartilhar das mesmas práticas mágicas e rituais sem perceber que o que é literal para um, é metáfora para o outro, até dentro de um mesmo grupo. Alguém Vermelho pode ser mais relutante em misturar panteões, um Amarelo pode dedicar menos energia às práticas devocionais  e usar seu tempo explorando a psicologia humana – porém como é uma questão muito interna, esses padrões podem passar totalmente despercebidos para quem sussura “Que assim seja” do seu lado, celebrando o mesmo sabbat.

Essa diferença não deve gerar dogmas e brigas para provar se alguém está certo ou forçar ninguém, alegando que só poderá permanecer em um grupo se perceber e acreditar exatamente como o outro.

De acordo com Margarian e Stephen, a maior necessidade de um bruxo amarelo, por exemplo, é a busca da verdade, é uma pessoa que precisa questionar todas as crenças e gosta de uma compreensão mais psicológica das manifestações de fé.  E é exatamente a fé a força motriz do pessoal da ponta vermelha, as experiências deles são suficientes como prova de que as divindades simplesmente são. Ponto final. Um bruxo azul seria o mais místico, cuja necessidade primeira é a de pertencimento.

Como mencionei, meu trabalho diário é dentro do espectro vermelho, tratando os Deuses como entidades separadas, independentes de mim, a quem recorro, a quem adoro e a quem agradeço. E para quem desconhece essa relação e me pergunta se de fato acredito nesses deuses todos, vou responder parafraseando um genial conhecido meu: acredito sim, em todos, Sekhmet, Dionísio, Rhiannon, Hekate, Shiva, inclusive eu os vejo e converso com eles. O segredo é entender que a gente nunca consegue enxergar uma coisa se não acreditarmos que ela existe. É por isso que algumas pessoas, por exemplo, não conseguem enxergar o racismo.

Que os Deuses abençoem todos nós!

 

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Marte e Vênus de Botticelli na National Gallery, Londres.

O que faz uma Parteira ou Doula da Morte?

Muitas vezes encontro pessoas amigas ou até desconhecidas e me pego falando sobre a morte. É um assunto natural para mim, mas parece que nessa nossa louca sociedade onde tudo é voltado ao crescimento, ao progresso, à juventude e ao sucesso, a morte é um assunto que exige uma certa coragem e qualidade psíquica para que a pessoa se sinta tranquila de abordar.

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Oferecendo um quintú de coca em um cone funerário nos arredores de Puno, Peru.

Já percebi que é sempre mais fácil falar do assunto com quem já viu essa dama bem de perto ou acompanhou a gentil senhora levar embora alguém muito querido seu. Já percebi também que é muitas vezes mais fácil tocar no assunto com quem ainda não passou dos sessenta.

Mas é um assunto do qual não adianta fugir. Aliás, podemos fugir o quanto quisermos do assunto. Já dela,  impossível! A grande verdade é que ninguém sai daqui vivo.

Evitar falar da morte tem efeitos colaterais nocivos para nossa sociedade

Algumas semanas atrás, passei a tarde engarrafando hidromel. Uma amiga muito querida veio me ajudar, e, em nosso intervalo para o almoço, o assunto foi cuidados paliativos, trabalho em hospice care e escolhas para a morte. Numa terça-feira fria, mas de sol, comendo um couscous marroquino no quintal, pode parecer um assunto mórbido, como em determinado momento me ocorreu. Mas quão melhor seria nossa sociedade se tivéssemos naturalidade para abordar o fim da vida?

Essa ideia de que falar na morte a atrai, de que a morte é algo temerário, ruim, que precisa ser evitado de qualquer jeito tem um custo altíssimo para nossa sociedade e nossa saúde psíquica e emocional.

Primeiro, evitar a morte é evitar o fim, a decomposição o término. Não sabemos lidar com o fim de nada, adoramos falar só em começos, em iniciativas, em progresso. Só queremos começar relações, começar um novo emprego, construir, comprar, expandir.

A natureza não funciona assim, tudo ao nosso redor tem ciclos que envolvem uma decadência e então um término. Mas nós só pensamos em criar! Inventamos apetrechos maravilhosos sem levar em conta como aquele apetrecho vai se decompor depois e retornar à natureza. O resultado é que nos encontramos entulhados de lixo de longuíssima decomposição que não sabemos onde enfiar, pois do ponto de vista do planeta, não existe “jogar fora”. Temos um continente de lixo flutuando perto da Austrália, temos animais marinhos engolindo plástico, temos solo e águas poluídas à exaustão. Tudo porque nós não pensamos no fim daquilo que criamos, embora a Mãe Natureza nos tenha demonstrado sua infindável sabedoria em ter tudo planejado: do começo ao final, com 100% de reaproveitamento  de absolutamente tudo.

Nossa negação da morte, nosso medo, nos leva a entregar nossos entes queridos na mão de estranhos no hospital e na indústria funerária, por não querermos ver, não querermos tocar, não querermos lidar com aquilo. Pessoas que amamos são abandonadas por nós porque não sabemos o que fazer com uma passagem, com aquilo que foi e não é mais.

