10a CWED

Agora já finalmente descansada posso contar e registrar minhas aventuras na 10a Conferência de Wicca e Espiritualidade da Deusa, que ocorreu nos dias 1,2,3, e 4 de agosto, um evento que se repete anualmente em São Paulo desde 2005, mas do qual participei pela primeira vez nesta edição.

E foi uma edição especial, comemorativa, e fiquei muito orgulhosa de fazer parte dessa história.

Zsuzsanna Budapest e eu na abertura da 10a CWED

Zsuzsanna Budapest e eu na abertura da 10a CWED

Fui no ritual de abertura na sexta à noite, que era uma reconstrução do ritual de “abertura da boca”, uma cerimônia sagrada egípcia que consagrava certas estátuas e imagens dos Deuses para que elas se tornassem vivas. Já falei sobre minha experiência com uma estátua viva autêntica de Sekhmet aqui, mas estava curiosíssima para vislumbrar um pouco da cerimônia antiga. De quebra, conheci pessoalmente naquela noite Zsuzsanna Budapest.

No sábado, fui cedinho e acabei ajudando nas traduções das conferencistas internacionais: Z Budapest e Deborah Lipp nas palestras da manhã.

Com a fofíssima e inigualável Sorita d'Este.

Com a fofíssima e inigualável Sorita d’Este.

À tarde, nem sei como, engatei num papo maluco e sem fim com a querida Sorita d’Este, o assunto passeou entre outras coisas por círculos de macieiras, o caldeirão de Gundestrup, Hecate, teatro, vestidos, livros, família, sotaques, mudanças e seres mitológicos. As pessoas curtiram tanto o astral da Sorita, que acho que ela quase podia levar um troféu de Miss Simpatia do evento, isso sem contar na quantidade de bruxos que não queriam mais que ela fosse embora.

Domingo foi dia da minha palestra “Deusas da Pesada: o medo e o fascínio das senhoras da Guerra, da Morte e da Escuridão”. E no escuro Elas me deixaram, que danadas! Preparei uma apresentação com slides lindos, mas não lembrei de levar adaptador para o plug do meu laptop que é daqueles de pinos chatos. Adivinha se o hotel não tinha apenas essas tomadas novas e impossíveis de 3 buracos! Acabou minha bateria no meio do papo e ficamos sem slides, mas o encontro em si foi muito legal. Eu falei um pouco, conversamos todos um pouco, trocando histórias, sensações e experiências, e depois levei todo mundo numa jornada para encontrar minha mãe Sekhmet. palestra3

Os relatos da experiência das pessoas foram interessantíssimos. Teve uma moça que foi lambida por ela, o que é uma atitude já bem conhecida dessa Deusa Leoa, mas que surpreendeu muito a sortuda desavisada. Adorei! Fico muito grata a todo mundo que foi, pela confiança e pela participação. A gente encerrou a tarde tocando a música “Bitch” de Meredith Brooks, que tem tudo a ver com o que conversamos.

traduzindo...

traduzindo…

Na segunda-feira, fui convidada por Claudiney Prieto, organizador do evento, para traduzir os workshops de aprofundamento, e apesar do cansaço inominável no final do dia, valeu cada segundo. Do trabalho com a Z, guardo a música cantada para a água, que agora cantarolo todos os dias no chuveiro: “Water is the first mother”; do papo sobre magia e feitiços com Deborah Lipp, retomei ótimas ideias e conceitos que andavam esquecidos; e do ritual com Sorita d’Este, guardo uma cartinha linda de uma fae com uma mensagem curta e direta que vai me guiar nesse semestre, além de uma deusinha linda que ela trouxe para cada um de Glastonbury.

turma do workshop de aprofundamento com Deborah Lipp (de roxo, ao centro)

turma do workshop de aprofundamento com Deborah Lipp (de roxo, ao centro)

Aliás foi o dia dos presentes. Para me socorrer energeticamente na minha exaustão tradutiva, a amiga Silvia Brianna Bastet me trouxe um dos sprays mágicos dela, e Sorita me presenteou com um livro sobre uma deusa que me ronda, que conversa comigo e com quem eu quero começar a trabalhar também. 20140812_095504

