Afinal o que é magia?

Magia, segundo o dicionário é um substantivo feminino que se define como: “arte que pretende agir sobre a natureza e obter resultados contrários às suas leis, por meio de fórmulas ou de ritos mais ou menos secretos, quer utilizando propriedades da matéria que se afirma serem desconhecidas (magia branca), quer fazendo intervir poderes demoníacos (magia negra), feitiçaria; bruxaria.”

Primeiro, a magia tem sempre algum objetivo, e ele precisa ser claro e preciso. Então existe o objetivo, o método e o resultado. Se, no mundo físico, estou em busca de eletricidade, meu método será a criação de um circuito elétrico, cujo resultado é constatado quando a lâmpada acende. Se quero prosperidade, vou criar não só um bom feitiço ou ritual para atrair essa força para minha vida, como vou me empenhar e ficar atenta às oportunidades no mundo prático. O resultado será um ganho melhor e uma tranquilidade para pagar minhas contas e desfrutar de lazer.

Ela pode ser chamada de branca ou negra, numa referência à magia “do bem”, que atrai coisas boas para sua vida ou busca a cura e o bem estar, ou a magia destrutiva que manipula o livre arbítrio alheio ou destrói algo de outra pessoa, levando em conta apenas a vontade e satisfação de quem origina a magia. Uma amarração para o amor, mesmo sendo para o amor, é magia destrutiva e manipulativa.

A definição do dicionário (acima) é equivocada neste sentido, pois coloca como “magia branca” uma magia que usa componentes da natureza, não importando o objetivo, e coloca como “magia negra” aquela que emprega poderes demoníacos. O problema é a definição de demoníaco num país cristão, pois qualquer força que não seja de Jesus é considerada demoníaca, mesmo quando não é demônio. Mesmo se forem espíritos da natureza, que estão te ajudando a operar uma cura, não importa que você explique que é um ser feérico – no cristianismo, um curupira é um demônio, a sereia é um demônio e por aí vai. E, de novo, não fala nada sobre a finalidade da magia.

Ela pode ser também Alta ou Baixa magia. A Alta magia lida num método estruturado para desenvolvimento espiritual e pessoal. A Baixa magia tem relação a alguma forma de manipulação da realidade física, ou seja, feitiços. Em geral, quem tem a bruxaria como caminho espiritual, pratica uma combinação das duas.

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eu, de Hekate moderna

É bacana que no português temos a palavra “magia”, para tratar da definição colocada acima, e temos a palavra “mágica”, que é usada para truques de prestidigitação, da mesma forma que temos uma clara diferença entre as funções de um mago e as de um mágico. No inglês não é assim.

No inglês só existe a palavra “magic” que serve para as duas coisas. Então, para diferenciar o que era ligado a estados e manipulação da realidade através da vontade pessoal, dos truques usados por um David Cooperfield, por exemplo, o mago Aleister Crowley, que adorava ser diferentão e causar muito, cunhou a grafia “magick”, para distinguir as duas e deixar claro que “magick” era o método dele, que tratava a magia como “a arte e a ciência para provocar mudanças segundo nossa vontade”. Essa grafia ficou tão difundida que hoje a norma é escrever assim em toda a literatura americana ou britânica sobre o tema.

A grande atração da magia é sua capacidade de causar transformações no plano físico se utilizando de meios não-físicos. E para a ação da força mágica, as leis físicas de tempo e distância não se aplicam.

Durante séculos a ciência e a magia estiveram em posições diametralmente opostas, no campo de batalha. Não havia uma linguagem comum, e a magia era descartada como superstição e irrealidade. A ciência por todo esse tempo debochou e menosprezou de tudo que era relacionado ao mundo das forças espirituais.

Com a popularização de certos conceitos da física quântica, há uma animação geral de que a ciência e a magia estão finalmente encontrando um ponto comum, estão começando a se entender e se explicar. Afinal, a magia do passado seria a ciência do futuro, pois tanta coisa que era entendida como feitiço antigamente hoje é passível de explicação científica, e é possível que daqui um tempo a física incorpore a magia dentro de seu rol das forças naturais.

Enquanto isso, ando refletindo sobre esse uso cada vez mais constante de tentar se calcar nas explicações da física quântica para explicar o que fazemos. Se a ciência nunca esteve nem aí pra nós, e os bruxos e sensitivos seguiam cumprindo suas devidas funções mesmo em meio ao total descrédito das instituições científicas, por que diabos estamos tão preocupados em nos provar decentes e verdadeiros agora usando explicações justamente de quem nunca esteve a nosso favor? É algo para pensar.