E nossos sentimentos são reprimidos e jogados para os recônditos do inconsciente. O luto não vivido ressurge depois em ataques de pânico, paranoias, fobias e outros distúrbios que atrapalham nossa paz e nossas relações.

O último suspiro

something-beautiful-has-diedEm 2006 eu tive a honra de estar presente no quarto de hospital quando minha avó paterna deu seu último suspiro. Foi uma experiência que mudou minha vida. Estar presente na morte de alguém é um momento profundamente sagrado, que alarga nossa percepção e visão de mundo dali para frente. Não há como ser diferente. E a morte é um momento muito íntimo.

Aquilo mexeu tanto comigo que, quando fui ao Pagan Spirit Gathering daquele ano, em junho, conheci Nora Cedarwing Young e fui ao workshop dela sobre “Escolhas de fim de vida”. Ela é uma mulher incrível, fundadora do Thresholds of Life (Limiares da Vida) e uma pioneira nos EUA no trabalho de Parteira da Morte.

Saí dali pensando sobre a minha e sobre como faz parte da vida falar a respeito, pensar no que queremos quando nossa hora chegar e do que podemos fazer para confortar quem amamos ao testemunhar os últimos momentos deles na Terra. Isso vai desde opções como cremação e doação de órgãos, até quem queremos por perto, que tipos de tratamentos aceitamos que os médicos usem se não pudermos responder por nós mesmos, estando inconsciente em um hospital, além do que podemos dizer ou fazer pelos outros quando estamos testemunhando uma despedida.

Depois acompanhei, animada, esse movimento ganhar fôlego no meio pagão e fora dele, e vi vários amigos meus receberem seus certificados de Death Midwife, Parteira da Morte, pois assim como uma Parteira nos ajuda a chegar a este mundo, quando viemos do desconhecido para cá, uma Parteira da Morte nos ajuda a cruzar amorosamente ao atravessamos o limiar deste plano de volta para o outro.

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Ano passado, consegui eu também fazer a minha formação neste trabalho que é tão humano, ancestral e necessário, com o curso oferecido pela Earth Traditions através da competência amorosa e firme da sacerdotisa Angie Buchanan. É uma formação secular, sem ligação com qualquer denominação religiosa. É um trabalho puramente humano e compassivo.

Da mesma forma que estamos resgatando o parto, humanizando, diminuindo o número de cesarianas, trocando o ambiente hospitalar pelas nossas casas quando tudo corre bem, para retomarmos a forma que paríamos antigamente, também há um movimento de resgate da morte, da possibilidade de velórios em casa, ou de cerimônias alternativas para celebrar nossos familiares e amigos que se foram ou estão de partida, de encontrar formas mais amorosas de nos despedirmos sem dar as costas para um momento tão sagrado quanto aquele da chegada neste mundo.

Quando nascemos somos esperados, com enxovais e mãos carinhosas de tias, avôs, amigos, madrinhas, que querem nos alisar, segurar, elogiar, encher de beijos. Ao morrermos, somos abandonados, porque esquecemos de como lidar com a partida e tudo que se desmancha, por medo, insegurança e falta de jeito. Os carinhos, palavras e beijos são substituídos apenas pelas mãos amorosas de profissionais de saúde, quando damos sorte de encontrá-las.

O que faz uma parteira da morte?

img_20151123_121952210Parteiras ou doulas da morte também são conhecidas em algumas regiões dos EUA e Inglaterra como Home Funeral Guides, e são pessoas preparadas para apoiar,  em questões práticas, espirituais e emocionais, tanto as famílias como a pessoa que está morrendo

Conversamos com as famílias e a pessoa para expor opções (estilos de funeral, enterro, cremação, o que fazer com as cinzas), ajudamos a organizar a preparação de documentos (testamentos, testamento vital, diretrizes avançadas, declaração de vontade, procurações), fazemos vigílias, organizamos memoriais e cerimônias, lemos histórias, aplicamos técnicas holísticas para trazer conforto e alívio, criando um ambiente amoroso e facilitando a comunicação entre todos os envolvidos.

Não somos da área médica e não fazemos serviço de enfermagem ou tarefas normalmente da alçada dos cuidadores. Trabalhamos como acompanhantes holísticas, orientando a pessoa que está morrendo a fim de facilitar uma passagem tranquila e suave, reconhecendo suas necessidades individuais e criando um ambiente sagrado e reconfortante para ela, seja num hospital, clínica ou em casa.

Trabalhamos sem qualquer denominação religiosa, adaptando nossos serviços para respeitar a fé e as crenças da pessoa sobre a vida e o que existe além dela.

Apoiamos as famílias e amigos com elementos humanizados e reconfortantes num momento difícil, enquanto oferecemos tranquilidade auxiliando a pessoa que está morrendo para que vivencie a morte que ele ou ela deseja.