Embora eu esteja postando fotos, quero deixar registrado meu incômodo com as fotografias *durante* os rituais. Ritual, mesmo se mitodrama, mesmo que pareça teatral, não deve ser fotografado, ou talvez apenas por uma ou duas pessoas da organização para guardar como registro. No meu entender, (e isso é minha opinião, cada um tem direito à sua) ou você está dentro ou você está fora de um ritual, não há meio termo. E tirar fotos te põe imediatamente e indiscutivelmente fora, além de ser uma grosseria disparar centenas de flashes por minuto em ambientes escuros desnorteando os outros participantes e os facilitadores.

Proponho às pessoas uma experiência radical: sumam com seus telefones e se façam presentes com *todos* os seus corpos no local onde vocês estão, vivenciando e sorvendo a sacralidade do momento presente. Que tal?

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Bê-á-bá do paganismo – ou uma ajuda para quem me pergunta: “Hã, você é o quê?”.

Quando se tem um caminho espiritual que foge ao convencional (especialmente quando é fora das três grandes religiões – judaísmo, cristianismo, islamismo) é difícil escapar a comentários ou perguntas totalmente atrapalhados de pessoas com as melhores intenções. Quando digo que sou pagã, quem tem alguma vaga noção do que seja me presume Wicca (que é apenas uma das vertentes do paganismo), se falo em Bruxaria Tradicional, me imaginam fazendo poções, feitiços e conjurando espíritos nas horas vagas e, uma vez, tentando explicar para uma moça que eu não era cristã, ela me respondeu: “Ah, tudo bem, também não sou católica”.

Não, darling, não foi isso que eu disse.

Para ajudar as pessoas de fora a entenderem essa espiritualidade que cresce muito rapidamente (tanto em números de curiosos quanto de praticantes), dar algum tipo de norte para quem está buscando entender mais sobre essa fé – e também para alguma mãe que descobriu que a filha adolescente agora anda com um pentagrama pendurado no pescoço e lendo livros de bruxaria –, achei que poderia escrever um textinho bem básico e esclarecedor. Outro motivo válido é oferecer conhecimento para ajudar a erradicar a ignorância que leva às atitudes de intolerância religiosa.

Denominadores comuns

um altar coletivo

um altar coletivo

Paganismo, ou melhor, neopaganismo é um termo bastante amplo que inclui várias práticas distintas de espiritualidade sempre baseadas em crenças pré-monoteístas, variando desde a Wicca, que é a denominação mais conhecida hoje em dia, ao Asatru, Helenismo, Kemetismo, Druidismo, Xamanismo e a Bruxaria Tradicional entre outras – lembrando que o Candomblé, o Budismo e o Hinduísmo também são religiões que figuram tecnicamente como paganismo. Algumas linhas tentam reconstruir práticas religiosas pré-cristãs, outras se fundamentam em panteões de deuses e rituais antigos reinterpretados para nosso mundo moderno globalizado e tecnológico.

Como cada um tem práticas, crenças e linhas muito distintas, vou tentar resumir e apresentar alguns conceitos que são comuns à maioria:

