GEDE PARMA NO BRASIL

12604709_443667695824303_8155754261481628369_oEm novembro agora o querido e muitíssimo talentoso bruxo e autor australiano vem ao Brasil para uma série de workshops de aprofundamento no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Há anos, ele manifesta uma vontade imensa de conhecer o Brasil, e estamos muito felizes, eu, Wagner Périco e Cris Morgan (estes dois do espaço Via Paganus no Rio) em poder auxiliar com essa possibilidade, conectando o Gede com pessoas interessadas no trabalho dele por aqui.

Serão workshops bem focados em praticantes mais avançados, que terão a oportunidade de aprofundar técnicas de bruxaria extática e xamânica, pois são bastante vivenciais e exigem dos participantes uma boa experiência de trabalho com estados discretos de consciência.

Ele faz parte da Reclaiming, da tradição Wildwood da Austrália e iniciado em Anderean Craft. Não é conhecido amplamente no Brasil, mas tem quatro livros publicados pela Lllewellyn.

Novidades e ficha de inscrição você encontra na página sobre a turnê.

Inscrições e informações sobre os cursos do Rio de Janeiro (10 e 11 de novembro), entre em contato com o Via Paganus no email:  viapaganus.rj@gmail.com

Inscrições e informações sobre os cursos em São Paulo (16, 18 e 19 de novembro) você encontra aqui 

Confira o vídeo da entrevista que fiz com ele sobre esta vinda:

 

Na casa dos espíritos – oferendas, trocas e sacrifício (um texto de Gede Parma)

*Gede Parma é um bruxo australiano, autor de quatro livros: Spirited – taking paganism beyond the circle; By Land, Sky and Sea – three realms of shamanic witchcraft; Ecstatic Witchcraft – magick, philosophy & trance in the shamanic craft; Magic of the Iron Pentacle, este último juntamente com Jane Meredith. Ele é parte das tradições Wildwood e Reclaiming. Mora atualmente em Melbourne, mas viaja constantemente para ensinar workshops e virá ao Brasil em novembro, oferecendo workshops em São Paulo, Rio de Janeiro e, possivelmente, Brasília. No intuito de que o trabalho sensacional que ele conduz seja mais conhecido dos leitores brasileiros, venho traduzindo alguns dos textos dele neste blog, com autorização e amizade do autor. Para saber mais, visite o website do autor e leia também os outros textos dele já publicados aqui no Elemento Chão.

 

Na casa dos espíritos – oferendas, trocas e sacrifício

27 de novembro de 2012 (leia o original aqui)

Observação: Este ensaio é reforçado pelas minhas experiências como bruxo da tradição WildWood, portador das cargas de curandeiro e de xamã, e como trabalhador do plano espiritual e receptáculo (possessório e oracular) entre os mundos.

Este ensaio é dedicado a Pipaluk – meu querido amigo, aluno e professor.

Alguns meses atrás, tive um debate, dentro de uma situação de ensino do ofício xamânico (via Skype) com meu aluno à distância, Pipaluk, que mora na Holanda. Falávamos dos conceitos mais amplos do xamanismo, relacionados ao entendimento vivencial da Divindade, dos Deus, dos Espíritos e nossa conexão com eles enquanto bruxos xamânicos e selvagens. Afinal, somos tradicionalmente trabalhadores do plano espiritual. Tudo é espírito; tudo é Deus. Esse é um conceito chave em uma variedade de tradições contemporâneas da Arte, inclusive na Wildwood e Anderson Feri. Como Victor Anderson, um dos últimos grandmasters da tradição diria, nós bruxos temos mais em comum com os Shinto e os Ainu do Japão do que com os magos cerimoniais da Europa medieval. Trabalhamos com o ímpeto dinâmico e residimos no centro imóvel e caótico do cosmos vivo, tal como seres presentes, alinhados e sagrados (cientes disto e experientes nessa consciência) em vez atuarmos como ditadores de uma máquina ordenada e mecânica. Reconheço que esta última é uma representação radical das tradições de magia cerimonial como um todo, mas estou me referindo a uma compreensão e prática populistas e quiçá equivocadas dos sistemas de Ocultismo/Esoterismo Ocidental, em oposição aos verdadeiros adeptos que já conheci e respeito.

Antes que possa abordar a natureza de Oferendas, Trocas e Sacrifícios no contexto das relações com as entidades, preciso primeiro definir o que quero dizer por Espírito, e até mesmo, “Divindade” ou um Deus.

Um Espírito é uma potência/força incorporada (tudo é físico, tudo é possuidor de [um] corpo); um senso de percepção de si reside nesse Espírito e é sua qualidade animadora. Isso não precisa ser necessariamente medido ou quantificado pelos conceitos racionalista-científicos de “sensciência”; por exemplo, uma pedra é um espírito porque se expressa como possuindo forma e corpo e tem noção de si como pedra e apresenta esta natureza.

Uma Divindade (Deus/a) é um espírito que é tão ciente de suas origens auto-provocadas que, assim como a Mãe Primordial/Grande Deusa, fica tão inebriada por sua própria imagem e reflexo causados pela Dança Luminosa (matéria estelar) que as bordas fenomenais de “pessoalidade” se dissolvem e se acomodam de tal forma que o Deus se torna uma História (Pró)Ativa; um Altar de Mitos. Tudo isso é de uma realidade das mais profundas.