Falar sobre essas escolhas e o que desejamos é das coisas mais importantes que a família e os amigos podem fazer para se preparar para o fim da vida. Não vamos deixar que quem a gente ama seja pego de surpresa, sem fazer a menor ideia de nossos desejos, piorando a experiência da dor da perda ao acrescentar o medo de não estarem fazendo a escolha certa para nós. Embora sempre difícil e doloroso, o fim da vida pode sim ser muito rico. O aprendizado, as trocas, as epifanias e o amor ocorrem até o último suspiro e se perpetuam além. Tocar no assunto com coragem e naturalidade tem grandes chances de enriquecer essa experiência que é parte da vida de todos.

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“A baboseira de ‘Amor e luz’ da nova era

Se você, como eu, fica pasmo com a generalização e esvaziamento de termos e saudações como “muita luz pra você”, “beijos de luz”, “gratidão”, “gratiluz”, entre outros nas comunidades ditas espirituais, new age ou nova era, este texto é pra você.

Ficar vibrando só na luz, negando todos os nossos outros sentimentos e verdades é um tremendo desserviço à evolução e integridade do ser humano. Vibrar só de um lado das nossas polaridades é convidar tudo que reprimimos a se apoderar de nós de uma forma muito mais forte e nociva posteriormente.

Não tenha medo de assumir seus lados nãos “aceitáveis”, não tenha medo de ser humano e mortal. Abrace, receba e aceite todas as partes do seu self. É a única coisa saudável a se fazer. E é a mais sábia.

Conheça-te a ti mesmo – em todos teus recônditos e teus demônios internos não terão mais poder sobre ti, mas trabalharão contigo na busca de uma vida bem vivida e um self verdadeiramente integrado, com relações muito mais harmoniosas de verdade.

Fiz essa introdução, pois o assunto muito me interessa e anda me aborrecendo cada vez mais. Já o que vem a seguir é um texto ótimo que li online há algumas semanas ,onde achei que a autora faz um trabalho maravilhoso – e desbocado – para desmascarar essa baboseira pelo que ela é, uma atrocidade contra si.

*****O texto a seguir foi traduzido e está sendo publicado no meu blog com autorização da autora Alana McHugh. O original foi publicado no site analouisemay.com, em 19 de novembro de 2015, e você pode encontrar o original aqui.

“A baboseira de ‘Amor e luz’  da nova era

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‘Amor e luz’ é um termo comumente usado pelo pessoal New Age, arremessado para todo lado como uma espécie de panaceia, se sobrepondo ao que quer que tenha acontecido anteriormente com sua luz passivo-agressiva fluorescente.

Abra sua boca e me permita empurrar goela abaixo meu amor e minha luz, antes que você se ofenda, antes que pense que sou má pessoa, antes que pense que sou qualquer outra coisa que não angelical.

Mas a agressão real está direcionada à própria sombra de cada um.

‘Sou apenas amor e luz. Tudo que sou é amor e luz.’

Não há nada mais distante da verdade, você está completamente delirante e desconsiderando metade de quem você é.

Sua sombra trabalha pra caralho para chamar sua atenção para que aprenda algo de valor.

‘A pessoa não se torna iluminada por imaginar figuras de luz, mas por trazer a escuridão para a consciência.’ – Carl Jung

Sua sombra é sua melhor professora e aliada, e, no entanto, você gosta de chutá-la no estômago quando ela está no chão, com você gritando furiosamente através de lágrimas desesperadas: ‘Amor e luz! Amor e luz! Amor e luz, porra!!’ Gritando e fechando os olhos com força, tentando abolir seu lado demoníaco, como se ele pudesse ser destruído pela simples força de vontade de fingir que você é um ‘ser de luz’.

Determinado a se enxergar apenas sob os tons dourados da divindade, você está dolorosamente fazendo tudo errado.

Você é todas as cores e todos os tons.

Você é feito do frágil cintilante sopro da vida e da crueldade da implacável agente da morte.

Você tem um lado tão escuro que se recusa a ser subjugado por seus mantras teimosos de positividade e crenças unilaterais em cristais de quartzo, ioga, pureza e em ser “bonzinho”.

As profundezas do seu self de obsidiana pode oferecer tesouros que apenas o abismo pode suportar, a sua esculhambação carrega em si as mais brilhantes chamas do inferno, que podem lhe iluminar na verdadeira glória flamejante do seu self unificado e integrado.

Então, se eu fosse você eu abandonava essa fachada de amor e luz, você não está enganando ninguém.

Todos sabemos que seu interior está cheio de merdas e matéria em decomposição e vilania.

Sabemos porque nós também estamos cheios disso.

Vomite seus pensamentos tóxicos e atitudes perversas em cima da minha mesa de centro e me dê algo de valor como companhia.

Me dê a pedreira que de verdade compõe a tua alma, não o fantasma vacilante do teu espírito.

Caia na real.

Me dê tua profundidade.

Você é amor e luz E TAMBÉM uma escuridão imensurável.

Honre sua sombra, ou essa vadia vai te foder tanto que não há quantidade de óleo de coco extraído a frio que vá aliviar.

