Politeístas e suas muitas relações com as divindades

Em um thread facebookiano,  de alguém tentando genuinamente entender como politeístas veem seus deuses, se como entidades separadas ou arquétipos, me peguei resumindo uma parte do material de uma palestra que dei anos atrás no Festival de Paganismo Grego do Faces da Lua em São Paulo, “Estabelecendo e fortalecendo a relação com nossos Deuses: da reverência ao amor romântico, descoberta e revelação de mitologias”.

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Dionísio – British Museum, Londres.

O fato é que a resposta não é única e inclusive varia de praticante para praticante, até dentro de uma mesma tradição e círculo. Ou seja, a forma como cada um se relaciona e percebe sua fé nas diferentes divindades é íntima, pessoal e intransferível.

Para os pagãos politeístas, nossas divindades podem ser percebidas em diferentes níveis, tanto como entidades personificadas com as quais nos comunicamos, como faces de uma força maior e transcendente ou até mesmo há quem sinta que eles não sejam factuais, porém, no entanto, ainda assim existem enquanto elementos de construção humana.

O relacionamento em si com nossos deuses varia desde uma apreciação distante e reverente, passa por uma sensação de parceria e amizade e pode chegar ao amor romântico.

A busca pelo entendimento de qual é essa relação de cada um ou  se existe algo mais geral que se aplicaria à maioria é antiga e já gerou muito textão e pesquisa por aí. Vou partilhar aqui uma abordagem que acho muito clara e inclusiva.

De acordo com os magos canadenses Margarian Bridger e Stephen Hergest da Evergreen Tradition,  no ensaio que escreveram com o título “Pagan Deism: Three Views”, seriam três as formas mais comuns de pagãos relacionarem-se com o conceito de divindade. As três propostas formariam as três pontas de um triângulo, e para facilitar a referência a elas, eles escolheram cores:

“Vermelha: a primeira dessas pontas seria a visão ortodoxa deísta: os deuses são entidades individuais, próprias, com nomes, com as quais podemos nos comunicar quase tal qual nos comunicaríamos com seres humanos. Eles podem ou não ter forma humanoide. Existem em uma forma (“nível”, “plano” ou “dimensão”) que fica muito além da compreensão humana, mas sua existência é verificada de maneira objetiva.

Azul: A divindade existe. Trata-se do Sagrado Irrevogável/ o Grande Mistério/ a Fonte. É tão grandiosa, tão sutil, tão abrangente, que não podemos  esperar compreender mais do que uma pequena fração dela. Sendo humanos, nos relacionamos melhor com aquilo que tem características humanas, assim temos “deuses”: metáforas humanoides ou máscaras às quais aplicamos à Face sem rosto do grande Todo para que através deles possamos apreender e nos relacionar com uma parte desse Todo.

Amarela: Os deuses existem apenas como construções da imaginação e da mente humana. São Verdades. Formas válidas de dar sentido ao pensamento e experiência humanos, personificações de um abstrato que poderia, não fosse isso, ser escorregadio demais para nossa mente compreender, mas não são Factuais; não têm uma existência que possa ser comprovada. Assim como outras abstrações (por exemplo Liberdade, Democracia, Amor, Verdade)  enriquecem nossas vidas e vale a pena acreditar neles, mas é ingênuo pensar que teriam uma existência passível de comprovação objetiva. Não faz diferença que não sejam factuais; são verdadeiros e é isso que importa.” triangle

A crença de grande parte das pessoas não se encaixa certinho em uma das pontas, mas mescla mais de uma cor. Muitos bruxos que trabalham com o Divino Feminino, poderiam se autoclassificar como algum tom de verde, colocando-se em algum lugar entre o azul e o amarelo. Na minha prática, eu ficaria mais na face “roxa”, transitando entre o azul, que para mim descreve a existência de uma força ilimitada, uma consciência única que tudo rege e tudo permeia (um pouco relacionado ao Ain Soph da Kabbalah), mas na prática diária, sou da ponta vermelha, com imagens, preces e rituais de devoção a faces específicas de certas divindades. Há quem se identifique com um conceito mais “laranja”, com uma relação pessoal com os deuses, porém agnósticos quanto à natureza desses deuses. Ateus e junguianos podem se afeiçoar mais à ponta amarela.

