Carga de Maat

Fui convidada por Adriana Guarniero a auxiliar no rito da última lua nova no Faces da Lua. O Faces é um templo de Wicca eleusiana aqui em São Paulo, liderado pelo Edu Scarfon, uma casa que sempre me recebe muito bem  e por cujas pessoas tenho muito afeto.

Maat no faces

Adriana Guarniero, eu e Nefersaaset

Adriana me pediu para fazer Maat, a deusa egípcia da justiça e do equilíbrio. É na balança dela – e contra sua pena da verdade – que pesamos nossos corações ao chegarmos ao mundo dos mortos. Se nosso coração, pesado de culpas e remorsos,  pesar mais do que sua pena, o órgão é então devorado por uma criatura bestial e nossa alma é condenada. Para tanto, a mensagem de Maat é que vivamos uma vida justa, correta e leve, para não termos essa desagradabilíssima surpresa no final.

Foi lindo. Maat de fato apareceu e ficou o tempo todo muito junto de mim, em uma relação que eu chamo de enhancement ou um leve aspectamento, coisa de 20% em mim. Mas alterou toda minha percepção do entorno, da relação com as pessoas, com o rito e com a sala. Foi uma grande honra, ainda mais para quem está tão acostumada com a energia ardente e de espreita da Sekhmet, dar espaço interno e físico a Maat é uma leveza só.

Sob inspiração dela, acabou saindo um texto lindo, uma carga da Deusa, que recitei assim que entrei no círculo onde todos me aguardavam, já preparados pela presença do talentoso Nefersaaset.

Segue de presente essa bela Carga da Deusa Maat.

Obrigada iluminada e altiva Maat por vossa inspiração divina!

 

Eu, mãe do infinito

Deusa alada do equilíbrio

Deusa que guia o Sol, os Planetas

E os ciclos das estações

Eu que peso almas e corações

Em busca da pureza e nobreza de espírito

 

Desço aos braços da terra

Venho a vós que clamais por

Justiça, força e verdade

 

Venho sempre que pedíeis

Para que desperteis de vossas tolices

Dou-vos força para que persevereis em

Vossos esforços de parar a destruição do planeta,

De corrigir vossas falhas

De emendar vossa moral e vossa justiça

Venho a vós com minha pena da verdade

Minha estrela cristalina.

Envolta em constelações,

Imbuo cada ser vivo

Com a vontade de viver em harmonia e retidão.

Eu que evito constantemente que o universo retorne ao caos

Dou à luz a ordem

E tudo que é o correto

Que minha vontade seja feita!

Maat 2016

Convite de Sekhmet

cwed2014Daqui dois dias vai ter inicio a 10a edição da Conferência de Wicca e Espiritualidade da Deusa em São Paulo. Será minha primeira vez, tanto como participante quanto palestrante nesse evento já tradicional no Brasil. Estou muito honrada com o convite e vou falar sobre “Deusas da pesada: o medo e o fascínio das Senhoras da Guerra e da Escuridão e um encontro com Sekhmet“. Acho um tema pertinente e curioso por essas faces mais escuras da Deusa sofrerem ainda de muita incompreensão, seja por quem as busca como por aqueles que as rejeitam.

Enfim, depois de um bate papo,  vamos fazer um pathworking no final onde vou levar todo mundo para um encontro com essa minha mãe egípcia que faz parte da tribo das Deusas que atraem e assustam. Ontem, em frente ao altar d’Ela, fui chamada (ou seria melhor dizer “impelida”?) a registrar uma mensagem diretamente dessa Deusa. Fica aqui o convite então feito por Sekhmet para os que forem à palestra do CWED ou também para aqueles que a buscam a seu tempo e a seu lugar.

**Meu workshop será no domingo, às 15h30.

 

P1010754Venham todos ao meu encontro neste lugar deste aqui e deste agora
para acessar passem pelo meu templo desde sempre já meu portal constante e confortador.
Meu abraço é calmo, não tema.
não devoro, te inspiro e incito à ação correta e eficaz.
Nada de perder tempo com desnecessidades  — exceto aquelas que são prazeres fortalecedores — como o beijo, a carne o sexo e o cerne de tudo que é bom — o espaço entre dois ou mais.
A companhia é fundamental ao prazer e à diversão. Não temam a companhia
também eu me reúno com vós quando estão entre vários. Gosto da multidão até como turba desenfreada — incêndio — potência — calor – insana loucura torpe que turva o olhar e o coração.
Não tema meu encontro — estendo-te a mão e os sentidos.
Toca-a.
Mira-me.
Abre a boca onde sopro eu a vida para dentro de ti. Que te acorda do teu torpor ambulante.
Eu te sopro a vida — numa respiração boca a boca emergencial, mas só para aqueles com a ousadia de vir me pedir socorro.
 