Que tanta necessidade tenho eu de provar meu valor dentro do establishment quando esse establishment nunca foi gentil com meus iguais? Que ótimo que a ciência está encontrando explicações nos seus moldes para o que desde sempre é vivenciado pela humanidade, mas eu não tenho que me valer dos parcos conhecimentos e provas científicas nessas áreas para explicar aquilo que eu faço e que é muito maior do que eles conseguiram descobrir. Se a ciência está engatinhando nessas questões, não me acrescenta nada usá-la.

Viver a magia é admitir que existe um mundo muito real de forças espirituais que coexiste com a realidade física. Este outro mundo e seus habitantes podem ser acessados e contatados em busca de cooperação. E também é viver atento ao fato de que o pensamento é uma força criadora, que influenciamos sim nossa realidade, não de forma vã e simplificada, mas que nossa observação, foco e energia alimentam certos canais e furtam-se de perceber outros. De acordo com nossos padrões, vamos repetindo nossas experiências de vida e nossos erros, não sabemos usar esse nosso incrível poder criativo.

Essa influência que podemos ter é mais facilmente compreendida se entendermos o universo como holográfico, com cada fragmento sendo um espelho do todo, e é por isso que temos acesso a esse todo, sendo a grande via de acesso o subconsciente. Mas quem é que consegue saber de fato tudo o que lhe vai no subconsciente? É o subconsciente que acaba criando essas experiências todas que vivemos, então vamos no automático, lidando com realidades formadas inconscientemente por nós.

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Grupo Terra Mysterium de Chicago, IL, 2009. Sou a segunda da direita para a esquerda.

Trazer as sombras para a luz não é só extremamente curativo, mas extremamente forte e prático. É conseguirmos canalizar nossas pulsões e forças interiores como correntes a nosso favor, como no arcano VII do Tarot, o Carro, onde o homem controla e comanda um cavalo branco e um preto, com cada um insistindo em andar para um lado diferente. Aliar o pensamento criativo com a emoção limpa e clara, os dois em uníssono, é o que provoca mudanças objetivas via experiências subjetivas.

Os bons resultados se dão quando sentimos que verdadeiramente somos merecedores daquilo. Se não nos acreditamos merecedores de amor, então o amor não virá, não importa que feitiços eu faça. Os feitiços primeiro deveriam ser voltados para me sentir digna de ser amada, e, só com isso resolvido, partiria então para atrair um amor. Mas trabalhar em etapas exige muito autoconhecimento, algo que não é todo mundo que tem coragem de empreender.

Então o objetivo é sempre provocar uma mudança, o método tem a ver com entrar em contato com as energias e forças mais apropriadas do outro mundo para ajudar na tarefa, e o resultado virá em acordo com nossa real intenção.

Porém às vezes o resultado é outro, ou nenhum. A magia é, por natureza, imprecisa.

Coisas que ajudam muito:

  • Já no preparo para um ritual e durante todo o tempo em que se faz o ritual, deve-se pensar, visualizar e sentir o objetivo como já tendo acontecido, não no futuro, mas no presente.
  • Um estado de consciência levemente alterado é necessário para ser eficaz, não podemos estar tensos. O relaxamento e a tranquilidade fazem com que tudo ande melhor. Atenção, o estado alterado é alcançado naturalmente, sem o uso de substâncias externas a nós.
  • Esforço demais parece afugentar o que queremos. Precisamos lançar a energia e esperar que a coisa se desenrole. Por isso devemos fazer o ritual, o feitiço, a simpatia, como que celebrando algo já conquistado e, então, imediatamente depois, deixar pra lá. Fazer outra coisa, ver TV, sair com amigos, mudar o foco completamente.
  • Entender que a vibração só pode ser feita numa única direção: ou é contra ou é a favor de algo, ou atrai ou repele. Não posso fazer um feitiço que ao mesmo tempo me proteja e afaste todo o mal. Ou é proteção ou é para afastar o mal. São movimentos contrários, e misturar os dois, nem que seja na forma com que se fala, pode dar um super tilt, um choque de forças, resultando – na melhor das hipóteses – em coisa nenhuma. Fique aliviado se o resultado for igual a nada. Porque um choque de forças grande, colocando muitas intenções misturadas num trabalho só, pode dar em algo que bagunça e desanda a tua vida seriamente. Falo por experiência.
  • Atenção a horas planetárias, dia da semana, estação do ano e lugar/ambiente em que se faz algo afeta muito, especialmente na psicologia do mago, e isso tem um resultado direto e potencializante.