  1. São religiões ou espiritualidades NÃO- cristãs. A exemplo do judaísmo e do islamismo, a figura de J.C. não conta e não entra em nossas preces e rituais. Porém, no Brasil, onde tudo é muito misturado, tudo é possível. Quem nunca entrou numa lojinha esotérica e encontrou lá aquela famosa imagem do sagrado coração de Jesus? Como eu disse, aqui é tudo misturado, é quase inconcebível para muita gente que a pessoa seja espiritualizada e dê zero importância à figura pendente na cruz, então não duvido que tenha gente que concilie esses caminhos.
  2.  Não há nenhum dogma, nenhum livro ou ensinamento máximo estabelecendo no que as pessoas devem acreditar ou como devem levar suas vidas. As diferentes tradições têm práticas e linhas mais estabelecidas, mas há muitos pagãos ecléticos que misturam o que faz sentido para eles, e mesmo quem tem linhagens específicas ainda assim tem sempre abertura para (e deve!) desafiar o que quiser e seguir a descoberta do seu caminho dentro de uma determinada tradição. No fundo, então, você é sempre seu próprio pastor e guia. Isso exige uma responsabilidade pessoal do caramba. Há linhas que enfatizam rituais mais formais e cerimoniosos, outras praticam xamanismo e curas naturais, há quem prefira se dedicar a artes manuais, ervas medicinais, feitiços, meditações ou até cozinha mágica. As formas de viver e manifestar nossa espiritualidade são múltiplas.
  3. A divindade (Deus/Deusa) é honrada como imanente na natureza, ou seja, a divindade mora dentro, e não, fora. Como essa força está dentro, não ficamos procurando transcender a matéria para atingir algo que está no além e distante de nós. O paraíso é aqui e ter um corpo é o maior presente.
  4. Deus é Deus e Deusa. A força criadora é vivida como uma polaridade. Nos rituais e cultos, a Deusa tende a ser mais celebrada em várias das tradições, afinal nosso planeta é feminino (Gaia), a Natureza é Mãe e quem dá a vida é a mulher.
  5. Além da força criadora primordial se dividir em polaridades masculina e feminina, muitos pagãos também são politeístas, cultuando diferentes panteões das religiões antigas,vendo nos diferentes deuses e deusas e suas características as representações das várias faces da divindade primordial. Muitos são ainda animistas, respeitando a alma e a consciência que habita todas as formas de vida e até corpos inanimados.
  6. Sendo uma espiritualidade voltada ao culto da terra, são celebrados os festivais das estações do ano e os ciclos de morte e renascimento.  A roda da vida é sagrada em todas as suas manifestações, assim como também são sagradas as direções dos pontos cardeais e os quatro elementos da natureza. Como a natureza é sagrada, um dos traços mais comuns em todas as variadas manifestações possíveis do paganismo está na consciência ecológica e todas as práticas green.
  7. A maioria dos pagãos acredita na reencarnação, mas conheço alguns que não partilham dessa ideia.
  8. Nos reunimos para celebrar nossa espiritualidade e praticar magia, que envolve práticas ancestrais como encantamentos,música, dança, exercícios de concentração, rituais de cura e muita visualização criativa.
  9. A responsabilidade pessoal é muitíssimo enfatizada. Cabe a você decidir o que é certo e errado, mas, lembre-se tudo que vai volta. Ponto. Ninguém escapa da lei do retorno. Para os wiccanos, então, tudo que você faz volta multiplicado por três. Entendeu o tamanho da responsabilidade de arcar com nossos atos e nossas escolhas?

As tradições

o templo mais perfeito é a natureza

o templo mais perfeito é a natureza

A mais comum hoje é a Wicca, uma forma de bruxaria que surgiu na década de 1950 e é muito praticada nos Estados Unidos e no Brasil. Das tradições wiccanas originais que são as linhas Gardneriana ou Alexandrina, surgiram várias outras como Feri, Diânica. Helênica, Céltica, etc.

Além dessas formais, há tradições familiares, de bruxas e bruxos que passam seus ensinamentos de pai para filho dentro de uma mesma família, como acontece na stregheria italiana, ou a alguém que eles “adotam”.

Há também muitos praticantes solitários, então a pessoa estuda as tradições, apreende aquilo que sente fazer sentido para ela mesma e cria suas próprias combinações e rituais.

“Coven” é o nome dado ao grupo de bruxos praticantes das tradições mais contemporâneas. Bruxos de linhagem familiar ou os praticantes de bruxaria tradicional se organizam em Clãs ou são descendentes de um clã. Os grupos são liderados por um sacerdote ou sacerdotisa (ou os dois), e é importante verificar se essas pessoas tem estofo, se passaram por vários anos de estudo e foram iniciadas em uma tradição em particular – não basta se dizer sacerdote, tem que ter café no bule.

