O Louco e o salto dionisíaco

Para muitos, o primeiro Dionísio pode vir na forma do Louco. O arcano zero. O arcano sem número, o coringa do baralho, que pode ser colocado à frente do Mago, depois do Mundo ou onde quer que seja necessária uma entrega desavisada, uma rendição irresponsável.

Para responsabilidade temos vovô Cronos, para a justiça temos papai Zeus, e se existe o neto para a loucura, é porque ela também é imprescindível à experiência humana e merece um lugar no Olimpo, sapateie, esperneie e negue quem quiser.
Meu primeiro Dionísio foi O Louco. O tolo muito bem representado no baralho Thoth – resultado da união da mente mágica de um e dos traços mágicos da outra.

The Fool from the Thoth Tarot Deck by Aleister Corwley and Lady Frieda Harris

 

Naquele quadro virado em carta, o deus da primavera veste verde para exibir toda sua força criativa junto das uvas suculentas da colheita. Na cabeça, os chifres do fértil masculino selvagem; na mão direita o cálice do magnetismo da forma, e na esquerda a tocha ardente da eletricidade – ambos símbolos alquímicos, forças opostas que em seu encontro fornecem o requisito básico para o verdadeiro salto quântico acontecer.

 
A força telúrica e a exuberância deste Deus espiralam para fora num cordão umbilical que parte não de seu umbigo, que seria voltado para si e mesquinho para o mundo, mas de seu coração, a sexta sefira, a esfera do amor belo, que irradia para o mundo o que temos de melhor, abraçando tudo, redimindo tudo e fazendo a conexão do eu com a unidade do cosmos.
Mas, para entender e viver esse nível de insanidade sábia e potente, é preciso primeiro aceitar o convite de pular.

Deuses do êxtase

Deuses que nos levem a arrebatamento, arroubos e enlevos parecem ser fundamentais na experiência religiosa do ser humano. Para citar alguns, temos historicamente: Shiva no oriente e Dionísio/Baco no ocidente.

Nos últimos dois mil anos no mundo ocidental, os ritos cristãos com suas práticas de profunda devoção que se vê nos seminários, mosteiros, conventos, procissões e Círios de Nazaré vêm cumprindo esse papel. As freiras têm tamanha entrega de alma e corpo ao seu deus, que costumam se intitular “noivas de Cristo”.

Porém elas não são as primeiras mulheres seguidoras de um deus a se considerarem unidas a ele quando vivenciam um arrebatamento emocional e espiritual de comunhão divina. Essa é uma prática mais antiga do que se pensa, mas por ter sido considerada perigosa, pela classe política, e pecaminosa, pelo clero das novas religiões (monoteístas), acabou suprimida e banida da sociedade. Ainda bem que nesta era mais plural, podemos contar com as tradições neopagãs e as práticas de bruxaria antiga, que sobreviveram a todo tipo de perseguição e tortura, para resgatarem essa devoção a um Deus verdadeiramente do êxtase, do profano e da alegria.

 Dionísio

De acordo com o mito Grego, Dionísio nasceu da paixão de Zeus por uma mortal, Semele. Quando Semele estava grávida, recebeu a visita de Hera, esposa de Zeus, que, enciumada, convenceu a amante mortal a implorar que Zeus se revelasse para ela em sua verdadeira forma. Apaixonado, Zeus não conseguiu recusar e, assim, mostrou-se; porém o fogo radiante de sua forma raio era tão forte, que Semele foi imediatamente reduzida a cinzas. Mesmo assim, Zeus conseguiu salvar o bebê e o protegeu – costurando-o dentro de sua própria coxa.

Ao renascer, Zeus entregou o filho Dionísio aos cuidados das ninfas para que o criassem e protegessem da fúria ciumenta de Hera. As ninfas esconderam a criança em uma caverna distante e o alimentaram com leite e mel. Mas Hera enviou os Titãs, que então o destroçaram em sete partes que eles comeram, salvo pelo coração.

