Trago um Tambor… 

(tradução de “I Bring a Drum” de autoria de Gede Parma, ) “Atentem para este feitiço cantado por minhas entranhas, seus torturadores do solo e do fio da seda Conheça minha fúria zelador da torre que atira desgosto umedecido lá de cima sobre o povo que treme confuso. Sabemos que a Terra se revoltará e te derrotará, o raio do Trovejante te opõe, embora finjas empunhá-lo junto dele. Vem até a minha porta, vais me encontrar em meus aposentos, nu, segurando um tambor, com uma espada desembainhada sobre meus dedos dos pés e uma faca no meu cabelo Estarei pintado com o sangue dos meus ancestrais, sentirás o aroma de algo arrebatador, e o cheiro vai coalhar o ácido do teu estômago… Eu ouvi as palavras do lindo peregrino Escutei os sábios através do vento Girei a roda sagrada Espiei dentro de lugares que manténs inacessíveis, até mesmo ao teu próprio coração, pois os grilhões das atitudes malévolas acorrentam e prendem todas as mentes dadas à maquinação e planejamento dos feitos. Dei as costas e fingi não ver essa farsa e esse desfile da gula frente à consciência, frente à preciosa comunidade Senti-me roubado e cegado por isso… Mas tenho magia… não me esqueci; na verdade, me fortaleci com o mundo selvagem, na verdade, lembrei de uma serpente profunda dentro de mim cuja sedução é o dom do paraíso, cuja floração e fruto são a memória da inocência que habita em mim ainda agora… Tu me envolves em uma guerra que não pode ser vencida, então passo por ti, e sei que eventualmente vais me estraçalhar… Sei que muitos outros também cairão… mas passo por ti agora, não me importo e me importo totalmente. Vou fazer uma coisa… Estás maculado dentro de mim, mas sei o segredo para te desemaranhar. Sei que fui feito para a liberdade, que tudo busca a liberdade. Sei disso. E então meu querido… ainda agora, passo por ti. O olho não pode voltar-se para ver, e estou dentro do olho. Ainda agora, na escuridão grávida que transpira estrelas e bebe do orvalho, posso escutar o Infinito se estendendo para dentro de si mesmo. Buscamos juntos, afundamos juntos, caímos juntos, mesmo nos laços de amor que se desamarram. Pela mão da graça me é dado o fôlego para respirar… do coração da selva sou lançado sobre o mundo… Trago um Tambor… sempre o fiz. Será tudo anulado, pois estou disposto a ingeri-lo agora… Vou beber deste veneno… dentro de mim… dentro de mim… o Tambor e a Chama. Reúnam-se aqui. Deixe-nos descansar. Deixe-nos dançar. Sonharemos por ousarmos atentar para o feitiço cantado nas entranhas.” 11036345_804396536297008_3573389292129680169_n

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Visita às fiandeiras

No solo escuro e fértilthree fates

na base de Yggdrasil

ouço o ritmo cadenciado do corte de uma tesoura.

Apesar de tão definitivo, o som chega com um neutro distanciamento

Não sinto horror

Nem pena

Nem medo do momento em que o meu corte virá.

O fio da tesoura me parece um agente amoroso e compassivo. 

Medo, sinto da que mede

que analisa  julga 

e determina.

A moça que fia é um fofa, de bochechas rosadas e lábios carnudinhos. Não consigo nem dizer “carnudos”, porque daria a ela uma conotação sensual mais madura que ela não parece ter. 

Desta vez, ouvi a roca e não o fuso, e ela fia numa animação esperançosa

Acho que atende tudo que lhe pedem. O que as pessoas não sabem é que a voz que ela escuta é a do nosso lado meio anjo, meio irmão mais velho — que habita um pouquinho acima de nossas cabeças. 

Seu olhar desfia galáxias

Seu silêncio faz corar a eloquência de uma montanha

Os presentes que dão a conhecer são lembrados só quando elas permitem

Num caldeirão, imagens fervem e borbulham

mas é preciso mais do que coragem para espiar dentro.

Canção para uma existência distraída

Todas as coisas são uma só coisa e vêm de uma só coisa. Poeira estelar, poeira lunar, poeira solar e planetária. Deste pó viemos todos nós. Belos, unidos em uníssono, somos Deuses maxi potentes, mas não o sabemos, pois estamos e somos em pedaços.

Retalhos de nós, retalhos do que podemos ser; frangalhos e migalhas de mil espelhos, onde nos vemos refletidos, todos os dias, numa miríade de ferramentas virtuais ou não, mas que apenas conseguem refletir uma parte do que nem chega perto da força e da beleza de nosso âmago. Sabemos o que é essa força e essa beleza? Não. Não tocamos, não mergulhamos, não adentramos nosso coração e espírito. Uma pena. Uma dor que aumenta e nada cura, ao menos nada do que comumente buscamos. Estamos voltados na direção errada como espécie.

Nosso amor ainda vive em fagulhas internas, sedentas de toque, sedentas de atenção. Dê. Elas, assim que atiçadas, podem se tornar labaredas que consomem as dúvidas, as incertezas, a falta de caminho e a falta de ânimo. Para desfrutar da vida, que é o único motivo verdadeiro de estarmos aqui, há que se atiçar essa chama.

Busca teu espírito antes que ela se apague. Veja se está em brasa — se enxergares é porque ela ainda queima, mesmo que tênue.

Quem alimenta a chama e encontra o vazio em si fica pleno. Só assim poderemos ser. Longe das distrações, dos ruídos, das exigências externas e internas. Apenas.

Adentre seu âmago

Adentre seu âmago