O importante é ressaltar que não há conceito “certo” ou mais “divino” do que outro. É apenas um esquema para analisarmos nossa própria percepção e momento, afinal nossas crenças podem mudar ao longo da vida. É bacana refletir sobre onde nos encaixaríamos e de que forma nossos conceitos podem se alterar junto com nossas experiências.

Bruxos, sejam tradicionais, wiccanos, druidas e outros,  podem cair em pontos bem distintos do triângulo e, no entanto, compartilhar das mesmas práticas mágicas e rituais sem perceber que o que é literal para um, é metáfora para o outro, até dentro de um mesmo grupo. Alguém Vermelho pode ser mais relutante em misturar panteões, um Amarelo pode dedicar menos energia às práticas devocionais  e usar seu tempo explorando a psicologia humana – porém como é uma questão muito interna, esses padrões podem passar totalmente despercebidos para quem sussura “Que assim seja” do seu lado, celebrando o mesmo sabbat.

Essa diferença não deve gerar dogmas e brigas para provar se alguém está certo ou forçar ninguém, alegando que só poderá permanecer em um grupo se perceber e acreditar exatamente como o outro.

De acordo com Margarian e Stephen, a maior necessidade de um bruxo amarelo, por exemplo, é a busca da verdade, é uma pessoa que precisa questionar todas as crenças e gosta de uma compreensão mais psicológica das manifestações de fé.  E é exatamente a fé a força motriz do pessoal da ponta vermelha, as experiências deles são suficientes como prova de que as divindades simplesmente são. Ponto final. Um bruxo azul seria o mais místico, cuja necessidade primeira é a de pertencimento.

Como mencionei, meu trabalho diário é dentro do espectro vermelho, tratando os Deuses como entidades separadas, independentes de mim, a quem recorro, a quem adoro e a quem agradeço. E para quem desconhece essa relação e me pergunta se de fato acredito nesses deuses todos, vou responder parafraseando um genial conhecido meu: acredito sim, em todos, Sekhmet, Dionísio, Rhiannon, Hekate, Shiva, inclusive eu os vejo e converso com eles. O segredo é entender que a gente nunca consegue enxergar uma coisa se não acreditarmos que ela existe. É por isso que algumas pessoas, por exemplo, não conseguem enxergar o racismo.

Que os Deuses abençoem todos nós!

 

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Marte e Vênus de Botticelli na National Gallery, Londres.

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O que faz uma Parteira ou Doula da Morte?

Muitas vezes encontro pessoas amigas ou até desconhecidas e me pego falando sobre a morte. É um assunto natural para mim, mas parece que nessa nossa louca sociedade onde tudo é voltado ao crescimento, ao progresso, à juventude e ao sucesso, a morte é um assunto que exige uma certa coragem e qualidade psíquica para que a pessoa se sinta tranquila de abordar.

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Oferecendo um quintú de coca em um cone funerário nos arredores de Puno, Peru.

Já percebi que é sempre mais fácil falar do assunto com quem já viu essa dama bem de perto ou acompanhou a gentil senhora levar embora alguém muito querido seu. Já percebi também que é muitas vezes mais fácil tocar no assunto com quem ainda não passou dos sessenta.

Mas é um assunto do qual não adianta fugir. Aliás, podemos fugir o quanto quisermos do assunto. Já dela,  impossível! A grande verdade é que ninguém sai daqui vivo.

Evitar falar da morte tem efeitos colaterais nocivos para nossa sociedade

Algumas semanas atrás, passei a tarde engarrafando hidromel. Uma amiga muito querida veio me ajudar, e, em nosso intervalo para o almoço, o assunto foi cuidados paliativos, trabalho em hospice care e escolhas para a morte. Numa terça-feira fria, mas de sol, comendo um couscous marroquino no quintal, pode parecer um assunto mórbido, como em determinado momento me ocorreu. Mas quão melhor seria nossa sociedade se tivéssemos naturalidade para abordar o fim da vida?

Essa ideia de que falar na morte a atrai, de que a morte é algo temerário, ruim, que precisa ser evitado de qualquer jeito tem um custo altíssimo para nossa sociedade e nossa saúde psíquica e emocional.

Primeiro, evitar a morte é evitar o fim, a decomposição o término. Não sabemos lidar com o fim de nada, adoramos falar só em começos, em iniciativas, em progresso. Só queremos começar relações, começar um novo emprego, construir, comprar, expandir.