Todas as deidades, dentro dessa compreensão e relação Experiencial, Ontológica e Teológica são portanto “crísticas” (relativo aos ensinamentos da natureza divina no místico) no sentido de que há um sacrifício consciente das “bordas fenomenais” do estar-humano a serviço e celebração dos Povos Conscientes. Com frequência sinto que algumas divindades, alguns Deuses (uso esse termo de uma forma contendo nenhum e todos os gêneros ao mesmo tempo), estão mais próximos de nossa humanidade do que outros; de fato, alguns desses Grandes Espíritos (Potências Ocultas), segundo alguns ensinamentos e lendas tradicionais, um dia foram humanos. Somos todos Deuses em formação, afinal somos feitos à imagem e semelhança Dela, e como diria T. Thorn Coyle: “A Deusa em si está em processo de formação”.

Isso é, de certa forma, uma perspectiva místico-iniciatória e voltada aos Mistérios; entretanto, deriva de minhas próprias experiências como um bruxo xamânico e um trabalhador espiritual tradicional. Compreendendo o que digo acima, como não fazer oferendas aos Deuses, aos Grandes Espíritos, a Todos os Espíritos, pois quando entro em Suas Casas, tenho acesso ao Atemporal, ao Mítico, à raiz das histórias. Talvez cada divindade individual – Kali, Odin, Lugh, Iemanjá, e todos os outros – beba de certas qualidades eternas e emanações da Deusa em Si, e assim se torna possuidor daquilo que o falecido Carl G. Jung chamou de arquétipos, que não residem apenas em nossas mentes pessoais, mas no “Inconsciente Coletivo”, que permeia cada um de nós –surgimos da Escuridão Inconsciente que é o espaço sem fôlego da Deusa. No entanto, levando isso em consideração, também é verdade para mim que a Deusa é o Todo Divino, é plural e infinita em uma miríade de expressões e portanto, Todos os Espíritos (todos nós) possuímos uma história muito única, sagrada e potente de nosso Próprio Self Sagrado. Muitos rios saindo e voltando do grande oceano.

Quando adentro a Casa do(s) Espírito(s), e entro no templo de Afrodite (talvez, como faço muitas vezes), levo uma oferenda de forma, e de força, para simplesmente expressar meu amor e adoração da potência, história e fonte mítica profunda que é Afrodite. Esse é o primeiro tipo de oferenda, uma simples expressão de gratidão por dividir espaço sagrado e tempo, com uma adoração ao Espírito Sagrado do Deus. Ele vem do Meu Deus (minha Alma Estelar, meu Eu Superior mais Profundo) e portanto é uma consolidação da ponte que conecta nossos espíritos. Isso é, como se diz, educado, mas não feito por obrigação ou necessidade. Quando visitamos a casa uns dos outros no plano humano, muitos de nós levam presentes de comida, bebida, arte e até histórias para contar. Todas essas oferendas são maravilhosas para se compartilhar.

Há oferendas para fechar um “acordo” ou trabalho de troca que vai acontecer entre espíritos. Essas oferendas vêm de um entendimento de que é “correta”uma “troca de energia” entre os espíritos. Agora, um pagão que não seja bruxo, curandeiro ou xamã, pode sentir que estejam aplacando os espíritos ao fazer isso e garantindo a benevolência deles para um novo ciclo. Um Bruxo sabe que os Espíritos (não todos) na verdade desejam estar em relação com a gente, e assim essa troca é feiticeira no contexto de trabalho, preces/expiações. O tipo de oferenda vai depender se a pessoa está calcada nos costumes e tradições (o que se sabe que o espírito aprecia como oferenda/troca com base em uma relação contínua e de observância) ou num diálogo pessoal com o(s) espírito(s). Eu, por exemplo, sou um sacerdote-amante do deus Hermes e mesmo sabendo, já por conta de oito anos de oferendas e sacrifícios para Hermes no âmbito da gratidão, adoração e troca mágica, aquilo que Ele adora e prefere, Hermes também é brincalhão, engraçado e sensual, sendo assim, recentemente, quando perguntei ao Deus o que Ele gostaria em troca de preces atendidas e auxílio nos meus trabalhos, expressou que gostaria muito de fazer amor comigo diretamente. Na verdade, isso ficou marcado para amanhã à noite (uma quarta-feira), mas já aconteceu espontaneamente várias vezes antes. Também recentemente, depois de proteger o carro do meu amigo que estava destrancado em um lugar meio perigoso e garantindo que o veículo permanecesse lá, decidiu que ele queria que eu, em troca, me aproximasse do próximo papagaio que eu visse com plumagem vermelha e verde (e com toques de azul) e sussurrasse para o bicho: “Desastre é uma coisa engraçada”. Aceitei o desafio! Na noite seguinte, eu estava assistindo um episódio qualquer de Family Guy, e o personagem Peter decide se tornar um pirata por causa de um papagaio incrível que conheceu na clínica veterinária. O tal papagaio era vermelho e verde (com toques de azul) e eu logo reconheci a natureza brincalhona e cômica dessa sincronicidade, então gatinhei até a TV e sussurrei “Desastre é uma coisa engraçada” para o papagaio na tela. Trabalhar com os espíritos não carece de acontecimentos risíveis e bizarros.

