Witchcraft

De vez em quando me sinto profundamente comovida com algum texto. Várias vezes esse texto é de autoria do Gede Parma (Fio Aengus Santika). Não foi diferente esta semana, li a seguinte postagem que abriu meu peito e sussurrou com minha alma, então pedi a ele pela permissão de traduzir e postar em português. Segue aqui, com muita honra, o texto do Fio sobre a palavra “Witchcraft”. **

Witchcraft – Gede Parma (Fio Aengus Santika)

“Bruxaria é um termo escorregadio precisamente por conta de quem e a que o termo se refere, aponta, invoca.

Se tentarmos estabelecer uma definição precisa de bruxaria, não faria sentido fazer isso sem olharmos para as pessoas chamadas de bruxas e que podem, em sociedades tão variadas quanto México, Nigéria, Irlanda, Islândia e Grécia, ser identificadas como tal por lenda, folclore e linguistas.

Uma bruxa é uma mulher que conjura, fascina, lê sinais do Destino nas estrelas e nos sonhos, é amiga das coisas selvagens e conhece os lugares ocultos.

Uma bruxa é um homem que canta as runas, chama os espíritos do mundo inferior, estuda a medicina e o veneno das plantas, ingere o povo cogumelo, voa no vento…

Um bruxo é uma criatura sabática e extática, levada pela natureza e comunhão iniciatória a um congresso erótico com os Mistérios.

E uma bruxa encontrou-se com o Diabo na encruzilhada.

E uma bruxa foi enforcada por maldições de justiça injustamente… e queimada na Escócia por desejar o mal e estragar as colheitas, e por curar os doentes e ensinar às jovens moças sobre o poder.

E um bruxo curou os doentes e abençoou o camponês.

E uma bruxa clamou nas ruas por uma revolução.

E bruxas foram caçadas.

E bruxos foram celebrados.

E bruxos foram ridicularizados.

E bruxas foram respeitadas.

Um bruxo está comprometido apenas com sua natureza e destino, responde apenas à sua estrela e ao conselho dos seus, é responsável por todas suas ações, e sabe, e comanda todos seus sentidos e, ao mesmo tempo, não controla nada…

Pode rasgar a garganta das cobras ou enviar os rios de volta a suas fontes. Podem consolar o ancião que morre e abençoar o recém-nascido, bem como pode ajudar o bebê a morrer no ventre e libertar a mãe de um destino pior.

O bruxo não se humilha. Às vezes vamos aos Deuses e dizemos – vão se foder – de todas as formas em que isso pode ser dito. A bruxa chama, e Eles vêm.

E se nada disso faz sentido, é porque nosso jeito de ser não é feito para um mundo de estupro e redução, ou para sociedades de intolerância e vergonha. A bruxa é Lilith nos desertos, é Prometeu roubando o fogo dos deuses, é Aradia liderando o pedido de liberdade, é Isobel Gowdie que saiu noite afora em forma de lebre e deixou uma vassoura ao lado do marido adormecido, é Alice Kyteler conversando com Robin Artisson na escuridão da encruzilhada, é Bessie Dunlop com seu familiar Thomas Reid, é Tituba, raptada de suas terras e tentando se proteger, é Doreen Valiente cuja poesia rompe os corações, é Rosaleen Norton com seu pincel e sua faca, é Victor Anderson, cujo tambor abre os céus…

A bruxa anda pela floresta, pelo campo fértil, pela urze queimada, por vias urbanas, e pelos limites do vilarejo… e não podem nos matar. Não, temos nossos truques… em cada árvores, cada lago, em cada pira e nó corredio, em todo lado onde humanos rastejam e subjugam… temos nossos truques.

E a Bruxa segue adiante. E assim, se você deseja definir a bruxaria, primeiro reflita e sinta essas criaturas a que chamamos de bruxas. Não nem toda magia é dela, mas uma bruxa pode empregar aquilo que quiser, como bruxa. E é aí que mora o segredo.”

**Fio é um bruxo e autor australiano que esteve no Brasil ensinando alguns workshops em Rio e São Paulo no ano de 2017. Para saber mais sobre seu trabalho, por favor visite http://www.gedeparma.com/

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