A natureza não funciona assim, tudo ao nosso redor tem ciclos que envolvem uma decadência e então um término. Mas nós só pensamos em criar! Inventamos apetrechos maravilhosos sem levar em conta como aquele apetrecho vai se decompor depois e retornar à natureza. O resultado é que nos encontramos entulhados de lixo de longuíssima decomposição que não sabemos onde enfiar, pois do ponto de vista do planeta, não existe “jogar fora”. Temos um continente de lixo flutuando perto da Austrália, temos animais marinhos engolindo plástico, temos solo e águas poluídas à exaustão. Tudo porque nós não pensamos no fim daquilo que criamos, embora a Mãe Natureza nos tenha demonstrado sua infindável sabedoria em ter tudo planejado: do começo ao final, com 100% de reaproveitamento  de absolutamente tudo.

Nossa negação da morte, nosso medo, nos leva a entregar nossos entes queridos na mão de estranhos no hospital e na indústria funerária, por não querermos ver, não querermos tocar, não querermos lidar com aquilo. Pessoas que amamos são abandonadas por nós porque não sabemos o que fazer com uma passagem, com aquilo que foi e não é mais.

E nossos sentimentos são reprimidos e jogados para os recônditos do inconsciente. O luto não vivido ressurge depois em ataques de pânico, paranoias, fobias e outros distúrbios que atrapalham nossa paz e nossas relações.

O último suspiro

something-beautiful-has-diedEm 2006 eu tive a honra de estar presente no quarto de hospital quando minha avó paterna deu seu último suspiro. Foi uma experiência que mudou minha vida. Estar presente na morte de alguém é um momento profundamente sagrado, que alarga nossa percepção e visão de mundo dali para frente. Não há como ser diferente. E a morte é um momento muito íntimo.

Aquilo mexeu tanto comigo que, quando fui ao Pagan Spirit Gathering daquele ano, em junho, conheci Nora Cedarwing Young e fui ao workshop dela sobre “Escolhas de fim de vida”. Ela é uma mulher incrível, fundadora do Thresholds of Life (Limiares da Vida) e uma pioneira nos EUA no trabalho de Parteira da Morte.

Saí dali pensando sobre a minha e sobre como faz parte da vida falar a respeito, pensar no que queremos quando nossa hora chegar e do que podemos fazer para confortar quem amamos ao testemunhar os últimos momentos deles na Terra. Isso vai desde opções como cremação e doação de órgãos, até quem queremos por perto, que tipos de tratamentos aceitamos que os médicos usem se não pudermos responder por nós mesmos, estando inconsciente em um hospital, além do que podemos dizer ou fazer pelos outros quando estamos testemunhando uma despedida.

Depois acompanhei, animada, esse movimento ganhar fôlego no meio pagão e fora dele, e vi vários amigos meus receberem seus certificados de Death Midwife, Parteira da Morte, pois assim como uma Parteira nos ajuda a chegar a este mundo, quando viemos do desconhecido para cá, uma Parteira da Morte nos ajuda a cruzar amorosamente ao atravessamos o limiar deste plano de volta para o outro.

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Ano passado, consegui eu também fazer a minha formação neste trabalho que é tão humano, ancestral e necessário, com o curso oferecido pela Earth Traditions através da competência amorosa e firme da sacerdotisa Angie Buchanan. É uma formação secular, sem ligação com qualquer denominação religiosa. É um trabalho puramente humano e compassivo.

Da mesma forma que estamos resgatando o parto, humanizando, diminuindo o número de cesarianas, trocando o ambiente hospitalar pelas nossas casas quando tudo corre bem, para retomarmos a forma que paríamos antigamente, também há um movimento de resgate da morte, da possibilidade de velórios em casa, ou de cerimônias alternativas para celebrar nossos familiares e amigos que se foram ou estão de partida, de encontrar formas mais amorosas de nos despedirmos sem dar as costas para um momento tão sagrado quanto aquele da chegada neste mundo.

Quando nascemos somos esperados, com enxovais e mãos carinhosas de tias, avôs, amigos, madrinhas, que querem nos alisar, segurar, elogiar, encher de beijos. Ao morrermos, somos abandonados, porque esquecemos de como lidar com a partida e tudo que se desmancha, por medo, insegurança e falta de jeito. Os carinhos, palavras e beijos são substituídos apenas pelas mãos amorosas de profissionais de saúde, quando damos sorte de encontrá-las.