E quanto ao sacrifício? Que é tornar sagrado? Esse é um mistério. A verdadeira natureza do sacrifício diz respeito a estar disposto a ficar aberto, vulnerável e confiar, rendendo-se ao mistério, sob os auspícios de sua própria Soberania; se não temos nossa Soberania, então de que vale o sacrifício? Não farei sacrifícios, como mencionado acima, para apaziguar ou aplacar necessariamente algo, pois o conceito de antropomorfizar as forças cósmicas, muitas das quais são Deuses e Grandes Espíritos, é ridícula em seu evidente antropocentrismo; nem tudo é padronizado ou qualificável, no cósmico, por meio de sua relação com nossa espécie. Sendo assim, sacrifício é uma vontade em entrar no Caos e Incerteza (infinitas possibilidades) com o outro. Sacrificar-se é pausar por um momento sagrado, ficar em silêncio e conscientemente observar e escutar. Ali aprendemos, e o mistério flui, e recebemos iniciação múltiplas vezes como um presente da Graça. Oferecemos sacrifício para marcar o significado profundo e poderoso dessas epifanias, e uma grande potência é liberada para alimentar a nós e todos os Deuses. Tornar sagrado quer dizer exatamente isso – criar o Sagrado com o Mistério.

Uma prece:

“Eu habito a Casa dos Espíritos – sempre e para sempre.

Primeiro, rezo a meu próprio Eu Sagrado, e para o Deus que Coroa minhas Almas – que eu conheça meu mistério e beba fundo em minha fonte.

Rezo também para os Grandes Espíritos que me circundam em aliança – que trabalhemos juntos em Amor, Verdade e Sabedoria, para revelar e festejar a beleza do paraíso juntos.

Rezo à Deusa Infinita, a Avó do Espaço Sem Alento e da Hora da Meia-Noite, rezo para a Tecelã para que o Inefável esteja bem e eu esteja bem com o Inefável.”

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Somos Bruxos

Publicado em 4 de janeiro de 2015 em gedeparma.com por Gede Parma. Traduzido sob licença do autor.

“A Bruxa tem uma História – Ela é ao mesmo tempo completamente humana e totalmente transcendente. Alguns podem indicá-la como a grande realização e o começo do “sobrenaturalismo” humano, no entanto, o Bruxo, por suas próprias condições e entendimentos, tanto no saber quanto na prática, não deve e não pode transcender a Natureza, cujo outro nome é “Sorte”. A Bruxa existe em todas as culturas humanas, permeou e penetrou o subconsciente e invadiu os sonhos dos homens, seduziu os oprimidos para que revelassem e canalizassem poder e se entregaram por inteiro à Floresta dos Encantamentos – o WildWood, o bosque selvagem. Ele é um feiticeiro magistral e sábio, pelo menos esse seria o ideal, continuamente refinando suas relações, cultivando conexões, cantarolando encantamentos de apelo sensual. É um conclamador de Espíritos e um conversador de criaturas. Qualquer estudo periférico de Bruxaria presente no folclore vai assinalar a capacidade do Bruxo de comungar com seres não humanos, como se houvesse um pacto ancestral e secreto entre eles, e, ao fazê-lo, conspiram contra os paradigmas que oprimem, subjugam, atormentam e lucram à revelia do delicado e feroz equilíbrio entre todas as coisas. Parte desse equilíbrio é a manifestação de forças escuras, destrutivas e degenerativas quando as comunidades humanas começam a se impor sobre os lugares selvagens. De fato um bruxo, enquanto é certamente humano, evocando o jorro completo de emoções humanas, é também um guardião do Coração Selvagem – ainda hoje isso é assim, uma aspiração, uma verdade profunda que orienta as muitas expressões da Nossa Arte, Nossa Mais Nobre Arte.

A Bruxa também é uma sacerdotisa; Ela é consorte com os Deuses, aqueles Espíritos grandiosos e potentes, aliados à humanidade – ao que tudo indica – a quem já dissemos: “Que o Louvor, a Paz e o Poder estejam convosco – vós haveis enobrecido nossa raça!”, e o fizeram. Assim, nossos clãs plurais guardam, mantêm e fomentam pactos com esses seres. É triste que muitos tenham perdido, violado e destruído esses consórcios, pois os Antigos Deuses, conquanto onipresentes, se retraem e caem no esquecimento. A grande renascença do paganismo no mundo ocidental de hoje está servindo para revigorar a presença Deles entre o povo. Embora, na verdade, parece que os Deuses Antigos estão em constante renovação e são especialmente astuciosos. Seus Nomes são invocados constantemente em slogans publicitários, nos nomes dos dias da semana, nos meses do ano, em programas de televisão, no cinema, nos livros. Os seres humanos são criaturas ao mesmo tempo altamente inovadoras e acomodadas, da assim chamada superstição, e ainda batemos na madeira, sabemos nossos signos solares, procuramos videntes e intérpretes dos augúrios, sinais e auspícios e aventamos um mundo prenhe de magia selvagem.

Bruxos são da cura – em nosso trabalho espiritual, muitos induziram conexões com o Reino Vegetal, obtendo remédios e também venenos – e o agora infame ditado “Um bruxo que não consegue ferir não consegue curar” sublinha nosso trabalho. Precisamos ser capazes de trabalhar com ambas as “mãos”, segundo o falecido Andre Chumbley declarou – de bênçãos e dádivas, maldições e amarrações – para que possamos efetuar o trabalho de limitar o comportamento inescrupuloso e de malignidade duradoura nas comunidades humanas e em nossas próprias redes de familiaridade e afeto. Também estamos abrindo as portas para a abundância, a prosperidade, o amor e a clareza. Precisamos ter capacidade de enervar a psique para frutificar aquilo que é Justo entre nós em nossa necessária e valiosa relação com o Outromundo, ou seja, o mundo além-do-humano que é inteiramente encantado.