Ela está do seu lado e é melhor você também estar. (Em vez de ficar flutuando em amor e luz na fadalândia de merda)

Bênçãos,

Amor & Luz & Escuridão Imensurável xx”

 

Somos Bruxos

Publicado em 4 de janeiro de 2015 em gedeparma.com por Gede Parma. Traduzido sob licença do autor.

“A Bruxa tem uma História – Ela é ao mesmo tempo completamente humana e totalmente transcendente. Alguns podem indicá-la como a grande realização e o começo do “sobrenaturalismo” humano, no entanto, o Bruxo, por suas próprias condições e entendimentos, tanto no saber quanto na prática, não deve e não pode transcender a Natureza, cujo outro nome é “Sorte”. A Bruxa existe em todas as culturas humanas, permeou e penetrou o subconsciente e invadiu os sonhos dos homens, seduziu os oprimidos para que revelassem e canalizassem poder e se entregaram por inteiro à Floresta dos Encantamentos – o WildWood, o bosque selvagem. Ele é um feiticeiro magistral e sábio, pelo menos esse seria o ideal, continuamente refinando suas relações, cultivando conexões, cantarolando encantamentos de apelo sensual. É um conclamador de Espíritos e um conversador de criaturas. Qualquer estudo periférico de Bruxaria presente no folclore vai assinalar a capacidade do Bruxo de comungar com seres não humanos, como se houvesse um pacto ancestral e secreto entre eles, e, ao fazê-lo, conspiram contra os paradigmas que oprimem, subjugam, atormentam e lucram à revelia do delicado e feroz equilíbrio entre todas as coisas. Parte desse equilíbrio é a manifestação de forças escuras, destrutivas e degenerativas quando as comunidades humanas começam a se impor sobre os lugares selvagens. De fato um bruxo, enquanto é certamente humano, evocando o jorro completo de emoções humanas, é também um guardião do Coração Selvagem – ainda hoje isso é assim, uma aspiração, uma verdade profunda que orienta as muitas expressões da Nossa Arte, Nossa Mais Nobre Arte.

A Bruxa também é uma sacerdotisa; Ela é consorte com os Deuses, aqueles Espíritos grandiosos e potentes, aliados à humanidade – ao que tudo indica – a quem já dissemos: “Que o Louvor, a Paz e o Poder estejam convosco – vós haveis enobrecido nossa raça!”, e o fizeram. Assim, nossos clãs plurais guardam, mantêm e fomentam pactos com esses seres. É triste que muitos tenham perdido, violado e destruído esses consórcios, pois os Antigos Deuses, conquanto onipresentes, se retraem e caem no esquecimento. A grande renascença do paganismo no mundo ocidental de hoje está servindo para revigorar a presença Deles entre o povo. Embora, na verdade, parece que os Deuses Antigos estão em constante renovação e são especialmente astuciosos. Seus Nomes são invocados constantemente em slogans publicitários, nos nomes dos dias da semana, nos meses do ano, em programas de televisão, no cinema, nos livros. Os seres humanos são criaturas ao mesmo tempo altamente inovadoras e acomodadas, da assim chamada superstição, e ainda batemos na madeira, sabemos nossos signos solares, procuramos videntes e intérpretes dos augúrios, sinais e auspícios e aventamos um mundo prenhe de magia selvagem.

Bruxos são da cura – em nosso trabalho espiritual, muitos induziram conexões com o Reino Vegetal, obtendo remédios e também venenos – e o agora infame ditado “Um bruxo que não consegue ferir não consegue curar” sublinha nosso trabalho. Precisamos ser capazes de trabalhar com ambas as “mãos”, segundo o falecido Andre Chumbley declarou – de bênçãos e dádivas, maldições e amarrações – para que possamos efetuar o trabalho de limitar o comportamento inescrupuloso e de malignidade duradoura nas comunidades humanas e em nossas próprias redes de familiaridade e afeto. Também estamos abrindo as portas para a abundância, a prosperidade, o amor e a clareza. Precisamos ter capacidade de enervar a psique para frutificar aquilo que é Justo entre nós em nossa necessária e valiosa relação com o Outromundo, ou seja, o mundo além-do-humano que é inteiramente encantado.

Somos poetas, somos os magos da palavra, somos os cantores de feitiços aos Ventos das Direções, que as Sentinelas Ancestrais possam nos ouvir, fortalecendo e guiando nosso trabalho. Algumas de nossas lendas contam que somos filhos dos Nefilins, da prole dos Decaídos que “caíram de amores” com as radiantes e lindíssimas Filhas dos Homens e nos dotaram de seu Fogo Hábil, a Chama Bruxa. Esse foi o começo do chamado Sangue Feérico e Sangue Bruxo e alguns de nós somos tão gêmeos e irmãos das raças fadas que somos levados a nos tornar Faerie Doctors, curandeiros, e, com nossos aliados do reino Fae (Encantados), somos dados à sabedoria do Povo Verde, para que deles possamos atiçar soluções para problemas que podem mesmo ter começado com os Bons Vizinhos. Alguns encantados também estão dispostos a conceder dádivas e ativar bênçãos em gente humana, repito, contanto que nosso pacto seja rico e vital, honesto e honrado.