O que faz uma parteira da morte?

img_20151123_121952210Parteiras ou doulas da morte também são conhecidas em algumas regiões dos EUA e Inglaterra como Home Funeral Guides, e são pessoas preparadas para apoiar,  em questões práticas, espirituais e emocionais, tanto as famílias como a pessoa que está morrendo

Conversamos com as famílias e a pessoa para expor opções (estilos de funeral, enterro, cremação, o que fazer com as cinzas), ajudamos a organizar a preparação de documentos (testamentos, testamento vital, diretrizes avançadas, declaração de vontade, procurações), fazemos vigílias, organizamos memoriais e cerimônias, lemos histórias, aplicamos técnicas holísticas para trazer conforto e alívio, criando um ambiente amoroso e facilitando a comunicação entre todos os envolvidos.

Não somos da área médica e não fazemos serviço de enfermagem ou tarefas normalmente da alçada dos cuidadores. Trabalhamos como acompanhantes holísticas, orientando a pessoa que está morrendo a fim de facilitar uma passagem tranquila e suave, reconhecendo suas necessidades individuais e criando um ambiente sagrado e reconfortante para ela, seja num hospital, clínica ou em casa.

Trabalhamos sem qualquer denominação religiosa, adaptando nossos serviços para respeitar a fé e as crenças da pessoa sobre a vida e o que existe além dela.

Apoiamos as famílias e amigos com elementos humanizados e reconfortantes num momento difícil, enquanto oferecemos tranquilidade auxiliando a pessoa que está morrendo para que vivencie a morte que ele ou ela deseja.

Falar sobre essas escolhas e o que desejamos é das coisas mais importantes que a família e os amigos podem fazer para se preparar para o fim da vida. Não vamos deixar que quem a gente ama seja pego de surpresa, sem fazer a menor ideia de nossos desejos, piorando a experiência da dor da perda ao acrescentar o medo de não estarem fazendo a escolha certa para nós. Embora sempre difícil e doloroso, o fim da vida pode sim ser muito rico. O aprendizado, as trocas, as epifanias e o amor ocorrem até o último suspiro e se perpetuam além. Tocar no assunto com coragem e naturalidade tem grandes chances de enriquecer essa experiência que é parte da vida de todos.

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Nova turma de formação mágica

Em 2015 dei início a um grupo de formação mágica com duração de 12 meses. Estamos na reta final com essa primeira turma. Está na hora de preparar o terreno para a próxima roda.

Tenho preferência por encontros presenciais (São Paulo), mas, dependendo do caso, é possível participar via skype ou hangout.

Para saber mais, leia o post no blog do próprio Conclave da Rosa e do Espinho. Se o chamado ecoar no seu âmago, mande um email pedindo pelo formulário, com mais informações e espaço para sua declaração de interesse.

A próxima turma de formação mágica começa na primeira quinzena de setembro.

A DATA DE ENCERRAMENTO PARA ENVIO DO FORMULÁRIO É 18 DE AGOSTO DE 2016.

 

 

Carga de Maat

Fui convidada por Adriana Guarniero a auxiliar no rito da última lua nova no Faces da Lua. O Faces é um templo de Wicca eleusiana aqui em São Paulo, liderado pelo Edu Scarfon, uma casa que sempre me recebe muito bem  e por cujas pessoas tenho muito afeto.

Maat no faces

Adriana Guarniero, eu e Nefersaaset

Adriana me pediu para fazer Maat, a deusa egípcia da justiça e do equilíbrio. É na balança dela – e contra sua pena da verdade – que pesamos nossos corações ao chegarmos ao mundo dos mortos. Se nosso coração, pesado de culpas e remorsos,  pesar mais do que sua pena, o órgão é então devorado por uma criatura bestial e nossa alma é condenada. Para tanto, a mensagem de Maat é que vivamos uma vida justa, correta e leve, para não termos essa desagradabilíssima surpresa no final.