Somos poetas, somos os magos da palavra, somos os cantores de feitiços aos Ventos das Direções, que as Sentinelas Ancestrais possam nos ouvir, fortalecendo e guiando nosso trabalho. Algumas de nossas lendas contam que somos filhos dos Nefilins, da prole dos Decaídos que “caíram de amores” com as radiantes e lindíssimas Filhas dos Homens e nos dotaram de seu Fogo Hábil, a Chama Bruxa. Esse foi o começo do chamado Sangue Feérico e Sangue Bruxo e alguns de nós somos tão gêmeos e irmãos das raças fadas que somos levados a nos tornar Faerie Doctors, curandeiros, e, com nossos aliados do reino Fae (Encantados), somos dados à sabedoria do Povo Verde, para que deles possamos atiçar soluções para problemas que podem mesmo ter começado com os Bons Vizinhos. Alguns encantados também estão dispostos a conceder dádivas e ativar bênçãos em gente humana, repito, contanto que nosso pacto seja rico e vital, honesto e honrado.

Somos videntes, somos treinados nas Artes que perfuram os Véus, tantas vezes tidos como aquilo que define onde começa um reino e termina outro. Somos dados a trabalhos e modos que expandem e contraem nossa força-vital, a presença de nossa consciência e sua inerente mutabilidade, para que possamos ter um vislumbre da Grande Eternidade destilada em momentos na espiral de acordo com nosso envolvimento pessoal e (in)ação, ou mesmo um envolvimento coletivo e (in)ação. Para isso, nós fazemos Jornadas, somos xamânicos; alguns até diriam que Bruxos são Xamãs, e, em boa parte do nosso trabalho, somos mesmo. Parte de nosso trabalho pode ser menos sancionada pelas convenções sociais, mas, de novo, os processos internos da maioria dos praticantes de xamanismo deixariam a maioria das pessoas aterrorizada e exausta só de ouvir falar. As pessoas são sempre cautelosas perto de qualquer um que esteja em forte contato com o Outromundo e as forças e poderes “Outros”, já que são voláteis, vistas como caóticas, instáveis, e, em última instância, aterrorizantes de um jeito que não exige aptidão moral, mas uma audácia perigosa e tola. O tipo de audácia evocada pelo Amor é o tipo de audácia que as Bruxas se tornam habilidosas em produzir quando falamos com os Espíritos, quando tecemos com o Mistério (Wyrd). É o motivo de chamarmos isso de Trabalho, um Ofício. Cada cultura tem uma atitude diferente na sua relação com os tipos de indivíduos a que poderíamos chamar de bruxos. Cada comunidade pode ter suas próprias histórias, lendas e folclore por trás daquela pessoa à margem do vilarejo ou aldeia, que supostamente sai à noite para onde “pessoas de bem” não sonhariam ir e compactua diretamente com Espíritos perante os quais “as pessoas de bem” se acovardariam. Mesmo quando as qualidades benéficas ou radiantes desses Espíritos são óbvias, muita gente tradicional ainda preferiria errar escolhendo a opção mais segura.

Quando fazemos as jornadas, quando voamos, quando entramos em transe e saltamos o muro, mergulhamos fundo na Escuridão, espiralamos em condutos aquíferos ocultos, ou rasgamos o céu como cometas, estamos em missão, estamos caçando e quiçá sendo perseguidos pela própria coisa que caçamos. Somos sonhadores nisso, capazes de, ao mesmo tempo, nos relacionar através de histórias com o que é Profundamente Real e extrair através da vontade as ferramentas e poderes necessários para podermos concluir a jornada em segurança, embora nem sempre nos sintamos seguros ao fazê-lo. Somos desafiados, e embora seja difícil assustar uma Bruxa, ainda somos criaturas primitivas, e perder o senso do Sagrado Terror é perder o impacto e o sublime e, portanto, o sentido da magia profunda.

Somo iniciados – como outros xamãs – e esses Deuses do terror da Iniciação são também os Portadores e Mensageiros da Luz que nos auxiliam em nossa maestria. Esse é o Nosso Diabo, Nosso Mestre, Nosso Rei de Chifres com a Chama entre as Marcas de Sua Coroa. Nossa Senhora é a Fonte de Nosso Poder e a Rainha das Fadas e das Bruxas, do encontro entre os Reinos Verde e Vermelho, para que juntos possamos compreender os Mistérios do Branco e do Preto, de onde emergimos e para onde caímos. A Rosa Azul, a Chama Azul, é com frequência o sinal de nossa feitiçaria, por habitar e sussurrar entre todos e ser o Graal dos Mistérios Ocultos, potentes por não podermos falar deles de jeito nenhum.

E assim criamos Arte das Palavras, sugerindo e apontando para os Mistérios, deixando sinais e pistas, mas jamais entregando o ouro; somos impossibilitados. E assim somos humildes e honrados e exaltamos a quintessência uns dos outros, Nossa Divindade, enquanto giramos nossas rodas, assumimos nossas cores, derramamos tinta e óleo sobre a tela, exprimimos som e ritmo e a poesia da escrita que palpita no coração e estremece a fundação dos mundos. Ao menos é esse o objetivo. Se nossa arte puder nos desfazer e abrir o olhar e o coração ao caminho rosado beijado pelo espinho; se pudermos sentir entre os dedos, na malha de carne e osso, os filamentos de Deus, do Esquecimento e de Faerie formando uma trança bem urdida, então nossa Arte É Nobre!