Somos videntes, somos treinados nas Artes que perfuram os Véus, tantas vezes tidos como aquilo que define onde começa um reino e termina outro. Somos dados a trabalhos e modos que expandem e contraem nossa força-vital, a presença de nossa consciência e sua inerente mutabilidade, para que possamos ter um vislumbre da Grande Eternidade destilada em momentos na espiral de acordo com nosso envolvimento pessoal e (in)ação, ou mesmo um envolvimento coletivo e (in)ação. Para isso, nós fazemos Jornadas, somos xamânicos; alguns até diriam que Bruxos são Xamãs, e, em boa parte do nosso trabalho, somos mesmo. Parte de nosso trabalho pode ser menos sancionada pelas convenções sociais, mas, de novo, os processos internos da maioria dos praticantes de xamanismo deixariam a maioria das pessoas aterrorizada e exausta só de ouvir falar. As pessoas são sempre cautelosas perto de qualquer um que esteja em forte contato com o Outromundo e as forças e poderes “Outros”, já que são voláteis, vistas como caóticas, instáveis, e, em última instância, aterrorizantes de um jeito que não exige aptidão moral, mas uma audácia perigosa e tola. O tipo de audácia evocada pelo Amor é o tipo de audácia que as Bruxas se tornam habilidosas em produzir quando falamos com os Espíritos, quando tecemos com o Mistério (Wyrd). É o motivo de chamarmos isso de Trabalho, um Ofício. Cada cultura tem uma atitude diferente na sua relação com os tipos de indivíduos a que poderíamos chamar de bruxos. Cada comunidade pode ter suas próprias histórias, lendas e folclore por trás daquela pessoa à margem do vilarejo ou aldeia, que supostamente sai à noite para onde “pessoas de bem” não sonhariam ir e compactua diretamente com Espíritos perante os quais “as pessoas de bem” se acovardariam. Mesmo quando as qualidades benéficas ou radiantes desses Espíritos são óbvias, muita gente tradicional ainda preferiria errar escolhendo a opção mais segura.

Quando fazemos as jornadas, quando voamos, quando entramos em transe e saltamos o muro, mergulhamos fundo na Escuridão, espiralamos em condutos aquíferos ocultos, ou rasgamos o céu como cometas, estamos em missão, estamos caçando e quiçá sendo perseguidos pela própria coisa que caçamos. Somos sonhadores nisso, capazes de, ao mesmo tempo, nos relacionar através de histórias com o que é Profundamente Real e extrair através da vontade as ferramentas e poderes necessários para podermos concluir a jornada em segurança, embora nem sempre nos sintamos seguros ao fazê-lo. Somos desafiados, e embora seja difícil assustar uma Bruxa, ainda somos criaturas primitivas, e perder o senso do Sagrado Terror é perder o impacto e o sublime e, portanto, o sentido da magia profunda.

Somo iniciados – como outros xamãs – e esses Deuses do terror da Iniciação são também os Portadores e Mensageiros da Luz que nos auxiliam em nossa maestria. Esse é o Nosso Diabo, Nosso Mestre, Nosso Rei de Chifres com a Chama entre as Marcas de Sua Coroa. Nossa Senhora é a Fonte de Nosso Poder e a Rainha das Fadas e das Bruxas, do encontro entre os Reinos Verde e Vermelho, para que juntos possamos compreender os Mistérios do Branco e do Preto, de onde emergimos e para onde caímos. A Rosa Azul, a Chama Azul, é com frequência o sinal de nossa feitiçaria, por habitar e sussurrar entre todos e ser o Graal dos Mistérios Ocultos, potentes por não podermos falar deles de jeito nenhum.

E assim criamos Arte das Palavras, sugerindo e apontando para os Mistérios, deixando sinais e pistas, mas jamais entregando o ouro; somos impossibilitados. E assim somos humildes e honrados e exaltamos a quintessência uns dos outros, Nossa Divindade, enquanto giramos nossas rodas, assumimos nossas cores, derramamos tinta e óleo sobre a tela, exprimimos som e ritmo e a poesia da escrita que palpita no coração e estremece a fundação dos mundos. Ao menos é esse o objetivo. Se nossa arte puder nos desfazer e abrir o olhar e o coração ao caminho rosado beijado pelo espinho; se pudermos sentir entre os dedos, na malha de carne e osso, os filamentos de Deus, do Esquecimento e de Faerie formando uma trança bem urdida, então nossa Arte É Nobre!

Alguns de nós, não todos, são meretrizes selvagens – messalinas sagradas – e trabalhamos com a sombra e a música do sexo para que possamos exaltar esse dom mais precioso da nossa Deusa e refazer a urdidura e a trama estrangulada e rasgada em uma tapeçaria plena e forte, adornada por nossos atos sexuais. Gememos, suspiramos, beijamos, guinchamos, lambemos, acariciamos, mergulhamos, fodemos em feroz devoção ao que é mais primitivo, que é mais internamente aterrorizante, aquele alcance perigoso e profundo para que possamos revelar de verdade que TODOS OS RITOS DE AMOR E PRAZER SÃO OS RITUAIS DELA! Palavras manifestas por um Bruxo, um Poeta, um Sonhador, um Vidente, que teve ouvidos para escutar!