Foi lindo. Maat de fato apareceu e ficou o tempo todo muito junto de mim, em uma relação que eu chamo de enhancement ou um leve aspectamento, coisa de 20% em mim. Mas alterou toda minha percepção do entorno, da relação com as pessoas, com o rito e com a sala. Foi uma grande honra, ainda mais para quem está tão acostumada com a energia ardente e de espreita da Sekhmet, dar espaço interno e físico a Maat é uma leveza só.

Sob inspiração dela, acabou saindo um texto lindo, uma carga da Deusa, que recitei assim que entrei no círculo onde todos me aguardavam, já preparados pela presença do talentoso Nefersaaset.

Segue de presente essa bela Carga da Deusa Maat.

Obrigada iluminada e altiva Maat por vossa inspiração divina!

 

Eu, mãe do infinito

Deusa alada do equilíbrio

Deusa que guia o Sol, os Planetas

E os ciclos das estações

Eu que peso almas e corações

Em busca da pureza e nobreza de espírito

 

Desço aos braços da terra

Venho a vós que clamais por

Justiça, força e verdade

 

Venho sempre que pedíeis

Para que desperteis de vossas tolices

Dou-vos força para que persevereis em

Vossos esforços de parar a destruição do planeta,

De corrigir vossas falhas

De emendar vossa moral e vossa justiça

Venho a vós com minha pena da verdade

Minha estrela cristalina.

Envolta em constelações,

Imbuo cada ser vivo

Com a vontade de viver em harmonia e retidão.

Eu que evito constantemente que o universo retorne ao caos

Dou à luz a ordem

E tudo que é o correto

Que minha vontade seja feita!

Maat 2016

Às vezes um Deus Selvagem

wild_god_cover_slice-1aEste é um poema circula por vários sites pagãos e, desde a primeira vez que o li, as palavras e imagens ecoaram e mexeram com algo muito profundo em mim. De novo, me deparei com ele esta manhã e me entreguei à tentação de traduzi-lo e, assim, partilhar essa joia preciosa com leitores de língua portuguesa.

Para o original em inglês, há um livreto ilustrado à venda aqui.

 

Às vezes um Deus Selvagem

(Tom Hirons)

 

Às vezes um deus selvagem senta à mesa.

É desajeitado e não sabe lidar

Com porcelana, garfos, mostarda e prataria.

Sua voz transforma vinho em vinagre.

 

Quando ele chega na porta,

Você provavelmente tem medo.

Ele lembra algo escuro

Que você pode ter sonhado,

Ou um segredo que não quer que ninguém saiba.

 

Ele não toca a campainha;

Em vez disso, arranha a porta

Com suas mãos sangrentas

Embora prímulas

Brotem a seus pés.

 

Você não vai querer que ele entre.

Você está muito ocupado.

Está tarde, ou cedo, e além do mais…

Não consegue olhar para ele diretamente

Porque dá vontade de chorar.

 

O cachorro late.

O deus selvagem sorri,

Estende a mão.

O cachorro lambe suas feridas

E o leva para dentro.

 

O deus selvagem está de pé na sua cozinha.

Hera começa a tomar conta dos armários;

Há visco morando nas luminárias

E passarinhos começam a cantar

Uma canção antiga na boca da sua chaleira.

 

“Não tenho muito”, você diz

E lhe dá sua pior comida.

Ele senta à mesa, sangrando.

Tosse raposas.

Tem toupeiras nos olhos.

 

Quando sua esposa chama lá de cima,

Você fecha a porta e diz a ela

Que está tudo bem.

Não vai deixar que veja

O estranho convidado à sua mesa.

 

O deus selvagem pede uísque

E você serve um copo para ele

E depois um para si.

Três cobras estão fazendo um ninho

Nas suas cordas vocais. Você tosse.

 

Ó, espaço infinito

Ó, mistério eterno.

Ó, ciclos sem fim de morte e renascimento.

Ó, milagre da vida.

Ó, a maravilhosa dança de tudo isso.

 

Você tosse novamente

Despeja as cobras e

Engole o uísque,

Refletindo como foi que envelheceu tanto

E aonde tudo foi parar.

 

O deus selvagem remexe uma bolsa

Feita de lontras e rouxinóis.

Puxa uma flauta dupla,

Ergue a sobrancelha,

E todos os pássaros se põem a cantar.

 

A raposa salta para dentro dos seus olhos.

As toupeiras saem da escuridão.

As cobras de derramam por seu corpo.

Seu cachorro uiva e lá em cima

A esposa exalta e chora ao mesmo tempo.

