Litania a Sekhmet

Segue uma invocação das mais tradicionais à Deusa Sekhmet. Não tenho certeza da origem, assim que puder confirmá-la, acrescentarei aqui no post. É bem provável que seja retirada da sequência imensa de epítetos presentes nas estátuas dEla distribuídas pelo Egito. É a mais completa litania que conheço em inglês, e senti que estava faltando uma tradução para os que se interessam em cultuar essa Deusa na nossa língua portuguesa.

Declamada com o devido fervor, tem  efeito poderoso. 😉

Invocação a Sekhmetbaixorelevo sekhmet

Assim como em Mênfis

Que se faça agora!

 Escutai-me, vos suplico,

Ó Poderosa!

Senhora de Rekht,

Senhora de Pekhet,

Senhora de Set,

Senhora de Rehesaui,

 Senhora de Tchar e de Sehert!

Mãe no horizonte do céu

Na barca dos Milhões de Anos

Sois a Grande Defensora!

Sois a Destituidora de Qetu!

Preservai-nos da câmara do mal das almas de Hes-hra!

Libertai-nos

 do refúgio dos Demônios!

 Ó Vós que sois

  Sekhmet,

Que dá vida aos Deuses,

 Sekhmet,

Senhora da Chama,

  Sekhmet,

 Grandiosa da Magia

 Sekhmet,

Eterno é Vosso Nome!

 Ó, escutai-me agora!

 Sekhmet,

da Cabeça de Leoa,

 Sekhmet,

 cuja cor é Vermelha,

 Sekhmet,

 Filha de Ra,

 Sekhmet

Senhora de Amt,

Senhora de Manu,

Senhora de Sa,

Senhora de Tep-nef,

Senhora do Paraíso!

 No trono do silêncio,

Mesmo,  nada mais será dito além de

Aquela que Cinge!

 Perco-me em Vós!

 Consorte de Ptah,

Sekhmet,

Poderoso é Vosso Nome!

 Ó, ouça-me agora!

 Sekhmet

Deusa da Pestilência,

 Sekhmet

Deusa das Guerras,

 Sekhmet

Rainha do Deserto

 Sekhmet

 Terrível é Vosso Nome!

  Ó vinde a mim!

 Sekhmet

Destruidora de Rebeliões,

  Sekhmet,

Olho Ardente de Rá,

 Sekhmet,

 Protetora, Governante

 Sekhmet,

Sagrado é Vosso Nome!

 Ó, Revelai-Vos para mim!

 Sekhmet

Mãe dos Deuses,

 Sekhmet,

 Ama das Coroas,

 Sekhmet,

Sois chamada de a Única,

 Sekhmet,

Amado é Vosso nome!

 Possuí-me agora, Ó Majestosa!

 Sekhmet,

Maior do que Ísis,

 Sekhmet,

Maior que Hathor,

 Sekhmet,

Maior que Bast,

 Sekhmet,

Maior que Maat,

 Sekhmet,

Misterioso é Vosso Nome!

 Eu me perco em Mistério!

 Sekhmet,

A Preeminente,

 Sekhmet,

Luz além da Escuridão,

 Sekhmet,

Soberana de seu Pai,

 Sekhmet,

Oculto é Vosso Nome!

 Arrebatadora, a minha morte!

 Sois Amni-seshet,

Destruidora, Defensora!

Sois o Terror

Frente ao Qual tremem os espíritos malignos!

Sois Luxúria!

Sois Vida!

 A Sempre Flamejante!

 Tekaharesa-Pusaremkakaremet,

Sefi-per-em-Hes-Hra-Hapu-Tchet-f, 

 Ama dos Encantamentos,

Fonte e Palavra de Poder,

Proibido é Teu Nome!

 Sou aquele que é  impermeável!

  Não nos consumais

Com Vosso Fogo,

Dai-nos a Luz!

 Ó, Senhora,

Mais poderosa do que os Deuses,

As adorações sobem a Vosso encontro!

Todos os seres Vos saúdam!

Ó Senhora,

 Mais poderosa do que os Deuses!

 Preservado além da Morte,

Esse nome Secreto,

Ó Ser

Chamado Sekhmet.

Carga da Deusa Sekhmet

Petrucia Finkler, 2012

Eu sou a Toda Poderosa, chamada à existência por meu pai, para vingá-lo.

Sa Sekhem Sahu de cabeça de leoa.

Sou filha de Ra, a Destruidora, a Dama Vermelha.

Sinta minha respiração no vento quente do deserto

e meu corpo no brilho intenso do Sol do meio-dia.

Eu carrego a sabedoria da violência e da destruição adequadas.