Seguir receitas antigas e testadas pode ajudar ou limitar. Se estiver inseguro de suas pesquisas, vá no que já foi feito. Do contrário, sinta-se livre para criar uma invencionice cuidadosa, sempre evitando misturar ingredientes e ideias que possam ser divergentes.  Estudar as correspondências é fundamental para não fazer um feitiço de fogo usando ingredientes relativos ao elemento água, por exemplo.

Menos é mais, vá no simples, e confie também naquilo que te ocorre espontaneamente, seja um gesto, um sopro, um prato que você cozinha, algo feito na hora usando o que se tem em casa, ou até um simples desejo ao avistar uma estrela.

Estude muito, estude sempre, mas ouça também a sabedoria singela que habita seu interior.

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Bê-á-bá do paganismo – ou uma ajuda para quem me pergunta: “Hã, você é o quê?”.

Quando se tem um caminho espiritual que foge ao convencional (especialmente quando é fora das três grandes religiões – judaísmo, cristianismo, islamismo) é difícil escapar a comentários ou perguntas totalmente atrapalhados de pessoas com as melhores intenções. Quando digo que sou pagã, quem tem alguma vaga noção do que seja me presume Wicca (que é apenas uma das vertentes do paganismo), se falo em Bruxaria Tradicional, me imaginam fazendo poções, feitiços e conjurando espíritos nas horas vagas e, uma vez, tentando explicar para uma moça que eu não era cristã, ela me respondeu: “Ah, tudo bem, também não sou católica”.

Não, darling, não foi isso que eu disse.

Para ajudar as pessoas de fora a entenderem essa espiritualidade que cresce muito rapidamente (tanto em números de curiosos quanto de praticantes), dar algum tipo de norte para quem está buscando entender mais sobre essa fé – e também para alguma mãe que descobriu que a filha adolescente agora anda com um pentagrama pendurado no pescoço e lendo livros de bruxaria –, achei que poderia escrever um textinho bem básico e esclarecedor. Outro motivo válido é oferecer conhecimento para ajudar a erradicar a ignorância que leva às atitudes de intolerância religiosa.

Denominadores comuns

um altar coletivo

um altar coletivo

Paganismo, ou melhor, neopaganismo é um termo bastante amplo que inclui várias práticas distintas de espiritualidade sempre baseadas em crenças pré-monoteístas, variando desde a Wicca, que é a denominação mais conhecida hoje em dia, ao Asatru, Helenismo, Kemetismo, Druidismo, Xamanismo e a Bruxaria Tradicional entre outras – lembrando que o Candomblé, o Budismo e o Hinduísmo também são religiões que figuram tecnicamente como paganismo. Algumas linhas tentam reconstruir práticas religiosas pré-cristãs, outras se fundamentam em panteões de deuses e rituais antigos reinterpretados para nosso mundo moderno globalizado e tecnológico.

Como cada um tem práticas, crenças e linhas muito distintas, vou tentar resumir e apresentar alguns conceitos que são comuns à maioria:

  1. São religiões ou espiritualidades NÃO- cristãs. A exemplo do judaísmo e do islamismo, a figura de J.C. não conta e não entra em nossas preces e rituais. Porém, no Brasil, onde tudo é muito misturado, tudo é possível. Quem nunca entrou numa lojinha esotérica e encontrou lá aquela famosa imagem do sagrado coração de Jesus? Como eu disse, aqui é tudo misturado, é quase inconcebível para muita gente que a pessoa seja espiritualizada e dê zero importância à figura pendente na cruz, então não duvido que tenha gente que concilie esses caminhos.
  2.  Não há nenhum dogma, nenhum livro ou ensinamento máximo estabelecendo no que as pessoas devem acreditar ou como devem levar suas vidas. As diferentes tradições têm práticas e linhas mais estabelecidas, mas há muitos pagãos ecléticos que misturam o que faz sentido para eles, e mesmo quem tem linhagens específicas ainda assim tem sempre abertura para (e deve!) desafiar o que quiser e seguir a descoberta do seu caminho dentro de uma determinada tradição. No fundo, então, você é sempre seu próprio pastor e guia. Isso exige uma responsabilidade pessoal do caramba. Há linhas que enfatizam rituais mais formais e cerimoniosos, outras praticam xamanismo e curas naturais, há quem prefira se dedicar a artes manuais, ervas medicinais, feitiços, meditações ou até cozinha mágica. As formas de viver e manifestar nossa espiritualidade são múltiplas.
  3. A divindade (Deus/Deusa) é honrada como imanente na natureza, ou seja, a divindade mora dentro, e não, fora. Como essa força está dentro, não ficamos procurando transcender a matéria para atingir algo que está no além e distante de nós. O paraíso é aqui e ter um corpo é o maior presente.
  4. Deus é Deus e Deusa. A força criadora é vivida como uma polaridade. Nos rituais e cultos, a Deusa tende a ser mais celebrada em várias das tradições, afinal nosso planeta é feminino (Gaia), a Natureza é Mãe e quem dá a vida é a mulher.
  5. Além da força criadora primordial se dividir em polaridades masculina e feminina, muitos pagãos também são politeístas, cultuando diferentes panteões das religiões antigas,vendo nos diferentes deuses e deusas e suas características as representações das várias faces da divindade primordial. Muitos são ainda animistas, respeitando a alma e a consciência que habita todas as formas de vida e até corpos inanimados.
  6. Sendo uma espiritualidade voltada ao culto da terra, são celebrados os festivais das estações do ano e os ciclos de morte e renascimento.  A roda da vida é sagrada em todas as suas manifestações, assim como também são sagradas as direções dos pontos cardeais e os quatro elementos da natureza. Como a natureza é sagrada, um dos traços mais comuns em todas as variadas manifestações possíveis do paganismo está na consciência ecológica e todas as práticas green.
  7. A maioria dos pagãos acredita na reencarnação, mas conheço alguns que não partilham dessa ideia.
  8. Nos reunimos para celebrar nossa espiritualidade e praticar magia, que envolve práticas ancestrais como encantamentos,música, dança, exercícios de concentração, rituais de cura e muita visualização criativa.
  9. A responsabilidade pessoal é muitíssimo enfatizada. Cabe a você decidir o que é certo e errado, mas, lembre-se tudo que vai volta. Ponto. Ninguém escapa da lei do retorno. Para os wiccanos, então, tudo que você faz volta multiplicado por três. Entendeu o tamanho da responsabilidade de arcar com nossos atos e nossas escolhas?

As tradições

o templo mais perfeito é a natureza

o templo mais perfeito é a natureza

A mais comum hoje é a Wicca, uma forma de bruxaria que surgiu na década de 1950 e é muito praticada nos Estados Unidos e no Brasil. Das tradições wiccanas originais que são as linhas Gardneriana ou Alexandrina, surgiram várias outras como Feri, Diânica. Helênica, Céltica, etc.

Além dessas formais, há tradições familiares, de bruxas e bruxos que passam seus ensinamentos de pai para filho dentro de uma mesma família, como acontece na stregheria italiana, ou a alguém que eles “adotam”.

Há também muitos praticantes solitários, então a pessoa estuda as tradições, apreende aquilo que sente fazer sentido para ela mesma e cria suas próprias combinações e rituais.

“Coven” é o nome dado ao grupo de bruxos praticantes das tradições mais contemporâneas. Bruxos de linhagem familiar ou os praticantes de bruxaria tradicional se organizam em Clãs ou são descendentes de um clã. Os grupos são liderados por um sacerdote ou sacerdotisa (ou os dois), e é importante verificar se essas pessoas tem estofo, se passaram por vários anos de estudo e foram iniciadas em uma tradição em particular – não basta se dizer sacerdote, tem que ter café no bule.

Tradições formais e sérias exigem dedicação e um programa rígido de estudos antes de considerar o aprendiz para uma iniciação. Bruxaria não tem certificado, e “iniciações” oferecidas em cursos rápidos de uma tarde não fazem sentido algum. É um trabalho demorado, de muito autoconhecimento e muita dedicação para se estabelecer contatos nos mundos interiores. Por isso, esse caminho não é para todo mundo.

O que a bruxaria não é:

NÃO é satanismo. Essa figura nem existe nas religiões pré-cristãs. Não acreditamos em céu, inferno e diabo. Como é que iríamos cultuar uma figura na qual sequer acreditamos?