 

O deus selvagem dança com o cachorro.

Você dança com os pardais,

Um gamo branco puxa uma banqueta

E berra hinos a antigos encantamentos.

Um pelicano salta entre as cadeiras.

 

Ao longe, guerreiros saem de suas tumbas.

Ouro antigo cresce como se fosse grama no campo.

Todos sonham as palavras para canções há muito esquecidas.

Os morros ecoam, e as grandes rochas cinzas badalam

Com riso e loucura e a dor e alegria de viver.

 

No meio da dança,

A casa sai do chão.

Nuvens entram pelas janelas;

O relâmpago bate com o punho na mesa.

A lua encosta na janela, sorrindo.

 

O deus selvagem aponta para o seu flanco.

Você está sangrando muito.

Está sangrando há muito tempo,

Possivelmente desde que nasceu.

Há um urso na ferida.

 

“Por que me abandonou à própria morte?”

Pergunta o deus selvagem, e você responde:

“Estava ocupado em sobreviver.

As lojas estavam todas fechadas;

Não sabia como. Sinto muito.”

 

Ouça todos eles:

 

A raposa na sua garganta e

As cobras nos braços e

A carriça e os pardais e o cervo…

Os grandes animais inomináveis

Do seu fígado e rins e coração…

 

Há uma sinfonia de uivos.

Uma cacofonia de dissidências.

O deus selvagem assente com a cabeça e

Você acorda no chão segurando uma faca,

Uma garrafa e um punhado de pelos pretos.

 

Seu cachorro dorme na mesa.

Sua mulher se mexe lá em cima.

Suas bochechas estão molhadas de lágrimas;

Sua boca dói pelo riso ou pelos gritos.

Um urso preto está sentado junto ao fogo.

 

Às vezes um deus selvagem senta à mesa.

É desajeitado e não sabe lidar

Com porcelana, garfos, mostarda e prataria.

Sua voz transforma vinho em vinagre

E a morte, ele devolve à vida.

 

 

Em São Paulo, em maio

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Ativando o caldeirão de poder feminino – curso em três módulos

 Volto a oferecer esta jornada de autodescoberta e despertar mágico feminino a partir de maio, num espaço especialíssimo na zona norte da cidade: o Sagrada Espiral.

Dia 14/05/2016
Das 10h às 18h com breve pausa para o almoço. Inclui os materiais e coffee break.
Espaço Sagrada Espiral, Rua Ibéria 122, próximo ao metrô Parada Inglesa, SP
A ficha de inscrição e mais detalhes do curso, você encontra aqui

O verdadeiro caldeirão de toda a magia habita dentro de cada mulher: é o nosso ventre. O útero tem uma energia tão incrível que pode formar e gestar não apenas o milagre de uma vida humana, mas também nossos projetos, sonhos e relacionamentos. Despertando, honrando e nos conectando a essa energia tomamos o trono do poder das nossas vidas como verdadeiras imperatrizes que somos.

Este curso propõe vivências e ritos profundos para fazer este resgate e conexão, mudando sua energia de vida.

É dividido em três módulos que são uma construção. O primeiro é independente, mas é um pré-requisito para o segundo e assim por diante. É um convite para você despertar e viver sua energia em sua máxima potência.

Alguns depoimentos de mulheres que já participaram desse trabalho:

“Processo transformador. Transformação sutil que foi acontecendo em mim ao longo dos encontros. Os intervalos me deram tempo para perceber e assimilar as mudanças e o processo todo me abriu um caminho de auto descoberta. Para as mulheres em busca de si mesmas, super recomendo!”  A. 38 anos

 

“Além das mudanças providenciadas pela vida, tive uma transformação muito importante no modo de ver a vida e de me relacionar com ela e tudo isso porque aprendi a valorizar a menina que fui, a mulher que sou e a Deusa que vive em mim. O presente recebido da vida que hoje cresce aqui no meu ventre, pôde ser deliciosamente aceito e compreendido principalmente por hoje eu saber o poder da mulher que sou e sempre fui e não sabia. Plenitude poderia resumir o que ganhei por ter me dado o curso de presente. O primeiro presente de muitos que mereço. Que assim seja. ” S. 37 anos

**Ficha de inscrição  aqui

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Coisas que amei em “A Bruxa”

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**Não leia se você não quer spoilers e, por favor, não vá ao cinema assistir esse filme se você não tem nenhuma noção de ocultismo. Você não vai gostar, ponto.