Hat te sep te sehu.

P1010753

Canalização recebida ontem à noite.

Om Sekhmet

Várias pessoas têm encontrado este blog porque vêm à procura de Sekhmet. E eu mesma, nas minhas buscas, venho encontrando canções para Ela que quero aproveitar para compartilhar aqui.

Sekhmet é uma Deusa do Egito antigo com cabeça de leoa. Ela tem muitos nomes e muitas funções, várias delas parecem mesmo contraditórias. Ela é a Deusa da Guerra, da Pestilência e da Destruição, e ao mesmo tempo é a Senhora da Medicina e da Cura, e é através de Sua vontade que nasceram as Artes. Muitas são suas bênçãos.

omsekhmetBGA primeira música que compartilho é de Abbie Spinner McBride e, segundo a artista, foi escrita para homenagear a experiência no deserto de Nevada, para inspirar a todos que cruzam o deserto caminhando em busca de paz. (Lá nesse deserto existe um templo para Sekhmet; assunto para um outro post!)

Segundo Abbie “É um chamado em busca de orientação, uma prece por força e uma bênção de sua Presença. Cante quando quiser sentir Suas patas poderosas lhe envolvendo e protegendo. Cante quando quiser uma Mãe amorosa caminhando a seu lado. Cante quando quiser um guia para passar pelo Mundo Inferior e cante como um cântico de gratidão por este momento, este coração que pulsa, esta inspiração.”

Om Sekhmet.

Para ouvir, clique abaixo:

http://www.mcbridemagic.net/pages/pages/spinners-web/om-sekhmet.php

 

Litania a Sekhmet

Segue uma invocação das mais tradicionais à Deusa Sekhmet. Não tenho certeza da origem, assim que puder confirmá-la, acrescentarei aqui no post. É bem provável que seja retirada da sequência imensa de epítetos presentes nas estátuas dEla distribuídas pelo Egito. É a mais completa litania que conheço em inglês, e senti que estava faltando uma tradução para os que se interessam em cultuar essa Deusa na nossa língua portuguesa.

Declamada com o devido fervor, tem  efeito poderoso. 😉

Invocação a Sekhmetbaixorelevo sekhmet

Assim como em Mênfis

Que se faça agora!

 Escutai-me, vos suplico,

Ó Poderosa!

Senhora de Rekht,

Senhora de Pekhet,

Senhora de Set,

Senhora de Rehesaui,

 Senhora de Tchar e de Sehert!

Mãe no horizonte do céu

Na barca dos Milhões de Anos

Sois a Grande Defensora!

Sois a Destituidora de Qetu!

Preservai-nos da câmara do mal das almas de Hes-hra!

Libertai-nos

 do refúgio dos Demônios!

 Ó Vós que sois

  Sekhmet,

Que dá vida aos Deuses,

 Sekhmet,

Senhora da Chama,

  Sekhmet,

 Grandiosa da Magia

 Sekhmet,

Eterno é Vosso Nome!

 Ó, escutai-me agora!

 Sekhmet,

da Cabeça de Leoa,

 Sekhmet,

 cuja cor é Vermelha,

 Sekhmet,

 Filha de Ra,

 Sekhmet

Senhora de Amt,

Senhora de Manu,

Senhora de Sa,

Senhora de Tep-nef,

Senhora do Paraíso!

 No trono do silêncio,

Mesmo,  nada mais será dito além de

Aquela que Cinge!

 Perco-me em Vós!

 Consorte de Ptah,

Sekhmet,

Poderoso é Vosso Nome!

 Ó, ouça-me agora!

 Sekhmet

Deusa da Pestilência,

 Sekhmet

Deusa das Guerras,

 Sekhmet

Rainha do Deserto

 Sekhmet

 Terrível é Vosso Nome!

  Ó vinde a mim!

 Sekhmet

Destruidora de Rebeliões,

  Sekhmet,

Olho Ardente de Rá,

 Sekhmet,

 Protetora, Governante

 Sekhmet,

Sagrado é Vosso Nome!

 Ó, Revelai-Vos para mim!