Somos professores – passamos adiante o folclore e as técnicas avermelhadas, legendárias e formatadas segundo a maneira que fomos ensinados, mas todos os bons professores de Bruxaria sabem que nossos mestres originais e contínuos são os Antigos, as Sentinelas, aqueles que se apaixonaram por nossas ancestrais, que enobreceram nossas aspirações e nos ofereceram a Arte, aqueles das Raças Feéricas que se aliam a nós e nos testam, os Elementos leviatânicos e ancestrais, os Deuses para quem sussurramos na noite e a própria Senhora do Destino.

Somos aspirantes. Vivemos pela experiência e testamos a Verdade no Caldeirão do Caos. Somos Bruxos.”

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Trago um Tambor… 

(tradução de “I Bring a Drum” de autoria de Gede Parma, ) “Atentem para este feitiço cantado por minhas entranhas, seus torturadores do solo e do fio da seda Conheça minha fúria zelador da torre que atira desgosto umedecido lá de cima sobre o povo que treme confuso. Sabemos que a Terra se revoltará e te derrotará, o raio do Trovejante te opõe, embora finjas empunhá-lo junto dele. Vem até a minha porta, vais me encontrar em meus aposentos, nu, segurando um tambor, com uma espada desembainhada sobre meus dedos dos pés e uma faca no meu cabelo Estarei pintado com o sangue dos meus ancestrais, sentirás o aroma de algo arrebatador, e o cheiro vai coalhar o ácido do teu estômago… Eu ouvi as palavras do lindo peregrino Escutei os sábios através do vento Girei a roda sagrada Espiei dentro de lugares que manténs inacessíveis, até mesmo ao teu próprio coração, pois os grilhões das atitudes malévolas acorrentam e prendem todas as mentes dadas à maquinação e planejamento dos feitos. Dei as costas e fingi não ver essa farsa e esse desfile da gula frente à consciência, frente à preciosa comunidade Senti-me roubado e cegado por isso… Mas tenho magia… não me esqueci; na verdade, me fortaleci com o mundo selvagem, na verdade, lembrei de uma serpente profunda dentro de mim cuja sedução é o dom do paraíso, cuja floração e fruto são a memória da inocência que habita em mim ainda agora… Tu me envolves em uma guerra que não pode ser vencida, então passo por ti, e sei que eventualmente vais me estraçalhar… Sei que muitos outros também cairão… mas passo por ti agora, não me importo e me importo totalmente. Vou fazer uma coisa… Estás maculado dentro de mim, mas sei o segredo para te desemaranhar. Sei que fui feito para a liberdade, que tudo busca a liberdade. Sei disso. E então meu querido… ainda agora, passo por ti. O olho não pode voltar-se para ver, e estou dentro do olho. Ainda agora, na escuridão grávida que transpira estrelas e bebe do orvalho, posso escutar o Infinito se estendendo para dentro de si mesmo. Buscamos juntos, afundamos juntos, caímos juntos, mesmo nos laços de amor que se desamarram. Pela mão da graça me é dado o fôlego para respirar… do coração da selva sou lançado sobre o mundo… Trago um Tambor… sempre o fiz. Será tudo anulado, pois estou disposto a ingeri-lo agora… Vou beber deste veneno… dentro de mim… dentro de mim… o Tambor e a Chama. Reúnam-se aqui. Deixe-nos descansar. Deixe-nos dançar. Sonharemos por ousarmos atentar para o feitiço cantado nas entranhas.” 11036345_804396536297008_3573389292129680169_n

Canção para uma existência distraída

Todas as coisas são uma só coisa e vêm de uma só coisa. Poeira estelar, poeira lunar, poeira solar e planetária. Deste pó viemos todos nós. Belos, unidos em uníssono, somos Deuses maxi potentes, mas não o sabemos, pois estamos e somos em pedaços.

Retalhos de nós, retalhos do que podemos ser; frangalhos e migalhas de mil espelhos, onde nos vemos refletidos, todos os dias, numa miríade de ferramentas virtuais ou não, mas que apenas conseguem refletir uma parte do que nem chega perto da força e da beleza de nosso âmago. Sabemos o que é essa força e essa beleza? Não. Não tocamos, não mergulhamos, não adentramos nosso coração e espírito. Uma pena. Uma dor que aumenta e nada cura, ao menos nada do que comumente buscamos. Estamos voltados na direção errada como espécie.

Nosso amor ainda vive em fagulhas internas, sedentas de toque, sedentas de atenção. Dê. Elas, assim que atiçadas, podem se tornar labaredas que consomem as dúvidas, as incertezas, a falta de caminho e a falta de ânimo. Para desfrutar da vida, que é o único motivo verdadeiro de estarmos aqui, há que se atiçar essa chama.

Busca teu espírito antes que ela se apague. Veja se está em brasa — se enxergares é porque ela ainda queima, mesmo que tênue.