Tradições formais e sérias exigem dedicação e um programa rígido de estudos antes de considerar o aprendiz para uma iniciação. Bruxaria não tem certificado, e “iniciações” oferecidas em cursos rápidos de uma tarde não fazem sentido algum. É um trabalho demorado, de muito autoconhecimento e muita dedicação para se estabelecer contatos nos mundos interiores. Por isso, esse caminho não é para todo mundo.

O que a bruxaria não é:

NÃO é satanismo. Essa figura nem existe nas religiões pré-cristãs. Não acreditamos em céu, inferno e diabo. Como é que iríamos cultuar uma figura na qual sequer acreditamos?

Também não é ficar fazendo feitiços, poções e magia. Há uma diferença entre feitiçaria como prática e bruxaria como espiritualidade. Qualquer pessoa de qualquer religião pode fazer feitiços. Um ateu pode fazer feitiços se quiser. Feitiçaria não necessariamente envolve celebrações específicas, práticas de devoções à natureza e, muito menos, exige que se leve em conta alguma ética e o respeito ao livre-arbítrio do outro. Para ser um feiticeiro poderoso não é requisito celebrar o equinócio da primavera nem assumir conscientemente a responsabilidade de sermos parte de uma grande rede cósmica onde nosso papel é sempre buscar uma evolução maior; mas, para um pagão sério, essas coisas vêm antes do preparo de uma maldição para estragar o aparelho de som do vizinho.

Para muitos, a bruxaria é antes de tudo uma prática religiosa, de fé, de sintonia consigo mesmo e com o mundo natural. É abrir-se para escutar o vento, sentir a água, ler o fogo e relaxar na terra. Magia é alterar a energia e a consciência por força da vontade. Magia é parte importante da bruxaria, mas há bruxos que quase nunca fazem feitiços, e muitos fazem para transformarem a si mesmos, num esforço de se lapidar internamente para, aí sim, manifestar no externo a prosperidade, a sabedoria e, principalmente, a paz e a harmonia que todos desejamos na vida.

labirinto

Mago ou místico?

Diferentemente de outras filosofias ou religiões, o trabalho de um mago ou bruxo tem muito pouco a ver com acreditar e muito a ver com fazer.  Para alguém se dizer cristão, existencialista ou até mesmo agnóstico, acreditar (ou deixar de) é o suficiente. Entretanto, para ser um mago é absolutamente imprescindível a pessoa trabalhar com a magia.*

Há um bom número de pagãos nas mais diversas linhas e tradições que se sentem plenamente felizes em celebrar sabás, sentirem-se unidos à Grande Mãe, fazerem preces frente a seus altares, usarem de alguns exercícios de meditação e estudarem diferentes disciplinas sem, no entanto, botarem muito a mão na massa no sentido de criarem seus próprios rituais ou fórmulas. Nada de errado com isso. É algo que vem de cada um. Todos começamos procurando um mestre, professor ou um líder (que pode estar presente na forma de livros, claro) em busca de conhecimento e orientação. Quem tem uma batida mais mística, focada na transcendência, tende a colocar seu mestre na posição de guru e acaba receoso de experimentar ou testar qualquer teoria ou prática diferente ou mais arriscada. Em geral eu chamaria este grupo de místicos ou esotéricos.

Na verdade, para se trabalhar com magia não é necessário se dedicar a nenhuma linha espiritual. Existe magia puramente prática, que vai desde o hoodoo,que surgiu na Louisiana nos Estados Unidos, até a singela simpatia nossa de cada dia.

Porém há aqueles que reúnem as qualidades do místico, ou seja, norteando-se por uma busca espiritual, somadas às técnicas e ferramentas da magia para avançarem em seu desenvolvimento. Estes últimos são os chamados magos, que inclusive depois de algum tempo acabam descobrindo que têm de abrir seu próprio caminho, que não há alguém que possam necessariamente seguir à risca ou algo em que apenas basta acreditar.