AMEI:

  • A reconstrução histórica totalmente impecável que faz com que a gente se transponha facilmente à realidade daquele tempo e lugar.
  • O título em inglês grafado “The VVitch” para preservar o uso litográfico de dois “v” formando o W para economia de caracteres móveis nas gráficas do período dos 1600s.
  • A direção de arte e a fotografia! Uau.
  • Que o filme não é de terror mais sim um drama sombrio
  • Que nunca ficamos sabendo exatamente os motivos de a família ser banida de uma comunidade cristã quando eles parecem ser os mais puros e corretos fiéis seguidores de todos os preceitos religiosos. Porém o que eles praticavam de fato que poderia incomodar tanto assim a ponto de causar sua expulsão?
  • O uso de simbolismo da bruxaria antiga, incluindo os medos que inspirava e a reconstrução das práticas encontradas nos relatos da inquisição (como usar a gordura e entranhas de um bebê não batizado para ungir seu corpo e vassoura para realizar um voo mágico na lua cheia)
  • Não ser explícito e pornográfico ao mostrar os horrores cometidos (como nos poupar do destroçamento do bebê)
  • O uso dos animais ligados à tradição oculta: sapo, bode, corvo, lebre.
  • Uso de símbolos que vêm de outras fontes, como da bíblia ou até de contos de fadas, amarrando essas imagens dentro da história (cálice de prata, maçã).
  • A voz sedutora, as esporas (!!!) e as luvas do formidável Black Phillip. Tudo como deve ser. 😉
  • O glamour usado pela bruxa da casinha em se apresentar lindíssima em todas as partes visíveis para o menino.
  • Caleb cedendo à tentação de seu desejo. E depois a cena linda de sua morte, em meio a uma possessão real cheia de poesia somada a uma histeria coletiva da época.
  • Os gêmeos muito sinistros cantando a musiquinha do Black Phillip
  • 921110_10153576585012956_2501359925218001392_oQue a maior parte da tensão do filme vem da tensão dos personagens em não dizerem nem uma palavra errada, não fazerem nada fora da lei de Deus, ou o pagamento é a condenação eterna.
  • O fato de que Thomasin abre o filme rezando e listando seus pecados, quando na verdade ela é a mais pura de toda a família até precisar matar a mãe e depois fazer seu pacto com chifrudo (o pai é orgulhoso, rouba e mente; o irmão tem desejo pela irmã, mente e encobre mentiras do pai; a mãe é clara sobre quais filhos ela prefere e acusa Thomasin de tudo; os gêmeos são preguiçosos e sádicos)
  • A libertação de Thomasin
  • A cena paralela em que tudo vem abaixo, com o delírio de Katherine sobre seus filhos e o corvo em seu peito, e ao mesmo tempo o ataque da bruxa que vai se alimentar no celeiro.
  • A lebre com seu narizinho e inocente ar de perigo
  • A linda cena do final. Na verdade toda a sequencia.
  • O fato de que Black Phillip só responde pra Thomasin quando ela já está desistindo dele (tão comum, tão comum!)
  • O pai morrendo caindo sobre sua pilha de lenha. É só o que aquele incompetente sabia fazer. Minha nossa como ele fazia escolhas erradas!
  • Ter assistido na maravilhosa companhia de um bando de bruxos e poder discutir cada detalhe depois da sessão (aliás, discussão regada à Casillero del Diablo, que apropos!)

NÃO GOSTEI:

  • O público kids do cinema que além de não entender nada dava gargalhadas em momentos totalmente nada a ver.
  • A tradução da frase mais linda do filme inteiro que foi deturpada! No inglês, Black Phillip pergunta “Wouldst thou like to live deliciously?”, que seria “Gostaríeis de viver deliciosamente?”. Mas como é que traduzem? Pois bem: “Quer viver na luxúria?”. Este é o problema. Enquanto “deliciosamente” é algo absolutamente tentador e aceitável, “luxúria” é um dos pecados capitais. E assim rouba o público do cinema de delirar com o convite mais sedutor e fácil de aceitar de todos, ao trocar uma tentação pelo lembrete de um pecado com menos graça do que a palavra original.