 Sekhmet

Mãe dos Deuses,

 Sekhmet,

 Ama das Coroas,

 Sekhmet,

Sois chamada de a Única,

 Sekhmet,

Amado é Vosso nome!

 Possuí-me agora, Ó Majestosa!

 Sekhmet,

Maior do que Ísis,

 Sekhmet,

Maior que Hathor,

 Sekhmet,

Maior que Bast,

 Sekhmet,

Maior que Maat,

 Sekhmet,

Misterioso é Vosso Nome!

 Eu me perco em Mistério!

 Sekhmet,

A Preeminente,

 Sekhmet,

Luz além da Escuridão,

 Sekhmet,

Soberana de seu Pai,

 Sekhmet,

Oculto é Vosso Nome!

 Arrebatadora, a minha morte!

 Sois Amni-seshet,

Destruidora, Defensora!

Sois o Terror

Frente ao Qual tremem os espíritos malignos!

Sois Luxúria!

Sois Vida!

 A Sempre Flamejante!

 Tekaharesa-Pusaremkakaremet,

Sefi-per-em-Hes-Hra-Hapu-Tchet-f, 

 Ama dos Encantamentos,

Fonte e Palavra de Poder,

Proibido é Teu Nome!

 Sou aquele que é  impermeável!

  Não nos consumais

Com Vosso Fogo,

Dai-nos a Luz!

 Ó, Senhora,

Mais poderosa do que os Deuses,

As adorações sobem a Vosso encontro!

Todos os seres Vos saúdam!

Ó Senhora,

 Mais poderosa do que os Deuses!

 Preservado além da Morte,

Esse nome Secreto,

Ó Ser

Chamado Sekhmet.

Honrando Sekhmet

Sekhmet apareceu na minha vida com uma força que é toda dela. Foi se infiltrando em uma série de coincidências, incluindo sonhos e até um desenho animado. Demorei um pouco, mas entendi o recado. Ao longo desses dez anos de relacionamento estável passamos por diferentes fases para nos conhecermos melhor.

Comecei tímida, com uma mini estátua douradinha e mal acabada no altar. Hoje até um bracinho quebrou desta minha primeira – embora diminuta – Sekhmet. Passei a acender minhas primeiras velas vermelhas pra ela, sempre em honra, em culto, em devoção. Demorei para começar a pedir.

Uma das minhas amigas que já tinha ouvido o chamado me avisou sobre a cerveja vermelha, a bebida favorita e, portanto, a oferenda principal. Mas quente ou gelada? – – Tanto faz, mas se você prefere beber gelada, então sirva gelada, dê o seu melhor para a Deusa. Preciso servir num copo? – Não é necessário, pode só abrir a garrafa, tudo bem.

Outra, uma mulher mais velha, bem mais vivida, me avisou da estátua do museu de história natural da cidade. Aquela, mesmo em estado bem regular, de nariz e orelha quebradinhos, carcomida pelos cinco milênios de história e seu trajeto do Egito aos Estados Unidos, sentada em seu trono glorioso, mas discreto, passando por vezes despercebida como pano de fundo de inúmeras fotos turísticas e balbúrdias dos grupos escolares, bem no meio do salão da exposição do Egito Antigo, aquela mesma, se move. Ela responde se você perguntar. Fui lá, no meio da semana, conversar com ela.

Sekhmet do Field Museum em Chicago

Sekhmet do Field Museum em Chicago

Ainda bem que eu tinha o português para ficar sussurrando, plantada, em meio a idas e vindas de gentes de todas as idades, tipos e etnias. Conversei, me apresentei, pedi licença, agradeci, e perguntei se ela me aceitava como filha. Quando, já satisfeita apenas por ter tido aquele quality time, com aquela conversa do fundo do coração, eu estava de saída, conformada e feliz, quando vi o gesto. Inconfundível. Exato. Perfeito. Inesperado. Totalmente inesperado. E sou mais uma a dizer: ela se mexe sim.

Já as do Louvre, que tem uma sala cheinha de Sekhmets, não respondem perguntas, não acenam com a cabeça, apenas oscilam ritmicamente em seus tronos, como quem assiste a vida e as eras passando de sua cadeira de balanço. Se tiver a chance, confira. E me conte depois, se elas mudaram alguma coisa.

