Espelho, espelho meu

O uso do espelho negro

Comprei meu espelho mágico anos atrás numa lojinha metafísica no interior de Illinois. Confesso que comprei mais por achar que era uma ferramenta misteriosa e chique de constar no arsenal de uma boa bruxa do que por estar decidida a penetrar nos mistérios da vidência.

O uso de superfícies reflexivas em busca de visões é uma prática muito antiga de clarividência. A mais conhecida delas é a bola de cristal, que em geral é retratada como sendo de cristal transparente, quando na verdade uma pedra escura seria muito mais indutora e convidativa para quem está começando.

Na literatura – lembro muito de Brumas de Avalon – é comum a imagem de mulheres que têm visões na água, quando estão na beira de um poço, de um lago ou olham para dentro de uma tina.

O transe que induz visões é muito fácil de acontecer quando se está no processo de uma tarefa meticulosa e repetitiva: costurar, desenhar, arear panelas, esfregar roupas e bater manteiga são alguns exemplos. Damos abertura a outro sentir quando temos a mente focada em algo muito específico. Não estou falando de devaneios, estou me referindo mesmo a uma espécie de transe que acontece, e as pessoas muitas vezes nem percebem. Várias vezes aconteceu de eu estar lavando louça e, do nada, me vir a lembrança de alguém. Se o telefone não tocasse em seguida e fosse a própria criatura, bastava eu mesma discar o número e, batata, ela ficava assombrada porque estava justamente querendo falar comigo ou precisava de uma ajuda, e eu ligara na hora certa.

Eu *tentando* aprender a fiar com a fabulosa Rowan.

Assim também lembro de Morgana Le Fay, nas Brumas, enxergando o futuro quando se punha a fiar. O ato de fiar com rocas é muito usado em contos de fada e, além de remeter às fiandeiras do destino, as três Norns, é mais uma atividade doméstica que induz facilmente ao transe e à clarividência.

Voltando ao espelho, faz uns quatro meses que decidi finalmente encará-lo e fazer algumas experiências. As recomendações são sempre simples: coloque o espelho em um ângulo onde não enxergue seu próprio reflexo, de preferência escureça a sala e deixe apenas uma vela acesa um pouco distante, relaxe o olhar como se mergulhasse numa tigela de água e espere as imagens começarem a se formar. Nada fácil. Arrumar o cenário é tranquilo, agora, começar a entender e enxergar as tais imagens exige uma preparação e uma abertura.

Tem gente (ainda mais no Brasil, onde a mediunidade é overrated) que vive naturalmente no sexto chakra e não tem a menor dificuldade em enxergar qualquer coisa. Porém, para quem tem mais talento com outras sensibilidades, descobri que quanto mais experiência você tiver com exercícios óticos preparatórios e lançar mão do uso de tattwas para abrir a visão, melhor.

Franz Bardon, em seu popular – e ótimo – Magia Prática, o caminho do adepto dá algumas sugestões de uso do espelho. Quem usa com propriedade os instrumentos de cada elemento vai perceber que várias finalidades são compartilhadas com o pentáculo, já que esses dois são bastante similares e, por vezes, intercambiáveis.

Algumas das possibilidades de emprego do espelho negro:

1. Em todos os trabalhos de imaginação que exigem exercícios óticos.

2. Em todos os carregamentos de energias, de fluidos, etc.

3. Como portal de passagem a todos os planos.

4. Como meio de ligação com pessoas vivas ou falecidas.

5. Como meio auxiliar de contato com energias, entidades, etc.

6. Como irradiador em impregnações de ambientes, tratamento de doentes, etc.

7. Como meio de influência em si mesmo ou em outras pessoas.

8. Como emissor e receptor mágico.

9. Como instrumento de proteção contra influências prejudiciais e indesejadas.

10. Como instrumento de projeção de todas as energias a imagens desejadas.

11. Como instrumento de visão à distância.

12. Como meio auxiliar de pesquisa do presente, do passado a do futuro.

Numa das primeiras vezes, arrisquei substituir o espelho por uma panela de barro cheia d’água. Foi ótimo. Pois a panela é escura, a água colabora com suas propriedades e posso contar com a minha intimidade com as panelas, por ser uma bruxa de cozinha.

As imagens podem aparecer soltas na superfície mesmo ou, por vezes, reparei que  acabam se formando em frente aos seus olhos em algum lugar intermediário entre a mente e a superfície reluzente. Podem ocorrer também na forma de alucinações completas, como uma jornada onde o vidente é levado para outro reino onde encontra seres e também suas respostas. O espelho também é muito usado para invocar entidades (de arcanjos a demônios, passando pelos chamados Espíritos Olímpicos) e às vezes, mesmo sem invocação nenhuma, podemos dar de cara com uma entidade olhando diretamente para nós através deste portal.

Você pode consagrar seu espelho, pode aumentar o poder dele através de feitiços ou da adição de um condensador fluídico. Para ajudar na abertura da visão vale usar incensos, óleos, chás e condensadores específicos também. Descobri que o próprio colírio de Euphrasia Officinalis da Almeida Prado também dá uma ajuda e tanto, já que erva eufrásia é a famosa eyebright, praticamente impossível de encontrar por aqui.

Há quem diga que deixar outras pessoas manusearem seu espelho pode influenciar suas visões. Talvez seja mesmo ok resguardá-lo, mas e como fazer no caso de quem usa uma panela da cozinha? As bruxas da idade média usavam muito os utensílios domésticos, faca, vassoura, caldeirão… pela facilidade de acesso e por não chamarem a atenção. E é mais difícil ter controle de uso desses utensílios corriqueiros. Acho que se a panela for em geral manuseada por mim, o fato de ela cozinhar delícias para as pessoas queridas também pode muito bem adicionar ao seu poder visionário, por que não?

E você? Tem alguma experiência com espelhos negros? Compartilhe!