Também não é ficar fazendo feitiços, poções e magia. Há uma diferença entre feitiçaria como prática e bruxaria como espiritualidade. Qualquer pessoa de qualquer religião pode fazer feitiços. Um ateu pode fazer feitiços se quiser. Feitiçaria não necessariamente envolve celebrações específicas, práticas de devoções à natureza e, muito menos, exige que se leve em conta alguma ética e o respeito ao livre-arbítrio do outro. Para ser um feiticeiro poderoso não é requisito celebrar o equinócio da primavera nem assumir conscientemente a responsabilidade de sermos parte de uma grande rede cósmica onde nosso papel é sempre buscar uma evolução maior; mas, para um pagão sério, essas coisas vêm antes do preparo de uma maldição para estragar o aparelho de som do vizinho.

Para muitos, a bruxaria é antes de tudo uma prática religiosa, de fé, de sintonia consigo mesmo e com o mundo natural. É abrir-se para escutar o vento, sentir a água, ler o fogo e relaxar na terra. Magia é alterar a energia e a consciência por força da vontade. Magia é parte importante da bruxaria, mas há bruxos que quase nunca fazem feitiços, e muitos fazem para transformarem a si mesmos, num esforço de se lapidar internamente para, aí sim, manifestar no externo a prosperidade, a sabedoria e, principalmente, a paz e a harmonia que todos desejamos na vida.

labirinto

Abrindo seu potencial de visão

Semana que vem vou me reunir com apaixonados, aficionados, estudiosos, aprendizes e mestres de Tarot na 3a Confraria Brasileira de Tarot em São Paulo. Como parte do evento, vou dar este workshop totalmente prático. Venha sem medo. 

banner tarot

“Um workshop 100% prático, onde você vai ampliar as possibilidades de relacionamento com as cartas e passar a usá-las como uma ferramenta para abrir sua visão e potencial intuitivo.”

Petrucia Finkler tem quase trinta anos de experiência em artes divinatórias, é praticante de bruxaria tradicional com linhagem europeia e norte-americana, é apaixonada por magia extática e não resiste a um bom ritual. Junto com Pietra di Chiaro Luna facilita uma roda mensal para mulheres em São Paulo.

Serviço:

3ª Confraria Brasileira de Tarot – 19 a 21 de julho, 2013

Workshop: Perdendo o medo das cartas

Sábado, 20 de julho
Das 15h30 às 17h.
Faces da Lua: Rua Colônia da Glória, 414 – Vila Mariana – São Paulo

Marés Lunares

Da mesma forma que a Lua afeta as águas, várias áreas da nossa vida também sofrem sua influência.

A vida no nosso planeta é em ciclos. O dia, com seus picos e vales energéticos, e o ano – com suas estações – são ciclos solares, e nossa civilização está muito habituada a se guiar pelo sol.

Porém os calendários mais antigos da humanidade tinham como referência o ciclo lunar, que orientava o cultivo da terra e os rituais celebrados por nossos ancestrais. A Igreja ainda hoje revela suas raízes pagãs calculando a data da Páscoa de acordo com a lua (primeiro domingo depois da lua cheia de primavera no hemisfério norte).

As fases de nosso satélite natural contavam a passagem do tempo, e há muitos registros de marcações feitas em ossos, além de inscrições em cavernas, datando de vinte a trinta mil anos atrás, as quais os antropólogos creem serem relacionadas às fases da lua.

As mulheres sempre foram associadas à lua porque o ciclo feminino mensal tem a mesma duração do lunar.  A palavra mês vem do latim mensis e é a origem do termo menstruação. Month (mês, em inglês), por sua vez, tem a mesma raiz indo-europeia de moon (lua) e atesta para a importância deste astro para os povos antigos.

Para entender melhor a ideia de maré nesse caso, vamos lembrar que as tradições de magia ocidental compreendem o universo como sendo substância em movimento.

Além no nível físico, estudado ad nauseum por nossa ciência terrena, as tradições ocidentais de mistério ou ocultismo consideram outros dois níveis mais elevados de substância:

Astral – energia sutil que se estende pelo espaço.  Os movimentos dos planetas do sistema solar têm efeito neste nível, causando marés energéticas e influenciando nossos sentimentos e pensamentos, que também pertencem ao plano astral. Essas influências são estudadas pela astrologia. Desde a renascença, já se frisa a importância de realizarmos uma magia ou ritual na hora mais propícia ditada pela astrologia.