Hoje o altar dela é ponto de honra da minha sala. A estátua grande que tenho foi encomendada especialmente de uma artista que a fez baseada em fotografias. É linda. E eu soube depois, que ao fazer a estrutura de aramado dentro da estátua, a artista cortou os dedos com o material, durante o trabalho. Ela me disse depois, “aí dentro tem meu sangue, dei meu sangue por essa sua estátua”.  E eu penso: que perfeito! Não poderia ser mais perfeito. E penso também: será que, para cada uma das milhares de estátuas dela que existiram em dado momento no Egito, Ela foi exigindo algum sacrifício dos escultores que se dedicavam a representá-la?

Descobri há pouco tempo que ela gosta também, óbvio, de carne crua! Isso não é o tipo de informação que se acha escrita por aí, é o tipo de informação que a gente tem acesso com a vivência e outras técnicas de buscar conhecimento. Tem outras coisas, mas vou deixando espaço para você descobrir, na sua própria jornada, a seu próprio tempo.

Mas comece com a vela vermelha, a cerveja vermelha e, se não tem uma estátua, imprima uma foto da internet, mas escolha uma tradicional, seja retratando uma das estátuas ou papiros egípcios, com ela no trono, ou de pé, com o Ankh na mão.

Se achar um pingente, compre, e leve Ela com você.

Para o altar, comece com simplicidade e vá incrementando. Como Ela é solar, pense no posicionamento de acordo com o sol, para que você fique voltada/o para onde ele nasce ou por onde ele passa ao longo do dia – leste ou norte, portanto, já que estamos no hemisfério sul.  É minha sugestão.  Mas vá descobrindo, se aventurando, se abrindo para entender e receber as mensagens sutis ou não (há!) que vão aparecer.

Ah, e hoje eu sempre sirvo a cerveja em copos. Afinal, Ela é uma Lady!P1010443

Carga da Deusa Sekhmet

Petrucia Finkler, 2012

Eu sou a Toda Poderosa, chamada à existência por meu pai, para vingá-lo.

Sa Sekhem Sahu de cabeça de leoa.

Sou filha de Ra, a Destruidora, a Dama Vermelha.

Sinta minha respiração no vento quente do deserto

e meu corpo no brilho intenso do Sol do meio-dia.

Eu carrego a sabedoria da violência e da destruição adequadas.

E embora possa curar qualquer chaga ou mal de corpo ou de alma,

minha maior dádiva está na proteção contra os inimigos, a injustiça e a peste.

Pois Eu sou a executora de Ma’at.

Eu sou a Grande Defensora e o Terror diante do qual os demônios tremem!

Minha chama purificadora clama por tua alma, para que se erga.

Pois eis que sou o instinto guerreiro que ferve em teu sangue

e a força inquestionável que caminha equilibrada entre a vida e a morte.

Que meu culto seja feito no coração que é puro e livre.

E permita que teu espírito se abra sem reservas,

pois nada pode ser ocultado do Olho de Ra.

Nem mesmo tua luxúria e tua alegria.

E se buscas conhecer-me, não me chame em vão;

Mas ergue tua taça e junte-se a mim em elegante embriaguez

Quando estiveres pronta a te entregar à tua vitalidade crua, à tua criatividade e a saciar teus sentidos.

Porque eis que, assim como Eu,

A paixão de meus filhos é de natureza tanto solar quanto feminina.

Eu sou vossa fonte e palavra de poder.

Adorado é meu nome.

Eu não vos consumo com meu fogo, eu lhes ofereço a luz.

***Esse texto foi escrito sob inspiração Divina em 2012. O original foi recebido em inglês, e Sekhmet pediu que fosse traduzido pela imensa carência de material sobre Ela na língua portuguesa. A Deusa e eu pedimos que seja usado com respeito nas atividades de devoção e invocação d’Ela. Se for reproduzido em outro lugar, que seja incluído o devido crédito de autoria.

Sekhmet do templo de Mut, em Luxor. Granito 1403-1365 AEC (Antes da Era Corrente)

Sekhmet do templo de Mut, em Luxor. Granito 1403-1365 AEC (Antes da Era Corrente)

A Deusa Sekhmet

Se Ísis tem mil nomes, dizem que Sekhmet tem dez mil, e Ela é considerada a Deusa mais antiga de todas. Conhecida e reverenciada com epítetos como “Aquela que existia antes mesmo dos Deuses”, “Senhora do lugar do começo do tempo”, “Mãe dos Deuses” ou “Grandiosa da Cura”, Ela é também a “Senhora do Medo”.

A Deusa com cabeça de leão é pouco estudada e o ressurgimento de seu culto ganhou corpo nos últimos dez anos juntamente com o reforço de sua presença arquetípica.