Essas pessoas até começam por um caminho com certa pavimentação, mas quanto mais desbravam, mais percebem que devem se arriscar por vias menos transitadas, redescobrindo uma trilha testada por poucos ou até mesmo abrindo um atalho que vá servir apenas para sua própria passagem. E é preciso coragem para ser mago. Lembro com perfeição quando, durante um workshop chamado “Riding the dragon”, que fiz no meu primeiro Pagan Spirit Gathering, alguém perguntou se o exercício que faríamos era seguro, e ouvi meu professor, Matthew Ellenwood, responder com toda a firmeza: “Não existe magia segura.”.

Magia se refere a um certo conjunto de ações cujo o primeiro requisito é definir o objetivo daquilo que se está fazendo. Pode-se fazer um ritual de magia para consagrar uma ferramenta, fazer um trabalho de cura, evocar ou invocar entidades, conversar com seu Eu superior, consultar um oráculo, fazer um feitiço e uma série de outras coisas. Mas invariavelmente sempre devemos ter um propósito, quanto mais específico, delineado e preciso, melhor. Concordo com os autores que afirmam que a escolha do propósito não é apenas o primeiro passo, mas é também o mais importante em qualquer trabalho mágico.*

Há o antigo adágio que diz: careful what you wish for, pois um desejo expresso está solto no cosmos e tende a se concretizar de maneira bem literal. Melhor para nós se ele for bem formulado e feito da forma mais consciente possível.  É comum termos surpresas desagradáveis ou intrigantes ao recebermos do universo respostas inesperadas e diretas a preces expressas de maneira leviana.

Um exemplo pessoal e modesto foi meu imenso desejo de ter ao meu redor paredes sólidas. Em todos meus anos de EUA, as divisórias de drywall sempre me faziam sentir numa casinha da lego que não me dava segurança. Resultado, o prédio onde moro hoje no Brasil tem paredes tão grossas que é impossível bater um prego; o simples ato de pendurar um quadro exige o uso de uma furadeira profissional.

E aos que me perguntam se acredito em magia, espíritos e jornadas xamânicas, respondo que não é uma questão de acreditar; eu não preciso ter fé que isso existe, trata-se de uma experiência tangível. É como tomar banho. Não preciso acreditar que se entrar embaixo do chuveiro vou sair mais limpa, eu sinto isso na pele.

* Indica parágrafo fortemente inspirado nas palavras e escritos do meu professor Matthew Ellenwood.

Pagão, gentio ou bruxo?

Pagão vem do latim paganus,termo que se referia ao morador do campo, cuja expressão e vivência espiritual eram voltadas para a natureza e seus ciclos de plantação, colheita e estio. Para o pagão ou gentio, a divindade tinha muitas faces, sendo assim, em geral era politeísta.

Eis a definição do dicionário Houaiss:

:: pagão          Datação: sXIII   adjetivo e substantivo masculino

1 que ou aquele que não foi batizado  2 adepto de qualquer religião que não adota o batismo ou adota o politeísmo

 ::gentio           Datação: sXIII adjetivo e substantivo masculino

1 que ou aquele que professa o paganismo; idólatra  2 que ou aquele que não é civilizado; selvagem   3 entre os hebreus, que ou aquele que é estrangeiro ou não professa a religião judaica.

Grosso modo, todas as religiões anteriores ao cristianismo, judaísmo e islamismo são consideradas pagãs — até mesmo algumas bem expressivas nos dias de hoje como o budismo, o hinduísmo e o candomblé. A cultura de grandes civilizações como a grega, a romana e a egípcia também era pagã ou gentílica.

Porém esses termos e sua má reputação só surgiram com a igreja cristã, cujos padres estavam determinados a catequizar e converter toda uma população que eles consideravam ignorante.

Hoje o termo paganismo ou neopaganismo abarca várias práticas contemporâneas de uma espiritualidade baseada e focada na natureza, honrando a divindade como imanente, inseparável e contida na natureza de um ser. Ou seja, deus, deusa e deuses estão contidos, moram e são expressos através de cada pedacinho da criação, inclusive cada um de nós.

A partir dessa visão – muito mais clara e palpável do que o conceito de “onipresença” – fica impossível para qualquer um que professe uma fé pagã dissociar sua religião de uma preocupação ecológica e de máximo respeito e reverência à natureza; pois a natureza Deusa é.