Quem alimenta a chama e encontra o vazio em si fica pleno. Só assim poderemos ser. Longe das distrações, dos ruídos, das exigências externas e internas. Apenas.

Adentre seu âmago

Adentre seu âmago

A Bruxaria é uma poesia estranha, uma arte nobre, uma besta selvagem no coração de um herege…

Vou inaugurar algo novo neste blog.  Como tenho amigos internacionais que escrevem coisas lindas, mas que não têm material disponível em português, vou passar a fazer algumas traduções pontuais e compartilhar aqui. Vou começar por um texto de Gede Parma, um bruxo amigo (e agora também meu professor) que tem três livros muito legais publicados. Ele agora está em Bali, mas cresceu na Austrália, e muito do meu interesse pelos bruxos australianos veio por conta de partilharmos do mesmo hemisfério terrestre, o que traz características especiais para nosso trabalho mágico.

Enfim, sem mais, vou proceder com o ótimo e poético texto que ele publicou originalmente em 22 de abril no blog da página dele. Bruxos e bruxas, com vocês, Gede Parma:

“A Bruxaria é uma poesia estranha, uma arte nobre, uma besta selvagem no coração de um herege…

Hoje, muita gente vê a Bruxaria – em suas várias modalidades – como um resgate das feitiçarias pagãs pré-cristãs e o xamanismo ancestral de nossos antepassados europeus. Sim, ela é. E, no entanto, a Bruxaria pertence a uma História, é uma Medicina Mítica nascida da terrível união entre serpentes de fogo, o povo escondido dos ocos dos morros e aqueles com língua serpentiforme que testemunham tudo isso – a magia humana se encontra com o fogo do outro mundo, e a Árvore do Conhecimento oferece seus frutos.

As famílias particulares e os clãs de Craft de hoje contam lendas sobre anjos decaídos, gnose Luciferiana, irmãs Feéricas no vento e nos rios, da sabedoria dos mortos, nossos amados e poderosos ancestrais, e essa é uma conversa, um confronto, uma interrogação. Nossa conversa não se encerrou com a corrupção da Igreja de Constantino e a conversão gradual da Europa, África e Oriente Próximo às crenças abraâmicas. Isso foi, claro, o começo de um genocídio cultural que a população profundamente ferida da Europa propagou em seus navios coloniais como uma doença, levada a quase todos os cantos do planeta. Essa é uma doença que Bruxos conhecem bem. Ele surge para combater esse tirano, aqueles que de propósito decidem empunhar essa monstruosidade. Ele nasce para conjurar a Arte e a Consciência para dentro das pessoas e abrir à força nossos corações um pouco mais para a Beleza. Dançamos com demônios para que saibamos como estraçalhá-los, e os antigos deuses nos ajudam, enquanto somos nós estraçalhados para renascermos em um Fogo Alquímico que nos leva ao Fio da Navalha. Palavras aqui sussurradas vão reformular o Mundo.

Sim sou Bruxo. Sou Pagão às vezes, sou pagão a maior parte do tempo. Tenho de ser animista com as samambaias e as flores, cantando para a glória do pó anterior, que existe sob o peso do asfalto e do concreto, espirais de aço no desenho das cidades. Preciso sê-lo com rios tóxicos e ar poluído, eu o inspiro e ele se move em mim. Tento provar e absorver o veneno e transmutá-lo num bálsamo de cura, uma canção corvídea radical que vai consertar a quebra. Sei como voar no Vento, mas esse conhecimento, e até mesmo essa ação, é apenas verdadeiramente da Bruxaria quando inserido em um contexto de muitos, de uma comunidade dos que transitam no mistério. Abençoados sejam os guerreiros dessas últimas palavras… Lee Morgan, Peter Grey, Oberyn Huldren, Ravyn Stanfield…

Uma famosa líder da Bruxaria Moderna, que é em geral considerada como New Age ou uma pastora excessivamente politizada, na verdade explica o âmago da Bruxaria para os iniciados quando diz: “A Bruxaria é a tradição secreta iniciatória da Deusa da Europa e do Oriente Próximo.” No coração de nossa Bruxaria está a Deusa, Nossa Senhora. É a Verdade, a Sabedoria, o Amor. Mas não paramos nossa conversa nas cavernas; levamos nossas antigas e profundas alianças com aqueles espíritos ancestrais e os mistérios e infiltramos capelas e catedrais, onde eles construíram suas casas para Deus, conhecendo a estratégia deles. Esses pagãos imundos, esse vadios gentios, precisam vir até esses poços, onde essas linhas de poder convergem nesta terra, precisam vir até onde nós derrubamos os bosques do demônio, então é aqui que vamos construir. E então nós fomos – meus ancestrais, e provavelmente os seus também, foram – e, primeiro, por baixo de nossas preces ao Cristo, Maria e os santos, nós sussurramos e lembramos de outros Nomes, outros Poderes, até que um dia não lembramos mais. Há uma Casa Secreta que guarda essa memória, beba dessa Água e talvez vá recordar. Sim, isso era pagão, a religião da própria terra, mas o segredo das bruxas mesmo na barriga do algoz. Conhecemos o comportamento das feras, bestas saudáveis, fortes, vívidas, ou lembramos de como as coisas deveriam ser.