Alguns de nós, não todos, são meretrizes selvagens – messalinas sagradas – e trabalhamos com a sombra e a música do sexo para que possamos exaltar esse dom mais precioso da nossa Deusa e refazer a urdidura e a trama estrangulada e rasgada em uma tapeçaria plena e forte, adornada por nossos atos sexuais. Gememos, suspiramos, beijamos, guinchamos, lambemos, acariciamos, mergulhamos, fodemos em feroz devoção ao que é mais primitivo, que é mais internamente aterrorizante, aquele alcance perigoso e profundo para que possamos revelar de verdade que TODOS OS RITOS DE AMOR E PRAZER SÃO OS RITUAIS DELA! Palavras manifestas por um Bruxo, um Poeta, um Sonhador, um Vidente, que teve ouvidos para escutar!

Somos professores – passamos adiante o folclore e as técnicas avermelhadas, legendárias e formatadas segundo a maneira que fomos ensinados, mas todos os bons professores de Bruxaria sabem que nossos mestres originais e contínuos são os Antigos, as Sentinelas, aqueles que se apaixonaram por nossas ancestrais, que enobreceram nossas aspirações e nos ofereceram a Arte, aqueles das Raças Feéricas que se aliam a nós e nos testam, os Elementos leviatânicos e ancestrais, os Deuses para quem sussurramos na noite e a própria Senhora do Destino.

Somos aspirantes. Vivemos pela experiência e testamos a Verdade no Caldeirão do Caos. Somos Bruxos.”

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Trago um Tambor… 

(tradução de “I Bring a Drum” de autoria de Gede Parma, ) “Atentem para este feitiço cantado por minhas entranhas, seus torturadores do solo e do fio da seda Conheça minha fúria zelador da torre que atira desgosto umedecido lá de cima sobre o povo que treme confuso. Sabemos que a Terra se revoltará e te derrotará, o raio do Trovejante te opõe, embora finjas empunhá-lo junto dele. Vem até a minha porta, vais me encontrar em meus aposentos, nu, segurando um tambor, com uma espada desembainhada sobre meus dedos dos pés e uma faca no meu cabelo Estarei pintado com o sangue dos meus ancestrais, sentirás o aroma de algo arrebatador, e o cheiro vai coalhar o ácido do teu estômago… Eu ouvi as palavras do lindo peregrino Escutei os sábios através do vento Girei a roda sagrada Espiei dentro de lugares que manténs inacessíveis, até mesmo ao teu próprio coração, pois os grilhões das atitudes malévolas acorrentam e prendem todas as mentes dadas à maquinação e planejamento dos feitos. Dei as costas e fingi não ver essa farsa e esse desfile da gula frente à consciência, frente à preciosa comunidade Senti-me roubado e cegado por isso… Mas tenho magia… não me esqueci; na verdade, me fortaleci com o mundo selvagem, na verdade, lembrei de uma serpente profunda dentro de mim cuja sedução é o dom do paraíso, cuja floração e fruto são a memória da inocência que habita em mim ainda agora… Tu me envolves em uma guerra que não pode ser vencida, então passo por ti, e sei que eventualmente vais me estraçalhar… Sei que muitos outros também cairão… mas passo por ti agora, não me importo e me importo totalmente. Vou fazer uma coisa… Estás maculado dentro de mim, mas sei o segredo para te desemaranhar. Sei que fui feito para a liberdade, que tudo busca a liberdade. Sei disso. E então meu querido… ainda agora, passo por ti. O olho não pode voltar-se para ver, e estou dentro do olho. Ainda agora, na escuridão grávida que transpira estrelas e bebe do orvalho, posso escutar o Infinito se estendendo para dentro de si mesmo. Buscamos juntos, afundamos juntos, caímos juntos, mesmo nos laços de amor que se desamarram. Pela mão da graça me é dado o fôlego para respirar… do coração da selva sou lançado sobre o mundo… Trago um Tambor… sempre o fiz. Será tudo anulado, pois estou disposto a ingeri-lo agora… Vou beber deste veneno… dentro de mim… dentro de mim… o Tambor e a Chama. Reúnam-se aqui. Deixe-nos descansar. Deixe-nos dançar. Sonharemos por ousarmos atentar para o feitiço cantado nas entranhas.” 11036345_804396536297008_3573389292129680169_n

A Bruxaria é uma poesia estranha, uma arte nobre, uma besta selvagem no coração de um herege…

Vou inaugurar algo novo neste blog.  Como tenho amigos internacionais que escrevem coisas lindas, mas que não têm material disponível em português, vou passar a fazer algumas traduções pontuais e compartilhar aqui. Vou começar por um texto de Gede Parma, um bruxo amigo (e agora também meu professor) que tem três livros muito legais publicados. Ele agora está em Bali, mas cresceu na Austrália, e muito do meu interesse pelos bruxos australianos veio por conta de partilharmos do mesmo hemisfério terrestre, o que traz características especiais para nosso trabalho mágico.