A hipótese Gaia, proposta pelo químico James Lovelock nos anos 70, sugere que os gregos não estavam criando nenhuma alegoria quando personificaram nosso planeta como uma Deusa. Lovelock propõe que a Terra é um organismo vivo, um ser mais antigo e muito mais complexo do que podemos imaginar.

Para os pagãos, isso é muito claro: os panteões antigos de deuses não são alegóricos nem mitológicos, eles são respeitados como verdade e cultuados com devoção. Embora a maioria seja politeísta, alguns acreditam que os inúmeros deuses e deusas representam apenas aspectos de uma energia maior que seria a fonte de tudo.

Como as tradições neopagãs não têm dogmas, a interpretação e a prática acabam sendo tão individuais quanto o DNA de cada praticante. Porém há algumas, digamos, linhas gerais que são compartilhadas pela maioria. Além da imanência divina e do politeísmo, é comum a percepção da divindade como Deus e Deusa, que se manifestam no ciclo das estações, da morte e do renascimento, e várias tradições têm na divindade feminina seu foco predominante. Também é comum uma ênfase severa na responsabilidade pessoal sobre nossas ações e nossas experiências de vida, com uma ética baseada na inexorável lei do retorno.

Paganismo como religião nativa

Boa parte do paganismo hoje no ocidente é amplamente baseado nas práticas europeias das tribos célticas e nórdicas. O próprio uso da palavra “tribo” já deveria dar a pista do que muitos não percebem: que o neopaganismo é sim um conjunto de práticas espirituais baseado em tradições das populações nativas ou gentílicas da Europa.

Esta retomada das crenças mais antigas da humanidade aparece de muitas formas. Há os que buscam reconstruir as antigas religiões pré-cristãs, como o reconstrucionismo helênico e o celta, enquanto outros reinterpretam e recombinam panteões de deidades, afinal como já vivemos uma mistura de genes, etnias e culturas, nada mais natural do que a globalização se manifestar também no nosso altar.

Dentre as tradições pagãs contemporâneas a Wicca é talvez a denominação mais conhecida, mas é importante frisar que há muitas outras. Alguns grupos pagãos são mais adeptos de rituais formais, ligados à magia cerimonial das sociedades secretas, outros preferem vivências mais xamânicas ou têm seu foco nas questões do feminino, muitos se dedicam à celebração das fases da lua e dos ciclos do ano, ao conhecimento psicológico, a trabalhos de cura com ervas e cristais, ao desenvolvimento de seus poderes psíquicos, formulação de feitiços, poções e até artes culinárias ou manuais. Aqueles que combinam várias práticas sem seguir uma linha específica se autodenominam de “ecléticos”.

E o bruxo, onde se encaixa?

Essa é uma palavra complicada e com muitos sentidos. Na versão bonitinha e inofensiva, é quando alguém diz: “Minha amiga é bruxinha, ela joga tarot.” Na versão medieval, quando a palavra foi deturpada, ligada à malignidade e privada de seu significado, tomou a conotação do dicionário que diz ser “quem se utiliza de supostas forças sobrenaturais para causar malefícios, prever o futuro e fazer sortilégio”.

Muitos praticantes de paganismo utilizam o termo bruxo ou bruxa com orgulho, remetendo a um tempo bem anterior à inquisição, quando em diferentes idiomas esse era o título que indicava o pajé, xamã, sábio, sacerdotisa ou sacerdote da Antiga Religião, alguém que sabia curar, aconselhar e interceder junto aos deuses em nome da tribo ou aldeia.

Terra Mysterium, trupe de atores, cantores e músicos de Chicago, IL.

Escolher usar a expressão bruxaria para denominar nossa espiritualidade é um ato de bravura, de romper com estereótipos nocivos gerados e mantidos por uma instituição religiosa que tratou de exterminar com qualquer manifestação de fé contrária ou diferente. Declarar-se bruxo é ter a coragem de reivindicar o direito de vivermos uma liberdade verdadeira de crença, livre de rótulos ultrapassados, de incompreensão e repressão.

