Mago ou místico?

Diferentemente de outras filosofias ou religiões, o trabalho de um mago ou bruxo tem muito pouco a ver com acreditar e muito a ver com fazer.  Para alguém se dizer cristão, existencialista ou até mesmo agnóstico, acreditar (ou deixar de) é o suficiente. Entretanto, para ser um mago é absolutamente imprescindível a pessoa trabalhar com a magia.*

Há um bom número de pagãos nas mais diversas linhas e tradições que se sentem plenamente felizes em celebrar sabás, sentirem-se unidos à Grande Mãe, fazerem preces frente a seus altares, usarem de alguns exercícios de meditação e estudarem diferentes disciplinas sem, no entanto, botarem muito a mão na massa no sentido de criarem seus próprios rituais ou fórmulas. Nada de errado com isso. É algo que vem de cada um. Todos começamos procurando um mestre, professor ou um líder (que pode estar presente na forma de livros, claro) em busca de conhecimento e orientação. Quem tem uma batida mais mística, focada na transcendência, tende a colocar seu mestre na posição de guru e acaba receoso de experimentar ou testar qualquer teoria ou prática diferente ou mais arriscada. Em geral eu chamaria este grupo de místicos ou esotéricos.

Na verdade, para se trabalhar com magia não é necessário se dedicar a nenhuma linha espiritual. Existe magia puramente prática, que vai desde o hoodoo,que surgiu na Louisiana nos Estados Unidos, até a singela simpatia nossa de cada dia.

Porém há aqueles que reúnem as qualidades do místico, ou seja, norteando-se por uma busca espiritual, somadas às técnicas e ferramentas da magia para avançarem em seu desenvolvimento. Estes últimos são os chamados magos, que inclusive depois de algum tempo acabam descobrindo que têm de abrir seu próprio caminho, que não há alguém que possam necessariamente seguir à risca ou algo em que apenas basta acreditar.

Essas pessoas até começam por um caminho com certa pavimentação, mas quanto mais desbravam, mais percebem que devem se arriscar por vias menos transitadas, redescobrindo uma trilha testada por poucos ou até mesmo abrindo um atalho que vá servir apenas para sua própria passagem. E é preciso coragem para ser mago. Lembro com perfeição quando, durante um workshop chamado “Riding the dragon”, que fiz no meu primeiro Pagan Spirit Gathering, alguém perguntou se o exercício que faríamos era seguro, e ouvi meu professor, Matthew Ellenwood, responder com toda a firmeza: “Não existe magia segura.”.

Magia se refere a um certo conjunto de ações cujo o primeiro requisito é definir o objetivo daquilo que se está fazendo. Pode-se fazer um ritual de magia para consagrar uma ferramenta, fazer um trabalho de cura, evocar ou invocar entidades, conversar com seu Eu superior, consultar um oráculo, fazer um feitiço e uma série de outras coisas. Mas invariavelmente sempre devemos ter um propósito, quanto mais específico, delineado e preciso, melhor. Concordo com os autores que afirmam que a escolha do propósito não é apenas o primeiro passo, mas é também o mais importante em qualquer trabalho mágico.*

Há o antigo adágio que diz: careful what you wish for, pois um desejo expresso está solto no cosmos e tende a se concretizar de maneira bem literal. Melhor para nós se ele for bem formulado e feito da forma mais consciente possível.  É comum termos surpresas desagradáveis ou intrigantes ao recebermos do universo respostas inesperadas e diretas a preces expressas de maneira leviana.

Um exemplo pessoal e modesto foi meu imenso desejo de ter ao meu redor paredes sólidas. Em todos meus anos de EUA, as divisórias de drywall sempre me faziam sentir numa casinha da lego que não me dava segurança. Resultado, o prédio onde moro hoje no Brasil tem paredes tão grossas que é impossível bater um prego; o simples ato de pendurar um quadro exige o uso de uma furadeira profissional.

E aos que me perguntam se acredito em magia, espíritos e jornadas xamânicas, respondo que não é uma questão de acreditar; eu não preciso ter fé que isso existe, trata-se de uma experiência tangível. É como tomar banho. Não preciso acreditar que se entrar embaixo do chuveiro vou sair mais limpa, eu sinto isso na pele.

* Indica parágrafo fortemente inspirado nas palavras e escritos do meu professor Matthew Ellenwood.