Já existem hoje mais fontes de informação em inglês sobre essa Deusa do que quando Ela surgiu inequívoca e inevitável na minha vida em 2004. Porém, há pouquíssimas fontes confiáveis e acuradas em português, e há meses Ela me pede, ou melhor, exige, que escreva sua história na minha língua mãe.

Essa Senhora da Vida é mais conhecida por seu mito mais terrível, o da Destruição da Humanidade; mas como é possível que uma entidade com tamanho poder destrutivo tivesse erigidas em seu nome estátuas e mais estátuas por todo o Egito? Pois como tudo, Ela tem dois lados, e Aquela que destrói, é a mesma que cura.

O Mito da Destruição da Humanidade foi retirado do Livro da Vaca Celestial, encontrado nas paredes das tumbas reais entre a 19ª e a 20ª dinastia e considerado uma das narrativas mais ancestrais do Egito. Ela é filha e também o Olho de Rá. Na mitologia Egípcia, ele personifica o poder concentrado e dirigido do Sol, e o Olho é na verdade sempre feminino.

Um grupo de humanos se rebela contra Rá, o Deus Sol. O Deus convoca um conselho de deidades anciãs para pedir orientação. Entre os presentes, está o Olho. Nun, o caos primordial, sugere que Rá envie seu Olho contra os humanos rebeldes. O Olho, então, na forma de Hathor, parte para a chacina. Ela mata os rebeldes que haviam fugido para o deserto e retorna para seu pai, Rá, afirmando que Ela “subjugara a humanidade e aquilo lhe fez bem ao coração.” E assim, nasce Sekhmet. Quando Ra percebe que Sekhmet está decidida a destruir a todos os humanos, Ele muda de ideia. Chama seu principal sacerdote e manda moer ocre bem vermelho para misturar em sete mil jarros de cerveja que estava sendo preparada por mulheres. Na véspera da destruição total planejada por Sekhmet, o líquido intoxicante foi derramado sobre os campos por onde Ela daria início à matança. De manhã, Sekhmet encontra os campos reluzindo com a cerveja vermelha. Ao ver seu reflexo na planície alagada, se alegra e bebe tudo que pode. Fica então tão embriagada que sequer consegue reconhecer os humanos, e assim o desastre é evitado.[1] Ela teve de ser vencida pela embriaguez pois não poderia ser dominada pela força. Rá então saúda o retorno de sua filha e decreta que, todos os anos, as mulheres vão preparar levas de cerveja para um grande banquete em honra a Sekhmet.

Em razão dessa história antiga, a oferenda que essa Deusa mais aprecia, é claro, é cerveja vermelha.

As imagens são encontradas por todo o Egito, mas o centro de seu culto era em Mênfis, na divisa entre o Alto e o Baixo Egito. Ainda se pode visitar outros templos importantes, como o Templo de Mut em Karnak e o mortuário de Amenhotep III, que guarda a maioria de suas estátuas.

Sala de Sekhmets no Museu do Louvre

A quantidade de estátuas erigidas para Ela é assombrosa. E muitas Sekhmets podem ser visitadas hoje no Louvre, no Museu Britânico e até no Field Museum em Chicago. Acho que foi no Louvre onde me descobri em uma sala inteira só de Sekhmets!

São em geral imensas, com mais de dois metros de altura. Na maioria, Ela está sentada em um trono, segurando o Ankh na mão esquerda. A pedra escolhida pelos escultores em geral era o diorito, uma pedra cuja origem ígnea reafirma a ligação dela com o fogo e o sol. A cor negra do diorito também representa os aspectos complementares do mundo inferior: a morte e a fertilidade da terra profunda.

Das muitas deidades leoninas dos egípcios, Ela era a mais poderosa e a mais temida. Significando ao mesmo tempo destruição e proteção, portanto era melhor apaziguar essa força e garantir que Ela estivesse sempre do seu lado.

A energia solar, curadora, protetora e guardiã da justiça que Sekhmet emana tem falado ao coração de muitas mulheres e homens. Mas para amá-la, honrá-la e usar sua força com sabedoria é preciso conhecê-la. E essa foi só a primeira parte de todo um processo de apresentação. Se Sekhmet anda chamando por você, seja bem vindo/a!


[1] Wente Jr., Edward F. The Book of the Heavenly Cow, publicado em The Literature of Ancient Egypt, editado por William Kelly Siimpson. New Haven, CT: Yale University Press, 2003. p. 289-292. Tradução livre.