E embora possa curar qualquer chaga ou mal de corpo ou de alma,

minha maior dádiva está na proteção contra os inimigos, a injustiça e a peste.

Pois Eu sou a executora de Ma’at.

Eu sou a Grande Defensora e o Terror diante do qual os demônios tremem!

Minha chama purificadora clama por tua alma, para que se erga.

Pois eis que sou o instinto guerreiro que ferve em teu sangue

e a força inquestionável que caminha equilibrada entre a vida e a morte.

Que meu culto seja feito no coração que é puro e livre.

E permita que teu espírito se abra sem reservas,

pois nada pode ser ocultado do Olho de Ra.

Nem mesmo tua luxúria e tua alegria.

E se buscas conhecer-me, não me chame em vão;

Mas ergue tua taça e junte-se a mim em elegante embriaguez

Quando estiveres pronta a te entregar à tua vitalidade crua, à tua criatividade e a saciar teus sentidos.

Porque eis que, assim como Eu,

A paixão de meus filhos é de natureza tanto solar quanto feminina.

Eu sou vossa fonte e palavra de poder.

Adorado é meu nome.

Eu não vos consumo com meu fogo, eu lhes ofereço a luz.

***Esse texto foi escrito sob inspiração Divina em 2012. O original foi recebido em inglês, e Sekhmet pediu que fosse traduzido pela imensa carência de material sobre Ela na língua portuguesa. A Deusa e eu pedimos que seja usado com respeito nas atividades de devoção e invocação d’Ela. Se for reproduzido em outro lugar, que seja incluído o devido crédito de autoria.

Sekhmet do templo de Mut, em Luxor. Granito 1403-1365 AEC (Antes da Era Corrente)

Sekhmet do templo de Mut, em Luxor. Granito 1403-1365 AEC (Antes da Era Corrente)

A Grande Mãe Cósmica

Estou finalmente lendo o clássico: The Great Cosmic Mother, Rediscovering the Religion of the Earth, escrito por Monica Sjöö e Barbara Mor, uma das grandes (também em número de páginas) obras que ajudam a entender melhor as origens do culto ao divino feminino e suas raízes ancestrais na experiência espiritual – e biológica – dos seres humanos.

Cada página traz informações relevantes, algumas são novas, mas na maioria, elas são, para mim, reafirmações e revalidações de outras, apanhadas em palestras, leituras e sacações daqui e dali. Já li muitos outros livros que inclusive citavam este em sua bibliografia, ou seja, é meio fonte de vários dos pensamentos e ideias que circulam nos meios pagãos.

Eu mesma levei muito tempo para me entender e me gostar sendo mulher. Demorei a apreciar o universo e  força do feminino. Cresci envelopada numa cultura mega patriarcal gaúcha e comprei bonito todos os ideais de competência, competitividade, força e rigidez do mundo masculino. Considerava minhas emoções uma fraqueza e reprimia boa parte delas, inclusive as ligadas a demonstração de afeto e abertura para criação de vínculos afetivos. Não é por menos que, para poder me reequilibrar, fiz biodança, bioenergética, terapia junguiana, rodas de cura xamânica e precisei virar atriz! O paganismo, mais voltado no meu caso para a celebração da Deusa, foi a cereja do bolo nesse meu processo de busca de valorização pessoal e entendimento do meu papel no mundo.

Mas é difícil mesmo superarmos tantas ideias já ultrapassadas que seguem agindo dentro de nós por estarem entranhadas na cultura e quiçá até em algum código genético que passamos de pais para filhos.

Por isso sempre vale lembrar que embora sejamos maioria em número, as mulheres ainda precisem ser tratadas com o status de minoria e terem órgãos de defesa, leis específicas e até um Dia Internacional para que consigam valer seus direitos – mínimos às vezes, dependendo de onde nos encontremos no nosso querido globo terrestre.

Globo terrestre, aliás, que é fêmea, enquanto Gaia (louvados sejam os cientistas James Lovelock e Lynn Margulis), com um oceano, que é feminino, inclusive segundo Darwin, de onde emergiu a vida. Ponto.

E ainda bem que agora também temos até o lance do DNA mitocondrial, que rastreia nossa origem até às primeiras mulheres africanas de onde todos nós viemos. E o DNA mitocondrial que pode ser rastreado, mesmo no homem, é dado a ele pela mãe, ou seja, pela linhagem feminina. Finalmente a ciência volta a reconhecer, em termos genéticos e biológicos, algo que já vivemos como espécie muito antigamente, durante as culturas matrilineares, e que os judeus ainda preservam até hoje: o conhecimento de que a mulher é quem transmite uma linhagem.