Etérico – os planetas também exercem influência neste nível.  O oceano de éter que nos rodeia recebe o nome de akasha e tem suas próprias correntes, marés e ciclos de energia. A matéria aqui é descrita como um fluido sutil que a tudo permeia e em tudo flui.

A lua é senhora das marés etéricas da mesma forma que domina as físicas, e o ciclo de suas fases é muito potente não só para qualquer trabalho conduzido no etérico, mas como influência de tudo aquilo que se forma no etérico e que vai afetar o físico mais tarde.

Da mesma forma que sabemos que, se nadarmos a favor da correnteza, a gente chega mais rápido e mais fácil ao nosso destino, facilita muito nossa vida se, sempre que possível, adequarmos nossas atividades e projetos às correntes astrais e etéricas sob influencia dos planetas.

A lua então, nos seus 28 dias de ciclo, passa sete dias em cada uma de suas fases. Nesses 28, passa por todos os 12 signos do zodíaco, permanecendo em média 2,5 dias em cada um. Por se mover muito rápido, é fator determinante em ciclos humanos de curta duração, como o mês, a semana e o dia.

Seu movimento e sua luminosidade então (vistos da terra) seguem um ciclo de crescimento e auge, para depois desinflar e apagar-se no céu – e então recomeçar tudo de novo. Vale assinalar que apesar das fases serem as mesmas para ambos hemisférios, norte e sul, a impressão visual que se tem de cada hemisfério é oposta.

Símbolo da Deusa Tríplice, as fases da lua vistas pelo hemisfério norte aqui correspondem a: Crescente, Cheia e Minguante.

Símbolo da Deusa Tríplice, as fases da lua vistas pelo hemisfério norte aqui correspondem a: Crescente, Cheia e Minguante.

 Ela rege:

  •  Fertilidade (da concepção ao parto)
  • Nutrição (apetite, metabolismo, assimilação de nutrientes)
  • Água e líquidos (plantas, corpo humano). É bom conferir a lua antes de marcar cirurgias,algumas podem inibir ou aumentar a chance de inchaço, hemorragias e interferir na velocidade e qualidade da recuperação no pós-operatório. A lua cheia é a menos indicada para qualquer procedimento, e a minguante, a mais favorável.
  • Emoções: o maior impacto é no comportamento das massas, levando mais ou menos pessoas a eventos públicos, e o signo em que está vai ditar o tipo de “crowd” que o evento vai atrair.
  • Negócios: as flutuações do mercado financeiro e imobiliário.
  • Sono: quantidade, qualidade e tranquilidade do sono.

Sem entrar em detalhes, a regra geral daquilo que é favorecido pelas fases da lua é a seguinte:

NOVA: processos para dentro

CRESCENTE: processos para fora

CHEIA: intensificar curas, plena de prazer

MINGUANTE: curas profundas

Pensando em termos de fase e signo… você arriscaria um palpite de qual seria a melhor lua para:

a)fazer uma poção para se livrar de todo o mal?

b)reconciliar-se com um amigo?

c)começar sua obra prima da literatura?

d)fazer uma viagem no tempo?

Espelho, espelho meu

O uso do espelho negro

Comprei meu espelho mágico anos atrás numa lojinha metafísica no interior de Illinois. Confesso que comprei mais por achar que era uma ferramenta misteriosa e chique de constar no arsenal de uma boa bruxa do que por estar decidida a penetrar nos mistérios da vidência.

O uso de superfícies reflexivas em busca de visões é uma prática muito antiga de clarividência. A mais conhecida delas é a bola de cristal, que em geral é retratada como sendo de cristal transparente, quando na verdade uma pedra escura seria muito mais indutora e convidativa para quem está começando.

Na literatura – lembro muito de Brumas de Avalon – é comum a imagem de mulheres que têm visões na água, quando estão na beira de um poço, de um lago ou olham para dentro de uma tina.

O transe que induz visões é muito fácil de acontecer quando se está no processo de uma tarefa meticulosa e repetitiva: costurar, desenhar, arear panelas, esfregar roupas e bater manteiga são alguns exemplos. Damos abertura a outro sentir quando temos a mente focada em algo muito específico. Não estou falando de devaneios, estou me referindo mesmo a uma espécie de transe que acontece, e as pessoas muitas vezes nem percebem. Várias vezes aconteceu de eu estar lavando louça e, do nada, me vir a lembrança de alguém. Se o telefone não tocasse em seguida e fosse a própria criatura, bastava eu mesma discar o número e, batata, ela ficava assombrada porque estava justamente querendo falar comigo ou precisava de uma ajuda, e eu ligara na hora certa.