Sou herege. Mantenho santuários com luzes iluminando o rosto dos Santos, de Maria, de Jesus. Sussurro seus Nomes junto a outros Nomes – os Antigos são alimentados, regozijam, re-lembram, como eu relembro. Tenho uma faca e um cálice diante de Maria; invada minha casa, caçador, sim, há heresia aqui… que a fidelidade da casa, a antiga providência do coração, seja meu escudo. As bruxas sobem pelas chaminés, levadas pela fumaça de nossas plantas sagradas, pactos que fizemos há muito tempo, e alçamos voo para nos comprometermos com o desdobrar das obras do próprio Destino. Sempre, como a raposa voadora, como a lebre saltitante, aparentemente delicados e mansos, mas verdadeiramente astuciosos, escapamos de seu ávido domínio.

Ordens enviadas para nos pacificar e oprimir são desmontadas quando as subvertemos de dentro para fora. Nunca deixamos de conversar nossas conspirações corvídeas, nossas catedrais de congregação encobertas pela noite. Nossos ritos não são relíquias, são bestas vivas e famintas. Elas nos tiram de nossas camas à noite para que cruzemos o limiar do lar colhido conjurando poderes ctônicos que se erguem do frêmito terrestre. Buchadas soturnas são evacuadas, enquanto sonhos urdidos em tranças fortes e ancestrais de luxúria nos levam de volta para casa e uns para os outros. Reunimo-nos em grupos de mais de três, nas encruzilhadas e em chãos tortuosos e desparelhos, para encantar e perturbar as burocracias do tempo e o gasto energético da elite. A sombra da tirania capitalista afoga as Pessoas e o Planeta. Foi para isso que nascemos, e Antigas Casas são ressuscitadas. Aradia, Jack, Robin da Arte, Jeanne da Árvore, fervilhamos no espaço entre as palavras nos livros de história… o mundo jamais esqueceu de verdade… assombramos e levamos vivacidade aonde apenas a aridez do coração parece governar… Chegamos com um tição feito das cinzas de nossos Companheiros Decaídos e as brasas das cavernas, nossos espíritos acenderam a Fagulha uma vez mais.

Esgueiramo-nos em cemitérios e dançamos em rochedos esculpidos pelo mar…

Consorciamos com Poderes Leviatânicos nas frestas do que foi e do que vai ser. Tudo o que vai ser. Irmãs Nornes de rostos encovados e olhar jovial seduzem nossos espíritos a saltarem muros rumo à terra de nosso legado…

O baixar das armas de guerra uns contra os outros e nossos corpos se avizinha, se dobra, contorce, para criar Arte nos centro concordantes onde a feitiçaria se torna uma sinergia com Nosso Próprios Espíritos…

Nossa conversa nunca terminou. Não uns com os outros. Nem com você. Nem com os vis vilões que são os terroristas da riqueza da terra e nossa imanência soberana. Nossa conversa se tornou silenciosa, efervescente, lamuriosa… se tornou cambaleante, arruinada e tempestuosa… se tornou o sal nas lágrimas e o trovejante arco-íris na risada de nossas peles ao entrarmos e sairmos do Trabalho que fazemos para derrubar a fortaleza… não duvide que estamos trabalhando…

A bruxaria é uma poesia estranha, uma arte nobre, uma besta selvagem no coração do herege… E hereges se fortalecem quando por Escolha somos tomados por Loucos, e nessa Loucura recebemos as Chaves para as Torres… cantamos com os Tecelões-Estelares e os relâmpagos se arqueiam para cima e para baixo, para baixo e para cima.

Nossa Loucura não é para todo mundo até que nosso Trabalho esteja terminado. Declarações de Domínio Daimônico habitam em Sonhos. Sonhos que vamos despertar.”

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Gede-FaceGede Parma (Fio) é bruxo, vidente, curandeiro, místico, ativista e escritor. Mora em Ubud, Bali, a ilha onde nasceu, e é um viajante do mundo. É um autor premiado de livros sobre paganismo e bruxaria e um entusiasta da poesia informal e da dança. Apresenta workshops sobre magia xamânica, feitiçaria e também rituais em ambos os hemisférios e é iniciado nas linhagens Wildwood e Anderean de bruxaria, bem como Reclaiming e é um aprendiz da Anderson Faery. É conhecido por seu foco facilitador em espaços de êxtase e comunhão íntima com os Poderes do Eterno Cosmos e Espíritos Locais em todo o mundo.

Já palestrou em muitas conferências pagãs e espirituais, festivais e retiros. Já compartilhou sua magia e suas perspectivas no Parliament of the World’s Religions, Reclaiming WitchCamps, BaliSpirit Festival, Between the Worlds, Pagan Summer Gathering, DragonEye Tours, Ritual Experience Weekends e facilitou centenas de rituais abertos ou privados, workshops e intensivos ao redor do mundo.