Enfim, sem mais, vou proceder com o ótimo e poético texto que ele publicou originalmente em 22 de abril no blog da página dele. Bruxos e bruxas, com vocês, Gede Parma:

“A Bruxaria é uma poesia estranha, uma arte nobre, uma besta selvagem no coração de um herege…

Hoje, muita gente vê a Bruxaria – em suas várias modalidades – como um resgate das feitiçarias pagãs pré-cristãs e o xamanismo ancestral de nossos antepassados europeus. Sim, ela é. E, no entanto, a Bruxaria pertence a uma História, é uma Medicina Mítica nascida da terrível união entre serpentes de fogo, o povo escondido dos ocos dos morros e aqueles com língua serpentiforme que testemunham tudo isso – a magia humana se encontra com o fogo do outro mundo, e a Árvore do Conhecimento oferece seus frutos.

As famílias particulares e os clãs de Craft de hoje contam lendas sobre anjos decaídos, gnose Luciferiana, irmãs Feéricas no vento e nos rios, da sabedoria dos mortos, nossos amados e poderosos ancestrais, e essa é uma conversa, um confronto, uma interrogação. Nossa conversa não se encerrou com a corrupção da Igreja de Constantino e a conversão gradual da Europa, África e Oriente Próximo às crenças abraâmicas. Isso foi, claro, o começo de um genocídio cultural que a população profundamente ferida da Europa propagou em seus navios coloniais como uma doença, levada a quase todos os cantos do planeta. Essa é uma doença que Bruxos conhecem bem. Ele surge para combater esse tirano, aqueles que de propósito decidem empunhar essa monstruosidade. Ele nasce para conjurar a Arte e a Consciência para dentro das pessoas e abrir à força nossos corações um pouco mais para a Beleza. Dançamos com demônios para que saibamos como estraçalhá-los, e os antigos deuses nos ajudam, enquanto somos nós estraçalhados para renascermos em um Fogo Alquímico que nos leva ao Fio da Navalha. Palavras aqui sussurradas vão reformular o Mundo.

Sim sou Bruxo. Sou Pagão às vezes, sou pagão a maior parte do tempo. Tenho de ser animista com as samambaias e as flores, cantando para a glória do pó anterior, que existe sob o peso do asfalto e do concreto, espirais de aço no desenho das cidades. Preciso sê-lo com rios tóxicos e ar poluído, eu o inspiro e ele se move em mim. Tento provar e absorver o veneno e transmutá-lo num bálsamo de cura, uma canção corvídea radical que vai consertar a quebra. Sei como voar no Vento, mas esse conhecimento, e até mesmo essa ação, é apenas verdadeiramente da Bruxaria quando inserido em um contexto de muitos, de uma comunidade dos que transitam no mistério. Abençoados sejam os guerreiros dessas últimas palavras… Lee Morgan, Peter Grey, Oberyn Huldren, Ravyn Stanfield…

Uma famosa líder da Bruxaria Moderna, que é em geral considerada como New Age ou uma pastora excessivamente politizada, na verdade explica o âmago da Bruxaria para os iniciados quando diz: “A Bruxaria é a tradição secreta iniciatória da Deusa da Europa e do Oriente Próximo.” No coração de nossa Bruxaria está a Deusa, Nossa Senhora. É a Verdade, a Sabedoria, o Amor. Mas não paramos nossa conversa nas cavernas; levamos nossas antigas e profundas alianças com aqueles espíritos ancestrais e os mistérios e infiltramos capelas e catedrais, onde eles construíram suas casas para Deus, conhecendo a estratégia deles. Esses pagãos imundos, esse vadios gentios, precisam vir até esses poços, onde essas linhas de poder convergem nesta terra, precisam vir até onde nós derrubamos os bosques do demônio, então é aqui que vamos construir. E então nós fomos – meus ancestrais, e provavelmente os seus também, foram – e, primeiro, por baixo de nossas preces ao Cristo, Maria e os santos, nós sussurramos e lembramos de outros Nomes, outros Poderes, até que um dia não lembramos mais. Há uma Casa Secreta que guarda essa memória, beba dessa Água e talvez vá recordar. Sim, isso era pagão, a religião da própria terra, mas o segredo das bruxas mesmo na barriga do algoz. Conhecemos o comportamento das feras, bestas saudáveis, fortes, vívidas, ou lembramos de como as coisas deveriam ser.

Sou herege. Mantenho santuários com luzes iluminando o rosto dos Santos, de Maria, de Jesus. Sussurro seus Nomes junto a outros Nomes – os Antigos são alimentados, regozijam, re-lembram, como eu relembro. Tenho uma faca e um cálice diante de Maria; invada minha casa, caçador, sim, há heresia aqui… que a fidelidade da casa, a antiga providência do coração, seja meu escudo. As bruxas sobem pelas chaminés, levadas pela fumaça de nossas plantas sagradas, pactos que fizemos há muito tempo, e alçamos voo para nos comprometermos com o desdobrar das obras do próprio Destino. Sempre, como a raposa voadora, como a lebre saltitante, aparentemente delicados e mansos, mas verdadeiramente astuciosos, escapamos de seu ávido domínio.