Eu *tentando* aprender a fiar com a fabulosa Rowan.

Assim também lembro de Morgana Le Fay, nas Brumas, enxergando o futuro quando se punha a fiar. O ato de fiar com rocas é muito usado em contos de fada e, além de remeter às fiandeiras do destino, as três Norns, é mais uma atividade doméstica que induz facilmente ao transe e à clarividência.

Voltando ao espelho, faz uns quatro meses que decidi finalmente encará-lo e fazer algumas experiências. As recomendações são sempre simples: coloque o espelho em um ângulo onde não enxergue seu próprio reflexo, de preferência escureça a sala e deixe apenas uma vela acesa um pouco distante, relaxe o olhar como se mergulhasse numa tigela de água e espere as imagens começarem a se formar. Nada fácil. Arrumar o cenário é tranquilo, agora, começar a entender e enxergar as tais imagens exige uma preparação e uma abertura.

Tem gente (ainda mais no Brasil, onde a mediunidade é overrated) que vive naturalmente no sexto chakra e não tem a menor dificuldade em enxergar qualquer coisa. Porém, para quem tem mais talento com outras sensibilidades, descobri que quanto mais experiência você tiver com exercícios óticos preparatórios e lançar mão do uso de tattwas para abrir a visão, melhor.

Franz Bardon, em seu popular – e ótimo – Magia Prática, o caminho do adepto dá algumas sugestões de uso do espelho. Quem usa com propriedade os instrumentos de cada elemento vai perceber que várias finalidades são compartilhadas com o pentáculo, já que esses dois são bastante similares e, por vezes, intercambiáveis.

Algumas das possibilidades de emprego do espelho negro:

1. Em todos os trabalhos de imaginação que exigem exercícios óticos.

2. Em todos os carregamentos de energias, de fluidos, etc.

3. Como portal de passagem a todos os planos.

4. Como meio de ligação com pessoas vivas ou falecidas.

5. Como meio auxiliar de contato com energias, entidades, etc.

6. Como irradiador em impregnações de ambientes, tratamento de doentes, etc.

7. Como meio de influência em si mesmo ou em outras pessoas.

8. Como emissor e receptor mágico.

9. Como instrumento de proteção contra influências prejudiciais e indesejadas.

10. Como instrumento de projeção de todas as energias a imagens desejadas.

11. Como instrumento de visão à distância.

12. Como meio auxiliar de pesquisa do presente, do passado a do futuro.

Numa das primeiras vezes, arrisquei substituir o espelho por uma panela de barro cheia d’água. Foi ótimo. Pois a panela é escura, a água colabora com suas propriedades e posso contar com a minha intimidade com as panelas, por ser uma bruxa de cozinha.

As imagens podem aparecer soltas na superfície mesmo ou, por vezes, reparei que  acabam se formando em frente aos seus olhos em algum lugar intermediário entre a mente e a superfície reluzente. Podem ocorrer também na forma de alucinações completas, como uma jornada onde o vidente é levado para outro reino onde encontra seres e também suas respostas. O espelho também é muito usado para invocar entidades (de arcanjos a demônios, passando pelos chamados Espíritos Olímpicos) e às vezes, mesmo sem invocação nenhuma, podemos dar de cara com uma entidade olhando diretamente para nós através deste portal.

Você pode consagrar seu espelho, pode aumentar o poder dele através de feitiços ou da adição de um condensador fluídico. Para ajudar na abertura da visão vale usar incensos, óleos, chás e condensadores específicos também. Descobri que o próprio colírio de Euphrasia Officinalis da Almeida Prado também dá uma ajuda e tanto, já que erva eufrásia é a famosa eyebright, praticamente impossível de encontrar por aqui.

Há quem diga que deixar outras pessoas manusearem seu espelho pode influenciar suas visões. Talvez seja mesmo ok resguardá-lo, mas e como fazer no caso de quem usa uma panela da cozinha? As bruxas da idade média usavam muito os utensílios domésticos, faca, vassoura, caldeirão… pela facilidade de acesso e por não chamarem a atenção. E é mais difícil ter controle de uso desses utensílios corriqueiros. Acho que se a panela for em geral manuseada por mim, o fato de ela cozinhar delícias para as pessoas queridas também pode muito bem adicionar ao seu poder visionário, por que não?