Como do paleolítico e do neolítico só restaram as pontas de flecha, de lança e outras ferramentas como martelos e enxadas primitivas, que podem ser expostos em museus, em geral é esquecido que o papel da mulher naquele mesmo período foi de fundamental importância para toda a evolução da humanidade. Enquanto os homens amarravam uma pedra num pedaço de pau e saíam para caçar, as mulheres estavam tecendo, fazendo cerâmica e aprendendo leis da química e da física através do ato de cozinhar, curtir o couro e descobrir plantas curativas.

Não estou menosprezando de maneira alguma o papel do homem, estou apenas buscando elevar e lembrar da importância do papel da mulher para várias das conquistas da nossa civilização humana. Pode parecer redundante, mas precisamos nos lembrar disso, porque a gente ainda esquece, e as mulheres seguem se diminuindo e se sentindo menos em várias instâncias que vejo por aí.

A arqueologia demonstra que os primeiros trinta mil anos do homo sapiens foram dominados pela celebração dos processos do feminino: menstruação, gravidez, dar a luz – tudo sempre ligado aos ciclos de fertilidade da terra também. Os ritos funerários, da mesma forma, eram feitos colocando o cadáver em posição fetal e tingindo-os com ocre vermelho, lembrando o sangue, para que a pessoa fosse devolvida carinhosamente ao ventre da mãe original, a grande Mãe, o chão, a Terra.

Para mim, uma cultura que faz isso não tem nada de primitiva, tem sim uma noção muito linda de cosmologia, de ciclo, de pertencimento.

É relativamente recente um fenômeno entre os acadêmicos que passaram a negar e desacreditar de várias afirmações e descobertas feitas nos anos 60 e 70, relegando achados e símbolos aos planos mitológico ou arquetípico e duvidando até mesmo que em algum momento o ser humano cultuou de fato a Deusa como grande criadora.

Dadas as circunstâncias de nossas vidas, a Terra é muito mais importante do que o Céu, pois Ela dá vida a tudo, e Ela é palpável, tangível. Se há uma Criadora, é sobre Ela que caminhamos todos os dias. Por isso não vejo o paganismo como abstrato. Taí uma divindade que eu posso tocar. E comer, e dormir, e respirar. Aliás, segundo a Hipótese Gaia, a atmosfera é a Mãe respirando!

O Deus masculino das religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo) surge no deserto, da experiência de povos que sofriam a opressão da aridez existente entre o infinito de areia e céu. Não tem verde, não tem vida, não tem água. Por isso, o deles é um Deus estéril, cruel, punitivo, que exige sacrifícios de sangue, se opondo à abundância verdejante e às oferendas de grãos que eram dedicados à Deusa Mãe.

É uma tremenda arrogância da nossa civilização se achar o auge da evolução humana e considerar todas as outras culturas como inferiores, primitivas ou selvagens. E a isso, soma-se a arrogância psicanalítica e a de várias teologias dos últimos dois mil anos que consideram as culturas pagãs como “subdesenvolvidas espiritualmente”, como se as culturas matrifocais e o culto à Terra fossem representativos da “infância da humanidade”.

Primitivos e rudimentares somos nós que até na morte nos apartamos de nossa origem e fazemos da Mãe um elemento a ser dominado, subjugado e, por isso mesmo, estamos abusando da paciência dela e precisamos começar esse papo de “salvar o planeta”, quando na verdade é uma tentativa de salvarmos a todos nós. A Terra, se ficar incomodada de verdade conosco, dá uma única chacoalhada, e babaus. Adeus ser humano. Gosto da hipótese de que não somos a primeira raça e não seremos a última a passar por aqui. Já a Terra, a Mãe, Ela sim pode continuar e se refazer rapidinho depois de nossa extinção.

E nossa civilização segue se referindo ao mundo natural como algo fora de nós, esquecendo que somos animais mamíferos e somos parte dessa natureza.

Lembro de uma índia americana que conheci, Chante é o nome dela, uma senhora de idade, de longos cabelos brancos, muito forte e muito linda. Estávamos eu e ela participando de um mesmo workshop anos atrás, e ela comentou que o branco tinha de parar de sentir culpa, que a culpa estava atrapalhando tudo, porque a culpa continuava nos mantendo separados, e o importante agora era recuperarmos nossa relação direta com o mundo vivo que nos cerca.

É por isso que sinto que o paganismo cresce tanto mundialmente, porque as pessoas estão com sede de conexão, e um retorno ao culto e celebração do nosso entorno, do nosso corpo, dos processos naturais e do nosso planeta chega a ser um alento e oferece uma boa possibilidade de caminho.