Coisas que amei em “A Bruxa”

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**Não leia se você não quer spoilers e, por favor, não vá ao cinema assistir esse filme se você não tem nenhuma noção de ocultismo. Você não vai gostar, ponto.

AMEI:

  • A reconstrução histórica totalmente impecável que faz com que a gente se transponha facilmente à realidade daquele tempo e lugar.
  • O título em inglês grafado “The VVitch” para preservar o uso litográfico de dois “v” formando o W para economia de caracteres móveis nas gráficas do período dos 1600s.
  • A direção de arte e a fotografia! Uau.
  • Que o filme não é de terror mais sim um drama sombrio
  • Que nunca ficamos sabendo exatamente os motivos de a família ser banida de uma comunidade cristã quando eles parecem ser os mais puros e corretos fiéis seguidores de todos os preceitos religiosos. Porém o que eles praticavam de fato que poderia incomodar tanto assim a ponto de causar sua expulsão?
  • O uso de simbolismo da bruxaria antiga, incluindo os medos que inspirava e a reconstrução das práticas encontradas nos relatos da inquisição (como usar a gordura e entranhas de um bebê não batizado para ungir seu corpo e vassoura para realizar um voo mágico na lua cheia)
  • Não ser explícito e pornográfico ao mostrar os horrores cometidos (como nos poupar do destroçamento do bebê)
  • O uso dos animais ligados à tradição oculta: sapo, bode, corvo, lebre.
  • Uso de símbolos que vêm de outras fontes, como da bíblia ou até de contos de fadas, amarrando essas imagens dentro da história (cálice de prata, maçã).
  • A voz sedutora, as esporas (!!!) e as luvas do formidável Black Phillip. Tudo como deve ser. 😉
  • O glamour usado pela bruxa da casinha em se apresentar lindíssima em todas as partes visíveis para o menino.
  • Caleb cedendo à tentação de seu desejo. E depois a cena linda de sua morte, em meio a uma possessão real cheia de poesia somada a uma histeria coletiva da época.
  • Os gêmeos muito sinistros cantando a musiquinha do Black Phillip
  • 921110_10153576585012956_2501359925218001392_oQue a maior parte da tensão do filme vem da tensão dos personagens em não dizerem nem uma palavra errada, não fazerem nada fora da lei de Deus, ou o pagamento é a condenação eterna.
  • O fato de que Thomasin abre o filme rezando e listando seus pecados, quando na verdade ela é a mais pura de toda a família até precisar matar a mãe e depois fazer seu pacto com chifrudo (o pai é orgulhoso, rouba e mente; o irmão tem desejo pela irmã, mente e encobre mentiras do pai; a mãe é clara sobre quais filhos ela prefere e acusa Thomasin de tudo; os gêmeos são preguiçosos e sádicos)
  • A libertação de Thomasin
  • A cena paralela em que tudo vem abaixo, com o delírio de Katherine sobre seus filhos e o corvo em seu peito, e ao mesmo tempo o ataque da bruxa que vai se alimentar no celeiro.
  • A lebre com seu narizinho e inocente ar de perigo
  • A linda cena do final. Na verdade toda a sequencia.
  • O fato de que Black Phillip só responde pra Thomasin quando ela já está desistindo dele (tão comum, tão comum!)
  • O pai morrendo caindo sobre sua pilha de lenha. É só o que aquele incompetente sabia fazer. Minha nossa como ele fazia escolhas erradas!
  • Ter assistido na maravilhosa companhia de um bando de bruxos e poder discutir cada detalhe depois da sessão (aliás, discussão regada à Casillero del Diablo, que apropos!)

NÃO GOSTEI:

  • O público kids do cinema que além de não entender nada dava gargalhadas em momentos totalmente nada a ver.
  • A tradução da frase mais linda do filme inteiro que foi deturpada! No inglês, Black Phillip pergunta “Wouldst thou like to live deliciously?”, que seria “Gostaríeis de viver deliciosamente?”. Mas como é que traduzem? Pois bem: “Quer viver na luxúria?”. Este é o problema. Enquanto “deliciosamente” é algo absolutamente tentador e aceitável, “luxúria” é um dos pecados capitais. E assim rouba o público do cinema de delirar com o convite mais sedutor e fácil de aceitar de todos, ao trocar uma tentação pelo lembrete de um pecado com menos graça do que a palavra original.