Na minha ousadia, gosto muito dos termos bruxo e gentio. E você?

 

*nos Estados Unidos é crescente o número de pagãos que se identifica com o termo “heathen” em vez de “pagan”. A tradução mais próxima que encontrei no português para heathen é a palavra “gentio”.

Deuses do êxtase

Deuses que nos levem a arrebatamento, arroubos e enlevos parecem ser fundamentais na experiência religiosa do ser humano. Para citar alguns, temos historicamente: Shiva no oriente e Dionísio/Baco no ocidente.

Nos últimos dois mil anos no mundo ocidental, os ritos cristãos com suas práticas de profunda devoção que se vê nos seminários, mosteiros, conventos, procissões e Círios de Nazaré vêm cumprindo esse papel. As freiras têm tamanha entrega de alma e corpo ao seu deus, que costumam se intitular “noivas de Cristo”.

Porém elas não são as primeiras mulheres seguidoras de um deus a se considerarem unidas a ele quando vivenciam um arrebatamento emocional e espiritual de comunhão divina. Essa é uma prática mais antiga do que se pensa, mas por ter sido considerada perigosa, pela classe política, e pecaminosa, pelo clero das novas religiões (monoteístas), acabou suprimida e banida da sociedade. Ainda bem que nesta era mais plural, podemos contar com as tradições neopagãs e as práticas de bruxaria antiga, que sobreviveram a todo tipo de perseguição e tortura, para resgatarem essa devoção a um Deus verdadeiramente do êxtase, do profano e da alegria.

 Dionísio

De acordo com o mito Grego, Dionísio nasceu da paixão de Zeus por uma mortal, Semele. Quando Semele estava grávida, recebeu a visita de Hera, esposa de Zeus, que, enciumada, convenceu a amante mortal a implorar que Zeus se revelasse para ela em sua verdadeira forma. Apaixonado, Zeus não conseguiu recusar e, assim, mostrou-se; porém o fogo radiante de sua forma raio era tão forte, que Semele foi imediatamente reduzida a cinzas. Mesmo assim, Zeus conseguiu salvar o bebê e o protegeu – costurando-o dentro de sua própria coxa.

Ao renascer, Zeus entregou o filho Dionísio aos cuidados das ninfas para que o criassem e protegessem da fúria ciumenta de Hera. As ninfas esconderam a criança em uma caverna distante e o alimentaram com leite e mel. Mas Hera enviou os Titãs, que então o destroçaram em sete partes que eles comeram, salvo pelo coração.

Dionísio renasceu de seu coração, sendo, assim, três vezes nascido, mas Hera enviou-lhe a doença da loucura e ele correu o mundo até ser curado por sua avó, Réia, que também o iniciou nos mistérios do feminino.

Em suas jornadas entre o oriente e o ocidente, o Deus presenteou a humanidade com o amor pela vida, o êxtase do espírito e o dom de fazer o vinho. Assim, seu número de seguidores ia crescendo, a maioria de mulheres que ficaram conhecidas como mênades ou bacantes. Elas dançavam livremente ao som da flauta e do tambor, inspiradas por seu Deus, e acreditava-se que tinham visões do futuro, o poder de encantar serpentes e uma força fora do comum.

Dionísio acompanhava as bacantes, trocando de forma, podia aparecer entre elas como um belíssimo jovem, um bode, pantera, leão, cervo, ou no disfarce mais famoso de todos: como um touro – sendo assim conhecido como Dionísio dos chifres de touro. Ele também era a própria encarnação da uva e da videira.