Ordens enviadas para nos pacificar e oprimir são desmontadas quando as subvertemos de dentro para fora. Nunca deixamos de conversar nossas conspirações corvídeas, nossas catedrais de congregação encobertas pela noite. Nossos ritos não são relíquias, são bestas vivas e famintas. Elas nos tiram de nossas camas à noite para que cruzemos o limiar do lar colhido conjurando poderes ctônicos que se erguem do frêmito terrestre. Buchadas soturnas são evacuadas, enquanto sonhos urdidos em tranças fortes e ancestrais de luxúria nos levam de volta para casa e uns para os outros. Reunimo-nos em grupos de mais de três, nas encruzilhadas e em chãos tortuosos e desparelhos, para encantar e perturbar as burocracias do tempo e o gasto energético da elite. A sombra da tirania capitalista afoga as Pessoas e o Planeta. Foi para isso que nascemos, e Antigas Casas são ressuscitadas. Aradia, Jack, Robin da Arte, Jeanne da Árvore, fervilhamos no espaço entre as palavras nos livros de história… o mundo jamais esqueceu de verdade… assombramos e levamos vivacidade aonde apenas a aridez do coração parece governar… Chegamos com um tição feito das cinzas de nossos Companheiros Decaídos e as brasas das cavernas, nossos espíritos acenderam a Fagulha uma vez mais.

Esgueiramo-nos em cemitérios e dançamos em rochedos esculpidos pelo mar…

Consorciamos com Poderes Leviatânicos nas frestas do que foi e do que vai ser. Tudo o que vai ser. Irmãs Nornes de rostos encovados e olhar jovial seduzem nossos espíritos a saltarem muros rumo à terra de nosso legado…

O baixar das armas de guerra uns contra os outros e nossos corpos se avizinha, se dobra, contorce, para criar Arte nos centro concordantes onde a feitiçaria se torna uma sinergia com Nosso Próprios Espíritos…

Nossa conversa nunca terminou. Não uns com os outros. Nem com você. Nem com os vis vilões que são os terroristas da riqueza da terra e nossa imanência soberana. Nossa conversa se tornou silenciosa, efervescente, lamuriosa… se tornou cambaleante, arruinada e tempestuosa… se tornou o sal nas lágrimas e o trovejante arco-íris na risada de nossas peles ao entrarmos e sairmos do Trabalho que fazemos para derrubar a fortaleza… não duvide que estamos trabalhando…

A bruxaria é uma poesia estranha, uma arte nobre, uma besta selvagem no coração do herege… E hereges se fortalecem quando por Escolha somos tomados por Loucos, e nessa Loucura recebemos as Chaves para as Torres… cantamos com os Tecelões-Estelares e os relâmpagos se arqueiam para cima e para baixo, para baixo e para cima.

Nossa Loucura não é para todo mundo até que nosso Trabalho esteja terminado. Declarações de Domínio Daimônico habitam em Sonhos. Sonhos que vamos despertar.”

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Gede-FaceGede Parma (Fio) é bruxo, vidente, curandeiro, místico, ativista e escritor. Mora em Ubud, Bali, a ilha onde nasceu, e é um viajante do mundo. É um autor premiado de livros sobre paganismo e bruxaria e um entusiasta da poesia informal e da dança. Apresenta workshops sobre magia xamânica, feitiçaria e também rituais em ambos os hemisférios e é iniciado nas linhagens Wildwood e Anderean de bruxaria, bem como Reclaiming e é um aprendiz da Anderson Faery. É conhecido por seu foco facilitador em espaços de êxtase e comunhão íntima com os Poderes do Eterno Cosmos e Espíritos Locais em todo o mundo.

Já palestrou em muitas conferências pagãs e espirituais, festivais e retiros. Já compartilhou sua magia e suas perspectivas no Parliament of the World’s Religions, Reclaiming WitchCamps, BaliSpirit Festival, Between the Worlds, Pagan Summer Gathering, DragonEye Tours, Ritual Experience Weekends e facilitou centenas de rituais abertos ou privados, workshops e intensivos ao redor do mundo.

 

Bruxaria Tradicional – uma vertente pagã aberta e fascinante

É fato que, de todas as tradições de bruxaria possíveis no paganismo, a Wicca é hoje a mais difundida, mas vale lembrar que embora todo wiccano seja bruxo, nem todo bruxo é wiccano. Eu, por exemplo, embora tenha muitos amigos em diversas tradições da Wicca e participe de muitos eventos e festivais organizados por templos e igrejas de Wicca, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, não sou praticante dessa linha, mas sim do que se chama Bruxaria Tradicional ou Old Craft. Submission-3-The-Unborn

Porém, acho necessário esclarecer que minhas práticas e minha linhagem também não são as mesmas dos conceitos e preceitos sobre os quais foi fundado no Brasil o Conselho de Bruxaria Tradicional. Pelo que entendi  através do material da organização e também de conversas com o pessoal do Conselho (e posso estar equivocada), eles consideram Bruxaria Tradicional as linhagens de ensinamentos e práticas que descendem diretamente de práticas familiares ou locais da Europa pré-cristã e que sejam puras e fiéis à região de onde a tradição provém. Por exemplo, se minha tradição é Britânica, eu não poderia misturar panteões de deuses, mesmo morando nas Américas, mas sim preservar e conectar-me com os deuses de um único panteão, Celta, digamos; bem como eu não poderia misturar práticas de magia cerimonial ou de outras linhas mais modernas ou não.