Dionísio renasceu de seu coração, sendo, assim, três vezes nascido, mas Hera enviou-lhe a doença da loucura e ele correu o mundo até ser curado por sua avó, Réia, que também o iniciou nos mistérios do feminino.

Em suas jornadas entre o oriente e o ocidente, o Deus presenteou a humanidade com o amor pela vida, o êxtase do espírito e o dom de fazer o vinho. Assim, seu número de seguidores ia crescendo, a maioria de mulheres que ficaram conhecidas como mênades ou bacantes. Elas dançavam livremente ao som da flauta e do tambor, inspiradas por seu Deus, e acreditava-se que tinham visões do futuro, o poder de encantar serpentes e uma força fora do comum.

Dionísio acompanhava as bacantes, trocando de forma, podia aparecer entre elas como um belíssimo jovem, um bode, pantera, leão, cervo, ou no disfarce mais famoso de todos: como um touro – sendo assim conhecido como Dionísio dos chifres de touro. Ele também era a própria encarnação da uva e da videira.

Paralelos entre Dionísio e Jesus de Nazaré

Na mitologia judaico-cristã, bem mais recente na história humana, a biografia do deus-filho parece compartilhar de uma curiosa série de paralelos fascinantes com o Deus supremo das mulheres da antiguidade:

  • Ambos foram chamados “Rei dos Reis”.
  • Ambos são deuses do amor e do êxtase, cuja devoção profunda vem acompanhada por visões.
  • Ambos afirmavam serem filhos de deus pai e foram desacreditados por isso.
  • Ambos desafiaram a religião dominante e foram perseguidos por autoridades políticas
  • Os dois serviram de bode expiatório
  • Ambos eram seguidos por um entourage de mulheres e figuras marginalizadas.
  • Ambos eram filhos de um pai divino e de uma mãe mortal e virgem.
  • Jesus ressuscitou dentre os mortos, Dionísio ressurgiu do mundo inferior.
  • Ambas as mães ascenderam: uma ao Olimpo, outra, ao Paraíso.
  • Os dois são deuses do vinho; Dionísio estava sempre produzindo e bebendo vinho, e um dos milagres mais famosos de Jesus foi transformar a água em vinho.
  • Os dois são cultuados numa comunhão da carne e do vinho; Jesus chegou a dizer “Eu sou a videira”.

Enfim, os dois renasceram, os dois ensinam que a vida não termina com a morte, um ascende ou Olimpo, outro, ao Céu, os dois sentam à direita de seu Deus-Pai e os dois são celebrados em cerimônias onde num determinado momento do culto há uma verdadeira comunhão com a divindade através do consumo da substância que o representa.

Não vou nem sequer entrar no mérito de que no cristianismo a comunhão resgata uma tradição de mistérios muito, muito antigos, onde consumir (comer) o deus em si era a forma ritual de assimilar o poder e a divindade. Garanto que pouquíssimos fiéis sequer percebem a essência canibal do rito de consumir-se  (simbolicamente ou não) a carne e o sangue do deus em questão para unir-se a ele. Cada um com seus dogmas e sua preferência de fé.

O prazer e a alegria como manifestações do espírito

Não sou psicóloga nem psiquiatra, apenas uma entusiasta dos estudos da mente e do comportamento humanos, mas me parece claro que a celebração do profano e do êxtase como caminho de expressão espiritual aparentemente é uma necessidade da nossa alma e da nossa psique. Quando reprimida é que criamos em nós essa sombra destrutiva, que pode se manifestar como toda sorte de sociopatias, perversões e violência sexual.

Portanto, sou fã de uma religiosidade que convide ao êxtase saudável, ao êxtase do espírito e da alegria, sem medo e culpa com os prazeres da vida que podem muito bem ser uma forma de culto e adoração de tudo que é divino. Por que não?

Evoé!