Paralelos entre Dionísio e Jesus de Nazaré

Na mitologia judaico-cristã, bem mais recente na história humana, a biografia do deus-filho parece compartilhar de uma curiosa série de paralelos fascinantes com o Deus supremo das mulheres da antiguidade:

  • Ambos foram chamados “Rei dos Reis”.
  • Ambos são deuses do amor e do êxtase, cuja devoção profunda vem acompanhada por visões.
  • Ambos afirmavam serem filhos de deus pai e foram desacreditados por isso.
  • Ambos desafiaram a religião dominante e foram perseguidos por autoridades políticas
  • Os dois serviram de bode expiatório
  • Ambos eram seguidos por um entourage de mulheres e figuras marginalizadas.
  • Ambos eram filhos de um pai divino e de uma mãe mortal e virgem.
  • Jesus ressuscitou dentre os mortos, Dionísio ressurgiu do mundo inferior.
  • Ambas as mães ascenderam: uma ao Olimpo, outra, ao Paraíso.
  • Os dois são deuses do vinho; Dionísio estava sempre produzindo e bebendo vinho, e um dos milagres mais famosos de Jesus foi transformar a água em vinho.
  • Os dois são cultuados numa comunhão da carne e do vinho; Jesus chegou a dizer “Eu sou a videira”.

Enfim, os dois renasceram, os dois ensinam que a vida não termina com a morte, um ascende ou Olimpo, outro, ao Céu, os dois sentam à direita de seu Deus-Pai e os dois são celebrados em cerimônias onde num determinado momento do culto há uma verdadeira comunhão com a divindade através do consumo da substância que o representa.

Não vou nem sequer entrar no mérito de que no cristianismo a comunhão resgata uma tradição de mistérios muito, muito antigos, onde consumir (comer) o deus em si era a forma ritual de assimilar o poder e a divindade. Garanto que pouquíssimos fiéis sequer percebem a essência canibal do rito de consumir-se  (simbolicamente ou não) a carne e o sangue do deus em questão para unir-se a ele. Cada um com seus dogmas e sua preferência de fé.

O prazer e a alegria como manifestações do espírito

Não sou psicóloga nem psiquiatra, apenas uma entusiasta dos estudos da mente e do comportamento humanos, mas me parece claro que a celebração do profano e do êxtase como caminho de expressão espiritual aparentemente é uma necessidade da nossa alma e da nossa psique. Quando reprimida é que criamos em nós essa sombra destrutiva, que pode se manifestar como toda sorte de sociopatias, perversões e violência sexual.

Portanto, sou fã de uma religiosidade que convide ao êxtase saudável, ao êxtase do espírito e da alegria, sem medo e culpa com os prazeres da vida que podem muito bem ser uma forma de culto e adoração de tudo que é divino. Por que não?

Evoé!

A religião do coração

“Forced prayers are nae devotion.”

 ~Scots proverb

 

Muitas vezes a religião é uma devoção forçada. Nos dizem o que fazer, como fazer e quando fazer. Esse tipo de imposição na verdade aprisiona a alma. Não importa em que ponto esteja nossa espiritualidade, precisamos cultuar de acordo com nossas necessidades e nossa natureza. Nos negarmos isso é uma traição com nossa alma. No entanto, esse não é um caminho fácil e pode se tornar bastante confuso. Podemos encontrar muitas pistas nas nossas tradições religiosas, mas elas podem se revelar as exatas mesmas tradições que acabamos por achar desestimulantes e sem vida. Qual é então o caminho certo?

Alguns optam pela convicção: um caminho espiritual com dogmas claramente definidos e formatos fundamentalistas de culto, à exclusão de todos os outros caminhos possíveis, e insistindo que existe apenas “uma verdade”.

Você pode ter reparado que muitos dos fatores que constituem a nossa religião do coração aparecem nos mais variados grupos espirituais. As nossas pistas mais importantes e experiências espirituais mais potentes podem não estar nas escrituras, mas sim na própria natureza.

O fato de que não existe um caminho “correto” e que nossa busca espiritual pode não ter um ponto de chegada específico são coisas difíceis para muitas pessoas aceitarem. Porém, em última análise, podemos apenas seguir nossos corações, o que nos conduzirá ao lar da nossa alma.

 

Qual é a religião do seu coração?

De que fatores ela é constituída?

 

Extraído do livro “The Celtic SpiritDaily Meditations for the Turning Year”, de Caitlin Matthews.

Tradução de Petrucia Finkler.