Há quem defenda por aí que Bruxaria Tradicional mesmo não existe, por não existir mais nenhuma tradição tão pura que não tenha sofrido influências ao longo dos séculos, e também há quem diga que Bruxaria Hereditária (que é uma vertente considerada tradicional) é algo inventado e muito discutível. Discordo desses dois pontos por conhecer e descender (no sentido de ter por mestres e ter recebido linhagem) de bruxos incríveis que são exatamente dessas vertentes. A força e a verdade de um mago ou bruxo a gente conhece pelo trabalho e pela vida da pessoa, acho dispensável ficar debatendo se os meios pelos quais a pessoa faz seus contatos nos outros mundos –  e desenvolve seu trabalho neste –  são ou não validados pela pequenez de nossa classificação e hierarquias humanas. Isso é necessário quando a pessoa quer fazer ou se diz parte de uma tradição instituída com regras próprias;  fora isso, tudo é possível, e temos de estar abertos a todas as formas pelas quais os poderes podem se manifestar e os conhecimentos podem ser transmitidos aos andarilhos desses muitos caminhos.

A Bruxaria Tradicional na qual percorro meus dias e trabalhos mágicos é em parte pré-Wicca e dela difere em várias coisas, porém tem sim misturas bem contemporâneas, o que é impossível de evitar já que estamos tão globalizados (não só em nossas informações, mas em nossos próprios genes!!!), e por isso estou curtindo muito a nova alcunha que vi para o termo: Bruxaria Tradicional Moderna.

Meu amigo, e agora também professor, Gede Parma, que é um autor pagão australiano,  anda fazendo umas postagens no facebook compartilhando certos conceitos sob sua ótica  de bruxo tradicional.

Achei a definição de Bruxaria Tradicional maravilhosa e pedi permissão para traduzir e postar – a qual ele concedeu. Segue, portanto, a definição de Tradicional Witchcraft ou Old Craft segundo Gede Parma:

“1. Um movimento diverso do renascimento da Wicca nos anos 1950 e 60, centralizado inicialmente em torno de Robert Cochrane (Roy Bowers), o mestre original (conhecido) do Clã de Tubal Cain. Alegações de linhagem/costumes de bruxaria mais autência ou pré-moderna eram centrais a esses debates e perspectivas. Por fim, embora o movimento moderno conhecido amplamente como Tradicional ou Old Craft seja contemporâneo da Wicca, não deveria, na minha opinião, ser definido constantemente contrapondo-se a ela.

(Com uma ressalva: um Wicanno Gardneriano pode de fato ser um bruxo tradicional, assim como um bruxo tradicional pode também ser iniciado na Wicca. Enquanto o ritual da Wicca aparenta ser fundamentalmente baseado em magia grimórica salomônica e renascentista, o ritual da maioria das linhas de Bruxaria Tradicional bebem do folclore europeu codificado em histórias/canções/rimas antigos, costumes localizados e também do testemunho de várias bruxas acusadas durante a Inquisição).

2. Qualquer prática de bruxaria ou linhagem/tradição/clã inspirados na bruxaria histórica e folclórica da Europa e sua diáspora, identificando-se com ela de formas texturizadas e narrativas.

3. Assim como no item 2, e potencialmente se identificando com o item 1, uma bruxa tradicional trabalha tanto com linhas vermelhas quanto brancas. A linha vermelha se refere ao conhecimento e práticas bem avermelhados, passados de mão em mão, de boca a ouvido, do sopro à carne, através do tempo e do espaço. A linha branca é a gnose iniciática/iniciatória e a comunhão reveladora aprofundada ou visionária com o Outro Mundo, com os espíritos, com os espíritos pessoais,  por exemplo, Inspiração. Bruxaria sem conexão  e sinergia conscientes (como pactos, casamentos e promessas) com os Espíritos, definitivamente, não é bruxaria tradicional.

Passada a mim pelo Fogo Divino

pelo Olho, de novo e de novo

Branco o clarão do Lorde Serafim

Fiado dentro da Próprio Corpo da Mente

Vermelho o Rio inchado e forte

na terra da Soberania

onde rainhas antigas deram luz

às histórias que me libertariam

Vivificado em prata na Noite

onde o silêncio traz o sonho carregado

entre o Pensamento e a Memória

Ó antigo conceda a Chama Real

Três Fios trançados em meu Cordão

Serpente Viva no meu pescoço

pendurada como o laço do Enforcado

Astúcia dos bruxos, feito dos bruxos.”

Gede Parma ainda adiciona abaixo do post mais alguns comentários:

“Exemplos de Tradições contemporâneas que são consideradas ou se dizem ‘Tradicionais ou Old Craft’ incluem:

Clã de Tubal Cain

Cultus Sabbati

1734

Anderson Faery/Feri (também chamado Vicia)

Anderean Craft

Sophian Thread of WildWood

Glenshire Order of Witches

Lady Circe’s Lineage and Mantle-Bearers

Além da miríade de outros grupos e indivíduos conhecidos e desconhecidos que usam ou não algum nome.

Também devo mencionar que outra explicação muito direta de Tradicional ou Old Craft é qualquer grupo, prática individual, ordem ou linhagem que seja anterior ao revival dos anos 1950 e dá seguimento a costumes, técnicas e conhecimentos mais antigos.

E AINDA, que estou ciente de que dentro das tradições Gardnerianas e Alexandrinas há amplos conhecimentos tradicionais, práticas e técnicas!”

Então aí está. Espero que esses comentários ajudem a esclarecer mais uma das vertentes possíveis para vivermos essa espiritualidade tão fascinante.