E você? Tem alguma experiência com espelhos negros? Compartilhe!

Mago ou místico?

Diferentemente de outras filosofias ou religiões, o trabalho de um mago ou bruxo tem muito pouco a ver com acreditar e muito a ver com fazer.  Para alguém se dizer cristão, existencialista ou até mesmo agnóstico, acreditar (ou deixar de) é o suficiente. Entretanto, para ser um mago é absolutamente imprescindível a pessoa trabalhar com a magia.*

Há um bom número de pagãos nas mais diversas linhas e tradições que se sentem plenamente felizes em celebrar sabás, sentirem-se unidos à Grande Mãe, fazerem preces frente a seus altares, usarem de alguns exercícios de meditação e estudarem diferentes disciplinas sem, no entanto, botarem muito a mão na massa no sentido de criarem seus próprios rituais ou fórmulas. Nada de errado com isso. É algo que vem de cada um. Todos começamos procurando um mestre, professor ou um líder (que pode estar presente na forma de livros, claro) em busca de conhecimento e orientação. Quem tem uma batida mais mística, focada na transcendência, tende a colocar seu mestre na posição de guru e acaba receoso de experimentar ou testar qualquer teoria ou prática diferente ou mais arriscada. Em geral eu chamaria este grupo de místicos ou esotéricos.

Na verdade, para se trabalhar com magia não é necessário se dedicar a nenhuma linha espiritual. Existe magia puramente prática, que vai desde o hoodoo,que surgiu na Louisiana nos Estados Unidos, até a singela simpatia nossa de cada dia.

Porém há aqueles que reúnem as qualidades do místico, ou seja, norteando-se por uma busca espiritual, somadas às técnicas e ferramentas da magia para avançarem em seu desenvolvimento. Estes últimos são os chamados magos, que inclusive depois de algum tempo acabam descobrindo que têm de abrir seu próprio caminho, que não há alguém que possam necessariamente seguir à risca ou algo em que apenas basta acreditar.

Essas pessoas até começam por um caminho com certa pavimentação, mas quanto mais desbravam, mais percebem que devem se arriscar por vias menos transitadas, redescobrindo uma trilha testada por poucos ou até mesmo abrindo um atalho que vá servir apenas para sua própria passagem. E é preciso coragem para ser mago. Lembro com perfeição quando, durante um workshop chamado “Riding the dragon”, que fiz no meu primeiro Pagan Spirit Gathering, alguém perguntou se o exercício que faríamos era seguro, e ouvi meu professor, Matthew Ellenwood, responder com toda a firmeza: “Não existe magia segura.”.

Magia se refere a um certo conjunto de ações cujo o primeiro requisito é definir o objetivo daquilo que se está fazendo. Pode-se fazer um ritual de magia para consagrar uma ferramenta, fazer um trabalho de cura, evocar ou invocar entidades, conversar com seu Eu superior, consultar um oráculo, fazer um feitiço e uma série de outras coisas. Mas invariavelmente sempre devemos ter um propósito, quanto mais específico, delineado e preciso, melhor. Concordo com os autores que afirmam que a escolha do propósito não é apenas o primeiro passo, mas é também o mais importante em qualquer trabalho mágico.*

Há o antigo adágio que diz: careful what you wish for, pois um desejo expresso está solto no cosmos e tende a se concretizar de maneira bem literal. Melhor para nós se ele for bem formulado e feito da forma mais consciente possível.  É comum termos surpresas desagradáveis ou intrigantes ao recebermos do universo respostas inesperadas e diretas a preces expressas de maneira leviana.

Um exemplo pessoal e modesto foi meu imenso desejo de ter ao meu redor paredes sólidas. Em todos meus anos de EUA, as divisórias de drywall sempre me faziam sentir numa casinha da lego que não me dava segurança. Resultado, o prédio onde moro hoje no Brasil tem paredes tão grossas que é impossível bater um prego; o simples ato de pendurar um quadro exige o uso de uma furadeira profissional.

E aos que me perguntam se acredito em magia, espíritos e jornadas xamânicas, respondo que não é uma questão de acreditar; eu não preciso ter fé que isso existe, trata-se de uma experiência tangível. É como tomar banho. Não preciso acreditar que se entrar embaixo do chuveiro vou sair mais limpa, eu sinto isso na pele.

* Indica parágrafo fortemente inspirado nas palavras e escritos do meu professor Matthew Ellenwood.